09/08/2022

Estar, ser, parecer

Na Radioterapia todas as mulheres são iguais: cabelo muito curtinho, roupa prática — fácil de despir, geralmente da cintura para cima —, sandálias rasas. Uma usa meias cirúrgicas bege debaixo das sandálias, os dedos à mostra, as unhas pintadas. Algumas ainda com a touca oncológica, um lenço, quase todas com as sobrancelhas em tímido renascimento. Os homens também são todos iguais, mas a eles bastam dois centímetros de cabelo para já não “parecer”. 

No salão de espera, estão apenas duas perucas: a de uma senhora de idade, que se maquilha até à exaustão, usa vestidos de flores e sandálias douradas, e a minha. A dela é sintética — sem movimento, com o brilho do nylon, parece (e, eventualmente, estará) carregada de laca —, porém combina na perfeição com todo o restante cenário. Tem franja, é cor de cobre, bate nos ombros e é enrolada para fora. Há uma harmonia com as sobrancelhas tingidas a lápis, os lábios de borrões vermelhos, o blush gritante, o sorriso exausto mas ingénuo. Eu levo os meus vestidos de sempre, a bela Natércia e sapatos fechados, sob a forma de alpercatas, claro que de cunha de oito centímetros. Não posso mostrar as minhas unhas dos pés. A quimioterapia simplesmente destruiu-as e o meu organismo ainda não as reconstruiu.

Um a um, somos chamados lá para a câmara de ficção científica. As técnicas muito técnicas, como treinadores de futebol, há muito pouco espaço e tempo para uma piada, um sorriso, uma gargalhada. As minhas ficam todas suspensas no nada. Estou rodeada de pessoas que consideram que alguém com cancro tem que estar sempre aos miares e suspiros. E não há lugar para um bom bâton borrado pelos dentes afora, nem para o campo de flores que um vestido pode carregar.


05/08/2022

Descalça

De entre outras, mais ou menos criadas por mim, tenho usado muito a metáfora do caminho de pedras pontiagudas que percorro descalça. Às vezes até tenho superstição em abrir a boca para falar, pois que até as imagens figuradas que construo vêm ter comigo: a quimioterapia sensibilizou-me mãos e pés, julgava eu que se limitaria à infecção nas unhas, afinal deu-me de graça plantas e palmas ultra sensíveis, com uma maravilhosa pele que não devo ter desde o berço, e que, apesar, contudo, todavia, mas, porém, não aguentam qualquer calçado e, uma vez descalça, qualquer piso.

Isto para dizer que a enfermeira que me fez a consulta preparatória de radioterapia me deu carta branca para ir à praia até começar os tratamentos. O que é que ela foi dizer. Fui, e fui à grande: alugámos colmo, almoçámos que nem reis (ignoremos, só agora por momentos, o facto de o meu paladar estar do avesso e um hambúrguer de salmão com batatas doce fritas poder saber-me a uma barra ferrugenta), fomos mergulhar até lhes perder a conta. Pedi os três desejos da praxe, que, se fosse uma pessoa normal, pediria “a cura, a cura, a cura”, mas sou tão prosaiquinha que “desperdicei” (aos olhos e sob o ponto de vista de humanos mais elevados) um deles a pedir “que o meu cabelo cresça depressa”. Só me danei por não ter definido “depressa”, por ser um conceito tão vago e vasto, que lá quem recebe estes pedidos tanto pode ser uma lesma e pôr-me o cabelo a crescer ao ritmo dos elevadores do IKEA, como pode ser um hiperactivo e amanhã acordar qual cavernícula. Também nadei, apesar de frequentar uma praia cujo mar não permite grandes braçadas, mas era verem-me sem Natércia, a nadar enquanto levava tareia das ondas, e teriam a imagem perfeita de um pato feliz.

A saída do mar, de todas as vezes que lá entrei naqueles dois dias, custou-me muito mais do que a entrada: havia uma barra larga de conchas partidas, que todas as pessoas passavam como se fosse areia fina, mas aqui à princesa do pé fino causaram dores excruciantes, rés-vés a lágrima bem salgada. Então, ofereci pela saúde dos meus filhos. (Caluda, eu é que sei onde é que gasto as minhas fichas.)

Portanto e à conclusão, corrijo a metáfora: estou a percorrer, descalça, um caminho de conchinhas partidas. 

(Pode ser que, para o ano, já tenha pés de tairoca, com aquele calcanhar de queijo de Serpa, ai que delícia.)

