31/01/2019

Chamarde e fazerde, dois novos verbos da língua portuguesa

Depois de ter assistido ao comovente nascimento do verbo deverde, apercebo-me agora de que o colorido trouxe consigo pelo menos mais dois verbinhos novos, a saber: o chamarde e o fazerde.
É que ando cá intrigada com isto, depois de ter lido em locais escritos por gente que até andou à escola, frases do género: "Chamou-me de egoísta", assim só por exemplo. Ou então, "Anda a fazer de tudo para me agradar".
Ora, vamos lá a ver uma coisa: chamarde não existe no Português cá do rectângulo e ilhas. Basta que digamos "Chamou-me egoísta", que já toda a gente percebe que nos chamaram egoístas. E também "anda a fazer tudo para me agradar", assim, tão simples.
Agora vou estudar como é que se conjugam os dois fenómenos verbais que tão avidamente singram por aí, e já cá volto.

Eu chamode
Tu chamasde
Ele chamade
...
Eu façode
Tu fazesde
Ele fazde

Me chama de céu, oh, oh, oh...

 


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#jasofaltam34

29/01/2019

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 18

Imagina que se dá o momento em que metes a chave na fechadura, ela dá duas voltas lá dentro - e, com isso, te apercebes de que não está ninguém em casa -, entreabres só um bocadinho - porque sabes que as gatas têm aquela mania de ir passear para o patamar das escadas (serão só as minhas que manifestam este fremente desejo de fugir do lar?) e depois é um sarilho grande para convencê-las a voltar - e sai-te a jacto, ligeira e silenciosa - na verdade, com um "prrr" - a Molly, logo escadas acima. Nem pousas a mala, nem despes o casaco, corres atrás dela, mas oh, engano!, ela sobe mais uns quantos degraus, por isso mais vale ficares cá em baixo a praticar psicologia felina, "Anda cá, vamos para casa, Molly!", mas o bicho nada, nem desce nem sobe mais (vá lá...), olha-te apenas por cima do ombro com aquela desconfiança e soberba, do alto dos seus olhos azuis de gelo, como quem diz "Vai tu, daqui não saio, I've got stuff to do upstairs", ainda tentas a solução radical, que é fechares a porta de casa, como se faz às crianças teimosas, "Olha, ficas aí, que eu vou para casa. Adeus", mas depois lembras-te do dia em que ela ficou mesmo e, passadas duas horas (cálculos muito por alto), o vizinho de cima veio perguntar-te se o gatinho que tinha lá à porta a miar, e ao qual já havia dado leite e pão aos pedaços (e a lontra devorou como iguaria sem igual) não seria teu, e, aflita com a repetição do episódio (se bem que ela talvez não, vai-se a ver e curtiu da refeição alternativa), voltas a abrir a porta e sai a Mia, não a jacto, mas igualmente ligeira, e efectivamente silenciosa, sem "prrr".
E ficas sozinha no patamar, tu e as tuas gatas que, por acaso, se detestam. Não se odeiam, mas não se dão, o que equivale quase ao mesmo.
A Mia dirige-se para a escada que sobe, encara com a Molly, e os dois rabos fazem-se num comovente e lustroso pompom. Uma das duas, ou as duas, assanha-se para a outra, e tu pensas que é capaz de ser melhor saíres da jaula, e os leões que se entendam, pois, se for para ficares sem cara, mais vale ires para o lar e esqueceres o dia em que quiseste adoptar gatos. Já não te bastavam quatro filhos nascidos no espaço de seis anos, para ainda te ires meter noutros trabalhos quase semelhantes.
Mas depois, gostas delas. Uma é parva, a outra está doente, porém gostas das duas na mesma medida. E então, raciocinas. Com a Mia, tudo é mais fácil, quanto mais não seja porque pesa metade do que pesa a outra fat, que é agressivíssima e só a ideia de lhe pegares já te arrefece o sangue-frio. Pegas nela por baixo, com cuidado para não lhe magoar a barriga, e carrega-la para dentro de casa, sob protesto (a assanhar-se, aqueles "rugidos" dos gatos), feita manifestante activista e rebelde sem causa. A repetição da fuga para fora de portas é bastante rara, por isso podes descansar de uma.
Dona parva continua estática, sem vontade ou iniciativa de sair do degrau onde se instalou a mirar a paisagem. Não é por acaso que os suricatas se chamam assim. Ponderas o truque do papel amachucado em forma de bola, o truque do boneco dela (um pinguim vestido de Pai Natal, don't ask) atirado para dentro de casa, mas sabes que, cada vez menos, se deixa enganar, e isso pode ser uma perda de tempo que a fará subir mais degraus. Então, lembras-te do truque dos gatinhos a miar, sabes que é um golpe baixo, mas que resulta em pleno: "Gatinhos a miar" no Google, Ai-fostes com o som no máximo, e esperar. 
Lá veio ela, percorrendo todos os cantos à casa até eu desligar aquilo, sei lá se para brincar, ou então para se assanhar também para os gatinhos que procurava e não estavam em lado nenhum.



