05/02/2014

Prazo de pagamento: para breve

- Bom dia, ligue-me aos pagamentos, por favor.

- Um momento.

- Bom dia. Diga.

- Bom dia. Fala [Linda Porca]. Fiz um trabalho para vocês em Outubro, cujo documento de não dívida enviei no passado dia 21.

- E?

- E ainda não me pagaram. Quero saber quando é que pagam.

- Não temos informação acerca disso.

- Então pergunte a quem tem.

(lá foi fingir que ia perguntar ao Dr. Não Sei Quê)

- Temos aqui informação nova.

- Diga lá.

- O seu pagamento está para breve.

- Breve?

- Breve.

Risos meus, de nervos. Risos dela, da patetice que disse. 

Tenho andado o resto do dia a tentar decidir se rio ou choro. 

Moro aqui há quase 21 anos

e só hoje é que vi, no hall de entrada, um coração no meu caminho. Universo, o que é que me queres dizer agora?



04/02/2014

Eu tenho um guarda-chuva

que é velho, está feio, que foi oferta de uma revista (talvez a defunta Marie Claire, tão antigo que ele é), o cabo já não estica, o que o faz parecer um cogumelo e, a mim, quando o carrego, a tonta do bairro, mas que me é tão fiel em todas as ocasiões que eu até já estou desconfiada que ele me anda a pôr os cornos. Entretanto, já comprei vários guarda-chuvas, tenho a mais bela colecção deles, desde um da Zara com padrão leopardona vermelho e preto a outro da Zara com padrão zebrona e cabo de atachas, até um outro cinzento de bolinhas rosa-cerise e folhinho na ponta que fui desencarnar na Blanco. Fora mais dois de bolinhas, também da Blanco, irmãos gémeos com cores diferentes, frutos e produtos de um dia de hesitações, daqueles em que estamos numa encruzilhada e a vida se apresenta em forma de Y e nós no pauzinho do Y. E não sei se já algum dia disse aqui, mas não me podem dar a hipótese A e a hipótese B, que me baralham o neurónio, o que me faz optar sempre pelas duas, A e B, em casa decido se gosto mais da A ou da B, porque na loja não sou capaz. Acontece que, às vezes, nem em casa, e então uso A nos dias sim e B nos dias não, ou ao contrário, ou só como calha, tanto faz. Então, há bocado, tive que sair à rua e tinha o carro a cinco metros da porta de casa, abri o guarda-chuva bonito das bolinhas rosa-cerise que, com a ventania e a água, se dobrou para trás e entortou logo uma vareta, eu cá fiquei com o cabelo a parecer uma selvagem, quase me senti a protagonista da novela Amazónia, não fora o facto de não haver lá cenas de chuva, acho eu, que não me lembro nem me posso lembrar porque nunca vi a novela, ah, e também sou mais velha do que a protagonista e não tenho os olhos tortos. Está bem, mas senti-me. Depois tive que sair do carro por breves momentos, voltei a abrir o guarda-chuva bonito, já depois de lhe ter endireitado a vareta, e ele voltou a virar-se e o meu cabelo a molhar-se mais à la Amazónia. Eu, como não consigo ser muito bem educada, dizia "Cabrão, cabrão", agora já não me lembro é se era para o guarda-chuva, para o tempo ou para o santo que comanda o tempo. Um dos três enfiou a carapuça, porque o guarda-chuva das bolinhas entortou-se de vez e para sempre, acho que todas as varetas se dobraram em sinal de "adeus, ó histérica", mas eu nem tive tempo de me revoltar mais, atirei-o para dentro do carro, tirei de lá o velho e feio que parece um cogumelo, abri-o e ele, resplandecente, indiferente ao vento, não se virou vez nenhuma, aguentou-se como dizia o outro doido, como uma barra de ferro. Minha Preta, grande sábia, é que disse e bem: "Você judia desse aí, mas na hora do aperto, quando você realmente precisa, qual é que 'tá pra lhe acudir? É o bonito de bolinha ou é o feio e velho?".  

Linda Porca

Linda Porca ou Cheiro de Estrume é o nome do meu buraco. O que me leva a assinar os posts e os comentários todos sob a feliz designação de Linda Porca. 

Quando criei este modesto porém confortável lugar, a única hesitação que tive, relativamente ao nome, foi entre este que escolhi e Transformaram-me numa vaca. Mas se Linda Porca já deu raia uma vez (num Hi 5 qualquer, que tive que fechar, tantos eram os convites duvidosos, só porque me registei Linda Porca), Transformaram-me numa Vaca iria certamente dar-me um dissabor ou outro. 

Eu sou apreciadora de filmes infantis. Acho que vi todos, nunca me escapou nenhum. Os que não vi no cinema, vi em casa. E adoro de paixão a mensagem subliminar para os adultos e todas as cenas que só um adulto consegue perceber. Sobretudo, faz-me rir o non sense. 

No filme "Pacha e o imperador" existe a famosa cena em que um guerreiro, completamente do nada, por obras de um frasco de poção mágica, se transforma numa vaca e diz: "Ahh... transformaram-me numa vaca... posso ir p'ra casa?". É tão popular que tem várias entradas no youtube, infelizmente em português do Brasil. Digo "infelizmente" porque a dobragem para português de Portugal tem mesmo mais piada, sobretudo nessa cena.

No "Monstros e companhia", há uma cena entre os dois bonecos principais, Mike e Sulley, em que o Mike se apercebe que está com um cheiro estranho (que se presume ser um cheiro bom) e pede ao Sulley um desodorizante mal cheiroso. 


É nessa altura que o Sulley lhe pergunta:


- Queres Linda Porca ou Cheiro de Estrume?

Ao que ele responde: 


- Tens Essência de Doninha?

- Nope.

É só isto, sem maiores mistérios. Linda Porca é o desodorizante mal cheiroso de um filme de bonecos. O que não invalida a possibilidade de aqui estar uma pessoa verdadeiramente linda. Já porca...