02/11/2015

Mais Moisés do que Cristo

era eu hoje, mais meu boi, a atravessar as águas tão plúvias que se esbategaram infirmes, firmamento abaixo, espelhando-se num espalhanço de brutal estardalhaço em plena A5. 
Não me lembro de ter conduzido em autoestrada, alguma vez, no meio de tanta água. Não sobre as águas, mas através delas, daí o título disto. Sabem o que é não se ver um genital, um picinho que fosse? Assim era eu, com minhas zero vírgula vinte e cinco dioptrias, no meio do tudo, a tentar visionar algum obstáculo na via, não fossem os gatos todos lembrar-se de ir para ali passear hoje. Por acaso, ele surgiu, sob a forma de um carro branco, na faixa do meio, a cinquenta quilómetros à hora (eu sei porque me meti atrás e olhei para aquele coiso que bufa as verdades todas), o qual, cansada de amandar com máximos para cima, ultrapassei e verifiquei tratar-se de uma senhora de idade, que devia ir em pânico, mas que me provocou o pensamento machista do dia, "Olha que esta também estava boa para o calendário", e vai de raspa-te, antes que a ela lhe desse a vontade louca, e, apesar de eu não saber qual nem de quê, me envolvesse a mim. 
No rádio, as notícias do trânsito soavam-me a poesia, por outras associações e aliterações que encontro no texto: problemas de circulação, e penso hahaha, o trânsito tem varizes — em Avintes, na A29, e parece-me uma piada, que seria ainda melhor se fosse com a A20.
Sentia-me eu Moisés, a atravessar as águas do Mar Vermelho, quando me surgiu esta ideia em catadupas, como um raio dos que não caíam naquele momento, mas igualmente fulminador, como são todas as que, suavemente, me atingem em cheio: eu tenho muito medo de andar de avião. Tenho medo que o avião caia comigo lá dentro. Tenho medo que leve uns minutos a cair e que eu perceba que esses são os últimos minutos da minha vida, e até tenha pena.
Quando era pequena, tinha medo de andar de elevador. O elevador do prédio onde morava estava constantemente a ficar preso entre andares, e aconteceu, uma vez ou outra, estar sozinha lá dentro e ninguém ouvir os meus gritos. E era impossível dar pontapés na porta metálica, porque o que eu tinha à frente era uma parede (entre andares). Resolvi o meu medo deixando de o ter: tantas foram as vezes que fiquei fechada dentro de elevadores, que passou a ser normal, o que, em vez de bloquear de pânico, passou a ser um desbloqueador de pânico. Tanto que uma vez me meti, com mais cinco marmanjos, com idades para termos juízo, num elevador com capacidade para três, e aquilo desceu até às molas, na cave — às escuras, sexta-feira, fim da tarde, zero pessoas no edifício que nos pudessem ouvir. Telemóveis, uma miragem de futurólogos e outros Zandingas parecidos (sarava, irmão, fica). Saímos todos vivos, parecíamos mineiros chilenos, mas um nico descompensados, a rir. E sim, foi num centro paroquial, antes que perguntem e se é que ouviram falar. Deve ter passado na televisão chilena.
Ora, para resolver este medo de andar de avião, a solução seria parecida, não fosse ela mais ou menos inviável: era entrar, vezes suficientes, em aviões que caíssem, até perder o medo de cair. 
Atravessava eu o dilúvio, atravessavam-me a mim estes pensamentos, quando me lembrei que já atravessei por cima do mar uma vez, por amor. Apesar do medo. Para além do medo. Acima do medo. Não fui Moisés, nem fui Cristo, fui apenas uma simples mortal, morta pelas saudades. 
E sei que hoje, apesar do medo, para além do medo, acima do medo, faria tudo outra vez. E voltaria a ser uma simples mortal.

Diálogos à sombra # 11

Vejo-a aperaltar-se para sair, de manhã, e está especialmente bem cuidada. Pediu-me um camiseiro emprestado, daqueles que uma pessoa tem no sector working girl. Acho-a tão bonita, que fico pasmada com a impossibilidade que creio objectiva de ter sido eu a fazê-la, a carregá-la, a alimentá-la de mim.
- Onde é que vais tão bonita?
- Vou ter uma entrevista para Modelos...
[Lá está. Tivesse a linguagem verbal maiúsculas e minúsculas, e não haveria confusões desta ordem.]
[Lá está. Não fosse eu absurdamente coruja, e não faria confusões desta ordem.]
E falamos num simultâneo não uníssono:
- De passerelle, querida? 
-... Organizacionais.

