24/09/2026

Expulsa

Éramos duas pessoas rigorosamente iguais, ali à porta do ginásio, eu ainda com a cabeça a dançar e o corpo a ouvir música, ele não sei, mas nos gesticulares habituais, comichão na orelha direita coça com a mão esquerda, passando o braço sobre a cabeça, os óculos sempre a escorrer nariz abaixo, um frenesi de sobrancelhas, olhos, narinas e boca, mas é o André, que nasceu muito tempo antes do tempo, diz a mãe que cabia na palma da mão dela, fez-se médica para o salvar da vida que lá vinha e salvou, ficaram só estas manifestações e uma descoordenação nas coreografias, mas que importa, se, naquele momento, falávamos da nossa Carminho, amarrada a uma cama de hospital, a última das senhoras à face da Terra depois da minha mãe, eu não quero que ela vá, mas não há meio de ter alta, levo-lhe flores e chocolates, levo-lhe ananás fresquinho porque ela não come nada, amanhã levo-lhe manga. E a palavra “metástases” em todos os exames, uma agonia, estamos a falar de uma senhora quase nos setenta, pequena e magrinha como só uma dama consegue ser, cabelo platinado e olhos daquele azul que só ela tem, a boca muito rosada, põe bâton do cieiro enquanto conversamos por ter absolutamente que estar sempre impecável, no cabelo às ondas um lencinho de pendentes. Digo ao André que, se a nossa amiga tiver que fazer quimioterapia, não há-de ser nada, a pior parte é o cabelo, eu a querer (não) recordar.

- Como é que te sentiste?

- Uma pessoa expulsa da humanidade, todos iguais e eu diferente. E, de certo modo, nunca mais voltei a sentir-me um deles, percebes?

- Percebo.


16/08/2026

Nas duras tamancas pretas da outra

Vi-me obrigada a percorrer quase seis quilómetros da minha estrada até uma localidade que responde pelo antagónico nome de Amadora, principiante, não profissional, amante não amada, antiga Porcalhota. O GPS já me mandou dar uma volta a um quarteirão inteiro porque lhe desobedeci e virei à esquerda duas ruas antes. Não estou contrariada, a única preocupação que carrego é a dúvida de se encontrarei lugar para estacionar. Carros em cima do passeio, carros bloqueando portões e eu alinho em espinha o meu, saio do ar condicionado, enfrento a canícula com a distância que me merece, verifico que não há estacionamento pago e que estou precisamente à porta da tabacaria-papelaria que para ali me chama. Não só: a funcionária acaba de abrir os estores após a pausa do almoço. 

Entro e ela detesta-me. Vou no meu as usual, macacão de ganga fininha, com manga de balão, sandálias de salto, malinha de marca bonita. Nos últimos séculos emagreci dez (ou foram doze?) quilos, porque a vida é muito puta, abençoada, que me cai (literalmente) melhor a roupa assim. A loja está mergulhada numa inquietante penumbra, a mulher de bochechas gordas e descaídas recebe-me de cara trancada, só percebo que é obesa mórbida ao cabo de alguns segundos, veste toda de preto, o ar cheira ao suor dela. Sou delicada, desejo boa tarde, digo ao que vou — levantar uma encomenda —, ainda não comecei a procurar o código no telemóvel, já ela dispara: “Transportadora?”. “Não sei, não diz em lado nenhum, deve ser DPD”. “Se não me der o nome da transportadora, não posso entregar-lhe a encomenda”. 

Nem ripostei diante de tamanho disparate, encontrei uma palavra que nem sabia que era o nome de uma transportadora (“Vinted Go”, sabiam?), o que ainda me valeu um “minha senhora…” em anafado suspiro de enfado, agarrei na embalagem, saí dali para o sol, para longe da mulher gorda, deprimente, arrogante e mal cheirosa. Quando entrei no carro, eu já era ela, triste, num luto carregado, todos os dias a mesma roupa, arrastando mágoas e banha a um tempo, metida num emprego de merda, numa rua perdida num lugarejo do planeta onde ninguém quer estar. 


