05/11/2015

Lisboa dói

Esta chuva que não se decide se cai, se fica, se veio para ficar, se amanhã já não está. 
Lisboa é uma cidade dolorosa, quando chora assim, e nas horas amargas em que a noite chega e cai. Há horas que doem, em Lisboa.
Quando a noite cai, a chuva não.
Lisboa é uma cidade piedosa, tudo se arruma, todos cabem, há sempre lugar para mais um, acrescenta água ao feijão. 
Atravessa-se, enorme, de um lado ao outro em menos de quase nada, vê-se quase tudo. Parece um ilhéu.
Lisboa é uma cidade impiedosa, toda embutida de recordações e lugares incomuns, sítios que ainda lá estão e nós já não. Tem um espelho mais reflector do que o da alma, que nos mostra o que já fomos, e deixámos de ser. 
A casa onde vivi com os meus pais, intacta. Não me fica em caminho, está sempre trânsito na avenida, mas passo lá uma, duas, sete vezes por semana. Intacta, nós é que não.
A primeira casa onde moraram quando se pertenceram inteiros, inteira. Nunca lá estive, apetecia-me vê-la por dentro. Para confirmar se está mesmo lá.
A casa onde nasci, em pé.
A Feira Popular, que se vai, já foi há tanto, parece que agora volta, mudando e mudando-se, mudada.
Em cada rua do meu percurso estive toda, e estou um pouco, ou está um pouco de mim. 
Talvez um dia passe por aqui e me lembre que já fui eu aqui, já fui daqui e, se calhar, tenho saudades também de mim hoje.
Por enquanto, para já, resta-me descolar de cada recanto dela os bocados de mim que a cidade guarda, invisíveis até para mim, e esperar que ela me devolva, piedosa, o que me falta, quem me falta — e, se não o puder fazer, ao menos que me guarde a mim, inatingida, inalterada, ilesa.

Quando eles crescem, continuam a dizer gracinhas # 3

Existe um moinho de pimenta cá no lar, que tem vinte e dois anos, mais exactamente vinte e dois e meio (o que, em termos de diarreia, pode fazer a diferença de ter apenas vinte e dois). A pimenta preta, em grãos, que lá está contida, tem, igualmente, e pelo menos, vinte e dois anos e meio, se considerarmos o altamente improvável de a pimenta ter sido metida no moinho no dia em que ele foi comprado (e não, porque foi numa loja de decoração, portanto, estaria lá há meses).
Estamos a preparar o jantar, ela mói pimenta preta para o tacho e, do alto dos seus vinte e um anos, diz:
- Sinto-me uma menina da Playboy, a comer uma coisa mais velha do que eu.

(Estou rodeada de quem me quer ver a rir.)
(E sim, as gracinhas dos adolescentes e dos jovens são totalmente diferentes das dos bebés e das crianças.)

04/11/2015

Talidomida

Hoje vi-me com o peso do mundo sobre os ombros, mas não foi nada de metafórico, foi mesmo literal, porque carregava um saco com quinze quilos num ombro e outro com oito no outro, e eram vinte e três quilos de sacos, para mais de um terço do meu peso total. É que, se o mundo — o tal que me pesava nos ombros naquele momento —, fosse dividido entre magros e gordos, uns para um lado e os outros para o outro, eu ia para o lado dos magros. Sou magra, tão magra. Naquele momento, eu era a pessoa mais magra do mundo, imagine-se que até tive que subir umas escadas, uns quinze degraus de calçada portuguesa, sem patamar de segurança. Se caísse, eram quinze, quinze pancadas até ao chão, quinze piruetas sem rede, havia de custar um bocado. Ao alto das escadas estava um homem a sorrir e acho que não tinha braços, porque não lhos vi estendidos, depois desci as escadas com os sacos a pesar ainda mais, apesar de todos os pesares, pus um saco no chão, desci com o outro, e então vi um homem sentado no alto das escadas, a descansar de ter estado a aparar relva, mas acho que também não tinha braços, porque não mos estendeu. E um outro, à porta de uma loja, também sorria de me ver passar albardada, mais um que não devia ter braços, não sei, pois não reparei, de pesados que levava os meus. Cruzei a porta onde moro, saiu de lá um homem sem braços, que me desejou bom dia e, coitado, comentou que carregada vai. Felizmente que eu não tinha caído pelas escadas abaixo (teria dado quinze pancadas), mas, ao menos, fiquei a saber por que é que há tantas mulheres que caem — será que se atiram? —, tanta falta de braços, tanta falta de abraços.


Antes que me esqueça,

tenho que registar o quanto gosto de papoilas. São frágeis e selvagens e vermelhas. E trágicas. É impossível fechá-las em casa, metidas numa jarra. Antes de isso acontecer, desfazer-se-iam, desfolhadas — ou melhor, despetaladas. 
Despetalada seria mesmo a mortis causa, caso houvesse registo de acontecimento tão triste.

Claude Monet
Les Coquelicots à Argenteuil 

1873 (Musée d’Orsay, Paris)