23/10/2022

Les uns et les autres

Abraça-me sempre, dá-me dois beijinhos e pergunta “Querida, como é que estás?”, mesmo que haja ali um grupo de pessoas, só me cumprimenta a mim, porque eu sou a que esteve doente e sabe-se lá o dia de amanhã, mas sinto que as pessoas gostam mesmo de mim, algumas passaram a gostar, outras sei lá, noto uma benevolência, uma distribuição de sorrisos, uma graça em tudo o que digo, ou então uma verdade inegável, tudo a achar-me giríssima, pareces uma actriz francesa dos anos sessenta, eu mentalmente “Mas qual?”, também sorrio, pareço mas é eu com seis anos, mudando o que há a mudar, então ela toca-me no cabelo e eu sinto-me invadida como durante as gravidezes e alguém sem ser o pai me tocava na barriga, larga o que me pertence só a mim, não profanes o que me é tão caro, ela fica de olhos abertos, pondera uns segundos enquanto observa o meu cabelo, eu balbucio qualquer coisa como “Está impregnado de espuma, a ver se fica quieto no mesmo lugar”, depois diz, sem convicção alguma “Eu gosto…”, e afasta-se a sacudir o dela, amarelo e empalhado, antes o meu, castanho e curto, antes o meu, nunca invejei a barriga das outras, nem mesmo quando perdi o filho que havia de ser o terceiro.

Prefiro a louca loura, toda kitada, até a cor dos olhos é falsa, mas ela é toda verdadeira. Figura pública, podia ser só peneiras, apanhou-me em cheio um dia em que me senti mal na dança, encheu-me a cara de beijos, perguntou: “Já compraste a cabeleira?”, “Sim, e é linda”, a mim só me faltava o ranho e a baba do desconsolo, mas ela sem desarmar, “Compraste loura?”, até me fez rir, a destravada. Eu gosto de doidos, não sei porquê. Hoje viu-me a lavar as mãos, agarrou-me um braço e disse: “Estás boa, querida? Ena, já com tanto cabelinho!”, e demos uma boa turra. Nunca ninguém me tinha cumprimentado com uma turra, mas garanto que soube melhor do que qualquer abraço. Os doidos têm um coração maior do que os certos das ideias.


20/10/2022

Entrançar a tristeza

A minha avó dizia que, quando uma mulher se sentisse triste, o melhor que podia fazer era entrançar o cabelo, desta forma a dor ficaria presa entre os cabelos e não conseguiria chegar ao resto do corpo; tinha que ter cuidado para que a tristeza não se metesse dentro dos olhos, porque os faria chover, tampouco era bom deixá-la entrar nos nossos lábios pois os obrigaria a dizer coisas pouco certas. Que não se meta entre as tuas mãos — dizia-me — porque podes torrar demasiado o café ou deixar a massa crua. É porque a tristeza gosta do sabor amargo.

Quando te sentires triste, menina, entrança o cabelo; agarra a dor na madeixa e deixa-a escapar quando o vento norte vier com força. 

O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes de uma árvore e macio como a espuma do atole. Que não te apanhe desprevenida a melancolia, minha menina, mesmo que tenhas o coração partido ou os ossos frios por alguma ausência. Não a deixes entrar em ti com o teu cabelo solto, pois ela fluirá em cascata pelos canais que a lua traçou entre o teu corpo. 

Entrança a tua tristeza, dizia, entrança sempre a tua tristeza.

E, na manhã em que despertes com o canto do pardal, vais encontrá-la pálida e desvanecida entre o tear do teu cabelo. 

Traduzido, na medida do possível, do original de Paula Klug, via Instagram Cultura Inquieta.


Ainda me faltam alguns centímetros de cabelo para poder entrançar a tristeza de não o ter.


