06/04/2018

Ela fala tanto # 24

No entanto, ou tem breves bloqueios, ou serei eu que não alcanço raciocínios tão intrincados, esdrúxulos, direi mesmo abstrôncios.
Ouve um estrondo no quarto das miúdas, vai calmamente saber do que se trata. Vê uma delas com uma das portas do roupeiro na mão, que acabou de descarrilar do trilho que é a calha. Coisa para dois metros e tanto de altura, algo como oito ou dez quilos de peso. 
- Ah, pensava que tinhas caído.
E assim disse, melhor fez: saiu do quarto e foi à atarefada e inadiável vida dela.
Pergunto-me assim: então e se ela tivesse caído? E respondo-me assado: provavelmente, diria: “Ah,  pensava que a porta do armário tinha caído”. E lá ia, à atarefada e inadiável vida dela.
Só não me pergunto o tamanho da puta que ela havia de armar se a porta lhe descarrilasse nas mãos, ou se desse uma queda na minha casa. Logo baixa, quais agora?
(Se calhar, se fosse comigo, defecava no assunto. Em se tratando de uma das pessoas que eu gerei, é que temos a burra nas couves, que parece que tudo muda de figura. E de cores.)

05/04/2018

Madrinha atípica # 2

Sou dotada de bastante orgulho derivado às prendas que ofereço à minha afilhada. Se já filhas tenho bastantes, afilhada tenho só uma, com a grande vantagem de ser um tanto mais nova do que as da minha criação. Aquela menina matou-me (não a gritos; não a tiros; sim a beijos) muitas das saudades que fui deixando arrastar para trás no tempo, aquele que não volta para lá. Sem ter culpa pelo mau jeito, tem também a grande desvantagem de ter nascido em plena Páscoa, mais coisa, menos coisa, pois que esta é festarola móvel, ao contrário do aniversário da minha petite, que é de comemoração imóvel. Ou seja, ou calha em cheio na Páscoa, ou calha-lhe rés-vés, mas nunca em vazio.
Sinceramente, gostava de ser afilhada de mim mesma. De alguma maneira, até sou, naqueles momentos extra aniversário, Natal ou Páscoa, em que me oferto cenas. Mas não é a mesma coisa que seria alguém me fazer esse miminho, pois sou uma carente no que toca a agrados com valor monetário sentimental. A madrinha que tive não se esticava muito nas datas, a não ser por duas vezes em que me ter brindou com um relógio de pulso, o primeiro que espatifei logo (por ser extremamente pequena, não só em altura como também em idade), se calhar por não saber ler as horas, e um outro, que era um Timex* azul com números brancos, de que só havia à venda ou azuis ou vermelhos, mas a minha madrinha lá deve ter percebido que, para mim, ou era azul ou não servia, e posso mesmo dizer que amei aquele relógio com fervor quase carnal, tanto que ainda o tenho guardado, volvidas que lhe são em cima cerca de várias décadas. 
Bom.
Nestes treze anos de vínculo que nos une, dei à afilhada do meu coração um serviço completo de colheres de café em prata (quando eu ganhar o Euromilhões, faço-te o Topázio* Caninhas de jantar, querida, se me estás a ler), a Pandora* completa, brincos e pulseiras a perder de vista, o relógio mais foleiro do Mundo, mas que ambas delirámos por dar/receber, e eteceteras vários, tudo assim nesta linha de pensamento. 
Porém, mas sem poréns, dá-se que a menina está a fazer-se mulher, e algo me gritava que só eu, que quase nunca a vejo, me apercebi desse facto. Então, fui à loja italiana da lingerie de perdição e adquiri-lhe um conjunto bellissimo. Dei-lho com a recomendação de que não abrisse à frente de toda a gente (referia-me aos pais) (e sim, sou desencaminhadora), ela sumiu-se para o quarto e voltou, minutos mais tarde, com uma piscadela de olho, "Adorei a prenda, madrinha" e um abracinho bom.
Mais tarde, a mãe, minha bicomadre, enviou-me uma mensagem, a dar conta de que ela estava tão feliz que não queria largar a lingerie. E que eu tinha acertado em cheio.
Olha a novidade, são muitos anos a virar frangos.
Portanto, já sabeis: quando tiverdes dúvidas acerca do que ofertar a jovens dos zero aos quarenta e nove, vinde cá perguntar, que LB é este poço de sabedoria da treta e abnegação, capaz de iluminar trevas dessas.