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#jasofaltam35

28/01/2019

Barreira linguística # 2

Entro na loja de aromas e cheiros e smells bons, mas de que desconheço o ramo de negócios, firmemente determinada a adquirir uma base para a pele de bebé de uma das minhas crianças — que parece que cresceu, e quer maquilhar-se —, prestes a completar vinte anos, preocupada com o Planeta, amiga do ambiente e inimiga de tudo o que o prejudique, e peço à senhora que lá se encontra dentro: "Eu venho à procura de uma base, tem alguma coisa disso?". Ela pergunta: "Una base?", e é então que eu percebo que nos entenderíamos melhor, a partir daquele momento e de todos, se eu falasse castelhano, mas é que não. Não vejo motivo, nem quero mais confusões do que aquelas que já arranjei em tempos por esse motivo. Faço um gesto com a palma da mão na minha cara, e repito: "Sim, uma base". Ela responde que "sí", e trata de ir à estante buscar uma caixa branca, onde está impressa a imagem de umas mãos, e onde se vêem umas unhas muito bem tratadas. É quando pergunto se "É amiga dos animais?" que a confusão, sem que eu me dê conta, se instala. Ela remelga-me os olhos, repete, hesitante, o seu "Sí...", mas eu insisto na demanda por algo sustentável, por desconfiar que ela não entendeu o alcance da minha pergunta, e então quero saber se "Não foi testada em animais?". De respiração suspensa, vejo-a mirar a pequena caixa, em busca de socorro nas instruções escritas na lateral, e depois, ainda menos esclarecida do que antes de o fazer, dizer num murmúrio: "Não, por que seria...?". Reparo então que a caixa pertence a uma base em verniz para unhas, e esclareço: "Não, o que pretendo é uma base para a pele da cara, uma maquilhagem", e desfaz-se o equívoco.
Saio da loja com a convicção de que aquele "Não, por que seria...?" correspondeu a uma imagem mental confusa, é certo, mas algo cómica, também. É universal e mundialmente aceite que "há malucos para tudo".

Palmei da nettinha, claro.
Maluca, mas não tanto.
(Não é que me falte a vontade.)

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#jasofaltam36

25/01/2019

Pensas que já viste tudo na vida e que já podes morrer descansada quanto a bizarrias

quando vês entrar uma senhora no metro com um penso higiénico na testa. Um penso de noite. Com abas. E não, não colocado na horizontal, era na vertical, mesmo. Metade do penso à mostra, a outra metade escondida dentro de uma boina, a segurar aquilo (desconheço se utilizou a parte da cola para aderir à pele da testa), as abas para os lados. Não sei se era maluca, porque ia acompanhada e tinha um ar absolutamente normal. Ou talvez ande apenas adiantada nas datas. Também pode ser simplesmente uma pessoa magoada na testa, que não encontrou melhor absorvente sanguíneo do que um penso enorme. Dos maiores. Não sei como não se lembrou de um daqueles da incontinência.
Efectivamente, tinha diante de mim uma mulher que pensa. E pensa com a cabeça. [Adoro as minhas piadas fáceis.]
É claro que não fotografei, pois ponderei a possibilidade de se tratar de alguém avariado da marmita, e eu ainda tenho algum amor à pele.
Eu sei, se não há pics é porque não aconteceu. Também me ocorreu. Fiquei ali sentadinha no meu lugar, num micro-transe, o coração em pulinhos, a congeminar como é que havia de conseguir o retrato para vós, mas depois lá me acalmei e achei melhor não arriscar a vida por um chouriço mal amanhado. Desculpem, mas prefiro passar por mentirosa. Dói menos.
Agarrem-se à máxima de que se está na net é porque é verdade. 
Mesmo.

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#jasofaltam37