21/10/2015

Quem tem mãe

Inicia-se na aprendizagem da Filosofia. Assistiu às primeiras aulas com o espanto e confusão com que a maioria de nós assiste. É todo um mundo novo. E toda uma área inexplorada, para um pragmático, meu engenheirinho um dia, quem sabe.
E apanha-me na curva.
- Mãe, quem é a mãe de Deus?
- Maria... Nossa Senhora... — paro, faço uma pausa, hesito — mas qual Deus?
- Mãe, Deus...
- Ah, ok. Maria, mãe de Jesus, que é filho de Deus Pai. Ou seja... Nossa Senhora, mãe de Jesus... — hesito de novo, estou encurralada pelas minhas próprias dúvidas — Deus não tem mãe.
E ouço, vindo daqueles olhos, enormes, meus, nos meus:
- Não tem nada.

Eu não queria ser esta

Pelo menos, não queria ser tantas vezes.
Às vezes, queria só encontrar a boneca, ficar do lado de cá do balcão, brincarmos aos médicos e aos doentes, e fazer ela de médica.


20/10/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 28

Petrifico.


Já não bastava a parva invenção de sacos para compras, drivados da não menos parva medida legislativa do saco de plástico, com dimensões absurdamente absurdas, capazes de aguentar dez quilos de víveres e outros produtos altamente necessários à sobrevivência no planeta (e, cada vez menos, do planeta) —, que uma pessoa carrega ao ombro qual aguadeira chinesa —, para ainda terem inventado esta coisa maravilhosa, que são os sacos sobre o longo, ainda por cima uma poupança relativamente aos outros, já que custam € 0,85, contra os € 1,00 que custam os primeiros. 
Eu quero perceber o que é que ocorreu aos senhores legisladores, que nos obrigam, com suas medidas legislativas altamente iluminadas (mas das quais estou perfeitamente crente que não participam activamente, pois a mercearia deve aparecer-lhes na despensa por obra e graça do Millennium BCP, ou outro que não seja espírito santo de orelha), a meter, no mesmo saco, o peixe, o papel higiénico (para depois do peixe), o detergente da roupa (idem), o esparguete, a alface, o pão de forma, as pilhas e a t-shirt. 
Também quero perceber o que é que ocorreu aos senhores desenhadores desta bela barca, que nos querem obrigar, com sua peça de design, a meter, no mesmo saco, a criança pequena, o cão e o gato, a bicicleta, o tractor agrícola e a retroescavadora. Nem aqueles senhores do IKEA conseguiram levar a coisa tão longe. E esses, ao menos, têm a desculpa de que os sacos servem para enfiar lá dentro camas, armários roupeiros, cozinhas e casas de banho completas. 


Momentinho louro

Pediu-me ela que gravasse um vídeo a dizer umas palavras à filha, que faz 15 anos daqui a dias. Na América do Sul, os quinze anos são A data. Tem até um nome próprio: a Quinceanera. É um marco muito importante na vida das raparigas. Disse-lhe imediatamente que sim, e que tenciono gravá-lo num telemóvel que, apesar de ter uma imagem menos definida do que a de chico-smart, permite gravações com mais do que 30 segundos (don't ask, nunca consegui alterar essa definição em chico e, no entanto, somos felizes assim).

- Depois o meu irmão edita os filmes todos que eu receber e cola-os uns aos outros. Ele só pede é que usem o telemóvel deitado — continuou ela.

[Parou-me a boneca. Fiz uma imagem mental completamente absurda. O telemóvel pousado numa mesa, e eu a falar.]

- Mas qual é o interesse de aparecermos todos vistos de baixo para cima? 

[Parou-lhe a ela a boneca. Esbugalhou-me os olhos. E eu expliquei o meu ponto de vista. Ponto de vista, literalmente:]

- Assim, só se vêem queixos e narinas, qual é o gozo?

Era deitado — na horizontal. Plano de filmagem horizontal.
Deitado. 

Imagem gamada da netty, que eu não frequento estas pradarias montanhosas, nem tenho unhas para tocar guitarra