* NMPPI

03/04/2018

Viagem de finalistas

Diverte-te, aproveita, cuida-te,
e travei mais não sei quantas palavras, presas na garganta como fumo espesso, tantos pedidos, já não conselhos — pois quem sou eu, senão apenas mãe? —, com laivos de rogo, e um (que me pareceu) leve timbre de súplica.

Uns dias antes, havia começado a lista, encimada pelos mais terríveis e inadiáveis, por ordem de importância na escala da aflição,
Por favor, não bebas até cair. Se beberes até cair, não te aproximes de uma janela. Nem de uma varanda. Nem da piscina. Pede ajuda, se te sentires mal. Não sei se já te disse que me és precioso. Já disse? Então, repito.
Calei-me a tempo de não debitar tudo o que me ensombra a alma de cada vez que um pássaro me sai do radar.

[Senta aqui ao meu colo. Toma a chucha. Não arranques a fralda. Vai ao bacio. Tira isso da boca. Não te descalces. Vem para o banho. Toma leitinho. Dorme um bocadinho. Come a sopa. Não subas para aí. Desce daí. Diz 'obrigado'. Põe o chapéu. Deixa-me pôr-te protector solar. Bebe água. Sai do sol. Espera pela digestão. Não fales com estranhos. Não digas 'não' a tudo. Não corras aqui. Dá-me a mão. Faz um desenho. Sonhos azuis. Dá-me um beijinho.]

[Não apanhes chuva. Não abuses do sol. Leva protector. Cuidado com os mergulhos. Sê educado. Come sopa. Come também fruta. Alimenta-te como deve ser. Respeita a digestão. Não passes fome. Nem frio. Veste um casaco. Leva roupa suficiente. A escova de dentes. Cuecas para todos os dias. E meias. Os calções de banho. A sweat com capuz. Uma farmácia completa, I mean. Também devias levar a tua gata, ninguém a aguenta quando tu não estás.]

[Senta aqui ao pé de mim. Vamos comer pipocas. E batatas fritas. Chiu, é segredo. Tem cuidado. Atravessa na passadeira. Bom treino. Vai sempre pela pista. Não resistas se fores assaltado. Foge da confusão. Vai estudar. Vai para o banho. Acorda, que já são horas. Corre. Diz 'não' ao que te prejudica. Não venhas tarde. Não fumes. Não estragues a tua pele. Dorme bem. Dá-me um abraço.]

Agora a sério, diverte-te. Aproveita. Mas cuida-te.
(Já te disse que me és precioso?)


02/04/2018

Isto, por acaso, vem um nico a propósito da quaresma

Aquilo era um dia de sol, dos raros que têm sido nos últimos tempos.
À porta do prédio, agarrada ao vidro, vi uma borboleta pequena e pouco bonita. A pobre, como todas, não tinha capacidade para entender a barreira não natural e transparente — para ela, invisível, até — que a separava do sol. Com um papel que encontrei na mala, procurei arrastá-la até à porta aberta. Pousou na minha manga e, assim, levei-a até ao exterior. Partiu, voando, sem adeus nem obrigada. Também eu não lhe disse adeus, só com o olhar, o que não conta, e fiquei a tautear 'How to save a life'. Não tem nada a ver, didn't go wrong, didn't lose a friend, mas lembro-me sempre.
~
O homem tinha dito que, quando a gata emprenhasse, a doutora ia mandar tirar. 
Naquele dia, agarrei-a mais uma vez, como minha que não é, mas assim a sinto, quanto mais não seja só por um bocadinho. Chega-me essa migalha, e sabe-me por um pão inteiro. 
Disse a senhora que ela já está à espera. 
A doutora vai deixar ter?, era eu, sem acreditar que o homem confirmasse.
Ai, não vai, não, vai mandar tirar.
Ai, não vai, não, isso pensas tu. 
Telefonema para a doutora,
Desculpe, sinto-me uma pet lover ridícula, mas alguém é capaz de fazer semelhante crueldade àquela gatinha?
Pois que não, que fique descansada, é claro que não, ai, não vai, não, não vai mandar tirar.
How to save some lives.
~
Devia deixar de comer carne. Isto é uma hipocrisia como outra qualquer.
Mas e o que eu adoro a chuleta do boi, a perna do borrego, o leitão assado, as plumas do porco preto, o frangote no churrasco? Oh pá, preciso de ajuda! Algum Carnívoros Anónimos?