04/11/2017

Tenho medo

A Uva e a Filipa (não sei se por esta ordem, mas foi por esta que as li) já disseram tudo o que me vem atravessado na garganta, no peito, no coração, nos últimos dias. Não tenho muito mais a acrescentar, a não ser aquilo que sinto em mim. Este medo de, um dia, acordar e ser mãe destas pessoas:

Daqueles ali ao fundo

Ou desta

Daqueles, que continuam ali

Ou deste palerma

Daqueles mesmos, sempre os mesmos.
Quantos são, mesmo?

Ou deste, do pull overzinho ao ombro

Daquele, da calça bege,
ou deste, da fralda de fora

que agora até aparece a compor a toilette

Desta grande maluca do Halloween,
ou deste casaleco, todo aninhado para o espectáculo

Tenho medo de um dia acordar e ser mãe da conivência, do silêncio, da compactuação, do conluio, que são, afinal, todos irmãos da cumplicidade e da co-autoria. Desculpados pelo medo, impassíveis e, no limite, indiferentes. 
Este meu medo é todo ele egoísmo, é todo ele reflexo, é todo ele hipotético: então e se o rapaz que está a ser espancado fosse o meu filho? Era assim, era com "gente" desta, a assistir e a filmar?
[Crucificava-os.]
[Um por um.]
[Com as minhas próprias mãos.]


03/11/2017

Nova noção de "treino"

Se a pessoa for ao supermercado de manhã e carregar para o carro oito quilos de compras, e depois carregar o mesmo peso do carro para casa; se for fazer uma prova de esforço à tarde; se for dançar durante uma hora à noite, pode considerar-se que treinou três vezes durante o dia?
Ou nenhuma?


Metas que eu atravesso

Uma hora e quatro, eu não disse?

À frente de um verdadeiro pelotão

01/11/2017

Foi assim que aconteceu

Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia. 
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser.