17/06/2015

Despida

Se não fosse trágica, seria cómica, a ideia de entrar nua num lar de velhinhos. Se me puser a pensar nisso, quase tudo o que é cómico tem algo de trágico, embora a inversa não seja verdadeira. Por isso é que nunca gostei de palhaços. Não é que tenha o terror da máscara. Mas ficou-me de uma vez, num mini-teatro que havia no Jardim Zoológico, sobrelotado de miúdos aos gritos, em que assisti a um espectáculo de palhaço rico e palhaço pobre, e nunca consegui ver ali outra coisa senão uma mulher e um homem, ela estridente, ele roufenho, cheios de rugas e impaciência. 

Mas é como me sinto, despida e despojada, cada vez que ali entro. Se também me puser a pensar nisso, não há, verdadeiramente, ali dentro, nada que seja rigorosamente trágico, ou sou eu que estou a perder o fiel de medição dos níveis. 

Pelo caminho, um aviso luminoso na autoestrada diz que, a dois quilómetros, se encontra um animal na estrada. Penso numa mosca, num passarinho pequeno, dá-me vontade de rir, mas, à cautela, olho para o conta-quilómetros, para estar atenta quando for a altura. Passados mil metros, vejo os restos, em carne viva, daquilo que me parece ser um cão de médio porte.

É isso. Não é tão nua quanto isso, é em carne viva que me ponho, e é por isso que tudo me parece tão irreal. Vou toda flores, vestido cai-cai, braços, ombros, pernas, tudo nu. Demasiada carne à mostra. Devia ter mais atenção ao que visto quando ali vou. As pessoas ainda estão vivas e nem toda a gente está a dormir.

Isso vem tudo de fora, diz-me a minha mãe, numa gargalhada, que eu, Pierrette, considero trágica. Respondo-lhe que tenho muito calor. 

Tenho calor. Está calor lá fora, eu sou hipertensa, estou uma pilha de nervos e, se as minhas inimigas que iludo que não tenho me vissem, muito gozariam de imaginar que é da idade. Possivelmente, é. Desde os tempos mais imemoriais da minha existência que tenho calor, sobretudo em locais onde ele não existe.

A menina vai para a praia?, pergunta-me a que tem cem anos. E eu, sem anos, respondo, estupidamente, 

Quem me dera o mar agora.

Vem aí a directora e manda-a vestir um casaco, insiste ela — e eu imagino o cómico que seria se isso acontecesse, e o trágico de me sentir morrer de frio. 

Por que é que Deus não me levou a mim, em vez da minha filha, que era tão nova?, teima ela em massacrar-me. Aquilo começa a encher-me de dores na carne à mostra, quero mandá-la calar-se, mas não posso, porque estou excessivamente ocupada a enxotar uma mosca que não me larga a pele exposta.

Não consigo tirar a vida a nada, tenho que abrir uma janela, a ver se o bicho voa daqui para fora.

Eu quero morrer, diz-me ela, com todas as letras, os olhos tão esbugalhados, que diria que o vai fazer no segundo seguinte. 

Não me faça isso aqui, nem agora, por favor. Espere que eu me vá embora — é o que me sai, outra vez estúpida.

Levanto-me, toda a sangrar, e voo dali — tomara que pela janela, atrás do bicho —, toda moribunda.

8 comentários:

  1. A cada texto teu com a etiqueta "Mãe" fico revolvida por dentro como se me tivessem arado a alma.

    Beijos, Linda. :)

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    1. Que bonita imagem essa, da alma arada.
      Também a minha fica assim, de todas as vezes que lá vou. E sem aragem possível.

      Beijos, Maria. :)

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  2. São tão intensos estes relatos que tenho medo de os experienciar!
    Beijinhos, LP.

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    1. Não vivenciarás necessariamente, Mia. Mas, garantidamente, este é dos melhores espaços que tenho visto, e já vi alguns. Um dia de cada vez....
      Beijinhos, Mia.
      Um dia feliz :)

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  3. Já eu, cada vez q leio estes teus textos (de q gosto mto) sou assolada por um medo imenso. O medo de imaginar q um dia posso passar por isso com os meus pais. Passei com uma das minhas avós e foi horrível. Saia de lá deprimida. Ela já n nos conhecia, mas nós íamos lá na mesma.
    E pensar q um dia podem ser os meus pais. O meu pai especialmente, que isto da genética é tramada e calhou-lhe em sorte esta coisa do Alzheimer na linhagem...
    É engraçado, n temo por mim, pela minha possível falta de memória no fim, mas temo por ele. E assusta-me tanto q chegam a correr lágrimas só de pensar nisso. N sei se aguentaria ver "aquele" olhar vazio nos olhos do pai.

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    1. Talvez não, Me. A vida dá tantas voltas. Nada nos é garantido, nem sequer as coisas más, felizmente.
      Já me disseram que a minha mãe, um dia, vai deixar de me conhecer. Eu não estou nem estarei preparada para esse dia, mas sei que continuarei a ir vê-la com a mesma frequência com que vou agora.
      Tenho que aproveitá-la. E tenho que me garantir que me despedi convenientemente (seja lá o que isso for).

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    2. Odeio este sentimento impotente de n podermos controlar estas tretas.
      Devíamos viver bem e feliz, e pumbas, qd chegasse a nossa hora, cedo ou tarde, q fosse durante o sono. Indolor e sem sofrimento, assim como tirar um penso rápido.

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    3. A mim também me inquieta, mas já não me angustia. Com o passar do tempo, vamos acalmando alguns receios. Só não controlo nenhum relacionado com os filhos. Aí, é o descontrole total.
      Se a morte fosse sempre como dizes, o Homem seria totalmente diferente, não só porque seria muito mais afoito (por ter como garantia que só morreria durante um sono), como também muito menos religioso. E sabes que a religião tem escrito a História da humanidade...

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