16/08/2026

Nas duras tamancas pretas da outra

Vi-me obrigada a percorrer quase seis quilómetros da minha estrada até uma localidade que responde pelo antagónico nome de Amadora, principiante, não profissional, amante não amada, antiga Porcalhota. O GPS já me mandou dar uma volta a um quarteirão inteiro porque lhe desobedeci e virei à esquerda duas ruas antes. Não estou contrariada, a única preocupação que carrego é a dúvida de se encontrarei lugar para estacionar. Carros em cima do passeio, carros bloqueando portões e eu alinho em espinha o meu, saio do ar condicionado, enfrento a canícula com a distância que me merece, verifico que não há estacionamento pago e que estou precisamente à porta da tabacaria-papelaria que para ali me chama. Não só: a funcionária acaba de abrir os estores após a pausa do almoço. 

Entro e ela detesta-me. Vou no meu as usual, macacão de ganga fininha, com manga de balão, sandálias de salto, malinha de marca bonita. Nos últimos séculos emagreci dez (ou foram doze?) quilos, porque a vida é muito puta, abençoada, que me cai (literalmente) melhor a roupa assim. A loja está mergulhada numa inquietante penumbra, a mulher de bochechas gordas e descaídas recebe-me de cara trancada, só percebo que é obesa mórbida ao cabo de alguns segundos, veste toda de preto, o ar cheira ao suor dela. Sou delicada, desejo boa tarde, digo ao que vou — levantar uma encomenda —, ainda não comecei a procurar o código no telemóvel, já ela dispara: “Transportadora?”. “Não sei, não diz em lado nenhum, deve ser DPD”. “Se não me der o nome da transportadora, não posso entregar-lhe a encomenda”. 

Nem ripostei diante de tamanho disparate, encontrei uma palavra que nem sabia que era o nome de uma transportadora (“Vinted Go”, sabiam?), o que ainda me valeu um “minha senhora…” em anafado suspiro de enfado, agarrei na embalagem, saí dali para o sol, para longe da mulher gorda, deprimente, arrogante e mal cheirosa. Quando entrei no carro, eu já era ela, triste, num luto carregado, todos os dias a mesma roupa, arrastando mágoas e banha a um tempo, metida num emprego de merda, numa rua perdida num lugarejo do planeta onde ninguém quer estar. 


27/06/2026

Forasteiro

Descia a rua em curva no carro que já é um elemento da família, meu querido boi, quando vejo, no sentido contrário, surgir um homem pequenino, mochila de entregas às costas, numa bicicleta hesitante, aos zigues e aos zagues em plena curva, justamente na subida, uma roda a falhar, o homem a transformar-se num S com a bicicleta, sempre agarrado a ela, depois a fazer-se uma espiral com ela, nunca a deixando fugir, até que caíram os dois como se um corpo só. Na bicicleta, não percebi o que é que aconteceu — pneus carecas, chuvinha molha-todos, óleo na estrada, cansaço do pequeno homem —, nele vi um cotovelo bater na estrada e, como sempre, não pensei. Travão de mão, motor desligado, porta aberta e lá fui, empurrada não sei por que forças, pois que não sou médica, nem enfermeira, nem bombeira, nem sequer sei prestar segundos socorros, já que dos primeiros tenho uma ideia vaga. "Ajuda, ajuda, ajuda", acerquei-me dele para o levantar do chão, um homem antecipou-se, eu "O braço, o cotovelo, eu vi...", mas o pequeno homem não falava uma única palavra de Português — certamente também não de Inglês —, só dizia "No, no, no", enquanto abanava a cabecita em negação e depois juntava as mãos em oração e a inclinava para a frente. Quis ver o braço dele, articulei-o, não estava partido, mas o casaco que o abrigava era um mar de buraquinhos no cotovelo, não sei se daquela, se de outras quedas. "Não lhe dói?", ele com as pequenas mãos juntas, agradecido, eu a perceber que sim, que doía, mas não o braço, somente a miséria da imigração ilegal, de mais aquela queda, da impossibilidade de ir a um hospital se necessitasse, de eu ter visto os buraquinhos do casaco dele. Montou a estafada bicicleta e continuou o caminho incerto, interrompido ali.

20/05/2026

Drama Fiction

António, ando há que tempos à tua procura e não estás em lado nenhum, parece que sumiste do radar como a mosca que nos atormenta o juízo nas tardes de Verão, às voltas, às voltas, nós na sombra, só à espera que ela pouse para lhe darmos uma jornalada, não é nada, isso era a minha avó, coitada, sofria das pernas e dizia estes bichos consomem-me, vê tu bem que desde muito miúda percebi que era uma consumição de espírito, não me parecia nada que as moscas fossem comer as pernas a abarrotar linfa da minha avó, coitada. A mim suspeita-me é que tu te transfiguraste numa delas, fazes voos rasantes pela casa, vejo-te passar sem te ver, de uma parede à outra, zim, zim, desde aquele dia em que me disseste, ao fim de rogos e súplicas gastos pelo tempo envolvi-me com outra mulher, como se fosses claras em castelo a envolverem-se numa massa para bolo, por mais anos que viva, nunca me vou esquecer, parece que ainda te estou a ver, a boca muito seca, os lábios a colarem-se um ao outro, mais dois segundos de pausa e desidratavas em pó pelo chão, mais valia ter esperado, mas tive tanta pena de mim que, em vez de te esticar o braço com o dedo apontado na direcção da porta, ordenando-te "Rua!", como fez a tua amiga na crónica em que descreveste que as mulheres têm fios desligados, em vez disso, caí-te nos braços num pranto sem fim, não me digas isso, não me digas isso, só a ver se negavas, apaziguavas, destorcias as mentiras com mais mentiras, no entanto não, chorei, contei eu, cinco horas seguidas, fora as outras intermitentes, ainda bem que os meus pais não viveram para assistir àquilo, morriam outra vez, de vergonha de ti e compaixão de mim, tu nem um copo de água, um lencinho, uma mão na minha, um abraço daqueles sem vontade, nada — outro dia vi uma rapariguinha na rua a chorar e dirigi-me a ela, precisas de ajuda, querida? —, só sobranceria, só amor-próprio e por essa massa pegajosa com que te envolveste, no dia seguinte estava doente, nas quatro semanas que se seguiram estive doente, era a garganta, os olhos em pneus, eram dores por todo o lado, doíam-me músculos novos, nunca imaginei tê-los, parece que ainda estou doente, principalmente quando estou com pessoas, tenho a sensação de que mudei de planeta, todas esquisitas a falarem, eu esquisita a não ouvir, a esquecer o que disseram, a não entender, e lá andas tu de vez em quando zim, zim, já abri as janelas todas e vou comprar um jornal, caso se dê o caso de não encontrares a saída a bem.


