07/09/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 24

Mas é que não é uma nem são duas vezes que isto me acontece: estou num supermercado, ou numa loja qualquer tipo armazém, e preciso de uma informação. Vejo uma funcionária — assim mesmo, conjugado no feminino, já que, com eles, é raro ter problemas —, dirijo-me-lhe, 
Boa tarde
e ela ignora-me. Ela finge que não me vê, finge que não me ouve, toda ela um fingimento mais verdadeiro do que a própria verdade. Cansa-me, isto. Mas continuo, porque vou em missão, sou teimosa e não conheço barreiras. Pareço mesmo um atleta daqueles do tartan.
Pode informar-me onde é que posso encontrar o sumo de limão?
Ora, vamos lá a ver: se esta pergunta fosse dirigida a um homem, não só ele responderia imediatamente ao meu cumprimento, como também me estaria a indicar, com objectividade, onde genitais se desencarna a porra do sumo de limão naquela pequena, média ou grande superfície que lhe paga o ordenado. E, caso tal extravagância não se encontrasse ali, num raio de um quilómetro, subiria a um limoeiro, colheria os limões, e espremê-los-ia, sem um protesto. Finalmente, entregar-me-ia o frasquinho do sumo com um sorriso, ao qual eu devolveria um bater de pestanas, que eles tanto apreciam. Pronto, exagerei. Mas deu para perceber a diferença, não deu?
Bom.
O momento em que eu peço a informação, é exactamente o mesmo em que a pessoa fêmea se vira para mim (invariavelmente, está de costas, ou de lado, a três quartos), sobrolho em arco inquiridor, e jorra
Boa tarde!...
naquele tom inconfundível, que grita malcriada, estou eu aqui de viés, a olhar-te de soslaio, nem um boa tarde e já a fazer perguntas tolas, assim de chofre?
É também o momento em que eu paro de falar, paro de sorrir, paro de me mexer, no fundo até paro de respirar fundo, pareço mesmo uma estátua, uma obra do Michelangelo — ou Miguel Ângelo, ou o que quiserem —, mas em carne, só que paralisada dos meus nervos, designadamente ópticos. E digo:
Acabei de lhe dizer boa tarde, e pretendo saber onde é que está o sumo de limão.
Esta é a oportunidade que lhe dou de ficar ainda mais azeda, o que pode ficar a dever-se ao ácido cítrico contido na minha pergunta. Imagino o que seria se lhe perguntasse pela soda cáustica, para desentupir o esgoto da retrete, só assim para animar o ambiente. Então, a pessoa feminina arrebita o nariz em sinal de enjoo e inquire:
Sumo de limão?
como se eu tivesse perguntado por granadas antitanque. Lá está, também admito que posso baralhá-las com perguntas de tão elevado nível que, convenhamos, sumo de limão num supermercado é capaz de corresponder a perguntar por papel higiénico na ourivesaria. Mas é que sou boa e explico, fazendo o boneco com as mãos (vá que não estou a perguntar por chouriços, embora aquela seja uma conversa para enchê-los):
Sumo de limão, nem mais. Está nuns frascos de plástico, exactamente com a forma de... um limão! Ou então, da marca dos vinagres...
A minha amiga — acho que, no ponto da relação a que chegámos, já podemos considerar-nos amigas — faz a primeira desfaçatez à nossa amizade tão recente, e socorre-se de outra amiga só dela, para, juntas, me bullyingarem ali:
Nós não temos sumo de limão, pois não?
ao que a outra, igualmente nauseada, responde que não.
Está a burra nas couves e eu, farta, rodo os saltos altos, enquanto, educadíssima, embora desistente — o que não é o mesmo que derrotada —, comunico:
Não se incomode, eu compro limões. Muito obrigada.
E sumo. Quero dizer, desapareço, não sumo de limão. Sumo-me, sumarenta, a irritá-las, cheias de azedume. 

Mural (das lamentações) desta história: 
Existe uma grande diferença entre ser atendida por um macho ou por uma fêmea. Eles, ao menos, dizem coisas engraçadas, como, no outro dia, em que fui abordar um na secção dos detergentes, perguntei-lhe onde é que estavam as sock busters, e ele respondeu-me, candidamente:
Isso é ao pé das molas da roupa. Aqui na nossa secção Alimentar não é, com certeza. Mas eu levo lá a senhora.
(Até pensei que ia levar-me ao colo, um rapaz que se alimenta de detergentes é capaz de qualquer coisa para agradar uma dama.)

8 comentários:

  1. Ahaha :P tens razão! As mulheres conseguem ser tão desagradáveis umas com as outras...

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    1. Ai, mas tão :D
      Pergunto-me se eles são assim uns para os outros!

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  2. Se pudesse ver-me à medida que ia lendo:)))) . Tenho histórias semelhantes, não com sumo de limão, mas outras aflições domésticas.
    Beijinhos e boa semana.
    Mia

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    1. Mia, já não sei se "felizmente", não é só comigo :)
      Aquelas senhoras estão sempre na maior amargura. Uma pessoa pode ir perguntar pelo mel, que leva fel pelos olhos adentro.
      Boa semana também para ti.
      Beijinhos

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  3. E sumo. Quero dizer, desapareço.
    Haahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
    Lindo!!

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    1. Esta calhou-me bem, mas saiu das teclas, que eu não tenho bestunto para trocadilhos tão sumarentos :D
      Agora só para o ano!

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  4. São umas ressabiadas essas tipas. Felizmente nem todas são assim :) (mas ainda assim são demasiadas)

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    1. Mas de quê? Têm o seu emprego, que não lhes exige um esforço físico nem mental por aí além... estão chateadas exactamente porquê?
      :)

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