06/03/2020

As minhas doenças e eu

A cidade está numa paz podre de dar gosto. 
Obrigações relacionadas com um pecado capital levaram-me ontem e hoje à grande superfície do shopping, onde inacreditavelmente houve lugar para a viatura, elevador vazio, corredores praticamente sem pessoas. Parece Agosto, mas sem emigrantes. Significa que o povo em geral, a chunga em particular, teme-se do vírus e meteu tudo para a toca, aquela mesmo de onde nunca deviam ter saído. Na loja que responde pelo nome de uma erva de cheiro, comunicou-me a menina que me atendeu que têm uma nova colecção, da Barbie, comemorativa do dia da mulher. Esclareceu-me, ignorando o meu pasmo por estar a tentar vender a uma pessoa da minha idade gangas a dizer Barbie a cada 5 centímetros e t-shirts cheias de glitters, que "A Barbie simboliza a mulher que pode ser tudo o que ela quiser", e eu, que possuo um destrava-línguas incorporado desde o nascimento, respondi "Designadamente de plástico", porque já me bailava aquela melodia no cérebro.
De resto, e como sou não só a pessoa mais afortunada que conheço, como também a mais azarada, fui acometida por estes dias de um ataque de rinite/sinusite derivados aos plátanos, que tem sido um verdadeiro sucesso aquando em público, uma vez que me dão ataques de tosse quando e onde menos convém, originando olhares panicosos, uns de soslaio, outros mesmo penetrantes, eu só à espera que alguém me atire uma máscara daquelas que se compram na loja do chinês, oh, ironia. Acresce que fui educada a tossir para a mão (e não para o cotovelo, como alguém aconselhou), de modos que a seguir fico sem saber onde meter a mão tossida, pois parece que o germe pode ficar ali alojado e nem sempre tenho logo ali um frasco de lixívia/álcool/whisky à mão, passe o pleonasmo, tão pouco posso pegar-lhe fogo. Sei, no entanto, que gozo da grande fortuna de não frequentar transportes públicos, hipótese que, a considerar, já me teria valido uma sova linchadeira, tamanho é o histerismo mal contido das pessoas humanas que ainda não fizeram o raciocínio de que há outras que são, simplesmente, alérgicas aos plátanos. Mas esta é uma população que desconhece o conceito de água, sabão, desodorizante e roupa lavada, como explicar-lhes que era lavarem as mãos quando vão fazer chichi e cocó, rigorosamente sempre, e não só em épocas virais?
Não estou apta para desenvolver uma hipocondria desde o dia, ainda recente, em que vim a saber ter tido meningite na primeira infância. Depois fiz a lista mental de todas as doenças que tive - difteria, papeira, rubéola, toxoplasmose, varicela, sarampo, e é óbvio que também hei-de ter tido figuras afins, tipo rogéola, a 5.ª doença e outras escarlatinas (e ainda vou descobrir mais umas quantas até ao juízo final) (e vamos fazer tábua rasa de quinhentas otites, amigdalites e talvez duzentas lombrigas) -, e cheguei à conclusão de que é altamente improvável - embora não impossível, é certo - que um euromilhões saia duas vezes à mesma pessoa. É claro que o ter tomado conhecimento da minha meningite me deu a volta à cabeça (ou às meninges, se quisermos ser mais rigorosos), mas compreendo que me tenha sido poupada a informação: naquele tempo, quem tinha uma dessas, ou ficava tolinho ou morria, e, pelos vistos, eu não morri. (Partindo dessa premissa, requeri ao hospital que me atendeu um relatório médico da ocasião, mas recebi uma carta registada a notificar-me de que o meu registo daquela época já foi destruído - obviamente uma carta-tipo, parecem as respostas às minhas reclamações no livro do consumidor. Ou seja, eu sou claramente uma vítima de queima de arquivos. Vá que não me silenciaram, os mafiosos.) Hoje em dia, ou se morre ou se foi vacinado, portanto deixou de haver tolinhos com a desculpa-caldeirão, onde agora cabem todos os meus lapsos. Por exemplo, ontem, farta da tosse, meti-me num banho turco, apesar da minha hipertensão e de todas as envolvências vasculares ao nível dos membros inferiores. Acontece que decidi arriscar rebentar-me toda para ali, a bem de acabar com este mal. Foi uma experiência como outra qualquer, em que fiquei a saber o que sentiria o franguinho quando vai a assar, caso estivesse vivo. Mas confesso que os dois primeiros minutos dos dez que me aguentei lá dentro foram uma descida aos infernos onde um dia hei-de residir de vez, que culminaram numa exclamação desabafada, "Eu tive meningite, portanto eu posso", perante a estupefacção (e rápida saída. Maricas) dos ali presentes. Um alívio, o banho turco só para mim, parecia o shopping hoje pelas 11 da madrugada.


