Acabei de a conhecer. Sentámo-nos à mesa com mais 58 pessoas. Ela calhou ao meu lado. Fica calada um jantar inteiro, enquanto eu converso com quem está nas minhas duas diagonais, à minha esquerda e à minha frente. Acabamos o café, estamos nas contas e ela conta-me uma inconfidência. Nada de extraordinário, não fora o facto de não nos conhecermos, de todo em todo, e termos 0,1 % de possibilidades de nos voltarmos a encontrar, a não ser por via do bom dia - boa tarde. E depois, discursa, sozinha, durante o tempo que leva a dizer isto:
- Isto que acabei de lhe dizer fica aqui entre nós. Foi uma confidência que eu lhe fiz. Eu não a conheço de lado nenhum, você não me conhece, mas pareceu-me ser pessoa em que uma pessoa pode confiar [WTF-F-F???]. Eu não costumo confiar assim nas pessoas, mas consigo não tem nada a ver. Posso estar enganada, e até lhe digo mais: já me enganei algumas vezes, confiei nas pessoas e as pessoas vieram a revelar que não eram de confiança. Vim a saber, por portas e travessas, que tinham ido contar o que eu lhes tinha contado e, às tantas, já toda a gente sabia. Eu sou uma pessoa muito reservada, e faz-me muita confusão que me façam isso. O que eu lhe estou a dar é um voto de confiança, a partir do princípio que não vai contar nada disto a ninguém. Espero não estar enganada consigo, mas nunca se sabe. Acho que não, mas sabe-se lá...
Chata da porra. Paguei a minha despesa e saí, sem me despedir nem boa noite, não fosse a praga vir atrás de mim com a melgueira da conversa e ainda tivesse um ataque histérico a espernear-se que eu não era digna do voto de confiança dela por me ter contado um segredo sem pés nem cabeça, ao menos uma boa cavalgada sexual, não, uma coisinha pequenina de uma vidinha sem sal. Esquizofrénica.
Nem os malucos que me cruzam o caminho dizem alguma coisa de jeito.
Nem os malucos que me cruzam o caminho dizem alguma coisa de jeito.


