12/02/2015

Uns por baixo, outros por cima

Anda tudo para aí num grande afã, a ver quem se peida mais, melhor e mais alto. Quem dá os peidos mais mal cheirosos, os que movimentam mais ar, ou mais gás metano. Fazem-se descrições cómicas, trágicas, históricas, épicas e de longa metragem.
Eu não.
Eu arroto.
Sempre juntei ar na barriga, em sinal de ansiedade, que é ânsia. Qualquer ansiedade me servia e me serve para me encher de ar, como um balão. A mesma que me fazia correr até bater com os calcanhares no rabo, faz-me hoje sentar aqui à tecla, a martelar, cheia de ideias de nada. Aquela que me partiu a cabeça tantas vezes, em todas as esquinas da vida que eu tinha em excesso, é a que me faz hoje malhar o corpo em busca de uma perfeição que não pretendo. Foi também a ânsia que me baloiçou uma vez até chegar ao limite da volta de trezentos e sessenta graus, não tivessem as mãos da minha mãe segurado o baloiço no momento exacto da volta completa. Hoje pergunto-me quantas voltas de trezentos e sessenta graus não me terão aquelas mãos evitado, e quantas poderiam ainda evitar se a vida não nos estivesse a preparar uma inevitabilidade. 
Uma vez queixei-me a um médico de clínica geral da minha enorme barriga e ele disse que era ar, não sem antes me auscultar muito bem. Não sei se perceberam, mas eu queria que, através da prescrição dele, o SNS me pagasse uma lipoaspiração à barriga. É que eu pago impostos e achei justo. Mas ele (fingiu que) não percebeu que se tratava de um caso de barriga ou de morte, não me passou a prescrição, e eu continuei cheia de ar cá dentro.
Quando andava na faculdade, tinha que fazer exames orais, o que era uma grande angústia. Ser avaliada em quinze, trinta ou quarenta minutos, por um ano inteiro de estudo, custava-me os cornos, já mais que marrados. Mas lá ia, magra, branca, não convalescente de tanto vomitório. E cheia de ar. A matéria saía-me às golfadas de ar, a voz gutural, o arroto a arder no peito, como um amor trágico ou uma saudade louca.
Há pouco conheci um velho - notem que disse velho. Não disse velhinho, nem velhote. Velho - enorme e de voz possante, chamado Rui - e a um homem cheio de idades, enorme e de voz possante, chamado Rui, não se chama velhinho nem velhote - que, sentado à mesa do refeitório do lar aonde vive, gritava, a plenos pulmões, 

Ai, que bem que me sabia agora um arroto!

Pergunto-me se eu não serei um dia assim: um velho enorme, de voz possante, chamado Rui, sentada à mesa do refeitório do lar aonde vivo, aos berros, a plenos pulmões,

Ai, que bem que me sabia agora um arroto!

Cheia de ânsia, já sem ter onde a gastar.

6 comentários:

  1. A primeira vez que tive uma crise de dores de barriga, saí do centro de saúde, com uma carta para o hospital com um diagnóstico de gravidez ectópica. Afinal, era só ar. Desde aí, de cada vez que me enervo, aprendi as viver com as dores, e com um balão de 5 meses (de ar) na barriga. Depois arroto, e aquilo passa. Aqui fica o meu relato, para não te sentires isolada. Que esta confissão nem fica bem a uma rainha, mas vá, não queria que a porca (ainda que linda) se sentisse sozinha... ;)

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    1. Obrigada por semelhante delicadeza, majestade :)
      Mas ó, umas damas: sai tudo por cima!

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  2. Viverias bem num país árabe onde após cada refeição é obrigatório arrotar. E onde quem não arrotar é tido como alguém que falta ao respeito.
    Espera lá, essa coisa da ânsia, dá-te para arrotar? Vai ao médico, com ugência. Porque o que tens é sinais de gravidez :-) :-)

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    1. Vou já direitinha a Riade, que lá, de abaya e a ser apedrejada por dá cá aquela pedra, é que eu arroto bem.
      Mas é que não. Soubesses tu a barrigada disso que já tive, e estavas aí mais calado que as outras da sacristia :P

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    2. As da sacristia não são as ratas?

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