22/02/2026

Ela fala(va?) tanto # 34

Olá! Feliz Ano Novo. Ai, já cá estive depois disso? Nem fazia ideia. Ontem recebi uma notificação do comando desta coisa, a avisar que não usava a conta há mais de três meses, e que, por conseguinte ma iam apagar. Também não gostei. Vim logo a correr — e, aparentemente, levei um dia a chegar — pôr um poste, antes que me varressem onze ou doze anos de trabalho árdua e infinitamente intelectual. 

Que é feito de mim? O costume. Novidades: tenho a que fala tanto de baixa há cinco meses, portanto, tenho que partir do pressuposto de que ela, de facto, esteve doente. Isto, por comparação com a minha pessoa humana, que já viu o agulhão da anestesia tantas vezes e tão sem conta, que nem vos conto. Operaram-lhe as tripas, mas acho que não fez delas coração, porque a primeira atitude que tomou foi, exactamente, abandonar a mão que lhe deu de comer. Nada oncológico, tenham lá calma. Pela descrição dela, uma tripa meteu-se dentro da outra e depois, ao invés de resultar uma tripinha desta promiscuidade, fez um nó lá dentro que, afinal, era uma hérnia. Eu não sei nem a o que é que ela foi operada, sei apenas que andou ali pela zona do cocó. [Note to self: se, na próxima encarnação, calhares em médica, não escolhas gastroenterologia. Recuso-me a aceitar o pivete que vai na sala de cirurgia a cada doente que lá mete o rabo.] Lamento a sorte dela, só que nunca vi ninguém recuperar de uma cirurgia às miudezas durante cinco meses. Tem-me brindado com atestados médicos vários, todos assinados pela mesma médica, uma senhora de idade já reformada, que deve ter sido muito boa aluna a ditados na escola primária: vêm todos com a advertência de que não pode fazer esforços (como se ela andasse a subir a escadotes e a limpar janelas do lado de fora, sentada nos parapeitos.) Estou a ponderar, quando e se ela voltar, sentá-la no sofá da sala, e desatar a mudar camas, a estender roupa, a recolher, a passar a ferro, e ela sem fazer um único esforço, em obediência à Dra. Ditados. Lembro-me de, se antes de tudo isto, ela sofria dos pulsos, e fazia pouco e mal, então agora com as tripas viradas do avesso, piorou a minha situação. A ver se algum dia lhe doeu a língua.

Então, o que é que tem acontecido? Linda faz trabalho de Fala Tanto, com excepções (passar lençóis de cama e camisas de cônjuge, vai tudo para a engomadoria, senão qualquer dia zurrava, arre burra) e ainda o de Linda. Exerço tarefas que sempre odiei, como a de tirar a louça da máquina (só de me lembrar do cagaçal, arrepio a espinha toda) e outras que sempre amei (passar a ferro é tão relaxante, que só chamo a engomadoria porque também tenho os meus limites). Outro dia parti quatro pyrexes* de uma só vez, que foi um alívio. Dois eram mesmo Pyrex*, dos grandes, da carne e do peixe (passamos a comer só lasanha no lar...?) e os outro dois eram de porcelana. Caíram os quatro em cima do lava-louças, uma das crianças achou que eu falecera porque fiquei calada, mas não faleci, fiquei foi paralisada com o frete de ter que limpar aquela m. toda. Não me ocorreu fazer os puzzles para os reaver e rever, pois os cacos eram tantos, que era capaz de inventar uma nova forma de arte e já chegam as que existem.

Adquiri um aspirador novo, no qual Fala Tanto não poderá pôr as unhas de gel (sim), caso volte, pois é pessoa dotada da arte de dar cabo como mais ninguém, para além de falar. O meu aspirador, do qual não vou dizer a marca, porque NMPPI, mas é o Ferrari* dos aspiradores. Aquilo, uma pessoa anda com ele de trás para a frente, e o lixo desaparece todo sob a pá, sem ser preciso fio, ficha, tomada, sacos, nada! Só falta mastigar o lixo e cuspir um bolo brigadeiro. 

Tenho, pelo menos, dois armários que me obrigam a fazer uma ginástica incrível, incredível, inacreditável, para meter a louça toda lá dentro. Mas, no final, consigo e sinto-me bastante mais tonificada e inteligente. No entanto, se o problema é o excesso, um destes dias parto, não toda, mas metade da loiça, enquanto grito e esperneio o que me aborrece na vida, e resolvo o problema. 

Vou também ter que impor novas regras no lar, de entre as quais: 1. Não quero ouvir um pio (e não "piu" como para aí se diz) durante todo o expediente. Acho que é a única regra. Não sei como é que isso vai correr... Claro que mal, pois ela vai amuar, mas ao menos amua calada

Parece que este discurso é um bocado facho. Mas então, vamos lá a ver: ela opera as molezas da barriga e está, pelo menos, cinco meses de baixa. Não pode fazer esforços, quando a profissão que exerce obriga a alguns — e tudo depende do conceito de "esforço". Eu, por exemplo, considero um esforço quase tudo. Nesse caso, quem é que pode fazer esforços no lar? Hum? Linda, claro, a pessoa mais saudável, musculada e com as forças puxadas que existe naquele espaço.

Está na minha casa há vinte e oito anos. 


* NMPPI


04/01/2026

Estroboscópica

Às vezes calha ficarmos lado-a-lado nas aulas de alongamentos. Não sei o nome dela e imagino que não saberá o meu. A primeira vez que lhe dirigi a palavra foi para lhe perguntar se tinha tido um desastre de carro, tantas eram as mesuras do instrutor com ela, tantas eram as partes do corpo que não conseguia mexer. Disse-me que não, entre o espantado e o aterrorizado, mas que tinha tido uma ruptura de mõinnnn mõinnnn e um deslocamento da mõinnn, sei lá, não percebi nada, tal era a descrição de mazelas, e eu essas coisas não fixo. Quando começam com o rádio, os ilíacos, os cruzados, algo em mim voa para o País das Maravilhas e as orelhas são as primeiras a dar à sola para longe.

- Aquelas luzes estroboscópicas são muito perigosas — disse-me um destes dias, quando esperávamos a hora da aula. Achei por bem ficar calada, um bocadinho atónita e com a cabecita de lado, como fazem as galinhas diante de quase tudo. Esperei que o que dissesse a seguir me esclarecesse, e assim foi, ou quase:

- Aquelas luzes que estão na sala e que giram, sabes?

- Sei. — Saiu-me a peta, por saber que daí a minutos ia conhecer as tais luzes, que, ao que tudo (especialmente ela) indica, estão há anos na sala, mas eu nunca as vi.