04/02/2020

certezas

Uma semana depois de ter tirado a carta de condução, levou-me a jantar fora, bem sei que a convite meu, mas também a volante dele. Sentada no lugar do passageiro da frente, posicionada entre a surpresa e a comoção - o que fizeste tu ao meu bebé, que, embora o veja em ti ainda, uma magia tão rapidamente transformou num homem? -, vieram-me à cabeça imagens que já vi tanto, os filhos e as filhas a irem buscar as mães e os pais para um passeio num dia bonito, e então disse-lhe: Um dia também vai ser assim, eu vou ser muito velhinha e tu vais buscar-me para me levares a passear. Ele fez um daqueles silêncios que me são tão próximos, percorreu com os olhos incondicionais e eternos, primeiro o retrovisor, e depois os meus, e respondeu: Mas isso já está a acontecer neste momento. 
Foi disso que rimos juntos, eu ainda assim desconhecendo onde foi parar o meu bebé, mas também com a saborosa glória de ter dado, afinal, uma ínfima contribuição para a construção de um homem bom.

03/02/2020

Sobe, sobe, balão, sobe

Fui mandada parar Rosinha, minha canoa, em plena via. O senhor agente bateu-me (não literalmente) uma quase imperceptível continência (não urinária) e proferiu: "Boa tarde, senhora condutora". Eu lá titubiei uma resposta, creio que em devolução aos votos dele, e obedeci quando me solicitou gentilmente a documentação toda, minha e da viatura. Tinha, naturalmente, um papel/cartão em cada canto da casa/carro, parte na malinha, parte no porta-luvas, algo na bolsa lateral da porta do passageiro, ainda algo pespegado no vidro da frente, como manda a lei. Depois de ter verificado tudo com uma minúcia meio simulada, meio efectiva, perguntou-me se algum dia soprei no balão, embora eu considere que deveria ter-me antes perguntado se algum dia me submeti ao teste de alcoolemia, por uma questão de rigor técnico e terminológico. No entanto, e uma vez que compreendi o alcance da questão, respondi a verdade: que não. Vai ele e convida-me a fazê-lo, e eu, por acaso pouco dada a experiências inovadoras, saí do carro e percorri com ele os trinta metros que nos separavam da improvisada banqueta, onde se encontravam mais agentes vestidos de igual a ele e um pequeno aparato de aparelhos de medição e tubos de plástico descartáveis. Nunca tinha andado na rua lado-a-lado com um polícia, mas até nem correu mal, dado que, pelo menos, o homem não me algemou. Lá chegados, apercebi-me da presença de uma senhora, assim com idade para ser minha mãe, que acabara de ser vítima da mesma sorte, ou seja, já soprara no balão e estava a arrumar os papéis todos numa bolsinha de plástico, enquanto recebia o seguinte elogio: "É a primeira pessoa que nos aparece aqui com os documentos todos certinhos e organizados". Logo me insurgi suavemente, ripostando: "Então e eu? Não tinha os meus também...?", ao que recebi como resposta: "A senhora não tinha a bolsinha". Note to self: comprar/fazer/roubar, enfim, arranjar uma bolsinha florida, almofadada e maricas para a documentação de Rosinha. Então, foi-me explicado que deveria soprar lá para o tubinho que encaixava na máquina medidora, deveria ouvir um apito e, quando deixasse de o ouvir, deveria também parar de soprar. Eu, armada em boa, ainda argumentei estar sem fôlego, pois fora correr cinco quilómetros nessa manhã, mas tal só veio aumentar a confiança nos agentes de que eu faria uma boa prestação, pelo que me abstive e pronto, calei-me e soprei. E soprei com uma força tal, já o apito se esvaíra há que segundos, que o agente teve que me arrancar o cigarro plástico da boca, não fora, sei lá, avariar a geringonça, tudo isto ao som mental de Sobe, sobe, balão, sobe, da brava Manuela, apesar de o coiso parecer tudo menos um balão, e assemelhar-se mais a um aparelho de medição de tensão arterial, daqueles que eu ando para fazer explodir cada vez que uso. E o meu resultado, vergonhoso ou não, foi zero, ponto, zero, zero. Um autêntico zero à esquerda, bastante sóbrio, parecendo que não. Uma frustração a registar: condutores como eu, cujo resultado seja igual a zero, deveriam receber um balãozinho de hélio, pá, tipo prémio de consolação pela sobriedade. Ou então, uma coisa um nico menos infantil: uma largada de balões por cada sóbrio que se descortine no trânsito. Ainda vou chagar o ministro da Administração Interna com esta ideia. 



