03/03/2017

Está tudo pronto para o grande dia. Só ainda não escolhi a farpela, mas também, todo o trapinho me cai bem

Já comprei a prenda. Por acaso, comprei uma coisa que dá uma trabalheira do genital a quem a recebe, que é uma daquelas caixas com escapadinhas românticas e aventuras várias. Aquilo, só para conseguir marcar, é uma cegada que quase leva o povo a desistir, e não será por acaso que tem uma validade de dois anos. Ainda andei indecisa entre o salto de pára-quedas, a aula de surf em grupo ou outra coisa qualquer ainda mais erótica, mas meti-me um chip com um máximo para gastar e deu um jantar a dois, que será romântico se eles quiserem, e eu desejo fervorosamente que sim.

Arranquei o preço porque sou uma pessoa
 que recebeu uma educação extremamente diferenciada e sei das coisas

Entretanto, ligou-me uma excitada daquelas cuja vida social se resume a casamentos e baptizados, e que um aniversário não infantil é a coisa mais divertida em que vai participar nos próximos três anos, dando-me conta de que vai haver uma desgarrada. Já aqui a parva de serviço perguntou assim: "Mas vão soltar alguma vaca?", pois que confundiu, assim muito de repente, desgarrada com garraiada, e já estava a ver-se metida em trabalhos e a não poder calçar salto alto para a ocasião, ó-pernas. Após breve esclarecimento, comunicou-me a outra que devo preparar uma quadra que encaixe na métrica de "Ó rama, ó que linda rama", uma vez que os felizes contemplados (palavras dela, no pico da excitação) — e eu fui-o (claro...) — com tal tarefa vão cantar, aí sim, à desgarrada. E lá vou eu.
Falha-me a imaginação, escasseia-me a vontade de pensar em qualquer coisa que não envolva a sigla NIB, ou então a expressão número de identificação bancária, pelo que me pus a ensaiar o que me veio à cabeça, e é isto que levo.

02/03/2017

Eu tenho problemas com tudo # 21

Vou à lavandaria self-service, porque tenho a máquina avariada. (Aliás, tenho tudo avariado, a do café também deu o grito, as minhas botas mais queridas idem.) Meto tudo na primeira máquina que me aparece, sem perceber que tem capacidade para 19 quilos. Quando constato que, afinal, a roupa cabe toda numa de 12, mudo, retiro o cartão da ranhura para anular a intenção, mas o sistema da coisa já não me credita a quantia correspondente a 19 quilos, para que depois possa debitar a dos 12. Não está uma alma viva que me possa acudir, mas tenho um botão de ajuda mesmo ali ao lado. (Tipo botão de pânico.) Carrego no botão e não acontece nada. Não me admiro, pois tenho o mesmo problema à saída dos parques com Via Verde, nunca me acodem ao primeiro grito de socorro. Julgando que o meu indicador não foi suficientemente enfático, carrego com mais força e durante mais segundos. Mudo e quedo. Ligo então para o número de ajuda que ali consta, e atende-me um senhor estremunhado, isto passa das 10 da madrugada. Relato-lhe o meu drama em cerca de três mil palavrinhas apenas, e o homem responde-me: "De onde é que a senhora está a falar?". Desiludo-me a mim mesma. A resposta ideal, correcta ou lógica, que seria "Do Além!", "Da periferia", "Do estrangeiro", ou "Da sua cabeça", sai-me, esdrúxula: "Da lavandaria...". Mas ele queria mais. Ou porque ainda não tinha deveras acordado, ou porque tem uma cadeia imensa de lavandarias: quis saber de qual lavandaria. Especifiquei, cheia de paciência. (Jó era um menino, ao pé de mim, quando estou em brasa.) Atordoado, fez-me repetir qual o problema que me levava a ligar-lhe (vá que não acrescentou a esta hora). Depois de se inteirar, disse-me que, àquela distância, não podia resolver o meu problema. (Nunca ninguém pode resolver nenhum dos meus problemas, esteja a que distância estiver. Eu sou um velho lobo, travestido de pessoa comum.) Então, fiquei nervosa um bocadinho mais a sério, e perguntei assim: "O senhor explique-me só uma coisa, que eu fiquei sem perceber: para que é que serve este botão de ajuda que, efectivamente, não toca para lado nenhum, e este telemóvel, que vai dar a alguém que não pode fazer nada?". Então não é que ele me responde que "Um e outro servem para resolver outro tipo de problemas, diferentes daquele que a senhora me relatou"?  (Faço uma ideia. Hão-de ser problemas mais intrincados, problemas de pele, problemas de matemática, problemas do genital.) É sempre. Obrigadinha, cosmos. Há muito que percebi que sou psiquiatra de mim mesma. 

Na senda de "Sou só eu?" # 5

Que, quando não sei do telemóvel, peço a alguém próximo que me ligue, a ver se ele não estará a brincar às escondidas comigo (em que eu sou o do coito) ou à cabra cega (em que eu sou a cabra), a pessoa até me faz a vontade, eu lá encontro o animal, agarro-me a ele como se tivéssemos uma relação, e a primeira coisa que constato, surpreendida, é: Ah, olha, e já tinha aqui uma chamada não atendida...?


01/03/2017

Estive a pensar na prenda ideal para os meus amigos

e, já que não quero participar com uma transferência para o tal NIB — mesmo pelo princípio e pelo fim da questão (nada a ver com a pretensa despesa, já que cada um dá o que quer e a mais não é obrigado) —, lembrei-me de um kit de viagem. Tudo metido numa caixa de sapatos Cubanas*, com um charuto cubano colado na tampa (só um, para que tenham oportunidade de brigar por ele), feito em cima do joelho (ou, como diriam os brasileiros, feito nas coxas), assim rudimentar, para dar aquele toque rústico:

- Mapa-mundi, para riscarem os países todos que visitarem. Se forem espertos, riscam-no todo, mesmo que não passem do Vaticano;
- Diário de viagem, para escreverem cenas. Já leva prefácio da minha autoria, a avisar que não vale descrições gastronómicas, simpatia dos empregados, mares azuis-turquesa, bolhas nos pés, nem nada de clichés de viagem que se podem colar nos FB, Insta e entupir os Whatsapps dos amigos e de todos os contactos em geral;
- Óculos de ver ao perto, para ele ver os tapetes do quarto; óculos de ver ao longe, para ela ver o tecto do quarto; 
- Umas quantas caixas de pastilhas azuis (com manual de instruções, para que não as confundam com pastilhas de mentol para a tosse), para que não possam dizer que foram a Roma e não viram o Papa;
- Brinquedos, para quando estiverem chateados, sem nada para fazer;
- Creme autobronzeador, para parecer (porque à mulher de César não basta ser séria);
- Um biquíni muito pequenino às bolinhas amarelas, para ser usado por qual lhe calhar;
- Máquina fotográfica à prova de água e de aventura, nem que seja para usarem na banheira;
- Comprimidos para o enjoo. Ele há demasiados agentes desencadeadores;
- Toblerone/Milka/Maltesers/M&M* — têm que voltar (ainda) mais gordos;
- Umas folhas de um chá qualquer que os ponha a rir;


- Bilhete só de ida para um paraíso fiscal, a ver se ele se deixa de merdas.

* NMPPI