16/03/2016

A felicidade faz-se de pequenos nadas # 2

Receber este envelope. Ver esta carinha. Vacinar uma criança por dia — trezentas e sessenta e cinco (trezentas e sessenta e seis, este ano) crianças vacinadas por ano. 
Não sou melhor do que ninguém, é verdade, but I do really care, e isso pode fazer toda a diferença. 
São 10 euros por mês, 33 cêntimos por dia — menos meio café, menos um cigarro e meio por dia. 
Podia bem ficar parada —, que estaria a caminhar —, sem fazer nada —, que estaria a fazer tudo —, sem mover uma palha —, que estaria a mover uma montanha —, sem sequer mexer as pálpebras —, que, ainda assim, teria os olhos bem abertos, e operaria a mudança: estaria a plantar a minha pegada desde a planta.
E tu, fazes o quê?


15/03/2016

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 36

Por mais anos que passem sobre esta velha carcaça, há mesmo coisas que nunca mudam. O momento da compra de pepinos é uma delas. Nunca é tranquilo e pacífico, nunca pode ser um pouco menos que hard.
Se já não bastava uma vez ter pedido, triunfante, numa mercearia perto de mim, um rabo com nama, hoje atingi o pleno no momento em que entrei e declarei, derrotada,

Esqueci-me de pepir pedinos.

Vá que me ri de mim mesma, como os malucos, e fui então para o exterior, onde se encontravam os pepininhos. E o diminutivo não é por acaso, calha que eram mesmo pequenos — embora não baby, que são o equivalente a tomates cherry; aqueles que são usados para pickles, não sei se estão a visionar. 
Já cá fora, deparo-me com um homem, assim com ar de quem não tinha nada para fazer, a quem perguntei:
- Está a atender?
E que me respondeu a grande idiossincrasia:
- Se a senhora quiser...
Deu-se que eu queria. À distância, já me tinha apercebido que os pepinos que se encontravam no caixote eram todos pequenos e com ar de já terem tido melhores dias. Foi por isso que entabulei com o idiossincrático um monólogo completamente ingénuo, porém — e por versar sobre o assunto pepinos, que, ele sim, nada tem de inocente —, todo ele pontilhado de erotismo e chanchada, enquanto, com a ajuda dele, escolhia os frutos mais capazes:
- Ai, são tão pequeninos, vou ter que levar dois, que isto só um não me serve para nada.
- Parecem-me um bocadinho mirrados, até ao toque se sente.
- Deixe-me cá ver se encontro dois que estejam mais rijos, que isto é uma desgraça.
E assim, com conjecturas deste calibre, logrei trazer para casa dois — embora pequenos —, belos pepinos.

Uma bailarina nunca baixa os braços

*
Era toda olhos e ar preso na garganta, quando me apareceu e me disse que o programa de desenho, onde tinha praticamente acabado um trabalho com prazo para dali a dois dias, tinha crashado e o documento tinha ido todo ao ar
- Chora, filha! — Implorei, por considerar que, nas lágrimas, se encontra a única lavagem de alma possível contra tristezas, injustiças e raivas. E este era caso para tanto, de todas elas. Mas a fibra dela pode não ser a minha, ou então eu também já fui assim e não me lembro. Era um olhar de cristal, aquele dela, duas pérolas negras a lutar contra uma adversidade com um tamanho tão maior do que o dela, menina que ficou pequenina, para sempre menina. 
Não houve truque, recurso a oráculos, programa de recuperação, mezinha nem reza que recuperassem o desenho, expressão de horas de esforço e empenho — e também de qualquer coisa de muito mais intangível, que são o talento e a dedicação empregues numa obra de arte. 
Mais à tarde, enviou-me uma mensagem, anunciando que tinha chegado ao ballet. E que já tinha o esboço de outro trabalho, desta vez elaborado numa plataforma diferente e, convenhamos, mais segura: papel, tão-só. E que, assim, iria apresentá-lo no dia em que o deveria fazer.
Pela segunda vez no mesmo dia me questionei se aquela fibra será a minha, que facilmente me derrubo e me encosto ao drama e ao luto, e levo cada vez mais tempo a acordar dos meus KOs. Ou então, eu também já fui assim e não me lembro.

