02/01/2018

E o ano continua

Tenho que dar uma limadela neste post. Já o escrevi ontem e, quando o acabei, fartei-me dele. Trespassa-o uma amargura que não é intencional, mas isto nem tudo o que é, parece.

01/01/2018
Não numa base em fase de negação, não por querer que o tempo pare e não passe, simplesmente não me choca continuar em 2017, ou, pelo menos, não alterar coisa nenhuma, não expressar desejos que nada têm de novo em relação ao que quero para mim todo o ano, toda a vida: vê-los felizes, ser feliz assim.
Não foi o ano mais feliz da minha vida, nem o mais infeliz. Não consigo sequer eleger um para uma categoria dessas duas. Foram felizes os anos em que me nasceram filhos, mas o mesmo que me trouxe a primeira foi o que me levou o meu pai. Não tenho capacidade para arrebanhar trezentos e sessenta e cinco ou seis dias e fazer deles os melhores ou os piores. Nem quero. E espero que tal não venha a acontecer-me ao longo dos que me faltam ainda viver. 
Não pretendo, a partir de hoje, fazer nada em maior ou menor escala do que fiz nos últimos quatrocentos ou quinhentos dias. Não tenciono dançar mais, nem mexer-me mais, porque já o faço em doses suficientes para manter a cabeça acima do pescoço. Ainda ontem, se os anos efectivamente acabassem, terminei o meu, ao começar o dia, numa maratona de dança mais ginástica que me ia comprometendo a vigília, à noite.
Também não pretendo mudar alguma coisa em mim, não só porque já não vou a tempo, mas também porque me entendo muito bem com esta coisa que sou eu: não quero ser mais compreensiva, nem mais piedosa, nem mais humana, sob pena de me transformar numa ameba proteus, ou num rato. Foi precisamente o passar do tempo, a idade, a experiência, a capacidade para interpretar os sinais que a vida nos dá, ou sei lá o quê, que me ensinaram que há uma linha que separa a bondade da imbecilidade, que responde pelo nome de manipulação emocional. Ainda assim, tenho os meus momentos de fraqueza, dou sangue três vezes por ano, vai quase um litro e meio dele a cada ano que passa, contribuo todos os dias para a vacinação de uma criança vírgula qualquer coisa, alombo com sacos e sacos de comida cada vez que me entregam um vazio à porta do supermercado, atravesso velhinhos e cegos, beijo com os olhos todas as crianças que me sorriem e mesmo as que não, cuido dos meus animais com um desvelo devoto (mesmo daquela que me odeia e só não me devora as tripas se não me apanhar a jeito), mas já não papo números e fujo a sete pés, ou quantos tiver nesse dia, de chatos e cravas e sanguessugas e chantagistas da pedincha. Mesmo assim, ainda me apanham na curva, quando menos espero, quando menos posso, por isso acho que ainda não construí capazmente um jogo de cintura, embora reconheça que o que me dava mesmo jeito era uma varinha de condão que lhes fizesse pluft e mos eclipsasse do radar.
Também não pretendo trabalhar mais, porque isso já faço: tenho um trabalho ingrato, mas gratificante, pago à razão de miséria, mas que me enche de alguma coisa, que há-de ser a porcaria que significa dever cumprido.
Nem faço ideia de ler mais, porque leio pouco para o que devia, embora não conheça o significado desse conceito: a leitura tem que ser algo que nos gratifique, que nos ponha a viajar, que nos ensine, quanto mais não seja a escrever. Tudo coisas de que não preciso, portanto. De resto, não posso ler mais do que leio, pois entro no ritmo da escrita de quem escreve, e vejo-me ensarilhada para não começar a copiar o estilo, e isso é muito feio. 
Nos próximos trezentos e sessenta e quatro, nos próximos quatrocentos, nos próximos mil? Vou continuar a dançar, a amar e a providenciar pela felicidade dos meus — onde se incluem duas gatas e dois passarinhos —, não necessariamente por esta ordem, nem necessariamente nas mesmas doses. Não quero mais nada para 2018. Nem de 2018.

2 comentários:

  1. Eu desejo-te que sejas feliz, na dose que achares mais adequada que até na felicidade temos de ser qb para não ferir susceptibilidades. Rogo-te que continues a vir aqui deixar sorrisos e gargalhadas porque tudo o que desejo para mim é mesmo isso, vá e trabalho... de resto tenho tudo o que preciso ( e muita coisa que não me fazia falta nenhuma... chatices).
    Abraço apertado

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    1. E eu retribuo-te esses teus desejos, em dose dupla, ou até mesmo cavalar, se não for uma imagem muito agressiva. Tudo, menos as chatices, que essas, se uma pessoa não puder eliminar, ao menos que consiga reduzir, sublimar, subestimar, ignorar...
      Beijinho abraçado, Be

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