- Os meus dois filhos são autistas, mas sobredotados, eu casei-me com um autista, qualquer um deles, se viesse aqui, tinha uma crise. Também me sinto mal quando olho para aquelas luzes, e há uma rapariga aqui do ginásio que chegou ao ponto de ter que sair da sala. Já me fartei de pedir para desligarem as luzes, mas não desligaram. 

Depois entrámos na sala e, enquanto durou a aula, não tirei os olhos das estroboscópicas, a ver o que é que acontecia. Nada, absolutamente nada. A minha companheira, ao contrário, mesmo sem pôr os olhos nas luzes, cumpriu toda a aula com a habitual expressão de mártir do Caravaggio. 


23/12/2025

[Pensamentos intrusivos]

Vou à farmácia todas as semanas. Tomo tantos comprimidos que as caixas se revezam a chegar ao fim.

Desta vez, apetece-me não só manter em dia as doses que tem que ser, mas também comprar um creme maravilhoso para as pálpebras. Sim, as pálpebras. Uma mulher compra cenas para as pestanas, para as sobrancelhas, para as orelhas e o dedo médio do pé. Gastar uma pipa de massa com as pálpebras é só mais uma desculpa para sermos a encarnação do senhor dom diabo. 

Entro e apercebo-me que, desta vez, e ao contrário do que é costume, também se encontra a dona do estabelecimento. Peço o creme a Jorge, o gigante, que, de cabeça baixa, me pergunta: “Para as pálpebras?”, “Sim, Jorge, não tente compreender.” Ele avisa-me que só à tarde, a dona da casa sofre um espasmo e entra em transe e em monólogo — provavelmente, com medo que eu desista da compra —, as mãos a tremer muito, a voz embargada, como eu ficaria ao fim de cinco cafés seguidos: “Mas também tem este aqui da Marti Derm, que é muito bom [conheço a marca, é tudo excelente menos o creme de noite, que cheira a esfregão e o raio do pote nunca mais acaba], e está com quinze por cento de desconto, sessenta menos quinze por cento [seis vezes três, dezoito. Tira dezoito a sessenta], mas não vamos cansar a cabeça, faço aqui na calculadora [burra, quarenta e dois], pois, bem me disse que fazia de cabeça, eu já não sou capaz, mas olhe, também temos aqui um kit, tem um frasco para de dia e outro para de noite, isto tem uma bolinha de metal na ponta e sente-se logo a frescura mal toca na pele [será chato dizer-lhe que, se puser a bolinha de metal num frasco com m. às colheres, sente à mesma a frescura?], e depois tenho aqui um outro, que só põe aqui [o dedo espetado na zona da olheira, um papo engelhado], mas só aqui, não põe aqui [na zona interior do olho], nem aqui [na zona superior do olho], só mesmo aqui [porquê, ó senhora? Fico invisual? Enruga-me mais? É um desperdício? Morre uma foca bebé? Morro eu, de catatonia por te ouvir?].

- Jorge, eu volto à tarde. Deixo o creme pago, para não me demorar outra vez.

Acho que amadureci. Os meus pensamentos nem sempre passam de intrusivos a verbalizações.


04/12/2025

Ao sétimo dia, Deus descansou

Fui à missa de sétimo dia da mãe da minha amiga maior — embora seja pequeníssima —, e mais antiga — ela com dez anos, eu quase, quase a fazê-los —, já um pouco menos triste e desolada do que na semana anterior. 

Começou logo mal: tínhamos — ela e respectiva família, uma outra amiga (amiga de amiga, óbvio que logo ficámos amigas), uma estabanada que anda no mesmo ginásio do que eu — as primeiras dez aulas de dança, fê-las de calças de bombazine castanhas, cabelo num quico espetado derivados do ondulado cerrado do cabelo, que venho a saber pertencer ao mesmo local de trabalho da minha quase-irmã, e eu — ficado no banco da frente, como próximos da falecida. Quando o padre apareceu, nós, que éramos seis mulheres (e um homem) naquela fileira, proferimos um "Oooh!" em uníssono, tal e qual fôramos o coro da igreja, simplesmente porque o padre era giro que dói. Ele começou a rezar, assim com um ar blasé, julgo que não prestámos grande atenção ao ritual, mas até aí tudo bem. 

Veio o momento da comunhão, ao qual não comparecemos, pois já estávamos todas em pecado e nenhuma de nós recentemente confessada (e ainda bem para o padre, coitado, horas e horas de prosa em monólogo). Desde o Senhor Covid, mudaram alguns costumes na missa: o padre já não mete a hóstia na boca dos fiéis, e sim nas mãos postas em concha. Percebo o alívio dos padres nessa mudança, que deviam lavar as mãos com criolina no fim da eucaristia, e assim já só precisam de lixívia. Também mudou aquela parte do beijinho, que era uma nojeira, em criança deixavam-me as bochechas a escorrer baba e eu, tão educadinha, em vez de me limpar ao ombro do casaco, permitia aquele abuso de menor. Agora é um abracinho, mas não há cá esfrega-esfrega, é mais o abraço de lado, à americana. Os comungantes puseram-se em filinha-pirilau, todos a receber a hóstia nas duas mãos, até que veio uma jovem magrinha que se ajoelhou e recebeu o sacramento na boca. Uns passos adiante, vem outro jovem, vagamente abastecido de chichas, atira com os dois joelhos para o chão, pondo a língua de fora. A língua dele só era comparável a um bife da vazia, uma coisa enorme e larguíssima. Quase posso jurar que o padre se sobressaltou com tamanho naco de carne, capaz de matar a fome a uma família numerosa. Nesse momento, perguntei à do lado: "O que é aquilo?", e estoirámos as duas numa risada tão boa que acho que estamos perdoadas de pecados vários até à sétima geração. O mesmo não pensará a senhora que ia e vinha de tirar e guardar as hóstias, pois prostrou-se diante de nós, a anca toda para um dos lados, a mastigar a hóstia como se fosse um cowboy a mascar tabaco. Não a tememos. No fundo, e apesar de não abençoadas com o santo pão, talvez fôssemos das almas mais puras que ali se encontravam. 

Talvez.


08/11/2025

A minha casa está cheia de saudades

Andam pelas paredes, arrastam-se no chão e no tecto, uivam quando abro uma janela, e quando a fecho, transbordam por qualquer frincha que haja, por baixo da porta da rua, rodopiando de tristeza no quarto dele, dando murros no lugar dele à mesa, estão os mesmos lençóis na cama, não me atrevo a tirá-los de lá, a argola do guardanapo abandonada e vazia, o cheiro dele nas almofadas, o abraço dele em lado nenhum, anda a gata aos gritos pela casa, “Gonçalo! Gonçalo!”, vê uma mala de viagem e fica de sentinela, depois a mala desaparece, como desapareceram as dele há um mês, e não arreda do local onde a mala esteve, até que desiste e vai miar-lhe o nome para a cama, adormece comprimida de desilusão e falta, eu engulo um rio de lágrimas, que as saudades não me deixam em paz.
(Outro dia, arranhou-me os braços, nunca tinha sido assim atacada por um animal, há de pensar que lho escondi, quem me dera ter sido isso, pelo menos as saudades já não abarrotavam a minha casa. Mas ele também não estaria tão feliz e tenho que lidar com isso, foi para o que o preparei, despreparando-me.)
Vemo-nos no Natal. Isso é daqui a quantos meses?

