Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que
Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia.
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser.