09/07/2015

Trust


People get hurt. The only thing we can do is we can be there for each other when we do fall down to pick each other up.

A mãe veio ter comigo, a boca pequenina, diminuída — deve ser por isto que existe a expressão contar à boca pequena — os cantinhos a tremer, descendentes, os olhos a piscar muito, em girândolas, cheios de ciscos, nem uma gota.
- A Filipa foi atacada.
A Filipa é a filha, 21 anos, alta, magrinha, cabelo ondulado, bonita de porcelana. Quando se ri, mostra dentes perfeitos, de boneca, se as bonecas tivessem dentes. Lembra-me a Merida, do filme Brave
Um amigo de amigos, numa circunstância banal, a quem outra menina pediu que desse boleia até ao carro dele, bateu até se cansar, puxou o cabelo lindo e violentou a boneca Merida do sorriso perfeito.
Deixou-a pisada, marcada, dorida e — ladrão —, roubou-lhe o sorriso, levando-o com ele lá para a toca de onde nunca devia ter saído. 
- Apresenta a denúncia. Nem penses em fazer outra coisa senão isso. Pelas outras todas, pelas minhas, mas, essencialmente, por ela.
Que não, que nem quer ouvir falar no assunto, que da boca só lhe saiu alguma coisa de inteligível passados três dias de lágrimas sem explicação. Tem medo que ele lhe faça mal.
- Mas vai fazer mal, precisamente se ela não o denunciar. Junta as provas que tiveres e leva tudo à Judiciária.
Que não, que perdeu a roupa interior, no meio do terror que ele a atirasse ao mar, numa fuga inútil pela praia, que já lavou toda a roupa, que se desfez de tudo.
- Não vai desfazer-se do principal, que esse não se lava, nem se queima. 

Nada do que seja feito agora trará de volta a Filipa do antes. 
A justiça, pela mão dos pais, consegue ser mais desequilibrada do que a justiça pela letra dos códigos: ou porque mata, ou porque cala. A vontade, intrínseca, imediata e irracional, é a de acabar com a raça, limpar o sebo, eliminar o mal pela raiz. A realidade, que é a das mãos atadas — em função do estado de choque em que o filho, vítima de ataque, se encontra, e da equação justiça-branda-deste-país versus arrastar-a-minha-cria-num-lodaçal-e-ser-eu-quem-escarafuncha-na-ferida —, acaba sendo esta mesma: a da impunidade dos malfeitores. Não esqueçamos que os próprios pais experenciam o estado de choque, e são, emocional e psiquicamente, vítimas das consequências dele também. E a eles é pedido, pela justiça, pela sociedade, pelas amizades próximas (como eu), quase exigido, que tomem uma decisão muito racional, muito rapidamente, muito definitiva, em muito poucas horas, que são, precisamente, as horas do pico desse choque. Por outro lado, o criminoso, à medida que comete crimes de atentado à integridade física e ao pudor que ficam sem castigo, vai-se investindo de uma impunidade, exactamente por perder a capacidade para perceber a gravidade do seu delito. Tendencialmente, vai repetindo o comportamento, com mais frequência e maiores requintes de malvadez. Às vezes, acaba matando. 

Há danos que são irreparáveis, porque recaem sobre coisas invisíveis: a confiança, a alegria de viver, a capacidade de sonhar, a paz de espírito, a capacidade para construir uma família estruturada. Juridicamente, num plano meramente teórico, é possível calcular uma indemnização, que funcione como compensação pelo dano sofrido, para além da necessidade óbvia de retirar de circulação e punir um criminoso. Na prática, há um longo trabalho de recuperação emocional a fazer com a Filipa, que possa devolver-lhe, senão o mesmo, pelo menos, um sorriso muito semelhante ao de boneca, se as bonecas tivessem dentes, que lhe levou um malvado, para a toca de onde nunca devia ter saído.


4 comentários:

  1. ....
    Os danos invisíveis são os mais profundos. Deixam marcas difíceis de curar.
    Beijos LP

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    1. E a grande questão, relativamente à denúncia, é qual a proporção em que ela pode agravar esses danos. Acho que só um psicólogo forense é que pode responder capazmente a isto...
      Beijos, Impy.

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  2. Honestamente,

    Um gajo desses devia ser levado para um sitio qualquer onde fosse violado, nó mínimo, 16 horas por dia! Que animais desses andem impunes por aí é algo que me faz confusão!

    :)

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    1. Se calhar, ainda gostava...
      Este é um 'menino bem' — tem tudo, nunca nada lhe foi recusado. Falta-lhe só o essencial.

      Sabes que eu tenho uma teoria em relação a este tipo de predadores, que não obedecem ao perfil meia-idade-pedreiro-ou-desempregado-frustrado-alcoólico-baixo-nível-de-instrução: isto é uma homossexualidade latente. Era bom para todos que saíssem do armário, que cá fora é que se está bem, e paravam de subjugar as mulheres (que são quem lhes passa à frente na 'fila' dos homens) desta maneira. E, de caminho, iam subjugar a pata que os pôs.

      :)

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