05/11/2025

... vieste tu, feiticeira, inundar-me de vida...

[Gosto tanto desta melodia, que roubei um bocadinho para ficar com este título.]


Sempre tive a sensação de morar aqui neste planeta só por acaso, que bem podia ter ido parar a outro de outra cor, mas o diabo que me carregou perdeu as forças e lá vim eu em espirais muito horizontais e verticais parar ao azul. Ora nem mais, e, por isso, com a certeza de que nada é por acaso, todas as datas a coincidirem com outras datas anteriores e importantes (conheço uma multidão de gente que faz anos no mesmo dia que eu, a começar por dois tios gémeos — um do outro, não de mim — a quem, aos trinta e três anos, brindei com a minha aparição. Foi em Lisboa, calma.)

Existem coisas e acontecimentos na minha vida que já sei de antemão que vão acontecer, não por ter dons de bruxa (tomara eu!), mas porque sei medir a febre às coisas. Se entrar numa sala cheia de gente, sou capaz de perceber que energias é que ali se propagam. Se acabar de conhecer uma pessoa, sei logo quem ela é hoje e quem vai ser no meu futuro, em o tendo. É a linguagem verbal, os olhos, os tiques, os movimentos do corpo. E depois, uma série de factores externos, como a possibilidade, ou não, de a reencontrar. 

Não acredito que acabei de escrever isto. 

Mas existem "coisas" que mais não são do que os sinais que a vida nos dá. Ou sabemos lê-los, ou não. 

Esta noite choveram gatos e cães, como dizem os ingleses. Raios e coriscos, Capitão Haddock. Canivetes ou picaretas, como diz o povo. Chuva e trovões, coisa para lavar de vez a atmosfera. Graças ao nosso bom Deus, todos estes fenómenos se dão de noite, porque, de dia, tínhamos muita histérica aos berros, Acudam, que eu não sei nadar!, ou Deixem-me morrer, salvem o meu miau. Fala-se de três e meia da manhã, eu dei por isso às quatro e quarenta e quatro, não houve força anímica para ir ver o espectáculo de Ano Novo antecipado, nem procurar as gatas, virei a franga e toca a continuar, que a noite já não era uma criança. Por estas e por outras, só acordei às dez da madrugada, e tinha no telemóvel a mensagem de uma das crianças a dar-me conta da chegada de uma encomenda e respectivo pin. Respondi-lhe: "O homem vai apanhar-me no banho". Sou tão rápida a lavar-me, não sei se me esqueço de partes, se sou mesmo muito pequenina com um metro e sessenta e oito, ou se já tenho uma prática tão grande, que aquilo é zupa, zupa, zupa e está feito. Resolvi, então, arriscar. Estou a meio do banho, triiiim, a campainha lá de baixo, que nos dá para aí cinco segundos para responder, caso contrário dá-nos como ausentes. Corri descalça e molhada pelo soalho de carvalho (:P) afora, escorreguei contra duas ou três paredes, mas ainda consegui chegar a tempo. Era a carteira, sou uma tipa cheia de sorte. Se fosse um entregador homem, estaria num pequeno sarilho, pois não tinha tempo para vestir um vestido. Equacionei uma tanga — não literalmente —, voltava a vestir o pijama e metia só a cabeça de fora, dizendo que estava com uma gripe assassina e gemendo o código. Assim, atendi-a de lençol à volta do corpo, dizendo: "Que sorte a sua, apanhou-me mesmo a meio do banho". A seca murmurou "Hum", ainda achei que poderia assustá-la com a história da gripe, ou subia a parada para ébola, mas desisti, dado o meu aspecto de bruxa. Só queria fechar a porta e assim fiz. 

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


07/10/2025

A pagadora de promessas

Findas que estavam umas mini-férias (na verdade, são todas mini, até as que duram meses, se é que isso existe) com a minha primogénita, escapadela que damos desde há quatro anos, fomos proceder ao check-out. Pedimos cartões para o comboio de acesso à praia e um lugar no estacionamento mais perto do cais, para que pudéssemos gozar mais meio dia de praia. Já tínhamos estacionado quando a criança me lembrou que eu deixara o almoço no apartamento. Por uma vez, não queríamos demorar no processo de ir a um dos restaurantes dali, pois tínhamos o tempo contado para fazer a viagem ainda de dia. Eu ai, que me esqueci no frigorífico, ela, ai, não faz mal, eu vou lá. Palmilhou dali até à recepção (muitos metros), da recepção ao apartamento (mais muitos metros), do apartamento à recepção (ainda mais muitos metros), da recepção até mim (tanto metro percorrido por causa da cabeça de ervilha da progenitora).

Íamos nós até um bocadinho lampeiras por aí afora no comboio, quando eu olho para o escancarado saco dela e vejo o cartão a resvalar, ou melhor, a derramar como água para a areia que envolve a zona dos carris. Ainda estava toldada por aquela sensação de estar em dívida para com minha petiza. Pus-me então em pé e gritei: “Motorista!”, que era para o homem puxar do freio. Repeti e ele nada. Hei-de experimentar “comandante”, ou “vossa altiveza” quando lá voltar. Achei prudente não me atirar do comboio abaixo, não fosse aquilo agarrar-me pelos pés e cortar-me as unhas para lá do sabugo, ou assim. E a máquina avançava, avançava. Lembrei-me então que, pelo meio do caminho, aí a uns setecentos metros da partida, ela teria que parar, para dar passagem à do sentido contrário. E parou. E eu pulei do comboio e descalcei as chanatas. Então, desatei a correr pelo cimento e pedras com bolinhas até ao sítio onde poderia estar o cartão. Não estava, mas vislumbrei um varredor de areia ao fundo, corri para ele, estanhado, mil dentes — ou mil falhas? — “Ah, é você?”, a querer conversa parva, só lhe disse: “Saudinha” e zás, de volta. O meu vestido de flores e folhos, um jardim em movimento, os meus cabelos ondulados cheios de vida, palavra que nunca me custou tão pouco correr mais mil e trezentos metros. Sentia-me etérea e potente, capaz de todos os meus impossíveis. Provavelmente, alguém viu apenas uma idosa desvairada, descalça num pavimento inacreditável, eventualmente a ter um surto em bom. Eu vi o mar, mergulhei por necessidade animal e garanto que, se nesse dia não me nasceram guelras, então também já não vão nascer nunca.


