Creio que nunca me tinha apercebido da existência de uma câmara de aflição na sala do veterinário, até ontem. Talvez porque eu própria ali tenha entrado assustada e apreensiva, carregando a minha cabeça a abarrotar de fantasmas, as pulsações latejando em todos os sentidos, a respiração desacordada num susto. Na véspera tínhamo-nos apercebido de um novo caroço na axila da Mia, e o pânico pela recidiva (ou nunca cura) da doença havia voltado. Era igualmente o momento de fazer o raio-x de despiste de metástases, pelo que a deslocação ao consultório tinha dupla razão de ser.
Não sosseguei a alma quando a veterinária analisou o caroço e disse apenas não gostar nada da consistência dele. Fez punção, colocou o conteúdo em três lamelas e preparou tudo para enviar para análise de laboratório no mesmo dia. A Mia portou-se como uma senhora, sem um ai, sem um rosnado, sem uma tentativa mais radical de se libertar de tantas mãos - as minhas incluídas - que a prendiam.
Esperava a revelação do raio-x quando ouvi soluços na sala de entrada. Dirigi-me para lá em ânsias e vi uma mulher adulta com qualquer coisa de bastante pequeno nas mãos, postas em concha fechada, como que numa oração. Quando as entreabriu, ouvi-a explicar que "ele põe três ovos por mês, este mês ainda não pôs nenhum, costuma ficar assim paradinho quando põe, mas nunca como hoje". Percebi então que se tratava de uma fêmea, apesar da referência no masculino, de um pequeno papagaio verde. Levado às pressas para a sala de cirurgia, para ser posto a soro e oxigénio, deixou assim para trás a dona inconsolável. Ainda ensaiei uma tosca tentativa de alento, mais em busca de convencimento próprio, com um inseguro "tenha calma, vai ver que não é nada", quando nem sequer nas minhas palavras acreditava. Calei-me imediatamente, pois as lágrimas dela contagiaram as minhas e precisava de manter as forças para o que viesse a seguir.
Revelado o raio-x, a veterinária deu-nos a única notícia boa daquela visita: pulmões "limpos", por ali não há "nada". No entanto, insistiu na muito provável "maldade" do caroço. Aguardamos uma semana, de credo nas mãos e coração na boca.
Revelado o raio-x, a veterinária deu-nos a única notícia boa daquela visita: pulmões "limpos", por ali não há "nada". No entanto, insistiu na muito provável "maldade" do caroço. Aguardamos uma semana, de credo nas mãos e coração na boca.