04/08/2022

Radio gaga

Chego à sala de espera — que é mais um salão, dadas as suas medidas, talvez uns cem quadrados, dava para um belo bailarico, não fora as circunstâncias — e apercebo-me de que está bastante compostinha. Faço aquela matemática básica, um terço são lugares vagos, metade das gentes podem ser acompanhantes. Mesmo assim, imagino que vou ali passar o resto do dia e uma parte da noite e pergunto à do balcão se está muito demorado, ao que ela me responde a frase que está ex aequo com “só há o que está exposto”, “esse artigo foi descontinuado” e “isso é com a minha colega”: “A senhora tem que esperar a sua vez”, logo a mim, que adoro retóricas. “Claramente, isso não responde à minha pergunta”, “Mas é que eu não sei”, “Acabou a conversa”, e ficámos por aqui. Pena que também só haja o que está exposto nestes lugares, que não descontinuem estas azedas que estão sempre em modo de frete no seu local de trabalho e, efectivamente, tudo deve ser assunto para a colega, que não está à vista porque nem sequer existe.

A Radioterapia é detestável desde que entro até que saio. O pessoal não tem a noção que trata exclusivamente com pessoas com cancro, como acontece na Oncologia. Já lá dentro, em vez de enfermeiras e assistentes, existem técnicas, com a simpatia de um empregado de mesa. Zero empatia, zero humanidade, é um corre-corre de despe, deita, posiciona milimetricamente para que os raios que partam a possibilidade de o cancro voltar funcionem, luzes e máquinas a toda a nossa volta, uma placa redonda, uma placa rectangular, uma outra que parece um ovo de avestruz, as técnicas saem da sala e uma delas transforma-se numa voz, “Dóna Maria, suspenda a respiração”, “Agora tranque”, e a p. da centrifugadora a fazer girar as placas à minha volta até à asfixia, “ai, que morro da cura”, parece que estou numa daquelas competições absurdas que fazíamos em miúdos, de atravessar a piscina debaixo de água até ouvirmos um gemido que nos saía da garganta, a mim só me apetece fugir dali a bater o dente e correr para os braços da minha mãe, que me espera com uma toalha seca e macia, como macio era o abraço dela.


03/08/2022

Hoje ando em limpezas (e não são de Verão)

Fartei-me de páginas que andava a seguir, de mulheres com cancro, e hoje des-segui-as todas. Só faltou a Fernanda Serrano, que é um caso de recuperação, bonitíssima (ainda mais ao vivo do que em fotografias), e a quem outro dia descobri uma cicatriz na axila igual à minha, pelo que me senti menos desanimada com o assunto. De resto, foi tudo. É com algum remorso, mas também tranquilidade que confesso que nunca segui @ilovecancer, porque o nome da página me deixava demasiado apreensiva e incrédula. I hate cancer, want to kill it. Até a queridíssima Joana Cruz foi na cheia, zanguei-me com ela desde que cortou o cabelo, ainda ele estava curto. E uma outra, muito animada, sempre a rir muito e a achar um piadão às fases todas desta merda. No mesmo barco meti uma que foi mesmo mastectomizada e passa a vida a ralhar com a vida e os seguidores. Compreendo-a, também me apetece acabar com o mundo à dentada e à unhada, só não me apetece aturar as birras das outras, se nem as minhas aturo.
Outro dia falei com uma amiga que passou por um processo semelhante ao meu pouco tempo antes de mim, a quem o cabelo e todo o pêlo caíram até à lisura — ao contrário de mim, que mantive o meu pente um do início ao fim da quimioterapia, sem uma pelada, ou seja, não caía mas também não crescia —, e que começou a rapar quando ele começou a crescer porque não aguentava ver metade branco e metade escuro, “parecia uma porca malhada” (sic). Até tive vontade de lhe bater.
Todos os dias vou verificar se o meu cabelo já cresceu mais um milionésimo de milímetro. Há dias em que sim, há dias em que não. E esses são duros como o caminho de pedras pontiagudas, descalça, que tenho percorrido. Chamem-me fútil. Digam-me que isso não é o mais importante. Digam que “é só cabelo”. E que “cresce num instante” (um centímetro por mês, vai demorar até bater nos ombros, não?). Claro que sim, tendes razão. Mas eu quero o meu cabelo de volta. É a minha fuga? Pode ser, respondam os psis. Enquanto me entretenho com isso, não penso no cancro. Mas, de todas as dores por que tenho passado, esta é de longe a que me dói mais.