31/08/2022

Entrelaçados

Vi-os primeiro de costas, caminhando pela sala de espera dos tratamentos, as mãos dadas com os dedos entrelaçados, havia um amor na junção da pele dos dois,

parecem namorados

mas alguma coisa me disse que talvez mãe e filho, uma diferença pouca, 

se calhar teve-o com quinze anos

E depois, tão parecidos, os namorados nunca são parecidos, as mãos iguais que não se largaram, e então senti que estavas ali comigo, as nossas mãos iguais e dadas, entrelaçadas, nós, que somos mais de abraços, o teu abraço que vem sempre, o teu abraço que é sempre o primeiro, naquele dia “carcinoma”, veio logo, inteiro e meu, também já vi pérolas de vidro a saírem dos teus olhos desde aí, tu lembras-te de eu te agarrar o braço já adolescente e pedir a brincar, na rua, “Vamos fingir que somos namorados?”?, e tu “Oh, mãe…”, a soltares-te sem convicção nenhuma, olha, hoje lembrei-me de nós naquelas duas mãos dadas, sei perfeitamente que ali estavas também, como estás há exactamente vinte e dois anos abraçado a mim. Meu pequenino, meu amor tão grande.



30/08/2022

Eu tenho problemas com médicos # 31

Tenho quase a certezinha absoluta que, se conhecesse uma pessoa como eu, fugia dela a sete ou oito pés. Há dias, como hoje, em que pareço desvairada.

Hoje foi dia de tratamento plus consulta. Entrei no serviço um nico desmoralizada, com receio de que me acontecesse o mesmo que ontem: sorvi uma hora de espera naquele salão inóspito. Mais do que a doença, custam os tratamentos; mais do que os tratamentos, custam as esperas. Porém, nem teriam passado cinco minutos de me ter posto com cara de sala de hospital — a explorar sites de roupa bonita — quando ouço o meu nome no altifalante, a chamar para o tratamento. Rápido, como sempre (a não ser naqueles segundos em que não posso respirar e só me passam disparates pela cabeça, para além das placas da máquina), lá fui para o vestiário preparar-me para voltar ao salão e esperar duas horas pela consulta. Ainda só tinha puxado o fecho (nas costas) do vestido, ouço o meu nome a ser chamado para o gabinete oito, enfiei Natércia até aos sobrolhos e, ainda com o colar na mão, dei mais corda à alpercata corredor afora, na gula de não perder a vez. Dez metros volvidos, entro de rompante no gabinete do médico, “Ai, desculpe, senhor doutor, mas é que estava no vestiário e ouvi o meu nome”, tudo isto enquanto endireitava Natércia, sem espelho nem nada. (Devo ter posto o risco ao meio, que é para aí o pior penteado de sempre para mim, fico a parecer o John Lennon. Ou a Yoko Ono.) O médico consultou-me em cerca de três minutos — sem queixas —, quis ver a minha pele — sem queimaduras —, pelo que comecei a preparar-me para me ir embora. Puxei outra vez o fecho do vestido (saudades do meu cirurgião, que sempre mos desceu e subiu, com a desculpa de que essa é uma das tarefas para as quais um homem serve), quando reparei que tinha atirado o sutiã para cima da marquesa, para onde lançara também a mala de mão e a pasta com os cartões necessários. Já não podia, porque não queria, voltar a abrir o fecho do vestido. Azar meu: as minhas malas de mão são minimalistas, cabe lá dentro o telemóvel, as chaves de casa e carro e uma nota de quinhentos euros, mais nada. Sorte minha: tenho ordens para só usar sutiãs sem arames, portanto foi só amachucá-lo o melhor possível e sair de telemóvel na mão. Nem imagino o que teria feito se levasse um desses com arames e caixas. Se calhar, tinha que esquecê-lo e deitá-lo para o cesto dos papéis. Teria sido tão mais constrangedor. Assim, foi só engraçado, ver a cara do médico.



