08/04/2015

Alguém viu as minhas estribeiras? Perdi-as!

Vou montar uma tenda no Continente.
Quando virem uma eremita, em palhas deitada, em palhas estendida - que nem essa ração me há-de faltar, se Deus quiser, em plena necessidade nocturna que me há-de surgir, com a graça do Senhor, ou sei lá por que desgraça que mais me irá acontecer hoje, que vida tão engraçada que eu tenho, que não fora tão graciosa e esta porra entrava mesmo no campo do desengraçado - sou eu. 
Tenho trabalho para fazer, com um prazo inatingível, mas que eu vou alcançar, porque quem espera, nem sempre desespera. A minha mãe dizia-me, não há tanto quanto isso, e eu só acredito porque foi ela que disse, e nela confio de olhos fechados, pois assim me recebeu quando eu cheguei a este mundo imundo que é capaz de me tentar mudar. Desculpem, já estou no samba, a direcção era outra. Dizia eu - disse-me sempre a minha mãe, 

Filha, quando subires uma montanha, nunca olhes para cima.

É bem verdade, o melhor é nem olhar para o quanto falta para acabar este trabalho, que deveria estar pronto no dia 15, só que eu tenho que comer, orar e amar. Como pouco - tenho-me vingado nas amêndoas, que a Páscoa é quando uma pessoa humana lhe apetecer -, orar é cá à minha maneira, e amo desalmadamente, porque não sei de mais maneira nenhuma, tudo muito cheio de sangue, suor e lágrimas, isto metafórica e literalmente falando. 

Tenho o trabalho todo atrasado. Morta por cem, morta por mil, morta de cansaço e de nervos, fui para o Continente. Quatro vezes, hoje, até à uma da tarde. Em bom rigor, cinco.

Fiz as compras online - uma.

Precisava de comprar legumes para a sopa e qualquer coisa para o almoço. Peguei num saco dos grandes e dois sacos de plástico e fui-me - duas.

Cheguei lá, carro estacionado e tudo, não tinha levado o porta-moedas. No entanto, tive o cuidado e a delicadeza de perder o saco grande, mas não dei por isso. Acho eu que foi nesta ocasião. Como no money, no funny, voltei a casa.

Voltei lá - três -, comprei collants e meias altas na Calzedonia (ninguém me paga para isto), fiz as compras a jacto, com os dois motores ligados e os reactores no máximo, ou seja, a entrar naquele ponto em que desconheço como é que não me rebento toda dos nervos e não me espirro de sangue em todas as direcções. Meti-me na caixa fácil, que é aquela que está sempre disponível e aberta (deve ser daí que lhe vem o nome, também poderia chamar-se caixa quenga, ou caixa vadia), a mesma que implica comigo e me dá ordens, mas a minha ideia era mesmo estoirar uma têmpora, pelo menos uma. Apercebo-me da falta do saco grande, abro os outros dois, ponho-os em cima da plataforma e reparo que tenho umas p. de umas cuecas usadas no fundo do saco. Eu disse umas cuecas usadas. Não sei se explique melhor isto, sem que daqui a nada ou, o mais tardar, amanhã, toda a blogosfera decente saiba que eu levei umas cuecas usadas para o supermercado hoje. Depois da p. da cena das cuecas amarelas, que, no fundo, me projectou para o fundo do poço por causa de um fundilho de calças, esta é, vá, concedamos, original. Gira. Demente. Adeus.

Pára tudo.

O que é que qualquer pessoa normal faria, dada a circunstância?

1 - Nada. Deixaria as p. das cuecas no fundo do saco e poria as compras em cima delas;
2 - Nada. Talvez, discretamente, as tirasse do fundo do saco, e as metesse na mala. 

O que é que faz uma pessoa assim, dada a circunstância?

Finalmente, rebenta-lhe a veia jugular. Esqueçam a têmpora. Isto ultrapassou largamente qualquer expectativa de que a manhã acabasse normalmente.
Uma pessoa assim, tira as p. das cuecas do saco, vira-se para a funcionária e exclama:

- É que já não bastava ter perdido o saco das compras, para agora me aparecerem umas cuecas sujas no fundo do saco de plástico?

