17/10/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 16

Acontecem-me coisas.
Bomba da Galp (Tangerina...) de Cascais. Encontro-me na fila (esta é a minha forma erudita de dizer estou na bicha) e, atrás de mim, outra senhora, que eu não vi — por estar de costas —, nem senti —, porque sou uma insensível — chegar. Mas dá-se o caso de estar na minha vez de ser atendida. Inicio, candidamente, o profícuo, com um Boa tarde, bomba 4, 20 euros de gasolina, daquela mais barata (não vão tentar, pela enésima vez, empandeirar-me a plus-não-sei-quantas-octanas, que aquilo não é nenhum Boieng, e se há um de nós dois que é o avião, não é o meu boi de certeza), vai o Coiso e interrompe-me a lucubração, apontando para a que está atrás de mim, e profere:
- Aquela senhora está primeiro.
E diz ela assim para ele:
- Não estou, não. 
E digo eu assim para ele:
- Mas que lógica é a sua, que uma pessoa que está atrás de mim deve ser atendida antes?
E ele não me soube explicar.
Deu-se que tinha uma placa em cima do balcão a dizer CAIXA ENCERRADA. Conforme verifiquei que a p. de m. da caixa do Coiso, embora devesse, não estava encerrada, assim fui inspeccionar o que é que dizia no lado oposto da placa, na secreta esperança de que dissesse CAIXA ABERTA. Tendo em conta que quase todas as minhas esperanças têm como apelido Gorada, Vã, ou Inútil, esta foi só mais uma. No entanto, o que estava escrito do lado inverso da encerrada, era tão mais próprio para rotular o que se passava na caixa (craniana, sim) do senhor Coiso, que não resisti a deixar-lha naquele preparo.


Já que me dei à cara podre de fotografar a minha própria gracinha, de caminho fotografei um letreiro que estava aposto no balcão dele, dizendo:
- Mas que maravilha, só me apetece escrever nesse livrinho. Ando cansada da minha vida, de só escrever em livros de reclamações. É que são uns atrás dos outros.
O Coiso sorriu, agradecido.



Dias de tempestade

É mesmo à hora a que vou — vento a 50, chuva de 1,4. 
Missão mãe, missão mãos de mãe, missão coração de mãos de mãe. Inadiável. 
E o que mais me preocupa ainda, é o esmerdanço em que fica o meu cabelo. Não há ocasião nenhuma — rigorosamente nenhuma — em que possa ficar descansada diante da possibilidade de alguém, quem quer que seja, me ver com farripos em trapos (são farrapos, senhor), e não com a voluptuosa cabeleira que os dias de sol me fornecem (e que não é sempre, mesmo assim). 

Ei! Bom dia!

Estou lá outra vez, desde as 10 da madrugada, môres.

16/10/2015

Nunca fujas ao teu destino

Havia um casal de velhotes que frequentava o mesmo metropolitano que eu, num pequeníssimo percurso de uma só estação. Já vinham no comboio quando eu entrava, e apeávamo-nos juntos na paragem seguinte. Eram, evidentemente, indigentes, a avaliar pelo estado de sujidade dos cabelos e das roupas de ambos, e pelo cheiro que exalavam. Paradoxalmente, o cabelo dele estava sempre primorosamente penteado. Usava uns óculos de lentes verde-garrafa, muito grossos, tinha os olhos colocados em alvo, e só olhava em frente. Eu evitava o mais que podia ficar à frente dele, porque rapidamente percebi que ela não gostava. Ela passava o minuto e meio que dura o percurso entre estações a ajeitar-lhe o cabelo com as mãos, e ele, ao fim de duas ou três passagens dos dedos sujos dela no cabelo sujo dele, protestava, aborrecido e sujo. Falavam baixinho um com o outro, mas nunca em surdina. Quando chegavam ao torniquete de saída do metro, invariavelmente alguma coisa corria mal e ela praguejava aos berros, dizendo palavrões. Era a altura em que eu mais evitava estar por perto. Ela não gostava de mim, e isso era mais do que evidente. Devia ser qualquer instinto animal que lhe provocava repulsa. Eu também não gostava deles, de ambos. O cheiro azedo, a tabaco, misturado com lixo, era nauseabundo. Tomava conta da carruagem inteira, do meu nariz e de todos os meus sentidos. O meu dia estava a começar e ainda levava comigo vestígios de banho e roupa lavada. Quando ambos desapareciam na direcção da estação dos comboios, parava a minha apneia e respirava fundo. Lembrei-me deste casal, hoje. Eles eram a personificação do meu lema Nunca fujas ao teu destino. Eu estava na estação, à espera que o metro chegasse, e via-os, através dos vidros, quando ele chegava. Desviava caminho, para entrar por outra porta e não irmos ali, os três, em pé, quase colados, eu a sentir aquele odor intenso a desleixo, pelos meus parâmetros preconceituosos de pessoa perfumada, eles a sentirem o limão do meu perfume como, quem sabe, sinal de camuflagem da falta de limpeza ou de vergonha. Sempre me pareceu que, mudasse de porta de entrada, mudasse de carruagem, ou porque eles mudassem também, ou porque eram não um, mas vários casais, todos iguais, a verdade é que se dava a fatalidade de só faltar esbarrar-me com eles todas as manhãs. E ter de percorrer aquele minuto e meio com a respiração suspensa e, também eu, com os olhos em alvo no diagrama da rede, falsamente interessada em estudar um labirinto que nunca iria, como não vou, decorar — mas que me salvaguardava da possibilidade de a velhota olhar para mim, suspeitar que eu podia ter outro interesse no seu macho que não o de fugir a sete pés, e vociferar, como de costume, Lá está ela!.
Nunca fujas ao teu destino. Aqueles dois estavam-me na sina, dia após dia, durante anos, desse eu as voltas que desse ao labirinto do diagrama da rede, entrasse eu em que carruagem entrasse. Acabei por me conformar com a fatalidade daquele encontro diário, metáfora do que não tem remédio — remediado está.