30/09/2025

Remada alta

Agora meti-me noutras actividades no ginásio, não porque me tenha fartado de dançar, mas por não ter outro remédio: uma das instrutoras engravidou, outro envelheceu. Ela ainda pulou e saltou até aos quatro meses, depois ganhou juízo. Ele começou a fazer coreografias só com os braços, para isso sento-me numa cadeira em casa, exercito-me assim e não pago nada. Claro que não desisti da dança, mas fiquei confinada a um dia por semana e eu queria mais um bocadinho, se não se importam. A piscina está fora de cogitação, porque, embora tenha o fato-de-banho mais bonito do planeta e uma touca estupendaça especial cabelos compridos, só a parafernália que uma pessoa carrega para essas aulas, já me cansa a beleza. 

Comecei então a fazer Aeróbica, onde, apesar de ser a pior aluna da sala, o instrutor acredita imenso em mim, acha que tenho potencial. Mas eu, ao fim de duas piruetas, já não sei para que lado é oeste, quanto mais onde está o espelho. E ele dá-me coragem e incentivo para continuar, mas acho que, interiormente, está a divertir-se à doida. 

Continuei com o meu Stretching e experimentei algo que dá pelo nome de Dumbbels, que mais não é do que uma tortura macaca que já pratiquei noutro ginásio sob a designação de Body Pump. Aquilo, a pessoa entra já nervosa porque sabe que vai sofrer. O instrutor (já fiz com quatro diferentes) diz que “vamos trabalhar todos os grupos musculares”. Ahahahahaha. Vamos triturar tudo o que não seja osso nem banha e, de caminho, somos voluntariamente sujeitos a todo o tipo de sofrência. Parece a tropa. Alteres, remada alta, agora nove repetições, agora outras nove, agora fica lá em cima, faz flexões em dois-dois, três-um, agacha e fica, insiste oito lá em baixo, agora mais oito, vamos aos lunges, põe um pé à frente e outro atrás e desce até tocar com o joelho no chão, insiste e pára lá em baixo, agora vamos só aos abdominais e está feito, em dois-dois, em cruzado com a perna esticada sem bater no chão. Camelo. Apetece-me assassinar o instrutor daquele dia, mas depois vem uma sensação tão, excuse my potuguese, porra, gosto desta porrada, que volto.


22/09/2025

My new me

Presa por um dos meus trabalhos, que anseio por que surjam e, quando acontece, entro em parafuso, acho que prego martelado e torto, ai porque não tenho tempo, ai, porque o prazo é sempre espartano, ai como é que atendo à casa, cada vez mais pequena, ou, deve ser isso, cada vez mais vazia, sempre me convenci que as casas aumentavam de tamanho quando saía uma pessoa, afinal encolhem, sai um e leva o quarto, a cadeira à mesa, os alimentos do frigorífico, as tralhas e ele mesmo, a gente a ver as paredes avançarem para nós por encolhimento do lar, não sei explicar isto muito bem, mas há um fenómeno arquitectónico quando um vai embora. Podemos falar alto, andar em pêlo pela casa, mas que vantagens tem isso, se não uso nem quero nenhuma das duas? A televisão só nossa, esta sou eu, a ver televisão. 

Faço uma pequena pausa para ir almoçar, primeiro tenho que dar dois ou três suspiros de alívio, de cansaço e de desânimo, é um trabalho duro, podiam até pagar-me o meu peso (não quero falar sobre isso, a comprimidagem ofereceu-me um corpo que eu não reconheço lá muito bem) em ouro, que seria sempre mal pago. Suga-me as energias, a alegria e a vontade de me mexer, nem que seja para assoar um espirro. Vou a levantar-me da cadeira que me assa e recose e frita e salteia e estufa o rabo, e leio no canto do computador a hora, três minutos para a uma, e o dia, dezoito. De repente, acende-se um fósforo na minha memória, "dia dezoito é dia de consulta", a minha agenda são consultas, e só me dou tempo de passar das calças de ganga e t-shirt cinzenta para um vestido de cetim (ainda bem que não agarrei nenhum de lantejoulas. Ah, já sei, não tenho nenhum) e sair a voar para o consultório. Estou sem tempo, estou sem carro, estou sem almoço, mas avanço, o consultório fica a trezentos metros da minha casa, o que é um aborrecimento de saltos altos. A médica atrasa-se sempre, eu sou a primeira da lista, devia ir a assobiar e a colher flores. Em vez disso, chego oito minutos depois das treze, sento-me a respirar fundo e a readquirir-me, alinhada, concentrada no que vou dizer. Ajeito as fitas das sandálias que, entretanto, entraram em roda livre, limpo o lipgloss que tinha posto, já me está a enervar os lábios e evito o contacto visual com a funcionária do balcão, que tem dois capachos, em vez de pestanas. A médica chega praticamente às duas. Gosto daquela médica. Ouve-me, e, conforme eu vou relatando as minhas coisinhas, ergue as sobrancelhas, junta-as, carregando o olhar, descai o pescoço com a boca em linha, ou então ri-se com gosto, a ponto de ficar descontrolada e eu ter que esperar que lhe passe. 


03/09/2025

Eu agora perco

Acho que nunca fui roubada na vida, que me lembre ou tenha dado por isso. Perco coisas, mais do que pessoas, e só faço esta comparação porque, torturada com a crítica de que guardo tudo, mudei para o lema seguinte: Se as pessoas acabam, por que é que as coisas não hão-de acabar? Assim, tornou-se mais fácil deitar fora tesouros antigos, inutilidades queridas, coisinhas que ainda poderiam vir a fazer muita falta, mas que depois, não sei porquê, nunca fizeram. Perco coisas dentro de casa, de tal modo, ainda assim, tenho gavetas e móveis atafulhados de tudo o que só eu gosto, porque escolhi, porque usei em acessos de alegria e festa, porque não servem a mais ninguém, toda a gente é magra, toda a gente é gorda no meu país das maravilhas. Mas também ofereço às filhas, ponho à venda — e vou ao Correio com aquela falta de ar das despedidas —, dou à que fala muito, meto nos contentores — lavado, passado a ferro, dobradinho num saco fechado como um presente —, ou encafuo no lixo, mesmo a rasgar o fundo do saco, que corresponde ao diabo que o carregue, quando estou na raiva, porque já não serve para nada, deu-me azar, só teve utilidade para chorar um dia, nem para trapos terá serventia. Assim, estou convencida de que as minhas coisas ganham perninhas em casa, algumas delas não gostam de mim, outras estão num tédio que querem lugares mais arejados e gente mais viva do que eu, e então partem, para não mais voltar, pois jamais as revejo. Na rua, tenho a certeza de que ganham asinhas, caso contrário teria encontrado aquele brinco que perdi na praia este ano e, horas volvidas, lá fui ver dele, só me faltou peneirar o areal todo, mas sei que só não o encontrei devido às asas ou então ficou debaixo do rabo de alguma pessoa estendida ao sol e depois o mar levou, que é onde ele será mais feliz. 

