29/11/2018

Expliquem-me isto




Embora pareça, não se trata de várias perspectivas da mesma paisagem. Ou melhor, a paisagem é a mesma, mas apenas porque a cidade está literalmente forrada destes tapetes de folhas, que alguéns — Junta, por delegação da Câmara — não varre, não aspira, não arreda, não nada. De vez em quando, assisto a uns senhores de expirador (uma vez que é uma espécie de aspirador que, em vez de aspirar, sopra as folhas) em punho, empurrando o folhedo para os cantos dos edifícios, e depois ninguém aparece para o varrer. A parte 2 do trabalho fica por conta do vento, que volta a atapetar os passeios. 
Isto seria bonito e romântico e bucólico, não fora ser perigoso, por escorregadio (então com a chuvinha de hoje, está que parece um ringue ou uma pista negra), e por não sabermos o que é que estamos a pisar. Eu, pessoalmente, vou sempre um nico periclitante, quase como o elefante sobre os nenúfares, imaginando que, sob meu calçado, jazem cocós de cão (e sei lá se só de cão), pombos falecidos, várias peças em ouro, ou, quem sabe, um bilhete premiado do Euromilhões. Não é justo. 

28/11/2018

And that awkward moment # 53

em que te encontras, por tua autoiniciativa (assim como, por doces nove meses, há muitos anos, e agora por mais uns suaves minutos, esperando por ele), enclausurada em Rosinha, [minha canoa], noite cerrada num local escuro e ermo desta cidade — Cidade Universitária, numa daquelas ruelas desertas, que vão dar a nowhere —, raciocinas que talvez seja melhor trancares as portas à chave, clicas no fecho centralizado e sentes-te, se não segura, pelo menos fermosa, depois clicas no botonete que te dá acesso a aquecimento, luz de presença e rádio, recostas-te e pensas em coisas aleatórias, do tipo "Ai, se eu fosse criminosa, era para aqui que vinha criminar", quando se te chega ao vidro uma figura humana, dá dois leves toques no vidro do teu lado, e tu, após teres tomado aquela inteligente e grande decisão de fechares o carro todo... abres o dito, deparas-te com uma cara estanhada e um sorriso rasgado, que te pergunta assim: "Por acaso, não quer comprar cebolas ou cenouras?". [Código dealer?] E tu, entre o aterrorizada, o aturdida e o divertida, respondes a estúpida da verdade, que é um previsível e singelo "Não, muito obrigada", rasgando um sorriso tão louco como aquele que estás a receber, com a única diferença de que com mais dentes. 
Ocorre-te, então, que talvez ali tenhas diante a personificação da tua velha teoria, de que há pessoas que, efectivamente, não existem, apenas passam por ti na rua, na vida e no mundo, e depois se esfumam. Uma espécie de fantasmas, mas sem algum dia terem tido existência no planeta. Isto, para o bem e para o mal, também válido para a inesperada e extraordinária simpatia no atendimento de uma loja e para a criança que guincha no supermercado. 

(Odeio-me, esbofeteio-me e sovo-me mentalmente por não ter dado uma resposta mais assertiva, do género: "Por acaso, estava aqui sentada sem ter nada para fazer, e estava mesmo a apetecer-me roer uma cebola. Quanto custa?". Mas só me lembro das boas respostas quando já passaram horas sobre as perguntas esdrúxulas.)


25/11/2018

Daquele programa, que, repito, a-do-ro # 7

Antes de fazermos uma breve passagem pelo fogacho que foi a igualmente breve estadia daquele "casal" que saiu em primeiro lugar do programa - Lídia e Francisco - e outra por este outro que acabou de entrar, vamos só dar uma vista de olhos ao par rapariga nervosa e surfista, que atendem pelos nomes de Eliana e Dave.

