30/06/2017

pílula da felicidade

A cadeira de rodas dela impedia a minha saída da loja onde se toma café, se compram revistas e jornais, se joga a sorte maldita de nunca se acertar nos números certos, mas hoje era dia de fezada (prima demasiado afastada da fé), e tinha que jogar os dados para criar a infinitésima possibilidade. 
Parei diante dela, que fez tenção de recuar a cadeira para eu passar, e pedi que não o fizesse, pois podia esperar, mesmo não podendo. Uma cara muito negra, muito linda, rasgou-me um sorriso brilhante de pérolas brancas, e pediu para o balcão, logo ali, uma pastilha elástica. 
De morango, especificou. E ele, que podia ter aproveitado o meu braço estendido, cometeu a delicadeza de sair de detrás do balcão para lhe ir entregar a grande e doce encomenda à mesma mão que segurava a pequena e fria moeda. Rejeitando o pagamento, sorriu de volta ao sorriso ainda não desfeito dela que eu entendi meu — quem sabe nunca se desfaz —, e disse 
Não levas nada
e eu entendi que não levava mesmo nada, para o tanto que ali deixava. Foi o instinto — não sei qual deles —, ou foi uma força qualquer que me empurrou para o balcão, para pedir, exactamente, uma pastilha de morango. Paguei-a então com moeda metálica, por ali não deixar nada. 
Já na rua, toda cheia de sol, ouvi-lhe no mesmo sorriso,
Desculpe...
Ora, de quê? 
Se levo tanto. 
Deus, ou outra força qualquer, permita que não ganhe o prémio do jogo esta semana. 


29/06/2017

Não sei se concordo com estas mensagens, mas também, eu sou tão esquisita...


E está uma pessoa no Hospital da Luz, entretida à espera, primeiro de ser admitida, depois de ser chamada, e aquele ecrã das senhas de vez, pim-pim-pim, desconheço como é que se trabalha num local assim e não se chega ao fim do dia com os nervos em frangalhos, devia mesmo ser considerada uma profissão de alto risco, ou desgaste rápido, ou alto desgaste, ou então de desgaste risco, ora se eu só lá estive uma hora da minha vida e é isto, que direi. Assim, de repente, do nada, o mesmo ecrã passa pequenos filmes publicitários, aquilo dos spots, e surge-me aos estupefactos olhos o da Mustela*, logo a minha Mustela, que eu tanto amo e me cheira sempre a bebé meu, a anunciar a sua gama, o leite corporal para bebé, o bebé praticamente nu a ser massajado com o creminho, depois o bebé está efectivamente nu e é uma menina, se não me falha a memória, logo a seguir vem o grande plano da genitália da criança, com a desculpa de se passar ali o tal creme, e a cena dura segundos a mais (dois, três), e, quando todos (?) pensamos que aquilo não pode ir mais longe, então não é que vai?, e ainda há umas mãos cuidadosas que vão espalhar pomada da fralda ali mesmo, onde já havia passado o creme, e são mais dois ou três, ou lá quanto tempo dura a dita operação, de um close up do pipi (que escusado será dizer que é) de uma menina.

Doentes, utentes e outros passeantes do Hospital da Luz: nenhum de vós é pedófilo, verdade?

* Ninguém me paga para me calar. E ainda que pagasse.

Post interdito a machos # 3

As verdades são para serem ditas.
Isto não pode ficar assim.

Hoje vimos aqui falar de sutiãs, aquela peça. Já não é a primeira vez que o fazemos cá no espaço cultural, pelo que já não dói tanto. Lembro-me até de uma vez ter escrito um sentido trecho acerca de dois dos meus sutiãs — um branco e um preto —, que se reproduziram e brotaram no Mundo um terceiro elemento, rigorosamente igual ao branco (Mendel e suas leis têm destas idiossincrasias, não podia o filho ter vindo cinzento?), milagre reprodutor que ainda hoje não resolvi dentro da minha cabeça ou sequer da minha gaveta. 
Ora, acontece que esses dois — que passaram a três — fornicadores, eram fabricados pela Triumph*. E foram caríssimos. Há para aí uma década, custaram 25 paca cada um. (Eu já devo ter sido rica e não me lembro.) A cena de não vestir sutiã preto sob roupa branca nem vice-versa, obriga-me a esta dualidade constante, seja qual for o modelo que adopte. Este ora em discussão, era cai-cai e, como a grande maioria dos sutiãs desse tipo, tornou-se, com o passar dos tempos, um pequeno inferno que cai e cai e puxa as meninas para baixo (como se elas precisassem de desculpas para o fazer, a Natureza é exímia nessas merdinhas), para além de terem uma banda de silicone que se agarrava à pele e a mim me punha numa suadeira de dar dó por um lado, e repugnância pelo outro. O desconforto era tanto que já evitava blusinhas de alças e tops sem alça nenhuma. 
Ora, acontece também que este ano se usa tudo sem mangas, sem ombros, com alças fininhas, ou sem alças. E eu lá sou mulher para andar a exibir a alça do sustentório mamário, ou para aguentar a alça de silicone, que se rebenta, que se solta, que se agarra daquela maneira? (Sim, podeis gozar, sou alérgica ao latex também.) E fui descobrir na Primark** o belo e excelente e único e óptimo sutiã cai-cai, que dá pelo nome de Multiway (porque traz alças, que se podem colocar em paralelo ou cruzado), e custa 7 euros. Eu repito: sete euros. Aquilo põe-se e nunca mais sai do lugar — nem ele, nem as petizas —, ainda que uma pessoa corra, mesmo que salte, até que dance a lambada e a estalada. A sério. Nunca tive sutiãs tão bons na minha vida, nem nunca mais quero ter. É que nem apetece tirá-lo para dormir. (E tomara que não caia.)

(Podia ter ilustrado isto com fotografias, pois podia? Era. Mas os meus, não fotografo por razões óbvias. E as fotos que estão na nettinha são tão más, que resolvi fazer assim, desta vez.)

* Ninguém me paga para me calar
** Ninguém me paga para isto

28/06/2017

And that awkward moment # 30

em que entras numa farmácia pela primeira vez (pois que abriu há pouco tempo), deparas-te com um jovem ajudante, e pedes-lhe uma pomada para as nódoas negras?

E ele fixa o olhar em alvo, sorri, desconcertado, e confirma: "Nódoas negras?". E tu que sim. E insistes: "Nódoas negras". Pausa para observares o pânico-apreensão-incredulidade. Só lhe sai "Mas". E depois, "Mas... como?". "Eu tenho nódoas negras...", dizes, com o ar mais natural que encontras (só faltando desatar a assobiar a melodia d'A ponte do Rio Kwai). "É para si?", pergunta o já esbugalhado aprendiz de feiticeiro. "É. Para as minhas pernas". Depois desta revelação, precisas de mais uma pausa de, vá, milissegundos, para apreciar o brain freeze que provocaste — talvez se questionasse intimamente, Chamo a polícia?  | Chamo a carreta do manicómio, e eles que tragam o colete? | Chamo a Segurança Social? | Quem raios tem competência para tomar conta disto? —, e só depois te sentes com à vontade para lhe contar toda a verdade: "Quando vou ao médico picar os derrames, fico com nódoas negras. Preciso de levar Thrombocid, se faz favor".

[Também podia ter dito que pago a um médico para me espontapear, mas, como depois tenho vergonha das marcas, disfarço-as com pomada.]