04/07/2022

… deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Andava há cinco semanas a fazer penso pós-cirúrgico, uma vez, duas vezes por semana, e esta minha mania de me aconchegar nas rotinas, já estava a ser um programa qualquer, as enfermeiras amorosas, o médico um prato cheio, todos os meus pensos foram uma paródia pegada, cada vez que me lembro que de uma das primeiras idas a enfermeira me disse: “Eu sou a Mónica das mamas” — por ser especialista em amamentação —, e eu, que já conhecia aquele nome e alcunha de outro lugar, escancarei olhos e boca, “O quê? A Mónica das Mamas da Bumba na Fofinha? A mesma que mexeu nas mamas da Bumba está a mexer nas minhas!?”.

Então hoje o cirurgião disse-me que já não era preciso voltar lá, deu-me alta e aquilo pôs-me em baixo. A enfermeira igualmente desolada, “Espero que tudo lhe corra bem, foi das pessoas mais simpáticas que por aqui passaram”, e eu de beiça caída, “E agora, senhor doutor?”, ele de braços abertos para mim, “Agora…”, e abraçámo-nos quase longamente, “Vai tudo correr-lhe bem, é muito querida, gosto muito de si”. 

Devia ter saído do hospital aos pulinhos, mas nunca achei graça nenhuma a despedidas. Flutuei até ao carro, embargada, apesar do quase doce sabor de mais uma pequena vitória.

https://youtu.be/ifm00JEjSeo


 

03/07/2022

Dançar é como andar de bicicleta (sem rodas e sem rodinhas)

A última vez que tinha dançado tanto tempo seguido tinha sido há uma semana, aquando do Rock in Rio, mas, antes desse memorável evento, estive quieta de bailaricos talvez meio ano. Claro que tinha que vir para aqui gabar-me que fui ao RIR (hahaha). Fui no dia dos fósseis, em que tocavam Ub4, A-ha e Duran Duran, eu à espera de só encontrar thios de calças encarnadas e camisa branca, sapato de vela sem meia (ugh), acompanhados de thias cheias de extensões, botox e casaco de couro amarrado à cintura, afinal foi pacífico: média etária, meio século, mas muita canalha miúda e até duas senhoras idosíssimas (uma delas de cadeirinha eléctrica, a outra de bengala), havia de tudo um pouco, só não bebés (especialmente daqueles que guincham). Perdi praticamente todo o concerto dos Ub4, mas tinha que jantar sem ter que me meter numa bicha do demónio. (Meu pequeno grupo, hambúrgueres ao preço do ouro, eu um Pai Thai vegan ao preço da platina.) E sim, também estive mais de uma hora numa fileirinha pirilau para receber à borla uma cadeira insuflável, como tanto critica esse povo influencer (?), que não só tem menos quinze anos do que eu, como também vai parar a tendas vip e sentar-se em maples feitos de rabo de boi. Adiante: assim que me apanhei com o pufe, dei em dançar toda a noite, pelo que não usufruí praticamente nada dele, mais valia tê-lo oferecido a um pobrezinho que fosse ali a passar, sei lá.
Mas não era a isto que eu vinha: era também para me gabar, é certo, mas sobretudo para comunicar ao mundo que hoje voltei às minhas danças no ginásio. Levei três ou quatro abraços da treinadora, agradeci-lhe a frase que me inspirou durante estes sete meses e que saiu da boca dela, fiz a aula a sentir-me a maior, a não errar praticamente nada nas coreografias todas (embora suspeite que só fiz m., mas soube-me tão bem!), sempre com Natércia a assar-me a mioleira, ao fim de quinze minutos pensei: “Olha, faleço feliz!”, mas aguentei até ao último minuto, soubesse eu o que sei hoje e ter-me-ia voluntariado para os Comandos, pois desconfio que numa tropa especial é que eu me encaixava bem. 

01/07/2022

O António e os dedos no rabo

Sim, se calhar estas coisas acontecem a toda a gente, mas dá-se que não o creio. É por esse motivo que necessito de desabafá-las por escrito, como se, ao fazê-lo, elas se me descolassem da mente, ou, pelo menos, perdessem a força estrondosa com que me atormentam.