01/11/2015

Shakespeare, o mata-sete

Os teatros deviam ter uma zona reservada e exclusiva a (doces) parolas, ainda que acompanhadas de meninas muito esclarecidas e eruditas, como foi o meu caso hoje. 
Fui ver Ricardo III, no Teatro Nacional D. Maria II. Adoro aquelas cadeiras. São poltronas de veludo vermelho, apesar de a disposição delas ter o defeito que têm todos os teatros mais antigos e velhos cinemas: um espaço diminuto entre filas para pôr as pernas. E para tudo, na verdade. Tirar o casaco foi uma aventura capaz de incomodar quatro pessoas e ainda fazer uma luxação nos dois ombros e nos cotovelos, que também são dois. A mala teve que ficar no colo, e, sendo que eu sou mulher de trazer a bigorna lá dentro, aquilo custou-me. Para beber um niquinho de água, ponderei mesmo pedir a um dos meus companheiros do lado que fizesse o favor de ma dar, à laia de biberon.
Fiquei na segunda fila do primeiro balcão, e ainda bem, porque o povo da plateia fartou-se de sofrer, e o do segundo balcão deve ter precisado de binóculos. À minha frente ficou um senhor super-hiper-mega interessado, daqueles intelectuais que vão ao teatro sozinhos. Tinham decorrido uns cinco minutos de peça, minha companheira e eu num grande blá-blá, porque ela sabe mais de História de Inglaterra do que eu de Portugal, e o homem vira-se para trás e faz Chiu! Atão?
Eu achei aquilo altamente ofensivo, e senti-me uma irresponsável, mas ainda bem que não lhe respondi (estou tão crescida) porque, segundos depois, ele há-de ter sido mordido por uma mosca tsé-tsé, que adormeceu regalado, e passou as duas horas e meia que a peça durou a cabecear e a acordar, a um ritmo alucinante de três por minuto. Façam as contas e imaginem a quantidade de cabeçadas no ar que o intelectual do silêncio não deu. Enfim, queria-me calada para poder nanar, mas conseguiu a proeza de ser indiferente à bateria (instrumento musical, mesmo) do palco e aos gritos dos actores. E também ao toque do meu telemóvel de recurso (não era chico, que esse estava silenciado), a meio da peça, coisa que jamais me havia acontecido, e ainda contribuiu para que me sentisse uma irresponsável pela segunda vez na mesma tarde. Parecia um pesadelo, até o encontrar na mala e o asfixiar. Depois tinha uma mensagem de casa que começava assim: "Aconteceu uma coisa" e eu, naquele diminuto espaço, ainda consegui que me caíssem os coisinhos ao chão, só com o ataque de nervos mental que me acometeu. Depois li o resto do texto, que dizia: "Parti a peça da 1,2,3" (minha rica menina, já me partiu tantas coisas desde que começou a andar, aos nove mesinhos, meu prodígio), pelo que me apeteceu chorar de alívio e alegria.
Leram bem: duas horas e meia sem intervalo. É preciso ter um endurance olímpico, que não é para todos.  E eu tenho pernas inquietas, aquilo do síndrome. Será que não existem lugares especiais para pessoas como eu? Não posso apanhar-me no escuro, que, se não fico com as pernas aos picos, pica-me o corpo todo. Hoje calhou a vez aos braços. Coçava-me tanto que julgo que passei por agarrada, mal lavada ou alérgica a uma porra qualquer. 
Quanto à peça, adorei. A sério. Nós temos actores, encenadores e técnicos de luzes e som que não ficam nada a dever aos outros. 
E plateias muito boas, também.


Quando eles crescem, continuam a dizer gracinhas # 2

Queixava-se ela de prisão de ventre, e de como se sente uma produtora de berlindes, tal e qual como um coelho. 

Imagem gamada da nettinha e post não patrocinado (mas aceito, Nestlé querida)

Respondo-lhe que deve beber mais água, lembrando-me do ensinamento que a minha própria mãe me transmitiu. Acredito sempre que há sabedorias que podem e devem passar de gerações para gerações, e antevejo-a a ensinar estes truques aos filhos que há-de ter. No entanto, sei que ela bebe três litros de água por dia, pelo que a minha teoria cai por terra, ou em charco como uma pedrada, aos primeiros acordes, pelo desacordo.
Só que ela tem a quem sair, e tem um sentido de humor afinadíssimo. E é bilingue, embora nisso não tenha a quem sair, pelo menos com aquela perfeição. Questiona-me se deve beber mais do que três litros de água por dia, e tentar atingir os cinco. Diante da minha hesitação, começa:
In order to take a shit, I must become a mermaid. But if I become a mermaid, I will have no asshole and I will still be unable to take a shit. Do mermaids poop? That is my question.