31/07/2017

#parecesasvelhotas

Desculpem. Sei que estou a aproveitar-me de uma ideia, mas não me apetece ser um dos elos de uma corrente. Pelo menos, desta vez. E não vou linkar. Desculpem.
Mas é que estava aqui a ler estes posts, de certa forma revivalistas, até certo ponto saudosistas, e lembrei-me da cena que foi a compra de uns ténis para mim, aqui há uns meses, poucos, em que me acompanhava a minha filha mais nova, e, perante a minha indecisão entre uns Nike cinzentos e uns Nike com a onda cor-de-rosa, me esclareceu,
Ó mãe, tu já não tens dez anos.
E o que tem mais piada é que eu pensei,
Isso julgas tu.
E também, 
Olha, tenho. Multipliquei-os pelas vezes que me apeteceu, e, se calhar por isso, tenho-os, intactos.
Não podia explicar-lhe ali, nem em lugar nenhum, que os Nike dos meus catorze anos - não dez, é certo - eram brancos e tinham a onda azul ou vermelha. Ou então, andávamos de John Smith, que foram os pais dos All Stars que elas agora usam e julgam que só apareceram quando elas os calçaram.
Acontece que ainda agora comprei uma fita para pôr no meu cabelo quando venho do mar, que o faz de ondas espetadas e pouco pacíficas como as do Pacífico, e também sei que podia ter escolhido preta, lisa, como uma faixa de luto, um fumo, mas gostei mais de uma cor-de-rosa com cornucópias, e foi essa que escolhi. Então ela disse-me,
Ó mãe, tu já não tens doze anos.
Isso julgas tu.
Curioso como cresci dois anos aos olhos dela em poucos meses.
Não podia explicar-lhe ali, nem em lado nenhum, que, lá pelos catorze anos, nós usávamos bandanas americanos na cabeça, cheios de cornucópias, e pode ser por isso que eu vou gostar sempre daquele padrão, mais do que de preto, nos cabelos.
Depois dos ténis com a onda cor-de-rosa, já comprei outro par, todo em preto. Nesse dia, devo ter-me apercebido que já não tenho dez anos. Nem doze. Se calhar, nem catorze.
As filhas cuidam muito das mães, para que elas não façam figuras tristes. Os filhos cuidam para que as mães nunca fiquem tristes. Ou tenham medo.
Outro dia estava a atravessar uma avenida à noite e entre faixas havia um alçapão de respiração do metro, com uma grelha que me fez medo pisar e olhar lá para baixo ao mesmo tempo. Então, ele pôs o braço em cima dos meus ombros, disse-me aquilo com a voz que só ele tem, de olhos enormes e lindos, e atravessámos assim, eu sem medo de nada.
Já ninguém tem catorze anos, quanto mais dez ou doze.

Hoje vou explicar por que é que tenho tanta resistência a ler livros de pessoas crescidas

Conseguem sempre escrever pior do que eu.



corrimões  
in A rapariga de antes, JP Delaney

30/07/2017

Há sempre gente com um sentido de humor (ou de oportunidade) mais retorcido do que o nosso # 2



Ainda estou a tentar perceber por que é que ele me enviou isto com a legenda: "Já encomendei um para o teu carro, para colocar no lugar do condutor".

29/07/2017

Ó meu rico tio, que má hora para morrer! # 3

Existe uma relação próxima entre o meu trabalho e a morte de tios por afinidade. Eu sou o Ramsey, com a única diferença de que não marco golos. Mal me surge um trabalho novo, eis que flop. Vá, calma, não é preciso virem para aqui dar sentimentos, que, por muita pena que eu tenha, estas são aquelas situações a que vulgarmente se chamam "a lei da vida", num suspiro, à porta dos velórios.
[Nós, tias, temos sempre imensos tios, e é natural que, se não nos nascem novos, pelo menos nos faleça um de vez em quando.]
Desta vez, acho que me portei bem. Cheguei, abracei quem me pareceu que estava mais enlutado, disse "Meus sentimentos" e fiquei quietinha. Apresentaram-me uma mulher com ar de 25 anos, garantiram-me que tem para lá de 30, alvitrei 31, esclareceram-me que são 39, e eu fiz a fineza de a deixar passar à frente na porta, com um "Primeiro os mais velhos". Fora isso e o facto de a ter feito soltar uma gargalhada num local menos próprio para o fazer, tudo impecável. 
Mandaram-me entrar para uma sala com a configuração de uma capela, estive ali um bocadinho calada e quieta, só a ver os sapatos das outras, e depois disseram-me para sair, que eles ainda tinham mais uma cremação a seguir, e estavam atrasados. Saí e estive mais uns dez minutos a conversar do lado de fora, como nos casamentos, e, como não saiu dali nenhum par de jarras noivos, presumi que já podia ir-me embora. Por mais que me garantissem a posteriori que havia um caixão na sala onde estive sossegada, que foi reconduzido para uma porta, ou seja, a última que atravessava, quase não acreditei, não fora ser pessoa de confiança que mo afiançou. Eu não vi nada. Só sapatos.
Achei tudo muito clean. Quero uma coisa assim para mim, quando me tocar a vez.
E não, o meu humor não é nada negro, isto não é sequer humor: são factos. É a lei da vida.
Vou mas é de férias, o trabalho pode esperar. A vida é que não.