07/07/2015

Que falta

Assim como para as saudades, à falta de alguém não deveria ser usado o pronome possessivo — a tua falta —, porque essa falta é nossa e somos nós que a sentimos, logo, que a carregamos. 

Também não deveríamos poder dizer a outra pessoa Fazes-me falta, porque, na verdade, a pessoa não nos faz, pelo menos directa e intencionalmente, nada. Nós é que nos fazemos a falta que a pessoa nos faz. Construímo-la, edificamo-la, pedra sobre pedra, à medida que a sentimos tomar conta de nós, permitindo que todas essas pedras nos pisem e esmaguem, de tão pesada se torna a falta que temos a cargo.
Quanto muito, Fazes-me sentir tanto a falta que me fazes. 
Pode parecer redundante, mas não pode. 
Podemos dar-nos conta da ausência, não presença, da outra pessoa, mas isso não nos incomodar assim muito. No entanto, se a privação daquela pessoa se converte em carência dela, aí, sim, podemos afirmar, de peito cheio e coração vazio, que ela faz com que sintamos a falta que nos faz.

Tenho um espaço enorme, ocupado pela falta que sinto de ti.
A falta de alguém torna-nos, então, proprietários da sua ausência. 
Sinto a tua falta, não: Eu tenho (comigo, minha) a falta que tu me fazes
Também não tenho saudades tuas: tenho saudades de ti. 
Eu sou a dona da falta que me fazes e das saudades que tenho de ti. Com ambas, ando pelas ruas e pela vida, cheia de sacos, suportando-lhes o transporte.
Não é verdade se disser que sinto a tua falta e tenho saudades tuas. Tenho a falta que tu me fazes e tenho saudades de ti. É muito diferente, eu ter, ser proprietária, estar investida, sobrecarregada, martirizada, calvariada, do que te dar, a troco de nada, a falta e as saudades que suporto comigo. E que, por isso, não são tuas — são minhas, de ti.

~
Apetece-me dedicar este texto à minha directora Maria Barroso.
Não o escrevi para ela, nem faço uso desse recurso neste momento.
A minha galeria de mortos queridos já tem muita gente, e há uns poucos que ocupam um enorme espaço. É desse espaço que falo, quando tento explicar a falta que tenho deles: Tenho um espaço enorme, ocupado pela falta que sinto de ti.
Todos eles me levaram um pedaço meu e me deixaram aqui, incompleta, a prosseguir, sem partes de mim. 
Não tenho a hipocrisia, mas também não o atrevimento, de arranjar um enorme espaço para a minha directora, nessa minha galeria. Tenho, sim, lá um cantinho reservado, onde cabe uma boneca de porcelana muito pequenina, assim como ela, mesmo, mesmo, ao lado do Rato Mickey.


8 comentários:

  1. Também tenho algumas faltas, algumas grandes demais.
    Bonito e triste.

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    1. Só é triste a parte final, Be. Na verdade, o texto é escrito a vivos, e a falta que esses nos façam sentir é sempre suprível :)
      Obrigada.

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  2. A Dra.Maria Barroso foi uma Senhora, por quem todos, fomos construindo muita ternura e muita simpatia.
    A forma como referes " à minha directora ", prova esse carinho,passados tantos anos !
    É evidente, ter sido uma Senhora que te marcou !
    Beijo

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    1. Marcou-me pela paciência com que me deu a mão, embora estivesse indisponível, afectivamente, para o fazer, naquele momento. Sobretudo, isso.
      Beijo

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  3. Bom dia LP, Sobre "faltas" evito hoje pronunciar-me.
    Beijinhos,
    Mia

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    1. Querida Mia, a minha pontaria é quase uma desgraça.
      Grande beijinho para ti.

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  4. Querida LP, sempre que alguém querido nos deixa, leva sempre consigo um bocado de nós, um pedaço da nossa história.

    Um beijinho

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    1. Querida Miss Smile, é bem verdade. No caso da minha directora, só fiquei eu para contar a história (com toda a memória difusa dos quatro anos) dos recreios de mãos dadas, com o Rato Mickey entre nós. Essa foi-se hoje, de madrugada.

      Um beijinho também :)

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