03/04/2016

Podia levá-la para o concurso, mas não podia


Não fui eu que tirei esta fotografia, e isso impede-me: não iria concorrer com algo que não me pertence.
O concurso já está cheio de gatos, e isso impede-me também: não se trata de mais um, trata-se dela. 
Tenho mais duas gatas em casa, que bem podia fotografar, por serem ambas lindíssimas, mas isso também me impede: uma delas, só veio por já não a ter a ela. 
Todos os animais do concurso estão vivos, e isso também me impede: sem outra explicação — que ainda não ma consigo dar —, é o factor mais doloroso de todos os impedimentos que me surgem, logo à cabeça.
Mas a falta que ela me faz, o desgosto que me aperta há quatro meses, essa sim, é a maior razão que me impede de a levar para outro lado que não seja o do meu coração. 

[a propósito disto. Desculpa, Fli. Desta vez, salto.]

02/04/2016

Para a Be, para o (já também um niquinho meu) macaquito mais querido


Neste dia, tão especial e tão importante para ambos, e para todos os que hoje o assinalam: conforme prometido, uma peça azul.
(E chegou a ser o vestido azul, mas entrei em modo auto-briga, na dúvida se aquilo era azul ou roxo, e então mudei. Como se não soubesse que existem tantos tons de azul, que até de encarnado me poderia ter vestido, pois que há-de existir um azul-encarnado, lá no meio dos pigmentos, assim como haverá um azul-verde, e um azul-amarelo.)



01/04/2016

Pergunto-me como se orienta um mentiroso compulsivo no dia de hoje

(Eu sou dada a estes questionários existenciais.)
Faz uma pausa na compulsão?
Mente na mesma, permitindo que toda a gente lhe chame mentiroso, por um só dia no ano?
Só diz verdades-verdadinhas, verdades como punhos, verdades absolutas, verdades daquelas que só estão no fundo de uma garrafa ou na boca de uma criança?

Ressalva prévia, tipo prólogo das minhas coisinhas, para dizer que eu gosto de gente imaginativa, de gente viva, de gente delirante. Pode até ser um pouco louca. Mas também gosto que conheça os seus próprios limites e os meus, e saiba distinguir a realidade da ficção — mesmo, e principalmente, aquela que é sua obra criativa —, o que viveu do que sonhou à noite, no vale dos trapos em que se enrola quando cai a noite na cidade, ou lá pelas aldeias de onde é natural, naturalmente.

De entre outros que já me passaram pela vida, mais ou menos cómicos, conheci em tempos uma mentirosa compulsiva, daquelas da deslavada, que chegava ao cúmulo de se perder nas suas próprias tangas, tamanho era o estendal em que as pendurava, pendurando-se delas. Basicamente, nada do que dizia era verdade, muito em particular as historietas que relatava, designadamente quando — e era sempre — ela era a figura principal daqueles enredos. Mais tarde, casou-se com um grande mentiroso, pessoa bastante respeitada na área, pelo que, naquele caso, não se estragaram duas casas. Desconheço completamente em que dimensão é que estes dois vivem nos dias de hoje e de amanhã, se dá para terem um diálogo trivial sem que desconfiem que o outro lhes está a mentir (Fechaste a porta? - Fechei; Queres mais pão? - Não; Sabes se há ovos no frigorífico? - Há), vivendo perseguidos pela própria mania, ou se são felizes assim, nem colocando a possibilidade de, assim como tão bem (ou tão mal...) mentem, o outro lhes possa estar permanente e reciprocamente a mentir também.
Ora, deu-se que a amizade com aquela dupla rompeu toda pelas costuras, porque parecia mesmo uma mentirinha: hoje eu contava-lhe um episódio que aconteceu comigo — que, conforme sabeis, sou protagonista da melhor sitcom da minha vida. E também da sit-tragi — e, o mais tardar para a semana, recebia ouvidos adentro (ou boca adentro, tal era a dimensão com que a pobre ficava) a mesmíssima história, mas em que, ha-ha, tudo se processava na primeira pessoa: a dela. 
Ora, isto cansa. Desgasta uma relação. Desgasta uns nervos. Desgosta uma pessoa humana.
O pináculo deu-se no dia em que me garantiu que a filha, com quatro meses, já gatinhava. E eu, apesar da paralisia maxilar, ainda fui capaz de responder, às escancaras, um fio de baba escorrendo pescoço abaixo (vá, esta parte é mentira, mas hoje a mulher pode):
- Vaizépôlanochãoagoraeaquiquéssasóvendoparacrercomosãotomé.
Ela pô-la. E a miudita, subitamente, não se moveu. Nem gatinhou, como os gatos, nem se arrastou, como os invertebrados todos. 
Pronto, isto passou-se. Assim como a amizade, que, qual invertebrado, ou qual gato assanhado, se deslocou para muito longe, e nunca mais a vi.

Ainda hoje não sei se estas pessoas nunca saíram da faixa dos 3 aos 6, em que a realidade e a fantasia são a mesma coisa, mais os super-heróis, as fadas e os unicórnios, ou se se convenceram de tal maneira que os outros são todos parvos, que passam a vida inteira a fazer figuras disso mesmo.
À cautela, corri com ela (e, pelo mesmo caminho, com ele). 
(Quem rima sem querer, é amado sem saber.)


E chega ainda o dia em que

alguém não te reconhece porque te falta A barriga.
———
Passaram mais de dez anos sobre a última vez que nos tínhamos visto. Ela estava de costas, a servir-se de um café, os gestos hesitantes, a cabeça levemente inclinada para a frente. Eu fui fazer um chá, e, enquanto esperava que a chaleira eléctrica aquecesse a água, encostei-me na bancada, de frente para ela.
— Olá! — E rasguei um ruidoso sorriso, autêntico. 
Fomos vizinhas há muitos anos, durante talvez uma década — a minha década de árvore de fruto —, até que ela se foi, quando o escândalo lhe estoirou em cima e lhe detonou o casamento. Na época, era uma figura meio caricata, de senhora desocupada e extremamente vaidosa, vagamente profissional da decoração, estritamente dedicada à cirurgia estética na óptica do utilizador. A imagem de boneca  que meticulosamente construía, transmitia-me a ideia de que nas artificialidades de cada um também moram as suas fragilidades, e foi por isso que nunca deixei de sentir alguma simpatia por aquela pessoa. Vê-la agora, envelhecida pelo tempo, muito maquilhada, fez-me considerar se, também eu, um destes dias, não estarei assim.
— Desculpe... — Disseram-me os olhos muito abertos, as lentes à vista, as reveladoras manchas na íris — não estou a ver...
— Fomos vizinhas, há uns anos, não se lembra de mim, Filomena?
— Não estou a reconhecê-la...
Esqueço-me constantemente que, se os outros mudam pela passagem do tempo, também eu sofro alterações, mais ou menos subreptícias, mais ou menos cruéis. Em segundos, procurei lembrar-me de mim, de como era na época em que morámos na mesma rua, revi o cabelo, revi a maquilhagem — tive uma breve fase de bâton escarlate, quem sabe não seria isso...? —, revi qualquer pormenor que pudesse identificar-me no passado e desidentificar-me agora, não era muito mais magra, nem muito mais gorda... stop.
— Falta-me a barriga de grávida? Lembra-se de mim, sempre grávida?
E a luz da memória, acesa como um holofote:
— Oh, sim, já me lembro. Acho que nunca a tinha visto sem a barriga. Você... teve quantos, afinal?