02/09/2015

ladra de mágoas

Vestido preto e branco, unhas incolores. Não mas apetecem vermelhas, hoje ficam na transparência sobre o opaco das pontas dos dedos, dois dedos de testa, que cobre os pensamentos e, principalmente, os sentimentos, processados após envio pelo coração. Nos olhos, só um pouco de tinta preta, hoje não vou chorar — decisão número um do dia —, não vou parecer uma Pierrette, toda suja de negro. Não posso apossar-me de um desgosto que não é meu, sinto-me tão furtadora, mais vale vestir-me, calçar-me e comportar-me como uma ladra de mágoas. Olho-me ao espelho e não vislumbro um único sinal de tristeza. Os meus olhos continuam pretos porque nasci com eles dessa cor, ausência de luz, que tanto me ilumina, junção de todas as cores, que eu vejo azuis. Sou toda falsa, simulo que é sol a sombra que me invadiu. Está nos olhos, acabei de a juntar à maquilhagem. Vou sair, beber a minha mãe, o dia está cinzento, e isso não é preto nem é branco, como o meu vestido. Vou bater a porta e sair, transparente, como as minhas unhas.


4 comentários:

  1. O apossar de um desgosto de outros não faz de ti uma ladra, mas sim alguém que conhece e vive de perto o significado da palavra empatia. E tal até pode ser crime, ou assim nos parece, pelo castigo de sentir tão fundo as tristezas, especialmente as que não são nossas.
    Beijinhos, Linda

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    1. Disseste tudo, ratinho. Andava à procura do termo, saía-me 'solidariedade', mas não encaixava. Empatia, claro. Como uma simbiose.
      Beijinhos, querida

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  2. Hoje saiu de casa bem bonita. Transparência, não há cor mais Linda. :)

    Abraço

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    1. Que bonito comentário, JM. Tão rico de conteúdo, tão metafórico, tão à minha medida.
      Obrigada. :)

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