23/07/2022

Tetratlo # 3

Consulta de Oncologia: a médica é uma simpatia, mas não há dúvidas de que eu gosto mais de homens e eles de mim. Não perdoo ao destino nem à m. do meu seguro ter tido que abandonar o meu oncologista giro. Disse-me ela que estou livre de consultas por três meses e que as idas ali serão cada vez mais espaçadas. Estou com ela há cinco meses e não cinco semanas, como estive com o cirurgião, e não houve abraço de despedida. Perguntou-me apenas se já comemorei a remissão do tumor, e respondi a verdade: “O vinho tinto ainda me sabe a aguarrás”. Sugeriu outra bebida, mas nem a cerveja marcha neste momento: arde-me a boca de tal maneira, que parece que a enchi de álcool etílico e depois lhe meti um fósforo aceso. Estou tão abstémica como era aos quatro anos de idade. 

Despedi-me dela com um: “Espero que não tenhamos que nos ver antes dos três meses que referiu”. Sorrimos, acenámos adeusinho com as mãos e pronto. Sem espinhas, sem lágrimas.



Tetratlo # 2

A seguir, fui tratar da injecção que faz com que, de três em três semanas, saia daquele hospital com uma das coxas a valer milhares de euros, quais Pretty Woman, quais quê, walking down the hospital. Burocracia inultrapassável, retiro senha para a triagem das enfermeiras, para que peçam à farmácia do hospital que envie a preciosidade, o que costuma levar uma hora, mais minuto, menos minuto. Dada a distância da farmácia para a Oncologia, cerca de duzentos metros, imagino que a injecção faz o trajecto a rebolar sozinha. Espero meia hora para ser atendida na triagem, o que faz com que me convença que são três da tarde e não duas, tanto sinto que esperei. Imploro que ela escreva no mail que aligeirem o processo de envio, pois tenho uma consulta às 16:00 (o que é verdade), e que diga que a injecção é para uma senhora muito ansiosa, que vem da Psiquiatria e até têm que lhe misturar uma dose de calmante na seringa, que ela está a começar a partir tudo. A enfermeira ri-se muito e escreve o mail, desconheço em que termos. Volto para a sala de espera, onde as mulheres discutem cabelos e respectiva queda, e apercebo-me das horas. Volto à triagem e digo: “Senhora enfermeira, esqueça tudo o que lhe disse há pouco. Julguei que já eram três da tarde, vi mal as horas. Escreva outro mail para a farmácia e diga que a ansiosa não sabe ver as horas e que agora já pode esperar. E que até podem demorar mais do que é costume”. Noutros tempos, ter-me-ia deixado ficar na sala de espera, envergonhadíssima da minha impaciência/ insistência inútil contra esta espécie de establishment secular. Agora, depois de ter perdido tanta coisa, mas tanta, o pouco filtro que ainda me restava também ter ido na cheia, é das minhas menores preocupações.

Tetratlo # 1

Quatro compromissos agendados para o mesmo dia, no mesmo hospital. Primeiro, às 13:18 (gosto. Podia ser 13:19 ou 13:17, mas era mesmo 18), análises clínicas. Sou de tal forma pontual, so british, que chego e falta uma pessoa para a minha vez. Sei que não vou demorar, são quinze gabinetes e aquilo é sempre a aviar. Enquanto espero, um velhote cai na rua, fica sentado no passeio, as pernas na estreita estrada onde passam as ambulâncias, um braço esfolado. A mulher grita mais do que ele. Noutros tempos, iria a correr ajudar, perguntar se podia fazer alguma coisa, não sei quê, não sei que mais. Mas agora tenho um calhau no lugar do coração, não posso — nem quero — fazer esforços, e apercebo-me, livre de eventuais culpas, que são precisos três bombeiros para içar o homem. Esqueço logo o assunto, até porque chega a minha vez, gabinete 13. Já estou sentada na cadeira da sanguessuga quando irrompe o casal velhote e mulher aos gritos, ela pedindo ajuda para o marido, que está a sangrar do braço e precisa que lhe façam um curativo. Gabinete 13, repito. Acredito que a personagem veio a correr atrás de mim, pois teve que correr o corredor todo desde o 1 para se ir enfiar no meu. A técnica em protesto pouco veemente, que ali não se faziam curativos, mas após uma frase onde se incluía a palavra “órina”, lá pôs um penso rápido no braço do homem. Entrementes, eu bufava a minha sorte macaca, mas por que raios a mulher havia arrastado o homem até ao gabinete que era nada menos do que o décimo-terceiro mais longínquo da porta? Noutros tempos, ainda era capaz de limpar a ferida ao homem, ralhar com a sugadeira de sangue que um band-aid não era suficiente, accionar connects para o internarem e ainda me alistar nas Carmelitas Descalças. Mudei muito. Ando a aprender a pôr-me em primeiro lugar em todas as ocasiões da minha vida. Não que antes me pusesse em segundo (plano), era em último, mesmo: nos escafundós da fila, onde já ninguém me via, nem eu própria a mim mesma. Isso acabou, agora tenho que olhar-me ao espelho e pensar: “Linda”.