Dave, o ópá
O Dave tá-se bem. Por alguma razão inalcançável para os meus parâmetros, assim que viu a Eliana a chegar ao "altar", ficou fascinado. A única explicação que encontro para o facto foi o facto de Dave ter ido apanhar umas ondas minutos antes daquele momento, e ainda estar com a adrenalina e a pica em alta [hahaha, adorei esta expressão, um bocado atrevidota], aloha, poha, que gaja tão boha. É que o cascaense e a caldense têm níveis subaquáticos a ver um com o outro, daí que a relação esteja a dar uma caldeirada cheia de cascas. [Pumba, detonei.]
Carácter: Dave não entrou no esquema dos casórios para ficar. Ele foi apenas lá ver como é que paravam as modas, arranjar uma companhia porreira, curtir uma muita nice por um coche, fazer bué skills, e depois, ópá, logo se via, meu, tás a ver? Mas ela não, ela não permite que a relação evolua, parece que está sempre a querer receber antes de dar, e eu estou a ficar farto, pá.
Físico: Cabelo. Só cabelo. Crista, portanto, como nas ondas. Uma pessoa olha para o Dave - enorme, louro, giro, bons dentes, bem falante, apesar da fábrica de pás - e só vê cabelo. Há qualquer coisa de muito perturbado e perturbador naquele cabelo. Muita onda, muito wax, muita cor aberta pela conjugação da cera com o sol. No cômputo, o Dave é demasiado boa onda e areia a mais para a praia do oeste que é a sombria Eliana.

Eliana, a abstinente
A pobre Eliana está permanentemente em abstinência por um cigarro. É uma aflição assistir às crises e conflitos que arranja, só porque não a deixam dar umas passas. Implica porque o homem está a sorrir, implica porque, ao acordar, o homem está demasiado acordado, implica porque o homem existe. Quando presta aquelas declarações para o espectador, está sentadinha, vidrada no teleponto, de respiração suspensa, exactamente como se tivesse acabado de dar uma passa e não quisesse que o fumo lhe saísse pelos dentes e pelas narinas. Apelo à produção e ao homem: metam-lhe lá a chucha na boca, que a mulher vai fazer uma birra em 4, 3, 2...
Carácter: Uns nervos. A Eliana é, assumidamente, nervosa e não se vai tratar. A solução que arranjou para os seus problemas de relacionamentos, foi, precisamente, e como boa neurótica, arranjar mais um problema, através de mais um relacionamento. É claro que, derivados àqueles nervos todos, o arranjinho com o Dave vai estourar pelos alinhavos, ópá.
Físico: Magra demais, uma cara sem pinta nenhuma (olhos em tensão, nariz em tensão, boca em tensão), um cabelo que podia ser, mas não é (qual é a cena de pentear aquilo tudo para trás, pá?). Tonificada. Aliás, tonificadíssima, quase a níveis profissionais. Imagino que será o resultado de estar sempre tão tensa: os músculos, simplesmente, são o reflexo de tanta ansiedade. Talvez um relaxante lhe fizesse bem. Não confundir com laxante, senão a rapariga desaparece. (Também não se perdia grande coisa.) (Por ser pequena, era nesse sentido.)

23/11/2018

saudades vivas

Calhou-me ao lado, cada uma sentada diante do seu espelho, no salão onde, através do cabelo, entramos para transformar a cabeça. Pediu para cortar curtinho, um cabelo que já de si não tinha muito por onde cortar mais. Cara redonda, olhos vivos, pescoço largo, havia qualquer coisa de infantil nesta conjugação, e também na voz timbrada, de sotaque cerrado do meu Alentejo, quando disse,
Já lá vão quatro anos, e sinto tanto a falta dele. Estou sempre a pensar Será que ele ia gostar disto?, Será que ele não ia gostar disto?... Hoje venho fazer uma coisa diferente,
explicou-se, pela mudança de curto para mais curto. 
A cabeleireira afastou-se por segundos, e foi esse o meio tempo para que, sem tirar os óculos, baixasse um quase nada a cabeça e, exactamente como uma criança desgostosa, fungasse, soltasse um soluço, e, quem sabe, pensasse Será que ele ia gostar disto?