Era eu a chegar à bicha (blhá) da estação de serviço, e reconheci-o logo, de costas: careca, envergando o tipo de calças que usa sempre — skinny jeans, o homem já passou dos sessenta e aquilo ainda lhe aumenta mais o perímetro da cintura e lhe diminui o volume do traseiro a níveis praticamente inexistentes —, camisa desportiva entalada por dentro das calças, todo um menear de anca enquanto se queixava do aumento do preço dos combustíveis. Quando se apercebeu de que era eu que estava atrás dele, perguntou-me como é que eu estava, deu-me dois beijinhos extremamente perfumados e eu respondi a verdade: "Agora estou melhor". "Ah, do quê?", "Cancro.", "Aaaah, de quem?", "Meu.", e ele de nariz franzido, óculos a subirem para o intervalo das sobrancelhas, olhos exageradamente escancarados, boca a tomar aquele formato da das influencers quando se fotografam em selfie, "Aaaah, não fazia ideia!", lá veio a retórica das amigas que tiveram, milhares de amigas que tiveram e estão óptimas, olha que maravilha, ter um cancro é o prelúdio de ficar óptima, imagino o que ficarei, se óptima já eu era. 

Estava nestes pensamentos etéreos — não esquecer que o cenário era uma bomba de gasolina —, quando ele larga de lá, depois de me dizer que o Paulo é como um filho para mim, sendo que eu sei que o Paulo e ele vivem maritalmente: 

- Eu faço o exame da próstata todos os anos. Os meus amigos recusam-se, dizem que ninguém lhes mete os dedos no rabo, ou então aquele aparelho, mas eu não. 

E eu a pensar que sorte a dele, amigas pós-cancro óptimas, amigos pré-cancro com medo dos dedos no rabo, agora finalmente concluo que isto de ser mulher é um privilégio muito maior do que eu pensava, talvez me pirasse daqui neste preciso momento, antes que ele seja um nico mais gráfico. 


30/06/2022

Gente que não sabe estar

Era eu querer, e todos os dias teria episódios desta minha surpreendente existência para relatar. A ver se amanhã não me esqueço e me sobra tempo para contar a do António e os dedos no rabo. 

Agora que me tornei uma assídua frequentadora de salas de espera, parece que se desdobram cenas diante de mim para me fornecerem conteúdo aqui para o buraco. Também se confirma que os loucos sentem uma atracção irresistível pela pessoa humana. 

Então, estou sentada numa cadeira que fica na ponta de uma fileira delas, aguardando que me chamem para tomar uma pica na coxa, e há um bombeiro/ cuidador/ filho que coloca a cadeira de rodas de um senhor de idade mesmo ao meu lado, mas em perpendicular, ou seja, com a cara do homem virada para o meu perfil. E quem o empurrou até ali, pirou-se não sei para aonde, já vamos perceber porquê: o homem dá em tossir levemente e puxar escarretas fortemente, a um ritmo, vá (não cronometrei, mas em média), de uma langonha a cada dez segundos. Apercebi-me de que não as cuspia, pelo que presumi, levemente incomodada, de que as engolia. Mas, lá está, isto de ser bem educada é uma grandessíssima merda, pelo que comecei por decidir aguentar, depois aquilo foi num crescendo de insuportáveis sons da parte dele e agonia da minha, e nessa altura pensei que, mal o altifalante chamasse um nome feminino, levantava-me e fugia para a sala ao lado. Mas nada, exactamente porque é sempre assim comigo: a voz só chamava homens. Estive mesmo para me fazer flausina e levantar-me dali ao som de "José Silva à sala de tratamentos", a abanar o codril. Quando atingi o pináculo da aflição gástrica, levantei-me, desconsiderando a possibilidade de o velhote se e me ofender por sair de perto de tão agradável companhia e fui sentar-me na sala ao lado. Porém, os sons escarratórios do homenzinho ouviam-se com a mesma nitidez, tal e qual estivesse dentro da minha cabeça — e, pelos vistos, de todas as pessoas que estavam nesta outra sala. Deu-se então que uma senhora extremamente africana se revoltou com o ruído dimanado pelo outro, e começou a berrar-lhe algo como "Não sabe estar, ó!?", sendo que o Ó não lhe ligou nenhuma e continuou com a sinfonia expectórica. Nesse momento, ela recebeu uma chamada no telemóvel, que colocou em altos berros alta voz, e em que gritou a plenos pulmões para a sua interlocutora, num crioulo completamente perceptível, qualquer coisa acerca de um balde do lixo que o raio do velho lhe partiu porque se sentou nele, mas que lhe ia pagar, cena que durou seguramente oito ou nove minutos. 

As viscosidades bronco-pulmonares do idoso tornaram-se, assim, white noise, se é que isto é possível. Ficou uma sala cheia de gente com a atenção suspensa na saga velho, mais balde do lixo, mais compensação em espécie. E eu, uma vez que já tenho um lugar garantido na quinta subcave, ou porque me enervei muito, tive um ataque de riso, silencioso, é certo, mas daqueles que nos sacodem como se estivéssemos a ter um espasmo. Valeu lágrimas e tudo. Pode ser que o Hades me ensine a estar.