13/04/2020

primogénita

Nasceu em primeiro lugar, quem sabe se por acaso ou então por haver desígnios. Chegou pequenina, uma “amostra de gente” que se manteve assim mesmo até hoje - e até sempre, disso já terei certamente uma certeza. Em tanto me traz a minha mãe de volta, no tanto de melhor que tinha, até nisso do tamanho em altura e leveza, ambas medíveis com pouco mais de meia-dúzia de palmos, impossível medir-me eu aos palmos com qualquer das duas. Eu sempre demasiado grande perto de uma e de outra, infinitamente pequena se com elas comparada. Tantas vezes invertemos os papéis, sobretudo quando o horizonte se estreitou e os amanhãs da minha mãe foram deixando de existir. Deve ser isso o envelhecimento, essa troca inadvertida, suave e natural, em que um dia somos filhos dos nossos filhos, numa eterna dança que eles também dançarão um dia com os filhos deles. Talvez por isso mesmo, nestes dias de tempestade, em que as boas notícias tardam em chegar e são raras como milagres, quantas vezes ao pedir-lhe numa lamúria quase infantil, "Dá-me os números bons", foi ela, pequenina, os olhos enormes que perscrutam este Mundo inteiro e ainda o outro que é só dela, as duas mãozinhas agarradas aos meus braços, tão séria, tão mamã, "Hoje tivemos uma taxa de aumento de quatro por cento". Acredito fervorosamente que aqueles olhos enormes e aquelas duas mãos pequeninas interferem, lá naquele outro planeta que ela também habita, nalguma fórmula secreta de inversão da tal tendência, pois todos os dias, protectora, cheia de candura, toda ela feliz, me vem trazer os números bons.

09/04/2020

Assintomáticos, essa raça maldita

E agora é isto: quem não tem sintomas, pode estar infectado, mas não (se) manifesta. É assim uma espécie de advogado do diabo, um portador anónimo e silencioso das más notícias - que, como se sabe, convém assassinar. 
Portugal tinha, até ao dia de ontem, 12.565 infectados. Se lhes somarmos os 196 curados e subtrairmos esta soma aos cerca de dez milhões que somos, vemos que temos nove milhões, novecentas e oitenta e sete mil, duzentas e trinta e nove pessoas que, de duas, uma: ou não estão infectadas (e isso será a grande maioria), ou então são suspeitas/ assintomáticas/ possivelmente infectadas/ a abater, pois - parvas - estão convencidas da sua imunidade/ impunidade/ sorte macaca, mas que, no fundo, andam cá a infectar meio mundo (a outra metade dos não infectados/ assintomáticos como eles), e isso fá-los merecer a desconfiança, a repulsa, a fuga a jacto, a nova agorafobia. Agora, já.

[Eu, assintomática me confesso, também vou desenvolver uma fobia chique relativa a todas as pessoas que viraram a cara e manifestaram a sua repugnância pela pessoa humana por estes dias. Coprofobia.]