Vinha aqui contar que este ano já tomaram outros caminhos um par de óculos de sol — que eram o meu amor amado sob a forma de óculos, estive a isto de chorar, foram tão caros, tinham dez anos, as melhores lentes que algum dia usei, não me escorregavam pelo nariz abaixo, tive que correr o globo por uns iguais, nem a marca já tinha reservas, lá fui ao mercado dos aflitinhos e zás, um quarto do preço de há dez anos —, o tal brinco, um anel fininho de prata pelo qual sentia bastante simpatia porque representava o ciclo da vida — foi o que me disseram na loja e eu engoli, a pensar "Mas o que raio é o ciclo da vida? E por que raio tenho eu que o amarrar ao dedo?", quando na verdade eu gostava era do anel no meu dedo pequenino e até já comprei outro igual, também sumiu do meu radar outro anel igualmente do ciclo da vida [she´s a maniac], mas mais pequeno, um ciclinho, uma vidinha, que a que fala que se desunha encontrou numas luvas de nitrilo que eu tinha usado para fazer o bolo de aniversário do meu bebé, que olhem, não tardam muitos dias, vai para longe de mim, não sei o que será feito de mim, se calhar perdida, não sei como vai ser ele longe e eu cá, a perder coisas, paciência, desde que não perca pessoas, está tudo na boa das saudades infernais.


30/07/2025

Uma palavra tão grande

Aqui estou, desta vez de acompanhante ao exame, que leva sedação e obriga à presença de adulto, não vá o examinando sair tonto e incapaz de pagar e chegar a casa. Já em tempos o fiz, dormi justamente até um sapo me acordar, anunciando-me que teria de me tirar uma parte do intestino. Depois não foi preciso, mas entrou no campo do desagradável.

São horas de espera, já esgotei os jogos do telemóvel, os sudokus desta vida, já me fartei de ir buscar água ao dispensador, já alarguei as calças na cintura, que estava quase serrada ao meio, já só me falta dormir, que é o que mais me apetece agora e tantas vezes.

Surge uma mulher de quase oitenta, rica de carnes e com aquela boa disposição que eu tão bem conheço — quando um exame corre bem, quando dias de angústia dão a vez ao alívio —, mas que me soa falso, “Vou pôr toda a gente alegre!”, e depois, para aquela que vim a perceber ser a irmã, “Não foi preciso biópsia”. Ninguém ficou alegre, eu solidária, devo ser egoísta, mas por que raios devo exultar com o facto de a mulher não ter precisado de biópsia? Seguem-se vinte minutos de tagarelanço alto e bom som, que domina a sala e a mim me traz o pensamento invasivo de lhe gritar: “Cale-se, porra! Mais valia que lhe tivessem feito a biópsia, era capaz de estar menos eufórica”. Mas sou uma pessoa crescida, fico a remoer o beca-beca, a pensar, “Não há mal que sempre dure”. Fala de pólipos, de manchas, de massas, de caroços, até que diz:

- É que a palavra ‘cancro’ é uma palavra tão grande.

É verdade, sim senhora. Enche a boca de fel, o peito de ar sujo, as mãos de suor, os nervos de farrapos e as noites de pavor. Mas também há momentos dessa alegria, que nos tiram daquele vulcão fundo lá na Indonésia, onde caímos sem saber como nem porquê.



21/07/2025

A mulher que podia ser minha mãe # 9

Ligo-lhe porque, da última vez que os vi, notei ambos muito preocupados, ela sob a forma de chiliques e suspiros, ele sob a forma de magreza — ainda mais do que antes — pronunciada, sem uma queixa, sem um desabafo. A idade avançou-nos a todos, passaram quase três décadas desde que os conheci. Atende-me aos ais, a voz dele suave e firme ali ao lado, a responder por ela às perguntas que eu fiz, que sim, que há um “oma” no corpo dele, vai fazer o PED, eu tento acertar-lhe o passo da descrição, PET, o temido exame que diz por onde é que o oma anda, se está circunscrito ou se já minou por todos os cantos. Ela entaramela a voz, está claramente anestesiada por auto-recriação que sei que faz, ele lúcido como um rapaz, apesar dos oitenta e sei lá. Sinto-a choramingar e lutar contra a perda de compostura, num óbvio acto de coragem “por ele, para não o assustar mais”, enquanto tresouço a voz dele a conformá-la do medo, das certezas — pois é médico — que terá por via de um mal que o assola a ele. Não há como construir uma estaca de sustentação feita de massa mole, quando a árvore começa a entortar com o tempo e o vento. Será ela que terá que se aguentar de pé e ainda fornecer forças para que a estaca não quebre.


16/07/2025

Ela fala tanto # 33

Por exemplo, digo-lhe para fazer almôndegas para o almoço e ela responde-me com a descrição ao pormenor da casa de uma das irmãs na Costa, que afinal é uma tenda no Piedense, cujas segunda e terceira letras troco sempre sem querer quando rarissimamente lá passo e que só ficará na História da criminologia portuguesa por ser onde estavam instalados os pais e a própria Ana Cristina, único e dos mais tristes homicídios de que há registo, cometido pelo gang do multibanco.

É muito cansativa.

Mas mora ali um coração grande e bom, o que deve limpar toda a porcaria que me mete pelos ouvidos adentro. O pai dos filhos, com quem mora desde os dezasseis anos, tem uma pequena reserva onde instala animais que vai apanhando feridos ou abandonados. Tem lá, neste momento, dois casais de patos-bravos e uma galinha. Tirou a guia aos patos para que eles não voassem, e os dois casais lá se reproduziram, não sei se o mesmo pato com as duas patas ou se duas para dois, esqueço-me sempre de perguntar esses pormenores. Também porque receio que ela me conte a história da fractura da mãe, que nunca sei se foi de um braço ou de um pé porque entro em off quando ela começa a desbobinar. 

A verdade é que as duas patas ficaram chocas, dez ovos cada uma. Os primeiros dez nasceram algumas semanas antes dos seguintes, eu vi o filme e comovi-me porque também sou parva e o milagre da vida agrava-me essa característica. Entretanto, morreram três, pois a tal vida também consegue ser estúpida e ai a selecção natural e ai a lei do mais forte e porras. 

