12/06/2018

Daquilo de o Google não nos notificar dos comentários

Estava eu entre o desmoralizada e o conformada, justamente por, não sei se com justiça ou não, não receber comentários há bastantes dias, quando resolvi calçar a tairoca, meter a cestinha no braço e ir colher flores lá para as bandas dos comentários a aguardar moderação. E passavam eles dos vinte, môres. Vinte! Vós não me haveis abandonado à minha sorte macaca!
Vou agora publicar tudo, mas não tenho vagar, apesar da disposição e da vontade, para responder a todos neste momento. Mas fá-lo-ei, é irem espiolhando.
Os meus agradecimentos a todos, aos quais se juntam os meus pedidos de desculpas, em nome do coiso, que o problema é ele, não sou eu.
Cá beijinho a uma vossa criada. 

E aquele momento, também um bocadinho awkward, em que te sentes um génio, mas sabes que isso só vai durar cerca de dois segundos e poderá ser único na tua vida?

Éramos apenas oito, e mais o mestre. 
Súbita e inesperadamente, diz-me ele assim para mim:
- Dúvidas, tens?
E eu que sim, pois se toda a minha existência é uma redondinha e opaca dúvida, quem sou eu para não ser assaltada por nenhuma quando se trata de gramática? 
- Então, no imperativo, só quando é na negativa é que o verbo se mantém no infinito, porque na positiva é conjugado no tempo certo, não é?
Ao mestre só faltou levantar-se e bater-me [calma] palmas, aliviado e feliz porque nesta bela cabeça entrou uma regra; aos outros sete, só faltou terem que ir buscar os queixos aos sapatos. 
Subestimam-me. 

10/06/2018

And that awkward moment # 48

em que estás numa aula de dança, aquelas mesmas que têm fama de "não se suar nada" — e sim, antes que perguntem e eu não saiba como responder sem me enterrar, titubear ou enveredar pela mentira deslavada, esta pessoa humana maquilha-se antes da actividade, porque lá está, dançar feia e pálida e com cara de dia seguinte aos santos populares não está nos seus projectos mais longínquos, e, assim, colocou um pouco de iluminador —, e notas, através do espelho onde, no teu delirante imaginário, és uma dançarina exímia e de uma beleza avassaladora, que tens uma lâmpada acesa na testa? E é que ainda te ocorre que oh!, estás a ter uma ideia brilhante, pára tudo, mas o que é?, queres ver que são os números do Euromilhões?, a cura para a piolheira? o método cabal com vista ao definitivo irmanamento da meia desirmanada?, mas, afinal, é a cintilante luz provinda do teu suor, e a única ideia luminosa que poderias ter tido — não colocar o iluminador, passe a redundância —, não tiveste?

09/06/2018

Fato azul, com amor

Tínhamos que comprar toda a indumentária para ele levar vestida ao baile de finalistas. A mais clássica e "beta" que tinha - calças bege, camisa azul e sapatos de vela - não era apropriada para a ocasião, e constatámos com simulada preocupação e indissimulável alegria que teríamos que ir juntos às compras.
Eu sou assim uma espécie de homem nessa matéria: sei ao que vou, onde vou, e é muito raro perder tempo de pesquisas e buscas infrutíferas. Falta-me o tempo, falta-me a paciência e já sei que, se vou sem rumo, fico perdida nas lojas, como uma criança pequena que não sabe da mãe. [Tenho este trauma de infância, entrava nos armazéns com a minha mãe e perdia-a imediatamente.] Também nesse aspecto nos damos como Deus e os anjos. Ele, desconheço se por razões hormonais, mas o que é certo é que comigo também é assim, impacienta-se nas lojas, sobretudo se tiver que correr muitas e estiver mais do que dez minutos em cada uma.
Entrámos no Centro, fomos à loja que eu tinha sugerido - em alternativa àquela outra onde "os meus amigos compraram os fatos deles lá" -, consensuais na cor do fato - azul, está bem de ver - rumámos ao expositor dos fatos e ambos agarrámos naquele azul. À entrada dos provadores, tive que justificar que entrava com ele, "sou a mãe" (não fora dar-se o caso de ser alguma coogar assanhada, sem outro poiso onde explorar os recantos do menino.) (Enfim, tão distraída que estava a "polícia dos costumes" connosco, que não deu pelo casalinho que se enfiou num provador, com a desculpa de marcar as bainhas de umas calças ao homem, e por lá ficou, de cortina fechada, o tempo e para o que lhes apeteceu. Mas eu dei.) Escolhi-lhe o tamanho certo, que lhe caiu como uma luva, pagámos e saímos. A compra dos sapatos em nada diferiu deste esquema, a da gravata foi ainda mais rápida, com ele sempre a dizer "confio no teu bom gosto": escolhi-a sem ele, uma gravata cinzenta de pintinhas brancas só para "fugir" ao azul (noção que, aliás, desconheço).
No dia do baile, ele era o mais bonito. Não precisei de verificar todos os outros, um a um, para tirar esta óbvia conclusão. Ainda assim, quis levá-lo ao ponto de encontro do transporte que os levava a todos ao local do baile. À saída do prédio, dei-lhe o braço e fui sincera quando lhe disse: "Estás tão giro, agora é que toda a gente vai dizer que a velha sustenta o rapazola". Ele naquele sorriso que me aceita assim mesmo, desconexa e inconveniente, "Cala-te, que me estás a pôr nervoso", como se não estivesse já nervoso.
Vi meninas de vestidos armados até aos pés, cabelos armados cabeça acima, com colas e lacas insuportáveis, caras frescas inutilmente armadas em maquilhagens compactas até ao osso. Observei os outros rapazes e confirmei o que já sabia.
Depois contou-me que esteve no ranking para o melhor fato, mas perdeu a competição para o que levava a gravata mais ridícula (porque são adolescentes e faz toda a lógica eleger o mais feio no lugar do mais belo).
Guardo também para sempre os olhos dele, à saída do carro, enormes e lindos para mim, "Obrigado, madre".
Obrigada a ti, filho. Tu és (e serás) sempre o mais bonito.