08/04/2020

Se está no jornal online, está na net, é porque é verdade

Diz o jornal, pela pena de quem não conheço (porque não conheço toda a gente do mundo?), mas também não se apresenta ou sequer identifica como autoridade do assunto sobre o qual escreve, mas que imagino que saiba com certeza e não porque ouviu para aí dizer, que o dernier cri da crise actual é ir para a rua (quando já não pode mesmo deixar de ser) de mangas compridas. 
Depois do cabelo apanhado e das unhas curtas, devemos, pois, sair com os braços tapados. Como se o clima permitisse outra alternativa. (Humanos era um rapaz que frequentava o meu liceu e que andava todo o ano, rigorosamente todo, de manga curta. Admito que seja porque existem Humanos neste caótico mundo que aparecem este tipo de recomendações.) Por outro lado, ou ainda deste, ando a ficar um tudo-nada saturada deste tipo de conselhos quanto à indumentária, comportamento e hábitos, designadamente porque ninguém mos explica e ou apresenta estudos que comprovem o coiso. Bem sei que tudo isto é novo, prognósticos só no fim do jogo, mas é que eu sou aquela teimosa/ asna que necessita de explicações e razões de lógica para tudinho o que sejam ordens, comandos, conselhos e outras vidências mais ou menos evidentes.
A manga cumprida é exactamente para quê? Para que o vírus não se aloje nos braços e não trepe por eles acima até às fossas? Então e por que é que não é “obrigatório” o uso de calças? É que, pela mesma ordem de raciocínio, ele pode escalar pernas acima, tronco acima e, imediatamente antes de morrer de cansaço, encafuar-se boca adentro. Ou nós somos seres que tanto mexem na cara como nos braços? Também não mexemos nas pernas? 
Portanto, podemos usar saias/ calções, mas lá braços à mostra é que não. Como uma autêntica ida ao Vaticano. (A mim, o senhor da bilheteira mandou-me tapar os ombros expostos por uma manga cava que até era com gola alta, e eu, de calças, suei as estopinhas com o blusão vestido lá dentro, mas eram as brasileiras a passarem por mim de coxas à mostra, que isto uns são filhos.) Já a coisa do rabo-de-cavalo me pôs assim meditabunda. Esse é um penteado que 1. As mulheres usam quando têm o cabelo sujo. (Pá-tá-bem, é para o ginásio e a praia e o campo e a montanha. Mas é, principalmente, o recurso chamado “não tive tempo/ paciência para lavar a crina, hoje vem mesmo a galope”.) 2. As mulheres evitam, por razões de segurança, quando vão a algum lado sozinhas à noite. Agora passou a ser recomendado, calculo que para que levemos menos vezes as mãos à cara. (E nada de cofiar as barbichas e as bigodaças, seus Pais Natais.)
Em resumo, a ver se já percebi o outfit ideal para enfrentar o animal: rabo-de-cavalo, máscara, mangas compridas, luvas, mini-saia (pode ser, chiu!) ou shorts. E não esquecer de deixar os sapatos à porta, do lado de fora, e meter a roupa toda que se usou na rua, na máquina de lavar, imediatamente, a 60º, o que, como se sabe, não esteriliza nada, nem mesmo se fosse a 90º, pois o que esteriliza os tecidos é a água fervente, borbulhante, enfim, a 100º.
Querem esterilizar a roupa eficazmente e sem essas trabalheiras todas? Dona Linda, uma criada ao vosso dispor, recomenda: passem-na a ferro quando chegarem da rua, se a ideia é acabar com a raça do bicho. São 150º, não há beri-beri que lhe resista. Ou metam tudo no forno, pode ser a 200 ou 220º. E boa sorte com as fibras, as lãs e os sapatos. Mas que resultará, ai disso não duvidem. Ainda por cima, agora já está na net, porque eu pus. Portanto, é verdade.

02/04/2020

E para as da retaguarda, não há palmas?

A nós, mães, que estamos num confinamento desigual, arriscando a vida todos os dias, indo ao epicentro do risco comprar alguma coisa que faz falta e não pode esperar um mês (porque as compras online deixaram de fazer face às necessidades de casas cheias de pessoas que comem todos os dias, quatro vezes por dia) (e não, nem todas as casas têm um frigorífico industrial e uma despensa de restaurante) (e sim, a fruta e os legumes querem-se frescos, impossível comprar para um mês, ou dois, ou três, e não, também não haveria espaço para tanto) (e não, ninguém aguenta enlatados e enfrascados todo um santo período de semanas que sabe-se lá quantas mais), enfrentando pequenas (vá lá...) multidões munidas de sua máscara, de tal modo protegidas se sentem que não se coíbem de se aproximar bem menos do que um metro, munidas que estão da sua infalível armadura, subestimando que nós, desmascarados (não uso, ainda não usei, Deus me livre de mais essa. Não encontro à venda, as que me arranjariam por especial favor são a preços pornográficos e duram o tempo de um fósforo, prefiro acreditar na DGS, que são propícias a uma falsa sensação de protecção), não temos outro escudo que não seja o divino e ou a nossa capacidade de permanecer em apneia e ou escapar ao bafo/perdigotos, já para não falar do tossicar tão português, da catarreira cigarreira ou do espirro para a dobra do braço. 
E quando, bravas, regressamos da batalha, sorridentes e vitoriosas porque ainda ignorantes do desfecho da guerra que vamos travando, ao que ainda poderá ser o nosso porto de abrigo, àquela que era a designada com algum desprezo pelos aventureiros desta Terra, a zona de conforto, o perímetro de segurança, processamos tudo - refeições, um bolo de iogurte, uma mousse de chocolate, sumos de laranja com laranjas a sério -, arrumamos, limpamos, lavamos, mimando, fazendo crer a normalidade, para que uns possam trabalhar, outros ter aulas, falar com os amigos no computador ou então jogar, para que não tenham necessidade nem vontade de sair de casa, e ainda arranjamos um bocadinho para dançar ou fazer uma ginástica patética, cujo objectivo é apenas nenhum (não engordar por abandono do ginásio? Estar em forma no próximo Verão? Ocupar a mente?), ou então só não enlouquecer.
A nós, quem é que nos bate palmas? 
Talvez ninguém, talvez porque não precisemos. De qualquer maneira, estamos invisíveis, na tal linha de retaguarda, demasiado ocupadas a salvar vidas, arriscando a nossa própria.