12/07/2022

autoestima <--> subestima

Isto é uma espécie de Novas Oportunidades, que no meu tempo de adolescente dava pelo nome de Novas Profissões: estar doente é toda uma agenda. Neste momento estou, já não petrificada, mas até um pouco fascinada, com a quantidade de marcações que tenho para o mesmo dia, vá que todas no mesmo hospital: análises, a injecção que me é dada — literalmente duas vezes: na coxa e na bolsa, pois não pago os milhares (envergonho-me de dizer quantos são) de euros que ela vale (?) — e duas consultas, cada uma de sua especialidade, que é para não me enjoar. 

Ando revirada, se não de pernas para o ar, pelo menos do avesso: perdi a conta ao número de TACs, ressonâncias, análises, consultas e testes de covid que fiz nos últimos sete meses. Passei em todos com distinção, nem eu sei bem como. Lembra-me isto aqueles exames na universidade, em que a pessoa vai totalmente às escuras, com a sensação/ certeza de que não pesca um boi e depois tem uma nota injustíssima de tão boa para a ignorância que para lá carregou no lombo, arre burra. 

Estou farta, mas também enfiada num túnel que não tem volta atrás — porque se recuar ainda será mais escuro — e o caminho é sempre em frente. Não posso sequer sentar-me no chão e fazer a birra que me apetece, a bater com os pés e os punhos. Tenho que continuar, por muito que a vontade que tenho seja sair deste corpo e ir para outro (mesmo que mais feio e velho e gordo, deixem-me lá ser este estupor), ouvindo a voz exterior dos outros e a minha voz interior: "O pior já passou, já subi a montanha mais alta". Passou? Se calhar, mas eu também tenho medo da planície, sou esta caguinchas que fica a relaxar depois do esforço mais cruel, a pensar "E se...?".

Em matéria de autoestima, atingi quase o pináculo. Nem aos dezoito anos recebia tantos elogios (até porque, nessa idade, infelizmente, alguns eram assédio porco, como qualquer mulher sabe). Conforme já disse aqui, agora sou querida e linda. Posso dizer, fazer ou escrever as maiores barbaridades, que nada é levado tão a sério que me faça cair em desgraça, pois que talvez não exista, aos olhos dos outros, maior do que aquela em que já caí. 

Aprontava-me para fazer treino respiratório de preparação para a radioterapia, que mais não é senão obrigarem-nos a estar sem respirar uma eternidade até estarmos azuis, mas tudo pelo bem dos pulmões e do que perfeito coração. As técnicas disseram-me que teria que tirar Natércia (não sem antes perguntarem se era cabelo meu, ganda Nat) e eu tirei. "Ainda fica mais bonita", assim ouvi logo, enquanto exibia o meu cabelito de Mariza na época em que ela usava rente à cabeça. Depois retiraram-me a máscara e "Mais bonita ainda". (Estão tão habituadas, que já dizem aquilo quase sem olhar para os doentes.) Até que me pediram para abrir o fecho das calças — para que pudessem monitorizar a minha respiração pela barriga —, mas eu, que sou mal intencionada, pensei (juro que apenas por breves segundos) assim: "Tu queres ver que agora também...? E ainda irão dizer-me: 'Ainda mais bonita'?”.