06/10/2015

É esta sensação de não pertença

que um dia me fará dar o salto.


Querida NOS, vai para o genital

Estou a adorar estar praticamente todo o dia offline. Por cada meia hora a tentar ligar a net, tenho 30 segundos online, que me dão, basicamente, para mandar um mail com duas linhas, ler um mail com outras duas, fazer um comentário num blog que nem chegue a três, ou este post, que, genitais, já vai em quatro linhas. 
Sei que, agora (14:26), vou ficar meia hora a carregar no botão 'publicar', e talvez lá para as 3 da tarde consiga publicar esta tristeza. 
Se for antes, à minha persistência o devo. Também há quem lhe chame tenacidade. Ou teimosia. Ou burrice. Depende do prisma. 


05/10/2015

Hoje é dia do professor

E há que tempos que a minha Noni, aquela pessoa anónima que vinha espumar para aqui de raiva cada vez que eu falava de professores – e que ela sabe que eu sei quem ela é –, não me vem visitar. Não que lhe sinta a falta, mas acontece que, assim, nestes dias alegóricos, lembro-me dela. Chego a achar que isto podem ser saudades daquele anjo carnudo.

E também me dá logo para me pôr a relembrar a minha primeira professora, que foi a da primária, e que me detestava tanto quanto me amava, por força de uma fragilidade física associada a grande garra intelectual de que eu era detentora à época. Depois, as coisas fizeram uma inversão directa, quando operei a transformação em cisne, embora até ache que fiquei mais bem servida. Capaz de, a esta hora, estar a desmandar em algum laboratório de experiências altamente quânticas, ao invés de ir ao supermercado amiudadamente, pavonear esta coisa toda. Só o desperdício.
Chamava-se Maria de Lurdes, a grande bruxa. Tinha voz tabaqueira, cabelos pretos e era muito velha. Quer dizer, devia ter a idade que eu tenho agora, mas na minha memória ficou uma figura anciã, muito pouco carinhosa – e a mim ninguém me explicou que a professora não servia para me dar miminhos – e excessivamente autoritária. Aquela de me mandar ao quadro, de me mandar apagar o que tinha escrito, de me mandar sentar, de me mandar estar direita, de me mandar calar (a mim, que era a Belinda, a escrava do silêncio!), cedo me fez perceber que ela e eu não era igual a ui-ui. Em suma, aturei-a quatro anos, cada um deles em contagem decrescente para poder ver-me livre da sombra negra. Nem após me ter sido explicado que se tratava de uma viúva, mãe de filho único com uma deficiência grave, e de o facto de eu ser a mais nova da turma ser capaz de lhe fazer urticária, me fez perceber o enredo e reconsiderar a minha postura, pelo que, assim que me apanhei à fresca no liceu, nunca mais a fui visitar, o que ainda hoje não lamento, nem já vou a tempo de desfazer, refazendo.

No liceu tive muitos e variados tipos de professores, a maior parte deles muito bons. No ensino privado, digam lá o que disserem, não há cá pão para malucos: os faltistas, os atrasados, os maus profissionais, ou ficam à porta, ou saem por ela mais depressa do que entraram. Dessa época, guardo memórias boas de quase todos, mas guardo um cantinho especial à minha Ivone, professora de Português do 10.º e 11.º anos, a quem, na altura, não dei o devido valor. Ivone, minha Ivone, tinha um timbre extremamente peculiar, elevando as vogais abertas ao seu expoente máximo, a começar pelo seu próprio nome. Era uma angústia para os meus tímpanos de cada vez que ela dizia IvOOOne PEEEres. Morria-me um neurónio, a cada vogal aberta das dela. Por isso é que hoje isto é como é: sobreviveu um – o surdo. Uma aula da minha Ivone era coisa para me deixar as orelhas em brasa, não porque ela mas sovasse, ou eu usasse brincos de pechisbeque, mas porque era assim. Qualquer ida a uma discoteca, bombar toda a night com a cabeça metida numa coluna, era algo de muito aquém em termos de decibéis, ao pé de uma aula de Português do meu 10.º e do meu 11.º. No entanto, hoje em dia, reconheço que esta foi a professora que mais me ensinou, se pudesse pôr numa balança imaginária todos aqueles que me passaram pela vida – a começar e a acabar por me ter rapidamente tirado as linhas. Ainda estou a vê-la, agarrada às minhas composições, muda, os óculos na ponta do nariz, a piscar muito os olhos, muito sérios, a colá-los em mim, depois a abanar negativamente a cabeça, e, num suspiro,
Isto... isto... se tu não fosses tão preguiçosa...

Sou capaz de guardar os professores da faculdade para outro post. É outro sector, um mundo totalmente à parte. Excelência, mediocridade e um nico de surrealismo, tudo num só edifício.  

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 27

Porque pondero seriamente amandar-me para dentro de um carrinho que passa por mim, em tendo um pico de stress em plena superfície comercial.