31/01/2017

la la sleep

Hoje venho, na senda da vertente pura e extraordinariamente intelectual deste modesto espaço de alta elevação cultural, falar-vos de um filme que, efectivamente, não vi. E, como tal, não vou spoilar, ou, pelo menos quase nada.
(A quem já tomou o tamanho ao texto com um breve olhar medidor, é isso mesmo: não me vou alongar por aí afora, já que — repito — não vi o filme. Ou melhor, muito melhor, não o vi todo.)
La la la, la, la, la...
Não haverá mais doida, mais fã, mais incondicional do que eu quando se trata de menino Ryan Gosling. Gosto dele, que quereis? Lá se é bom actor, acho que sim, mas isso é secundário, tendo em conta que ele é sempre o principal. É o sorriso, é a voz, são aqueles olhinhos desiguais, é ele de camisa, é ele de calças de fato, é ele...
Desta vez, aparece ao piano.
(... é ele ao piano.)
E aparece outra vez (a sério, povo de Holly, o que pretendeis com a insistência em juntar estes dois?) com a Ema Stone, que é tão gira e está tão estranha — enormemente magra, vítima de recente botox-disaster. Parvas de Hollywood, vá lá, parem de estragar essa maravilha que a Natureza vos deu.
Talvez ainda não tivessem decorrido trinta minutos da fita e já eu dormia a sono solto, embalada pela trama — cuja sinopse não cheguei a conhecer —, incapaz de resistir a Morfeu, um pouco desiludida, senão de morte, pelo menos de sono quase eterno, após ter constatado que meu Ryanzinho, apesar das quatro horas diárias de ensaios, por não sei quantos dias seguidos, não aprendeu a dançar, e também não canta nada de por aí além. É a tal história que conto (e canto) a mim mesma, cada vez que cometo uma pequena falha na minha vida: Não se pode ser bom em tudo.
(Talvez reveja a película um destes dias, Ryan merece uma segunda oportunidade. Já vi tanta porcaria com ele, esta pode ser apenas mais uma. Lindo de sua Linda.)

30/01/2017

Try again. But harder

Cenário: zona de apoio ao cliente de uma qualquer Worten deste planeta.
Personagens: a pessoa e um assistente técnico.
Sit: a pessoa foi trocar um item.

Processada a troca, após perguntas várias que imagino façam parte de um qualquer pró-forma lá da casa, e que, por isso, são as mesmas para toda a gente, independentemente do estado em que o artigo chega ao balcão [uma caixa fechada com agrafos de fábrica e dezenas de metros de fita-cola larga, ainda mereceu a pergunta 'Chegou a utilizar o artigo?'], apresenta-me o técnico dois papelinhos iguais entre si, chamando original a um e duplicado ao outro, dizendo que eu fico com um e ele fica com o outro, pedindo-me que assine um e assine o outro, e eu vá que sou preguiçosa para dar à caneta (e à perna) (havia de ser assim para dar à língua e à tecla, mas não), e questiono:
- Mas, se um deles é o meu, não preciso de o assinar, não é?
Só que ele explica-me o caso:
- Não, a senhora tem que assinar os dois. Nós aqui costumamos fazer assim: são dois talões iguais e o cliente assina os dois. Fica com um e nós ficamos com o outro. 