23/01/2020

Sobrevivi à não entrada na segunda década do século

É que há quem diga que entrámos na segunda década, mas eu professo aquela outra teoria de que só de zero para um é que passamos a contar o um, portanto ainda estou na primeira década do século, já vocês não sei.

(Este post também poderia chamar-se Eu tenho problemas com médicos #365, mas derivados a desconfiar que quem nesta relação tem os problemas são eles comigo, decidi colocar outro título, aleatório, como quase todos, porém certeiro.)

Iniciei o ano com mais uma gastroenterite, o que não me valeu de nada, pois, desta vez, só me deu fome. O meu estômago parecia um recém-nascido, a pedir alimento a todo o instante, foi uma fortuna só em pastelaria. Fiquei mais gordinha, de um rechonchudo comovente, pelo que terei de tratar do assunto, não sei exactamente por que via. Já faço desporto que me baste, continuo a correr os meus 5 km uma vez por semana (outro dia corri 6 porque me enganei nas contas, e não foi dramático), fora as aulas de dança, mais as da bola de Pilates (o magro) e alteres, mais a piscina e o genital. Alimento-me sem grandes disparates, portanto só o avanço da idade é que justifica que não emagreça, mas caguei (não literalmente). 

Mais ou menos em simultâneo, tinha um sinal no pescoço que foi crescendo em comprimento, e embirrava com as golas, os colarinhos, o cabelo, os colares, os lenços, o cinto de segurança, em suma, comigo. Um dia fartei-me, liguei para a minha Derma e lá fui tirar o coiso. Ela pôs-se a desinfectar a zona com um algodãozinho, e nisto o sinal caiu-lhe não aos pés, mas no próprio algodão. Fim. Nem tive que pagar a consulta, um show. (Devia ter trazido o sinal para mandar fazer um pendentezinho para um colar, mas só me lembro dessas coisas quando os meus restos já estão no lixo hospitalar ou sei lá para onde vão estas relíquias.)

Passados uns dias, fui ao meu Vascu, aquele que me pica os derrames, a ver se não chego ao Verão com duas chouriças de velha. Quando entrei, verifiquei que o cinzeiro que costumava estar cheio de bombons com os quais eu enchia os bolsos, tinha apenas quatro. Para não dar muita cana, retirei três e queixei-me que havia poucos chocolates no cinzeiro. Vem de lá a mulher do médico (categoria que, como se sabe, tem um curso de Medicina tirado por osmose, embora esta seja mais cartomância, vidência e, nas horas vagas, assistente de consultório) e diz-me que já tem muito poucos, que posso provar um, mas não posso levar para casa. Imagine-se. Entretanto, a minha consulta estava marcada para as 14:30 e eu chegara às 14:20, pelos vistos para levar com estes contratempos. Então, ainda eu não rarefeita do choque, pergunta-me ela assim: "A senhora das duas ainda não chegou, quer esperar ou entrar já?". Eu juro que só vi uma galinha à minha frente, vá que não sou de torcer pescoços, por isso respondi, impávida: "Esperar para quê, Dona Senhora? É óbvio que quero entrar já". Só que a campainha tocou, a das duas entrou às 14:25, de modos que me calhou uma espera de meia-hora totalmente sem lógica, durante a qual, à falta de mais o que fazer (havia sido brindada com "a última", onde constavam notícias do género que Cátia Aveiro fez uma descrição da sua primeira vez com o último engate, "Foi numa cavalariça e quiseste logo montar" e também de que "Ângelo Rodrigues tatuou a perna que infectou", tudo coisas para me obrigarem a concluir que a estupidez humana nem no céu encontra o limite), pelo que lá me vi compelida a enfiar os tais três míseros bombons bolsos adentro. Já não ia a este médico há seis meses, das últimas vezes que fui a consulta tinha passado de 60 para 80 pacas (com a justificação de que "as ampolas estão cada vez mais caras"), mas como aquela tabela é um bocado à balda e quem determina o preço é a mulher dele, não sei se antes se depois de consultar o oráculo, resolvi levantar 100. Por isso, à saída questionei-a sobre qual o valor a pagar pela consulta, ela fez uma pausa para reflectir a fórmula matemática e as variáveis a considerar, e sai-se-me com esta, ao cabo de sei lá, três segundos de reflexão: "Sabe, as ampolas estão cada vez mais caras, a consulta aumentou um bocadinho". Eu com o porta-moedas cheio de notas azuis, preparada para deslargá-las, ouço, em conclusão: "São 60 euros". Paguei sem protestar, com os bolsos cheios de chocolates.