12/02/2014

Buracos

O universo continua a querer enviar-me mensagens, das quais desconheço o sentido. Todo o Campo Grande e avenidas novas estão com incríveis buracos na estrada, derivados à chuva que se tem vindo a fazer sentir, mas também, e principalmente, a vários troços de alcatroamento mal feitos. A mim custa-me a crer que a chuva, por muito forte, fortemente que bata, fure o alcatrão, mas isso não quer dizer que não aconteça sempre. É como a internet borregar cada vez que chove. Isto é quase científico, pelo menos para mim, embora tenha alguma dificuldade em angariar seguidores para a minha filosofia. Para além dos buracos da estrada, tenho desde hoje buracos na minha casa. Tudo começou com um cano furado, uma parede que vertia águas como o menino de Bruxelas. Cuidado com o que sonhas. Eu sonhei com um chão novo, eventualmente vou ter um tecto novo e alguma parede nova. O soalho merdoso vai-se manter, de pedra e cal, ou de madeira ordinária. Veio cá um canalizador outro dia, abriu dois buracos no tecto, fechou o cano furado e foi-se embora, dizendo que tínhamos que mudar os canos todos porque aqueles não estavam em condições. Lá está, confirma-se, tudo podre menos o chão. Hoje vieram mais dois meliantes, abriram mais seis buracos no tecto, descobriram mais "fugas", foram partindo, partindo, descobrindo verdadeiras fontes de água fresca em meu lar, até que mo deixaram neste lindo estado, que só as imagens conseguem ilustrar convenientemente. Qualquer dia vem o estucador, põe-me um tecto novo, depois vem o pintor, pinta tudo, e a porra do chão aqui continua, como os buracos do Campo Grande. Com a graça do universo. 


Os dois primeiros buracos foram os redondinhos, fofinhos, com os quais convivo há cerca de quatro, seis semanas. Diariamente.







Portanto, 2 + 6 = 8. Tenho oito buracos no tecto de casa. Só me apetece pegar no carro e circular por ali, em plano invertido.

Felizmente, ando a enjoar o sushi. E chinês, vai pelo mesmo caminho não tarda.

Comi tanto sushi no último ano que me estou a fartar de tanta alga, tanto arroz, tanto salmão cru e tanta coisa crua em geral. Apercebi-me desse facto por insistir em ir comer ao japonês que, na verdade, é um chinês que adaptou a cena aos novos ventos e acercar-me do balcão de sushi com uma vontade decrescente e, em vez de me servir como antes, até transbordar, dar meia-volta e ir ao balcão de chinês e servir-me até o prato estar, digamos, compostinho. Adoro a galinha doce, a galinha com amêndoas, todas as galinhas do mundo. Vivam as galinhas, muitos anos e bons, e que depois do próximo dilúvio o criador não se esqueça de as fazer com quatro patas e sem peito, que só duas é pouco e o peito dispensa-se de seco e sensaborão que é. Os chineses em geral estão muito ocupados a colonizar este cantinho da Europa, mas muito pouco preocupados em fazer-se entender. Eu conheço uma única chinesa que fala tão bem português como eu (eu falo bem, desde que não me enervem), o que me leva a concluir que o "jeito" para aprender línguas é inato, sim senhora, mas também parte da vontade de comunicar, fazer-se entender, partilhar, ser aceite. Deparei com uma daquelas pessoas para quem estar na China, em Portugal ou no Samouco será basicamente a mesma coisa, desde que transporte com ela a família nuclear, que serão as únicas pessoas com quem troca algumas palavras ao longo do dia e da vida. Só que com a particularidade de estar a servir num restaurante. Digamos que entrei e ela andava a brincar com o bebé dela, que deve ter 14 ou 15 meses, criança linda, com ar de porcelana, a quem fiz uma festa e disse, como sempre, o que me ia na alma: "Que vontade de o roubar". O miúdo começou a gritar em chinês, mas num choro universal, que dizia "Põe-me a dormir a sesta agora!", só que a mãe não percebeu. Também não percebeu quando eu lhe pedi a conta. O restaurante vazio, uma sala de 70 ou 80 metros quadrados, eu a meio, ela lá ao fundo, tive que a chamar em português-chateado-pré-vernáculo "Psssshhhht! A minha conta?", e ela nada. Vou-me a ela, pergunto se ali não é um sítio onde levem as contas à mesa do cliente e ela faz aquele risinho tão típico dos orientais hi-hi-hi-hi-eu-pelcebo-muito-mal-o-poltuguês [espera. Pára tudo. Mas esta frase é a primeira que todos aprendem, antes de qualquer outra?]. Eu, dos nervos, faço o mesmo risinho, hi-hi-hi-hi-talvez-consiga-perceber-que-eu-não-ponho-cá-mais-os-pés.

