Pergunto-me, com assinalável frequência, durante as minhas caminhadas a alombar com
sacos de compras (de fruta e outros bens consumíveis, antes fosse de sapatos e
saias), que nefandas consequências ao nível indumentário terá esta pandemia,
logo assim ela termine, se é que ainda assistirei a tal dia - o que, caso assim
não aconteça, até me dá um quentinho na alma, já que "o que está exposto" não me
agrada de todo, e fico com uma sensação igual àquela que me atormenta de cada
vez que entro (ou entrava, melhor dizendo) numa loja e me diz(iam) "só há o que
está exposto" e eu queria era que fossem ao armazém rebuscar caixotes e
charriots até encontrarem o meu pretendido por não gostar de nada do que estava na porra da loja.
É que vi uma mulher na rua com um fato que nem percebi: em polar turco, meio brilho (se calhar não encontrou com brilho cegante), calças e casaco de fecho, cor beringela - esse indefinido indefinível -, punhos e tornozelos de malha canelada, e, a completar o ramalhete, um téni branco aleatório. (Também consideremos o facto de não existir calçado algum que não choque com aquela fatiota, já que ela própria se encarrega de o provocar.) Portanto, a pessoa ia de pijama ao banco.
Tenho visto nas lojas online essa nova modalidade de toilettes que responde pela designação de "roupa confortável para estar em casa", um híbrido entre o pijama e o fato de treino, que facilmente resvala para a categoria de roupa-para-dormir-com-que-jamais-se-põe-os-pés-na-rua-nem-que-haja-um-incêndio-a-meio-da-noite-e-tenha-que-se-fugir-à-pressa. Não, nem debaixo de um sobretudo - o nome diz tudo, passe o pleonasmo: sobre tudo o que se veste na rua.
Então lembrei-me das dramáticas consequências que teve a Expo 98 a esse mesmo nível, ao vir institucionalizar o calção no homem. Houve ali uns meses (e foram cinco, não doze como até agora) em que estava calor, a exposição era ao ar livre, numa zona de micro-clima, junto ao rio, e era aconselhável levar roupa leve, chapéu, água e sei lá se abanicos. A Expo terminou, mas deixou o presente envenenado do calção masculino pelas cidades fora, adoptado por novos e velhos e altos e baixos e gordos e magros.
(Reflictam e repitam comigo: calções na cidade, só para jovens e ou senhores muito atléticos. Secos de fome. Esganados.) (Vou fundar um movimento "Nós não queremos ver barrigas a abanar, o que inclui as das pernas".)
Assim como Mary Quant inventou a mini-saia - e há-de ter dado pinotes no túmulo por ter arranjado modo de pôr à mostra, além de pernas que bem a aguentassem, paios e chispes -, a Expo inventou o calção do homem. E a pandemia inventou o pijama de rua.
My eyes. Nem com um garfo espetado neles vou conseguir desver. E sei que é o que me espera, de outrora (desde que começou a pandemia) em diante. E nem me adianta emigrar.