* evidentemente roubada

14/03/2016

Linkedin, linkedout

Estava eu muito bem dentro do meu Linkedin, quando fui esbarrar-me no sector descobertas, ou seja, no separador "Pessoas que talvez você conheça". Por acaso, das trezentas (que eram mais, mas à terceira centena cansei-me) sugeridas, só conhecia três. Ainda assim, não pedi conexão a nenhuma delas. Estava demasiado varada com o que estava a assistir, isto é, com a forma como as pessoas se apresentam às possíveis entidades patronais e ou conhecimentos nesse sector. 
Comecemos por assentar já aqui que o Linkedin é um site profissional. E que, em princípio, não é para professionais do séquiço.
Refiro-me às fotografias de perfil. Existem as normais, as aceitáveis, a cores ou a preto e branco, em que as pessoas se apresentam com maior ou menor sorriso, mais bem tiradas, mais mal, caras bonitas e outras menos, mas isso faz parte da vida. E depois existe o resto. E, nesse resto, senti-me mesmo compelida a fazer exercícios relativos à intenção de cada um, ao pôr uma fotografia daquelas. Porque, meus amigos, ou é isto, ou então não é nada.

1. Fotografia de casal — Hey, boss, eu sou casadinha. Escusas de tentar o assédio, apesar de se ver logo que eu sou boa cumós trovões. Mas o meu Vítor Sérgio trata-te do sarampo se tentares a tentação comigo, óvistes?
2. De perfil e com óculos de sol — Querido chefe, eu, à segunda-feira, estou de ressaca e não respondo por mim. De caminho, também não te respondo a nada, que é para não dar raia.
3. De óculos de sol opacos — O meu estrabismo não pode ser impedimento a uma contratação. Quase não se nota, e o público está-se nas tintas. Também tenho dias em que o Fábio e eu lutamos lutas.
4. De perfil, praticamente de costas — Esta é a imagem que terás no dia em que me puseres na alheta. Antecipei-me, para te ires habituando.
5. De carro, com a cara cheia de sombras — Vou de carrinho.
6. Hiper-bronzeada, com um vestido de praia (profissão: advogada) — Eu sou assim todo o ano, um torresmo, uma tentação do diabo depois de passar pelo Inferno.
7. De perfil, com o cabelo a tapar a cara toda (toda, minha gente) — Ó eu pensativa. Eu sou pensativa. Eu penso. Eu passo os dias a pensar. Sou muito dinâmica. E proactiva. Mas penso. Mmmmmm.
8. Com o cachimbo na boca — Ó eu intelectual. Ó vocês a trabalhar.
9. Completamente despenteada/ drÓgada/ acabada de sair da cama (após luta com um gato selvagem/ um tarado sexual) — Hey, boss...
10. Na mota, com o capacete posto — Vou de mota. Sou um homem prevenido. Sou um homem. Tenho mota.
11. No restaurante, com gente sentada noutras mesas em pano de fundo — Isto sem subsídio de refeição, não temos acordo.
12. A sair de uma gruta (profissão: "À procura de novos desafios" — juro que vi) — 'Bora p'ós copos? 'Bora p'às putas? 'Bora fazer escalada de paredes? 'Bora comemorar os anos do coelho da Joana? 'Bora à merda?
13. A cara a aparecer no fundo de uma garrafa — Eu sou a verdade.
14. No meio de um parque de estacionamento — Ia aqui a passar e lembrei-me de fazer um perfil profissional.
15. À frente de um quadro a óleo — Eu pertenço a uma ordem profissional. Eu pertenço a uma elite. Eu pertenço.
16. Uma boneca de BD japonesa — 私は愚かです.

Agastada, mudei a minha própria foto de perfil. A anterior já tinha três anos, eu envelheci, cresci, mirrei, emagreci e engordei epicamente, além do que havia sido tirada minutos após a gaffe mais memorável que cometi na vida e ainda estava com brain freeze (e cara de "Hoje não foi um bom dia para me levantar da cama"). Tinha ao pescoço um colarzinho de flores havaianas e tudo (mas disfarcei-o no photoscape). 
Agora tenho lá uma selfie, tirada à balda, mas calhou que fiquei com cara de boneca japonesa, e achei que servia.