31/10/2021

A Contabilidade não é o meu forte

Disso, nada sei, só sei que há pessoas que ficam nervosas com os relatos dos exercícios físicos das outras, e eu sou uma delas. Existem mesmo memes — não confundir com memés — a homenagear esse enfado, declarando “no one cares” para as conquistas musculares de cada qual. É verdade, concordo e assino por baixo. Ou por cima, tanto faz. No entanto, mais confusão a mim me fazem os atletas de sofá, que a sabem toda (a teoria) e não a fazem nada. Cruzo-me (salvo seja) com vários quando vou correr. Equipam-se, caminham e aterram na esplanadinha a descansar os ossos. Mas também não levo muito à paciência os profissionais do atletismo, que têm aquilo tudo contabilizado até ao cagagésimo de segundo e participam em provas e ganham medalhas e diplomas e pernas para que te quero. Chatos.

Mas, chiça penico, impossível não vir aqui babar que, pesem-me embora as carnes, a três semanas de entrar na contagem decrescente para sair da segunda idade — já só faltam dez anos, há-de ser rápido a passar —, o que é certo é que ontem palmilhei oito quilómetros e meio, não me cansei extraordinariamente, e hoje não estou falecida. Aconteceu que disparei lá para um parque, que sei que tem quinhentos metros de perímetro, determinei-me a fazer seis voltas, para já ficar com três dos sete quilómetros que pretendia fazer feitos, e não ter que andar feita alucinada às voltas ao meu prédio e aos dos outros, mas deu-se que me perdi na contagem das voltas, e aí pela quinta?, sexta?, já não sabia a quantas ia (Dori no seu melhor), 

resolvi então fazer mais uma?, duas?, olhem, não sei quantas fiz, só sei que deu 8,560, pernas ok, pulmões e coração até a aguentarem mais um bocadinho. 

Bendita atmosfera húmida. Porém, os mosquitos. A humana acaba as corridas com as pernas a parecer o vidro da frente de um carro depois de atravessar o Alentejo. Vêm atraídos pelo protector solar, ficam irremediavelmente colados (e, antes de se finarem, ainda mas picam). Acho que não comi nenhum.


30/10/2021

A mulher que podia ser minha mãe # 5

abre a porta para eu entrar, verifico que já estão duas pessoas sentadas, pergunta-me se quero um café, agradeço e digo que não, mas ela começou agora o espectáculo, precisa de interagir, precisa de uma explicação: “A sua tensão arterial, como é que está?”, pois não lhe chega um mero “Já tomei”, “Não me apetece”, “Por hoje já chega”, para o que, de resto, nem me deu tempo. Respondo que está boa, agora que só tomo um café por dia — a minha grua —, talvez um destes dias nem isso, assim como assim já só como relva, capaz de me meter na meditação e abraçar uma religião alternativa. Entro para o gabinete e ainda a ouço dizer para as duas sentadas: “Esta [e diz a minha profissão oficial, que, aliás, não exerço, mas que, para o caso, é indiferente: ela sofre de dependência de falar, sobretudo necessita de se engrandecer através do poleiro social a que considera ter ascendido por se dar com. Estou profundamente convicta de que, se suspeitasse que eu era operária numa fábrica de bonés ou costureira, não só me ignoraria olimpicamente, como também não me apresentaria a todas as pessoas que ali entram como se eu fosse distintíssima em alguma coisa, criando-me embaraços irrecuperáveis, ou fosse a única pessoa do mundo que tirou aquela m. daquele curso — ainda se fosse Física Quântica, ou Engenharia Aeroespacial —, que nem a mudar uma fralda me ensinou] anda muito nervosa, e, por isso, agora só toma um café por dia”. 

Não ando, mas fico.



28/10/2021

And that awkward moment # 67

E é destes petits riens que é feita a minha vida, o que explica de antemão dois relatos seguidos de momentos peculiares. 