No pânico da situação, sugere-me ela que as deite fora, ali para um caixotinho que me estende. Ai, que não, que as cuecas fazem falta e, cheia de vontade de me atirar para o chão a espernear e a gritar pela minha mãe, ensaquei, cheia de desgosto, meramente por existir e por a minha vida me pregar pregos.

Já quase em casa, apercebo-me que não havia comprado o almoço. Meia-volta, volto - quatro.

Hambúrgueres de soja. Até me souberam a pneu.

E ainda lá voltei - cinco -, para ir buscar os collants e as meias, esquecidos na Calzedonia, onde perguntei se não havia lá deixado o fdp do saco, e me responderam, eufemisticamente, que eu o que tinha lá deixado era a cabeça. 

Memofante é mas é o genital, ou o genital.

Acho que vou tentar trabalhar, mas não garanto.


19 comentários:

  1. C-A-R-A-M-B-A! Tu estás cada dia melhor! Ainda bem que sou tua amiga! Bora casar?

    As cuecas eram amarelas? Mas era hoje a sessão de autógrafos?
    Ando perdida na maionese.

    (Outra vez: delicioso.)

    (Comeste um travessão logo no primeiro parágrafo. Tenho a certeza que foi de propósito para dares com ele na cabeça da maluca da loja. Hahahahahaha - aqui a mázinha a entrar contigo.)

    (Outra vez: delicioso.)

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    1. Casemos, então. Honi soit.

      Olha, brancas, fio dental, de rendinhas. Só faltava serem pretas, com pompons e correntinhas, para a cena ser ainda mais épica.

      Li isso do travessão e, primeira leitura: "comeste um travesseiro". Comi um travessão, eu? Logo eu?
      Isto de andar a alimentar-me a amêndoas anda a dar cabo de mim, ra-pa-ra-pa-ra-pa-ra-pa-ra-pa-ra-pa-ra.

      Estou pior.

      (Duas vezes: obrigada)

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    2. Tens razão, comi travessão e fim de frase! :)
      Já está corrigido.
      Tks, babe.

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  2. Podia ser pior. Podias ter umas sujas no saco e teres-te esquecido de levar cuecas.
    Ok, não sei se costumas usar. Foi parvo este comentário.

    Beijos

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    1. Não foi nada parvo, alto aí, que dos meus comentadores ninguém diz mal :P
      Claro que uso, toda a blogosfera sabe que uso cuecas, desde aquele dia das cuecas amarelas!
      Com umas sujas no saco e um esquecimento de pôr umas, garantidamente que não punha as sujas :P

      Beijos

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    2. Se fizesses isso em plena zona das caixas era gajo para enviar currículo para o continente da tua zona :-P

      Beijos

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    3. O quê?
      Todo Nu, és tu que deves vestir umas cuecas :P

      Beijos

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    4. Continuas a ser a única que me pede isso, estás em clara minoria. :-P

      Beijos

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    5. Eu sou assim :P

      Beijos

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    6. Ahaha...estiveste muito bem! :-P

      Beijos

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    7. As usual :P

      Beijos

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  3. E achava eu q a maternidade me tinha deixado um bocado queimadita,. Ao pé de ti, sou uma menina :)

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    1. Experimenta repetir x 4, e depois conta-me como ficou a tua cabeça :)

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    2. E eu lá sou maluca pá!! :)

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    3. Estarás, por acaso, a chamar-me maluca? :)
      Brlá-brlá-brlá :D

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    4. Tenho dias, como toda a gente :)

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  4. Não sei o que hei-de comentar. Estou atónito :P

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    1. Eu dou-te uma pista: quando vires uma senhora de idade, extremamente bela e chique, em apuros sociais, podes gritar, com ênfase, "Linda Porca, és tu!?", que acertarás, certamente.
      :P

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