26/08/2022

Mal-haja

O homem que está atrás do balcão embirra comigo porque sabe que eu o detesto. Também pode ser ao contrário. Outro dia, precisava de uma informação, estava cansada de tanto esperar, e aproximei-me do vidro. Ele estava sentado a uma secretária, olhou para mim e ignorou o meu “Boa tarde, precisava de uma informação”. Chegou uma mulher com uma senha na mão e ele desata a atendê-la. Claro que protestei que estava primeiro, mas o inflexível disse que ia atender primeiro a senhora que tinha senha. “Ah, entendi. Eu estou invisível e não sei. Posso fazer os gestos que me apetecer? Porque deduzo que não me viu a fazer-lhe sinal que queria uma informação”. Afinal, eu só queria saber [onde raios] existia uma casa-de-banho, “já não digo limpa, porque isso me parece impossível, mas, ao menos, em que a porta feche”. 

Não gosto de mim agora. A fase da raiva nunca passou e, aparentemente, nunca passará. Tenho vontade de bater nas pessoas intransigentes. Nas pessoas, ponto.

Uma mulher foi até ao vidro do cumpridor, não levava senha, pediu muitas vezes “por favor”, “desculpe lá”, sempre nuns sorrisos, todo um exagero que pensei que fosse ajoelhar-se, e ele só lhe pediu o cartão dos tratamentos. Mais três “obrigada, desculpe lá” e ele, “Não tem de quê”. Ela, por três vezes — que eu contei —, “bem haja”. Também tive vontade de lhe bater, a subserviência é tão ridícula e tanto há quem a confunda com educação ou simpatia.

Depois ela sentou-se atrás de mim ao telefone e disse mais duas vezes “bem haja” — que eu contei —, à despedida, antes de desligar a chamada.

Eu não quero ficar assim.

23/08/2022

A sala da solidão

Às vezes, apetece-me desistir. Parar agora e sentar-me, a esperar para ver. Estou farta de salas de espera, já agora. Cansei-me de casais de reformados que vão juntos aos tratamentos de um deles. Se é ela que está doente, ele pavoneia-se de um lado para o outro, as plumas de pré-viúvo ainda — considera ele — em forma, todas no ar. Há um que, assim que a mulher vem lá de dentro, faz uma espécie de vénia a quem está sentado (onde me incluo) e, histriónico, deseja as melhoras e acrescenta um “até amanhã”, que me irrita a ponto de ter vontade de o mandar à merda ou fazer-lhe aquele gesto do dedo. Intimamente, mando mesmo, às vezes até para lugar mais fálico e menos escatológico, reviro os olhos e nunca respondo. A educação de águas límpidas que me foi fornecida não me obriga a ser simpática com pavões, cláusula primeira. Se é o homem que está doente, lá vão elas de unhas dos pés verde fluorescente, exagerando nas mesuras e cuidados (“Queres um pãozinho?”, “Uma bolachinha?”), rainhas do esmero, em compensação tratadas como criadas, fazendo de conta que não ouvem a resposta brusca e o mau modo constante. Precisavam eles de uma igual àquela cigana (ups, disse) que outro dia consolava o marido birrento, “Já disse que não vou, ninguém me obriga”, batendo com o pé no chão: “Mas a doutora não disse que o tratamento é para te curar, é só para te tirar as dores”. Depois, há o senhor de cadeira de rodas que só tem meia perna e veste calções de ganga, o coto todo à mostra e uma cruz desenhada a caneta Bic no lugar da cicatriz. Há as mulheres e os homens também que, como eu, vão sozinhos ao tratamento, porque aquilo são meia-dúzia de minutos, não dói no corpo nem dá efeitos secundários imediatos. Há a rapariguinha negra, de vestidinhos floridos e justos como os de uma criança, que dorme sempre. Invejo-lhe a tranquilidade e a alienação, quando afinal até é fácil deduzir que ela está muito mais doente do que eu. Há os da etnia, que vão em grupo para o tratamento de uma delas. Há as senhoras de idade, de touca ou de peruca sintética, que têm todo o tempo do mundo e as longas esperas não parecem afectá-las em nada. Há os magros como cães famintos, que não inspiram coisa nenhuma, a não ser talvez espanto. Parecem saídos de um campo de concentração e têm todos aquele mesmo olhar que vemos nas fotografias de Auschwitz. De vez em quando, passa uma maca ou uma cadeira de rodas, à partida ou à chegada de uma ambulância. Já não olho.
Dizem-me, quando me vêem ir abaixo, que falta pouco. Não falta pouco, não senhor. Faltam treze vezes este outro mundo, que, mesmo que — por um paradisíaco absurdo — esperasse só um minuto de cada vez que ainda terei que lá ir, seriam sempre treze minutos de inferno para enfrentar.