Imagina que vais pela rua, e que ainda estás constipada (ou sei lá o que é que se passa com as minhas fossas, pois é uma profusão mucosa que pondero mesmo mudar-me para aquela localidade que responde pelo belo nome de Ranholas. Juro que não deve haver dia que passe em que o meu primeiro pensamento não seja um agradecimento ao cosmos por não ter um sítio com um nome desse género no meu cartão de cidadona como local de nascimento. Pior do que Ranholas, só A-da-Gorda.) (Ao invés, fui nascer no Bairro de São Miguel, spé estupendaço.) Subitamente, entra-te um mosquito pela narina adentro, acima, ao léu, olé. Instinto imediato: expirar fortemente pelo nariz, como se estivesses a assoar-te. Só que sem lenço. E com o canal carregado daquela nhanha, que nunca vou perceber — nem estudar no Google, não se incomodem — onde é que se localiza a fábrica. Suspeito que algures nos entrefolhos das sinapses. Aqui a humana, pelo menos, não possui espaço para alojar a central de produção noutro local que não esse. Já estou farta de dizer que o meu nariz é pequeno, com canais estreitos (e, já agora que ninguém perguntou, também lindo. Imagine-se que, mesmo não sendo ruiva, longe vá o agoiro, tenho sardas. Umas quantas sardinhas, vá, um pequeno cardume delas, mas estão cá e são só minhas).

Já me perdi. Onde é que eu ia?

Ah, funguei no sentido do exterior, a ver se dava à luz o bicho. E foi a tragédia, o muco a assomar-se na direcção do bigode, a mulher a lutar na diálise entre inspirar o animal para a pulmoneira, ou esvair-se em ranho no meio da calçada. Ah, e sem lenço, pois actualmente utilizo uma mala de mão que cabe na palma da dita e onde, obviamente, não transporto esses extras. Então, fungava e ai Jesus, que o povo vai perceber que este naco, afinal, também segrega secreções. Inspirava e nada de paz interior, era toda uma turbulência, que quase ouvia os gritos de agonia da pequena criatura. 

Pus a máscara. Quero lá saber se já não é obrigatória na rua. 

Na primeira oportunidade, assoei-me violentamente. Mas não olhei “lá para dentro”. Prefiro viver o resto dos meus dias na ilusão de que o coisinho saiu a voar alegremente numa das minhas tentativas de o expulsar. Tudo, menos ter-se afogado em pasta nasal, ou, pior, ter ido morrer/ viver num pulmão dos meus e até se reproduzir cá dentro, caso fosse uma fêmea prenhe. Nunca se sabe.

(Diz o site onde fui ver que o nome colectivo para mosquito é nuvem ou praga. É fazermos a imagem mental do que poderia sair do meu nariz após reprodução da mosquita: uma nuvem de mosquitinhos, e todos temos assegurado um bom resto de dia, como diz o povo que se despede com um “fica”. Parece agradável.)


26/10/2021

And that awkward moment # 66

em que a aula está prestes a começar, a instrutora pergunta ao grupo se é a primeira vez de alguém — por indiscrição ou curiosidade estatística, já que não faz nada com a informação, sequer pergunta se a pessoa sofre de lesões a ter em conta —, há uma que levanta o braço e logo é confrontada com a questão seguinte, que é meramente retórica: “Gostas de dançar?”, ao que ela responde: “Não”.


Ora, este tipo de atitude levanta-me a mim uma série de dúvidas:

1. Existem mais pessoas que, tal como eu, sistemática e matematicamente se enganam na porta?

2. A mulher ouviu mal/ não percebeu a pergunta, tendo pensado que era um daqueles inquéritos chatos a que uma pessoa responde o primeiro desvario que (não) lhe vem à cabeça, ou uma micro-sessão de psicoterapia pré-esforço para descontrair?

3. Terá julgado que estava a responder a um Trivial, e, desconhecendo a resposta para Camembert, pensou que a certa era a mais improvável?

4. Será uma daquelas pessoas que nunca saem/ gabam-se de que nunca saíram da p. da adolescência, e consideram que toda a gente tem que achar piada/ aturar as suas irreverências?

5. Será apenas e tão só genuína e ingenuamente mal educada?

Já nem dancei convenientemente, tal foi o rodopio cerebral que isto me provocou. (Ultimamente, tenho sempre uma boa desculpa para os meus desacertos de passo. Esta foi a deste dia.)

(Uma pessoa desgasta-se.)