11/02/2014

Eu leio blogs

Há uns que leio todos os dias, outros que leio todas as semanas, outros que leio quando me lembro, outros que deixei de ler, ou porque acabaram ou porque eu acabei com eles. Acontece-me, por isso, andar a passear pelos blogs, numa visita tipo ronda de médico à enfermaria, diária, mas rápida e não tão atenta quanto isso, mas constato que há uns quantos que são profusamente comentados, outros bem mais legíveis que são muito menos comentados, mas, dos primeiros, há uns tantos que são o alvo da destilaria de fel que os comentadores derramam, sem se perceber muito bem por quê. Eu escrevi bem: por-quê. Por O quê. Regra geral, em 99,9 % das vezes, são pessoas que comentam anonimamente, ou com um nick que não permite a identificação do autor do comentário, alguns até acho que se dão ao trabalho de criar um perfil só para esses comentários, de maneira a não aparecerem na caixa como "anónimo". Essas pessoas constituem, para mim, um enorme e insondável mistério. Eu também tenho fases, épocas, horas do dia, em que não tenho nada para fazer, mas em nenhuma delas me deu para criar um personagem e ir para a net borrar a casa dos outros. Sou demasiado preguiçosa e, se calhar, excessivamente vaidosa, para não querer ver uma cagadela minha, ainda que debaixo de um "anónimo" ou "passarinha" ou "dias de chuva", escrita num monitor e, às vezes, respondida pelo autor do blog, quantas vezes com recurso a gigantescas doses de paciência e contenção nos termos e refreio na vontade de mandar um balde de esterco na volta do correio. Para estes últimos vai a minha mais sincera admiração, ainda que as atitudes que tomam sejam fruto de muitos anos de experiência e, se calhar, sucessivas edições de texto na resposta. Os anónimos/heterónimos, para mim, são, grande parte das vezes, pessoas que comentam com alguma regularidade sob a sua verdadeira identidade, com alguma simpatia e interesse, mas que, vá-se lá perceber a doença mental de cada um, de vez em quando vestem o alter ego e aqui vai disto. Também conheço um ou outro blog giros e cheios de interesse, com boas doses de sentido de humor e pontos de vista que vale a pena ler, e que são poucochíssimo comentados, assim como existem uns tantos outros que são o paradigma de como a blogosfera é totalmente aleatória, por terem uma imensidão de seguidores - acima dos 2000 - e uma profusão de comentários que torna impossível perceber o que é que 78 pessoas têm a dizer quando há uma outra que vai para o blog dizer coisas do género: "Olhem o que eu comi no domingo" [má foto de uma comida agh], ou "Hoje estou nervosa, o meu amor foi viajar" [desenvolvimento do tema]. Posso ser eu que sou uma intelectualóide nojenta, mas há posts cujo interesse para a Humanidade em geral e o sector blogs em particular é, numa escala de zero a cem... de zero, mas que são alvo de 60 comentários, igualmente desinteressantes (tipo "Calma, jinhos", "Hehehe" e "Passa depressa, força"). Pergunto-me: há para aí bloggers a criarem perfis de comentadores para se auto-comentarem? Mas setenta? Mil? Dois mil? Não fosse eu tão boazinha e tão normal fazia a mesma coisa aqui no buraco. Sobretudo para aqueles meus posts sem pés nem cabeça que eu própria fico a olhar para eles de boca aberta, já com o cursor no botão "publicar". Assim como este, por exemplo. 

Um destes dias, comento-me em anónimo, "Tens é inveja", "Deves ser gorda e feia", "Sei onde moras", "Quem és tu para julgares?". E depois crio um perfil, chamado "Abandonado à nascença", e comento-me "Gosto muito do teu blog, passei hoje aqui pela primeira vez. Vai ler o meu". Ao menos, para ter a oportunidade de responder "Vai cagar à mata". 

Eles dizem que vão à catedral de colete das obras

E nós pedimos que não se esqueçam do capacete, para amparar o melão com que vão de lá sair.