09/10/2015

Querido, encolhi a casa (e, principalmente, as p. das gavetas)

Sinceramente, eu acho que é só a mim.
[Prontos, agora danou-se. Comecei um post por sinceramente. E escrevi prontos.]
Abro uma gaveta, tiro uma coisa qualquer lá de dentro, arrependo-me, pretendo devolvê-la, mas ela já não cabe. Posso não ter mexido uma palha, nem encontrado a agulha que não procurei, mas certo, certinho, é que aquilo que tirei e quis voltar a pôr no lugar, agigantou-se, como a malta, engordou, como tudo o que eu gosto — principalmente, eu —, cresceu, como um bolo fermentado, inchou, como uma porca (por falar nisso, kudos para a minha Porquinha, que às vezes me troncha de saudades), mas deixa de caber, lá onde pertence, em cerca de segundos. Ou será que são as outras coisas que, libertas daquela — que até pode ser um lencinho de seda, que não tenho, mas um daqueles de uma pessoa assoar o ranho das mágoas infindas da dor de alma — outra coisinha, se libertam também (passe o pleonasmo), todas desinibidas, e desaninham-se umas das outras, desfazendo o espaço que, segundos antes, pertencia à que foi retirada, gritando-lhe, assim, que escusa de voltar, pois deixou de ter lugar, que isto é como quem vai ao ar, e ao vento, que perde o assento?
Acontece-me amiúde, tanto na gaveta das meias — que é gaja para deixar de fechar, se eu tentar devolver um par de micro-meias de micro-fibra à gaveta que não é micro — como na do congelador, que tem a carne: a pessoa tira um saco de bifes. Tudo (não é todos) lhe grita que é melhor não ir por ali, pelo que resolve arrumá-lo no mesmíssimo buraco de onde o tirou. E, se nenhuma das peças mortas e congeladas se moveu dali, à Galileu, expliquem-me o que é que explica que a m. do saco dos bifes não possa voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído, qual demónio? Existe alguma lei da física que me esteja a escapar, logo a mim, que sou pouco mais que analfabeta, e, portanto, deveria perceber destas coisas?

Chico-smart não me tem em grande conta # 12


É que, quer dizer: limito-me a responder a uma mensagem que recebo, em agradável tom com intenção confraternizante, confessando a minha culta intenção de me dirigir a uma livraria de renome (não sei se já repararam, mas a FNAC também vende bonecos, puzzles, colheres de pau e t-shirts, mas nem era o caso, porque esta era a das Amoreiras), e chico acha possível que eu esteja a responder Ainda vamos à [e, em caps lock] EJACULAÇÃO?

(Doente mental.)

(Alguém sabe onde é o psi dos telemóveis?)


08/10/2015

And that awkward moment # 9

Em que te encontras no segundo andar do elevador de um edifício com três pisos acima do solo — rés-do-chão, primeiro e segundo andar — e mais quatro abaixo dele, e entra um homem-rapaz-senhor e te pergunta:
- Vai descer?
E te pára a boneca, diante das infinitas possibilidades de resposta:
1. Não. Vai subir para o infinito e mais além.



2. Não. Vai ficar aqui parado.
3. Sabe, eu acho que isto ainda tem um primeiro andar a contar vindo do céu — do céu!
4. Talvez.
5. Eu?
6. O elevador? Só perguntando.
7. Isso é com a minha colega.
8. Não sabe/Não responde.
9. ad infinitum [silêncio...],

e ainda se te liga a jukebox mental, e começas a ouvir isto:


Oi eu aqui, cadê você?

(E depois a maluca sou eu)

Les uns et les autres

Almoço com a bicomadre. Desta vez, levamos os afilhados e, por isso, não visto o meu vestido mais feio. Alindo-me para ele, vamos entrar juntos no restaurante e eu quero porque preciso que ele goste de mim como eu gosto dele. Vou buscá-lo à escola com mais duas ou três borbulhas novas, que não lhe retiram em nada a luz que lhe cintila olhos afora, ou reflectida dos meus nos dele. Pergunta-me se temos mesmo que passar em frente ao portão, e noto-lhe aquela apreensão que também já senti um dia. Que sim, que é esse o caminho lógico, a não ser que faça uma marcha-atrás indesculpável ou uma inversão da marcha num recanto apertado. De comum acordo, seguimos e passamos pelo portão, hora de saída, centenas de filhos parecidos com o meu — mas nenhum igual. 
Assalta-me a inquietude típica dos grandes amores, em que tudo são dúvidas e fragilidades.
- Por que é que não querias passar em frente do portão, ao meu lado no carro?
- Porque aquilo está cheio de gente e eles têm a mania de começar a gritar para os carros, quando vêem alguém conhecido lá dentro.
- Ah, está bem. Pensei que tivesses vergonha de mim.
- Não, não tenho vergonha nenhuma de ti. 
Depois baixa a cabeça e confessa, num fio fino de voz grossa:
- Tenho orgulho... até. As outras mães são todas gordas e estrôncias. 
Eu sei que não é assim, mas aquilo sossega-me a dúvida e a fragilidade. Vejo que ele vê as centenas de mães, todas parecidas com a dele —  mas nenhuma igual.