12/10/2022

A planície, afinal e a final, não existe

Foram muitos meses a ansiar pela planície, vendo-me — quantas vezes de fora para dentro — a escalar montanhas que nunca algum dia sonhei, nem nos meus piores pesadelos, assistindo à minha própria degradação física, combatendo-a com as unhas que me sobravam e os dentes intactos, fugindo de mim com o argumento do cabelo, quase dormindo de cabeleira posta, que aguentei durante a canícula e já com cabelo meu nascido, agarrada à convicção de que, quanto melhor disfarçasse os sinais da doença, menos ela teria hipótese de me esmagar contra o espelho, sempre maquilhada, sujeitando-me a procedimentos estéticos como o das sobrancelhas que, caramba, me fizeram feliz, cheguei aos cinquenta e cinco anos e foi um par de sobrancelhas semi-tatuadas sobre as que não me caíram totalmente que fez de mim uma mulher feliz.

Subi as três montanhas que me propus, ou que me foram impostas a troco da minha vida — quimioterapia, cirurgia, radioterapia —, muito pouco valentemente, é verdade que sem uma lágrima, mas isso é porque não as desperdiço com nada nem ninguém que não sejam os meus filhos, também sem um lamento, a não ser quando um dos meus pés ficou sem unhas e as mãos purgavam — só quem passou conhece o suplício —, sem uma pesquisa na internet por mera cobardia, poucas queixas aos médicos, eles a acharem-me um pouco estúpida, a pobre não sabe o que tem, deixem-na viver na ignorância. Pedras no meu caminho, senhores doutores? Meto-as todas nos sapatos e continuo a caminhar até ter os pés em chaga e aí, sim, ter motivos para ai Jesus.

Pensei que a planície fosse um lugar de paz e tranquilidade mental, que me sentaria num tronco de árvore, a fumar o meu charuto, como um velho do Oeste, só a perscrutar o horizonte, mirando a linha dourada onde a paisagem se some, atenta à possibilidade de o monstro dali surgir a trote para me devorar de novo, mas, afinal e a final, a planície não existe, é apenas um enorme buraco branco — onde não há tratamentos nem injecções nem enfermeiras e uma pessoa fica sozinha, ainda mais, sem saber o que fazer ao tempo que (ainda lhe) sobra —, que vai diminuindo de tamanho e profundidade, até que um dia há-de sair dele pelo seu pé sem olhar para trás, pronta a subir as montanhas que lhe surjam aos olhos, com pedras nos sapatos, se for o caso, e, se tiver que ser, aos gritos de ai Jesus. 




04/10/2022

And that awkward moment # 68

em que ligas para o consultório do dentista dos olhos bonitos — não pões lá os pés nem os dentes há mais de um ano, e ouviste dizer, leste ou sonhaste que a radioterapia amarelece os dentes, não que tenhas notado, mas já agora —, e te atende Sónia. 

Sónia, para quem tem memoráveis hiatos de memória, é a assistente do dentista, que está certamente apostada em asfixiar-me através da aspiração das minhas amígdalas (“amigas” para o povo), e que, com a desculpa assente nas cavalitas das muito largas costas do Covid, me entrava gabinete adentro com duas máscaras, uma viseira, uma touca, uma bata descartável completa, com mangas compridas e até aos pés, e luvas. Sem dúvida, para me aniquilar sem deixar vestígios, se não com o aspirador do cuspo, pelo menos de susto. 

Pergunta-me Sónia se estou “melhorzinha”, eu que sim, que já acabei os tratamentos há três semanas, ela então manda o primeiro tiro e eu sem perceber, “Então já teve alta do médico para vir ao dentista?”, como se estivesse a perguntar-me se já podia ir à praia ou correr a maratona em flic flacs, eu encharcada em nervos e paciência, “Sónia, eu já acabei a radioterapia há três semanas, posso e devo ir ao dentista. Certamente que não sou a primeira pessoa que consulta o senhor doutor nesta fase da doença”, e então dá-se o momento em que ela me atira a segunda bala, que poderia ser fatal, não estivesse eu habituada a lidar diariamente com humanos: “Via oral?”.

Não fiquei imediatamente estupefacta porque achei que ela se tinha enganado/ baralhado/ embebedado entretanto. “A radioterapia?”, “Sim.”

Pois, morreu-me um neurónio. 

“Sónia, o nome diz tudo: radioterapia é por radiação, não existe em comprimidos.”

“Ai é?”

Quando desliguei, tive vontade de chorar um niquinho. Então, como sempre, ri até à pré-asfixia. Eu bem digo que aquela mulher um dia me mata. Se eu não voltar aqui, já sabem.