29/01/2017

passeio público

Tropecei na minha própria velhice, sob a forma de declive no passeio, desses que, quando se é velho, ou melhor, se está momentaneamente muito velho, não se vêem, e foi o caso. Caí dos saltos altos abaixo, o pedestal da vaidade desmoronou-se sob os meus pés, a capa do anonimato despiu-se de mim sem despedida, quedei-me nua e sem defesas, com a calçada portuguesa logo abaixo do nariz. Desafiei gravemente a lei da gravidade, vi claramente vista a minha vista a ver o chão, e saí dessa vencedora, pois, torcido um pé e reencontrado o eixo, reergui-me mais tonta, mais velha, mais criança, assustada e abandonada, ai que dor, qual pé, não me dói o pé, a menos que a alma seja no pé, ninguém me socorreu, sequer deu o braço, a palavra do alento, onde está a minha mãe, que me daria um beijinho no pé e diria "Já não dói", e deixava mesmo de doer, ainda que não doesse nada? Nem pude marejar em agradecimento, como aquela senhora aqui há tempos, só do susto e da comoção, não tive o que nem a quem agradecer. Ninguém viu, que grande achincalho público — que é ser-se velho à vista de todos e nenhum ser capaz de ver; que é ser-se velho e isso nos adentrar os olhos, velhos e cansados, dia após dia. 
As árvores morrem de pé.



28/01/2017

Eu quero perceber as bombas da BP*

1. Que têm um Pingo Doce acoplado;
2. Que, às 11 da noite, como é de lei, derivados a questões de segurança, fecham as portas ao público, que somos a gente, ficando um funcionário — de seis — a atender num guichet cheio de gavetas acrílicas por onde passam os nossos cartões ou dinheiro, a maquineta do multibanco, a nossa factura e, caso seja caso, o troco. Para comunicarmos com o dito senhor, temos que falar para um interfone logo ali ao lado do tal guichet, que não sei quanto à nossa, mas que a ele lhe filtra a voz, de maneira que nos chega qualquer coisa como a voz do Alvin, aquele esquilo que é tão fofis, a perguntar coisas como: "Deseja contribuinte na sua factura, sinhóra?", ou então é o homem que tem aquela voz e, no meio dos nervos, eu é que achei que o problema era no aparelho de comunicação;
(Parece mesmo que estamos a comunicar com um preso numa prisão de alta segurança daqueles estados da América, como se vê nos filmes, só falta mesmo o telefonezinho, ou será que o preso somos nós e a visita é o da voz de pífaro? Também pode ser.)
3. Que, com a desculpa da segurança das pessoas que trabalham na bomba, deixam ao frio, à chuva e ao assalto uma boa dezena de pessoas humanas, que aguardam mais ou menos impacientemente a sua vez junto ao tal guichet. Pronto, está bem, é do lado deles que está o dinheiro e, por isso, precisam de maior protecção. Oi?
4. Que têm um Pingo Doce acoplado, já disse?
5. Que, às 11 da noite, quando fecham as portas à entrada de consumidores e agarrados à gasolina, não fecham também o Pingo Doce;
6. E depois calha na rifa a chatas da porra como eu, ficar atrás de um grupo de chavalos que levou dez minutos — eu disse dez minutos — a ser atendido, porque queria cervejas e não havia cervejas, depois queria minis e não havia minis, depois queria uma litrosa e não havia litrosa (estava mesmo a ver que saíam da bomba com uma alface debaixo do braço), logo seguidos de duas meninas que levaram dez minutos — eu disse dez minutos — a ser atendidas, porque foram comprar uma garrafa de vinho cada uma, "o mais barato que tiver", e foi todo um desassossego para encontrar moedas suficientes para o chichi engarrafado, e ainda foram buscar algumas ao carro que as esperava ali ao lado, com um senhor de meia idade muito bem posto lá dentro, e eu prefiro pensar que era um motorista UBER, mas também não ouvi o da voz de pífaro a perguntar a ninguém se já tinha os dezoito anos feitos, so help you God.

Acho que já me perdi, mas, no fundo, a minha revolta tem origem no facto de eu ir a uma bomba de gasolina passava das 11:30 da noite (que também tenho as minhas idiossincrasias e as minhas cenas), e fiquei — eu, e outros dez incrédulos — feita parva, numa fila escura, fria e crua, à espera de pagar o combustível, enquanto outros tantos faziam compras de supermercado lá para casa, ou lá o que era aquilo. 

* ninguém me paga para me calar.