A segunda pata cansou-se de chocar ovos, é capaz de ser muito jovem e ou tola, deixou três ao abandono e foi à vida dela cuidar dos séptuplos. A galinha ficou choca, não tinha galo, não vai de modas: chocou os três ovos e nasceram-lhe três patinhos.

Diz que parir é dor, criar é amor, pelo que a galinha e os patinhos convenceram-se de que eram mãe e filhos. Só que a pata parideira e abandónica reconheceu aqueles três como sendo seus. Ao início, bicava a galinha como se a desgraçada fosse uma raptora ou uma subtractora de menores. 

Não sei como é que se entenderam. Sei só que, actualmente, andam as duas patas e a galinha a rodear os patinhos em todo o espaço, e ai do gato ou de outro animal qualquer que tente atacar os pequenos. Terá primeiro que lutar com as três mães até à morte.

Eles comem cascas de frutas e legumes. Dou comigo a descascar kiwis, deixando a casca cada vez mais grossa. A taça da alface fica a pouco mais de meio, para poder juntar tudo e, no dia seguinte, os patos terem refeição. 

Eu também falo muito.



12/07/2025

Quase

Fui lá por ir cumprir uma obrigação familiar, mas, e principalmente, por querer voltar a um lugar onde sentisse de perto a minha mãe. Na verdade, iria sempre, aqueles são lugares onde posso observar as pessoas com calma e tempo, onde a loucura é a regra do normal e onde a paz reina, apesar de, uma vez ou outra, soar uma voz alterada. Como a da mulher da cadeira de rodas, pele tostada em contraste com o cabelo todo branco, mas, sobretudo, com os dois lampiões azuis no meio da cara. 

Ando a ver do meu homem, não sei onde se meteu.

Sentei-me à mesa para acompanhar a refeição do aniversariante, e surge-me pela direita uma cadeira a rodar para trás, um homem bonito de olhos com riso e gozo lá dentro, logo para mim,

Boa tarde, minha senhora.

Olá. Como vai o senhor?

Eu estou bem, mas estou quase lá.

Não sei se não chegoantes.

Veja se consegue chegar, para me receber de braços abertos.

Os risos que seguiram este pequeno diálogo foram um coro em profundidade e duração, gargalhadas infantis pelo inexplicável inesperado, inesquecível ou não. Nunca recebi um piropo macabro, ele já os deve ter dado sob todas as formas, o criminoso, vestido exactamente com o uniforme de um cavalheiro sem fraque: calças bege, sapatos de vela, pólo azul, leve casaco de tecido. 

Depois da sopa, anuncia: 

Vou fumar.

Não quer sair dali e faz o desafio:

Queres vir, Linda?

Não posso.

Porquê, estás doente?

Já estive. Não posso fumar, não posso beber, isto é uma vida de convento.

O que é que tiveste?

Cancro.

Ai, foda-se.

Logo as duas mãos na boca, cruzadas uma sobre a outra, como se andar de cadeira de rodas fosse pedra leve, calvário de apanhar flores.

Fume lá um por mim.

Fica descansada. Eu já volto.

Não voltou. Ficou no pátio a fumar, não sei se um, dois ou mais cigarros. Não jantou, ali se deteve noutro lado e não me acenou de volta quando me fui embora. O mergulho que deu nalgum lugar tirou-lhe a fome e fê-lo voar com o fumo, enrolado nos seus galanteios, esquecido. 

Deve ter razão, é capaz de estar quase .

17/06/2025

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 63

Acerco-me, confiançuda, das caixas em que a gente, pessoas humanas, é que faz tudo: desde o registar ao pagar — no qual deveríamos ser agraciados com um respeitoso desconto —, ao ensacar, nada passa pelas mãos dos funcionários. Isto, claro, em se tratando de um vulgar terrestre, já nado com o dom da tecla e da leitura óptica. Em cada compra das minhas, o mínimo de vezes que chamo a ex-antipática do braço entrapado são umas três. Hoje, perdi-lhes a conta. Fui confrontar-me com uma máquina que absorveu o mau génio que dominou em tempos a ajudante-de-clientes-aflitos, e que implicou comigo logo à cabeça. Primeiro artigo, um par de rolos de papel de cozinha. "Artigo desconhecido" [Oh, Deus, queres ver que vim comprar ouro em pó?]. Ela veio, tocou em trinta e dez botões, passou aquela coisa que parece um secador de cabelo [hei-de experimentar] por vários cartões que trazia no bolso, e sentenciou: "Pode continuar." Continuei. Passa isto, passa aquilo, tudo a eito. Ah, não, espera. Passei um artigo que pesava vinte gramas e a máquina indiferente. Passei uma embalagem de fiambre, põe-se ela: "Peso de artigo não especificado". [Fiambre já pesado na fábrica, capaz de ter uma barata a dormir dentro da embalagem, chiu, não acordem a menina]. Lá veio a senhora dos botões e da leitura óptica e repetiu que continuasse. Estava aqui a pessoa a passar uma embalagem de cajus, atira-a com uma certa determinação para aquilo a que chamam balança, mas que mais não é do que uma passadeira estática (como, aliás, deveriam ser as de todos os ginásios), vê lá escrito Caju - não sei quantos euros, mas não vê os cajus em parte nenhuma. Rebusca no tapete dos registados, Ai, queres ver que sou o novo David Copperfield e, ao invés de um avião, faço desaparecer frutos secos?, nada do pacote, rebusca no chão, na vizinhança e, atónita, exangue, lá chama outra vez a amiga loira, que vem a rir, e ainda se ri mais quando lhe é explicado o facto. Depois encontra os cajus atrás da máquina, toca em mais quarenta e oito botões e usa aquele taser [não sei como não na minha testa] e some-se, não para trás da registadora, mas lá para o posto de vigia dela. Tento, então, passar um conjunto de três embalagens de toalhitas para a higiene do povo do lar, que a gente é suavemente limpinhos e, ao preço a que está o papel higiénico, mais vale isto, mas verifico que não tem um código de barras único e lembro-me que não sei multiplicar por três lá naqueles botões do ecrã. Por isso, rebento a fita que os une e pretendo passar um a um, que lá somar, isso sei. Passo o primeiro, pouso na passadeira e leio logo: Peso errado, ou coisa que me valha. A outra aparece-me e explico-lhe a minha enésima dificuldade, e é então que ela me esclarece que cada código daqueles é referente às três embalagens de toalhitas. Continuo sem entender, visto que acabei de passar seis litros de leite e tive de os virar de cabeça para baixo porque a asa com o código está no topo.

