21/05/2014

Um post sobre sapatos/Metáforas que eu invento

Desde o início que ela sabia que ele tinha vindo para não ficar. Só para estar. Estava com ela e depois, de vez em quando, estava com outra, ou com outras. Ia ficando, com maior frequência, com ela, ia mandando SMS amorosos, iam saindo à noite, à tarde, ao fim-de-semana. E, de vez em quando, um dia inteiro sem aparecer e sem dizer nada, davam-lhe a perceber que estava com outra. Não podia queixar-se, já sabia desde o princípio que havia mais gente naquela equação da que, agora, era a sua vida. Uma qualquer esperança inconsciente de que isso mudasse, em função de um sentimento que acreditava despertar-lhe um dia, fê-la aceitar as regras impostas daquele jogo que nenhuma mulher - descontraídas, modernas, desinibidas e esclarecidas incluídas - atura por muito tempo. E ele instalou-se, trouxe escova de dentes e tudo. Ela não respondeu com a mesma moeda, não levou o secador de cabelo para o forte dele. Um dia, sem mais, ela falou-lhe nisso, na desigualdade em que se encontravam, há meses. E continuou tudo na mesma, menos no coração dela. Estranha, complicada e, afinal, tão simples, a fórmula como se acaba um amor dentro do indestrutível peito de uma mulher. Disse-me ela que aquilo sempre a incomodou, mas agora que falou nisso, passou a ser insuportável. 

- É como um par de sapatos bonito e caro, que nós compramos e, já na loja, percebemos que ainda não magoa, mas vai magoar. É só uma impressão, fechamos os olhos à perspectiva e compramos, pagamos com a vida aqueles sapatos. E toda a gente nos diz que são lindos, embora eles magoem ligeiramente. Enchemo-nos de orgulho e de ilusões, "um dia eles vão-se fazer ao meu pé", e continuamos a usar. E eles a magoar cada vez mais. Apertam-nos, fazem-nos doer os ossos e a alma, fazem bolhas, mas nós aguentamos, embora vamos percebendo que eles nunca se vão fazer ao pé, quanto muito o nosso pé é que se vai fazer a eles. Até ao dia em que nos fartamos da porra dos sapatos, cagamos para o facto de terem sido caros, de serem tão bonitos, de nos ficarem tão bem, de toda a gente nos dizer que são fantásticos e mandamos a merda dos sapatos magoar outra. Até os arrancamos com raiva".

- Agora disse tudo, [Linda Porca] - disse-me ela.




4 comentários:

  1. É um boa metáfora. Tudo que leva sapatos é bom.

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  2. eu rebento sempre as bolhas... não sei se quer dizer alguma coisa ou não.

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    1. Às vezes não há grande alternativa. Mas depois fica tudo tão doloroso que se torna urgente livrar do sapato!

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