05/10/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 15

Feira das Almas, sábado.
É muito fácil encontrar-me lá. Não que alguém procure, mas tenho essa noção, por me sentir lá tão ET e tão bem como me sinto em qualquer meio ambiente: sou das pessoas mais velhas, das únicas que não leva nos pés botas Doctor Martens, ou motard, nem cabelo de cor alternativa — mínimo, vermelho —, nem piercings ou tatuagens (pelo menos, à vista), nem na boca um bâton da cor dos olhos. Também não paro cá fora no meio da nuvem de ganza, a conversar sobre cenas, tipo cenas. E a quem não me é indiferente a música ambiente — underground alternativa? —, nem ando com um coelho ao colo, que usa coleira de gato.
E também devo ser a única pessoa que se atem diante de uma banca, a tirar fotografias a panos de cozinha.




04/10/2015

Quem irá me valer

São pessoas, é a caminhada

Quem irá me valer

São meus sonhos no pó da estrada

Ia ficando com trauma, mas já passou.

Quando saí da boca do lobo, sob a forma de urna, sentei-me cá fora, no muro de um canteiro da escola onde votei, e foi aí que me senti, verdadeiramente, adireitos, ou seja, um ser totalmente destituído de direitos. Não sou homem, não sou animal, o meu trabalho é sazonal, intermitente e instável, não estou presa com pulseira dourada no pulso, numa gaiola de ouro. Na verdade, o exercício do direito de voto pareceu-me uma ironia, um eufemismo, uma alegoria, uma metáfora, uma hipérbole do avesso. Trágico.

Fui-me à boca da urna

Negra, medonha, fria, seca, sem lábios, com mil dentes, que mastigaram o meu voto até o transformarem num bolo alimentar de papel, ou em nada, lá misturado com tantos, que fará a não diferença que é a indiferença ali no meio — e nunca acreditei na máxima da gota de água no oceano. 
Fui toda vestida de preto, calhou assim, porque o preto me calha à sorte e à má sorte quando preciso de me esconder nas sombras e o sol se esconde de mim. Ou tenho a mania, como se o sol me ligasse alguma coisa, coisa suficiente para jogar comigo às escondidas. Também sou um bocado dramática, e posso ter sido urso noutra encarnação, que mal vejo o céu toldar-se com as cinzas do Verão ardido, apetece-me enfiar-me de cabeça numa gruta, mesmo que estreita e escura, só para não ter que passar pelos intervalos da chuva, e menos ainda por ela. 
Disse quem me viu sair da secção de voto que eu levava, ou trazia, cara de condenada, e era isso mesmo: venho de lá sempre com a sensação de ter feito uma grande asneira, como quando, em miúda, metia os dois pés, calçados, dentro do balde de lavar o chão, só que agora já não tem graça, porque ninguém vai ralhar comigo. 
Preciso de sol.