É claro que, muitos minutos depois, chegou o momento do pagamento. E paguei. E enchi um saco de supermercado, para além do meu, íntimo e pessoal, que já transbordara desde a cena do papel de cozinha. Tudo aquilo me exaspera. A alternativa, que é alguém registar as compras por mim, simplesmente não me assiste. Demasiada conversa parva para meus actuais parâmetros. A velhice tem destas coisas: poder escolher, poder dizer “não”, poder não dar contas porque. E peguei no segundo saco e o cheiro a peixe podre era assim algo de histriónico. Todo molhado por dentro. A água que teve, apodreceu ali. E eu a pensar numa solução. Tudo, menos chamar a minha já velha serva. Vou comprar outro saco. Não, tenho dezenas em casa. Vou deitar este fora. Não, este pesadelo custa uma parte do intestino grosso. Vou comprar sacos de plástico. Não, que eu sou pelo bem. Vou deitar-me para o chão e gritar que quero a minha mãe e que estou farta de viver estes pesadelos acordada, e depois, quando efectivamente acordo, são verdade. Vou fugir. Deixo aqui as m. todas e defeco no assunto. Não posso. Já entrei na recta da meta. E essa é uma rota de colisão. Então, a mais luminosa que me ocorreu foi pegar em parte de um dos rolos de papel de cozinha e limpar aquele nojo, enquanto paguejava, P. da minha vida, só me acontecem m., depois de todas as m. por que já passei aqui, agora tenho o c. do saco a cheirar a escargots podres. É isto, a velhice. É tudo descarrilar e ainda termos forças para trovejar, encher o saco com mais dez quilos de trampas e levar tudo para o lar. 

Um dia acertamos contas, Hades. Há-des ver.  


27/05/2025

O que interessa é participar?

Blhag, não. O que interessa é ganhar; ou então, ficar numa posição que não envergonhe as gerações vindouras. Ai, "Os últimos são os primeiros". São nada. Os últimos a entrar num elevador estreito como os do meu prédio, são os primeiros a sair, senão ninguém sai. 

Só balelas.

Aqui há bastantes semanas, nem me quero lembrar, fui enfiar-me numa corrida à noite, para percorrer um milhão de centímetros. Não treinei grande coisa, por preguiça, falta de vontade e ânimo e por achar inútil. Cada um sabe de si. [Hoje estou inquinadinha de ditados populares.] Foi ainda no tempo das monções que este país sofreu, pelo que os três primeiros quilómetros foram feitos à chuva. Nada de especial, não fora estar um frio de ananases, mas a pessoa humana ia resguardada com uma camisolinha por baixo da camisola da competição, fora a manga que uso às vezes para que o braço não se transforme numa pata de elefante. Nem dei por ter parado de chover, pois já suava as estopinhas e outros paninhos ordinários. Mas ia determinada a não parar nem para beber água, de tal modo que até levava um cantil de dois litros às costas — e ainda hoje ponho a possibilidade de terem sido aqueles dois quilos a mais a prejudicar o meu resultado —, para não ter sequer que abrandar. É claro que, ao primeiro quilómetro, já pensava coisas ao melhor estilo vernáculo (é um estilo!), mais ou menos: "por que piiii me vim meter nesta m.?". Não me doía nada, nem os pés [agora encravam-se-me as unhas, a quimioterapia ainda circula alegremente. E também devo estar um nico radioactiva], nem os joelhos [que nunca doem, mas é uma queixa vulgar do povo], nem os pulmões, nem o burro. Mas doía-me, sobretudo, a alma, muito em particular quando me vi sozinha, de noite, numa cidade cujos contornos mal conheço, a tentar correr, e nem pelotão à frente, nem atrás, com a possibilidade (que teria sido superiormente inteligente) de me atirar para o chão e chamar os meus bombeiros, que me levassem para a barraca e me dessem miminhos, como já aconteceu. Ao invés, havia uma força estúpida que me ordenava: "Continua, bruta!". Devia estar no sexto quilómetro, a solidão iniciara-se há minutos, quando me aparece uma anja alada e me diz: "Vamos embora, juntas até ao fim!". Explicou-me que faz tracking e que, nessa modalidade, ninguém fica para trás. O último é sempre acompanhado pelo "vassoura". Então, começou a varrer-me na direcção da meta, os piores quatro quilómetros que já corri na vida. Dores, agora sim. Dores nas plantas dos pés, a queimar, dores nas ancas, dores nas mãos, a inchar como salsichas frescas, dores nas costas, dores na cauda equina, dores, dores, dores, e estrada, estrada, estrada. Não sei quantas vezes morri. Ia acompanhada da minha bruxa fada e dois polícias de mota, com muitas luzes azuis, ou eu já as multiplicava, tamanho e tão penoso era o calvário. Aproveitei e contei a história da minha vida à Vassoura, porque já estava a correr há mais de uma hora e estava aborrecida de estar calada. Pedi a um dos agentes que me deixasse acabar a corrida sentada na garupa do motociclo dele, e ele riu-se de nervos. Tudo me ocorreu, mas tudo corri e cheguei, atravessando a meta de braços vitoriosos (ainda não sei como consegui erguê-los naquele momento). Uma multidão esperava por mim para a ovação, um dos polícias tirou o capacete e disse-me que queria dar-me um abraço. Assim que o fez, segredou-me ao ouvido que nunca viu um exemplo de resiliência como o meu. Cada um dá-lhe o nome que lhe quer dar, eu acho que sou só teimosa como uma mula.


10/04/2025

Equação do coração

Cheguei ao balcão e esperei a minha vez. Percebi imediatamente que estaria demorada para chegar, pois havia apenas uma registadora para duas funcionárias, e um cliente que espalhara um rol de roupa a todo o comprimento e uma das senhoras registava peça a peça. Camisas de boa qualidade e trapos velhos. Uma toalha de banho esfarrapada em todo o rebordo, debotada ou só cansada da idade. Fiz um breve sinal com a cabeça à que iria atender-me, sussurrei, “Aquela toalha?”, ela olhou com o mesmo espanto para o pano, “Essa toalha é para quê?”. “Pra coser”, e depois um suspiro, quase um gemido infantil. Quem sou eu para julgar, se ainda guardo a minha toalha de praia do tempo que se perdeu pelos mares e muita dobrinha de carne me há-de ter secado?, quem sou eu, se ainda guardo a minha almofada do tempo da cama de grades? “Cada vez que estás doente, falas com mais sotaque. Porquê?”. Respondi por ela: “Saudades da mãe”, ela com os olhos molhados cravados nos meus, “Como é que ‘cê sabe?”, e logo um beicinho, “Faz três anos que não vejo minha mãe.”. “Fácil equação: começa a falar a língua materna cada vez que se sente fragilizada, criança de novo, a precisar de mãe”. 
“É isso mesmo, olha só…”, toda ela encolhida, de cabeça baixa, quando tive que virar costas e sair dali.