05/04/2016

Por falar nisso,

estava aqui a lembrar-me que, daqui a dois dias, cá o buraco faz três anos. Parecendo que não, é uma data. E que isto era coisa para se comemorar em grande estilo. O ano passado, consegui (com um tico de batota, porém) juntar o segundo aniversário com os mil posts, e (não me esqueci que foste tu a n.º 50, Nê), os cinquenta seguidores. Foi um dia de vitórias e balõezinhos. Ouvia-se ribombar por todos os lados em minh'alma, e só não in meo corpore sano, porque eu sou uma senhora. E não ribombo.

Neste momento, tenho 1848 posts publicados (é verdade, 848 posts num ano, oh, infalível matemática), pelo que, por muita trapaça que para aí faça, nunca chegarei aos 2000 depois de amanhã. Também não terei 100 seguidores, a menos que me meta toda num desses sites manhosos, a ser amiga de toda a gente, ou então crie uns quantos perfis que eu própria alimente, e gente para alimentar já eu tenho que não me sobra.
Assim sendo, resolvi fazer uma surpresa aqui ao buraco, para este aniversário que se aproxima, que é também uma singela homenagem aos meus dois primeiros e, durante muito tempo, únicos: minha eternamente, compagnon Sister V., e esse monstro sagrado do parlapier, Silent Man
Já cá faltava. 

Deslarguei esta frase # 35

Contextualizando: eu sempre fui do neologismo. Da metáfora, do eufemismo, é certo, mas o neologismo sempre me acendeu néons cá no cerebelo. Gosto de criá-los, depois libertá-los, aventá-los ao vento, fazendo deles linguagem corrente, ao sabor e cheiro da corrente. A língua portuguesa, já de si tão rica e cheia de pedras preciosas (já para não falar das pérolas que se ouvem d'adonde em d'adonde), é também tão elástica, que é passível e possível de esticar, fazendo nascer, por partenogénese, novas palavrinhas — às vezes, coitadinhas, muito próximas de palavrões, embora, vá, sem a carga inerente. 
Também gostei sempre muito de ditados e expressões populares, mas oh, eruditos da nossa praça pública e da privada, antes que me aventem com o peixe à cabeça, deixai-me explicar: os ditados e as expressões povinas são isso mesmo — um reflexo, um refluxo, uma amostra, uma denúncia da génese e do âmago. E contêm, em si mesmos, grandes verdades, daquelas insofismáveis. 
Tudo isto para explicar — mais a mim mesma, a quem devo os mais meticulosos esclarecimentos — que, assim como com as palavras, eu sou aquela pessoa que consegue juntar duas expressões populares, e fazer delas uma só. E com lógica.

Já não me chegava a do bom bico.
Ontem quis dizer que, apesar de ser teimosa como a mula da cooperativa (ou não fosse insuportavelmente fêmea), também consigo (reparem na utilização do verbo. É um esforço que a pessoa faz) dar o braço a torcer
E a simples utilização do verbo torcer deve-me ter torcido o neurónio sobrevivo.
Com aquilo da porca, que torce o rabo.
Ou terei tido um súbito ataque de saudades da minha Porca?
Não sei o que foi, mas vou mandar para análise. O que é certo, é que disse, com o ar mais sério que consigo forjar no dia a dia das pessoas crescidas em que me insiro:

Eu também consigo dar o rabo a torcer.

[óié]

04/04/2016

Bumba, meu boi, metáfora de mim mesma

Agora foi o elevador do vidro do condutor: abriu um nico, coisa de quatro centímetros, e nem desce nem sobe. 
Está a ser giro, entrar em parques de estacionamento e ter que abrir a porta para carregar no botonete, como as gajas que se enganam na distância e acham que o braço esquerdo é igual ao da Senhora Incrível (eu, por acaso, tenho uma caneta no carro, que me serve de extensor quando erro esse azimute, mas isso sou eu, que sou imensamente dotada de miolos e outros órgãos moles). Apetece-me sempre ir esclarecer o condutor do carro de trás, Sabe, tenho o elevador avariado, agora nem para baixo, nem para cima. Mas vá que tenho consciência que haverá muito poucas coisas que, ditas por mim, não tenham uma segunda leitura. E, às vezes, terceira.
Ficou ali o suficiente para arejar — grande poupança em ar condicionado, logo, em gasolina —, e também para me aperceber de que chove lá fora, designadamente porque passou a chover cá dentro, ao nível do meu ombro. Estou, pois, em condições de afirmar que o céu chora no meu ombro, neste quase preciso instante. Era ser Verão, o sol estar a pino e a flic-flac, e nem notaria a brecha aguadeira. Era estar vento, sem esta água pluviosa, e até aproveitaria para treinar a condução à vela, ou wind-driving, em especial quando fosse para a A 5 esgalhar a quinta velocidade, naquelas sinuosas curvas que nem eu. Assim, limito-me a escutar os lamentos do dia, metendo-lhe o piloto automático da resposta chapa 1 — Tudo passa, o tempo ajuda

[Vou pô-lo ao mecânico neste momento. Se virem passar uma senhora de idade, metida num carro velho, de vidro um nico aberto, e toda encharcada, não me apitem. Eu sou sensível.]

03/04/2016

Escuta o eco

O dia raiou cinzento — como se no meio da cinza pudesse haver sol algum para que haja sequer raios. Estava escrito chuva no opaco do céu, e essa leitura imprimiu-me a dor da ausência e a mágoa da saudade que me trouxeram de volta a Mel, metáfora das minhas faltas e também das minhas falhas. 
A vida, às vezes, consegue ser muito estúpida — cínica, irónica, ou dada a coincidências diabólicas —, e dá-nos lições suplementares quando menos precisamos delas.

Avistei o autocarro ao longe, embora não estivesse tão longe quanto isso. Parado, os quatro piscas a piscar. Atrás, no centro de um cruzamento, prostrado na rigorosa intersecção da cruz, o corpo de um cão, e um homem, primeiro inclinado, depois flectido, curvado sobre o animal. Na rua, um silêncio sepulcral, e em todos os passeios que desenhavam os contornos da cruz, algumas pessoas quedas, paralisadas, suspensas. O homem e o cão, no centro do cruzamento, tão sós, tão-só.
Parei o carro atrás do autocarro parado, liguei também os piscas em sinal de fim de linha, e senti-me correr na direcção do homem e do animal, enquanto ouvia a minha voz, externa à minha garganta, saída cá do fundo e lá do fundo,
Precisa de ajuda?
O homem estava agora completamente acocorado sobre o asfalto negro e frio, passava os dois braços sob o corpo inerte e ainda quente do cão, segurando-o contra o peito. Quando se pôs em pé, a cara tinha a cor da morte, e os olhos o tom do suplício. Ouvi uma voz que era a minha repetir lá ao fundo,
Precisa de ajuda?
O homem fugiu a correr, calvário afora, carregando o animal morto ao colo, e então fiquei eu tão só, tão-só, no meio da cruz do cruzamento, a ouvir a voz de alguém que me pareceu ser eu, a perguntar-me,
Precisa de ajuda?
Não foi naquele momento que, finalmente, começou a chover. Mas sei que, quando voltei ao carro, vi cair água, com desalma, em sinal de alma ferida.