27/06/2026

Forasteiro

Descia a rua em curva no carro que já é um elemento da família, meu querido boi, quando vejo, no sentido contrário, surgir um homem pequenino, mochila de entregas às costas, numa bicicleta hesitante, aos zigues e aos zagues em plena curva, justamente na subida, uma roda a falhar, o homem a transformar-se num S com a bicicleta, sempre agarrado a ela, depois a fazer-se uma espiral com ela, nunca a deixando fugir, até que caíram os dois como se um corpo só. Na bicicleta, não percebi o que é que aconteceu — pneus carecas, chuvinha molha-todos, óleo na estrada, cansaço do pequeno homem —, nele vi um cotovelo bater na estrada e, como sempre, não pensei. Travão de mão, motor desligado, porta aberta e lá fui, empurrada não sei por que forças, pois que não sou médica, nem enfermeira, nem bombeira, nem sequer sei prestar segundos socorros, já que dos primeiros tenho uma ideia vaga. "Ajuda, ajuda, ajuda", acerquei-me dele para o levantar do chão, um homem antecipou-se, eu "O braço, o cotovelo, eu vi...", mas o pequeno homem não falava uma única palavra de Português — certamente também não de Inglês —, só dizia "No, no, no", enquanto abanava a cabecita em negação e depois juntava as mãos em oração e a inclinava para a frente. Quis ver o braço dele, articulei-o, não estava partido, mas o casaco que o abrigava era um mar de buraquinhos no cotovelo, não sei se daquela, se de outras quedas. "Não lhe dói?", ele com as pequenas mãos juntas, agradecido, eu a perceber que sim, que doía, mas não o braço, somente a miséria da imigração ilegal, de mais aquela queda, da impossibilidade de ir a um hospital se necessitasse, de eu ter visto os buraquinhos do casaco dele. Montou a estafada bicicleta e continuou o caminho incerto, interrompido ali.

20/05/2026

Drama Fiction

António, ando há que tempos à tua procura e não estás em lado nenhum, parece que sumiste do radar como a mosca que nos atormenta o juízo nas tardes de Verão, às voltas, às voltas, nós na sombra, só à espera que ela pouse para lhe darmos uma jornalada, não é nada, isso era a minha avó, coitada, sofria das pernas e dizia estes bichos consomem-me, vê tu bem que desde muito miúda percebi que era uma consumição de espírito, não me parecia nada que as moscas fossem comer as pernas a abarrotar linfa da minha avó, coitada. A mim suspeita-me é que tu te transfiguraste numa delas, fazes voos rasantes pela casa, vejo-te passar sem te ver, de uma parede à outra, zim, zim, desde aquele dia em que me disseste, ao fim de rogos e súplicas gastos pelo tempo envolvi-me com outra mulher, como se fosses claras em castelo a envolverem-se numa massa para bolo, por mais anos que viva, nunca me vou esquecer, parece que ainda te estou a ver, a boca muito seca, os lábios a colarem-se um ao outro, mais dois segundos de pausa e desidratavas em pó pelo chão, mais valia ter esperado, mas tive tanta pena de mim que, em vez de te esticar o braço com o dedo apontado na direcção da porta, ordenando-te "Rua!", como fez a tua amiga na crónica em que descreveste que as mulheres têm fios desligados, em vez disso, caí-te nos braços num pranto sem fim, não me digas isso, não me digas isso, só a ver se negavas, apaziguavas, destorcias as mentiras com mais mentiras, no entanto não, chorei, contei eu, cinco horas seguidas, fora as outras intermitentes, ainda bem que os meus pais não viveram para assistir àquilo, morriam outra vez, de vergonha de ti e compaixão de mim, tu nem um copo de água, um lencinho, uma mão na minha, um abraço daqueles sem vontade, nada — outro dia vi uma rapariguinha na rua a chorar e dirigi-me a ela, precisas de ajuda, querida? —, só sobranceria, só amor-próprio e por essa massa pegajosa com que te envolveste, no dia seguinte estava doente, nas quatro semanas que se seguiram estive doente, era a garganta, os olhos em pneus, eram dores por todo o lado, doíam-me músculos novos, nunca imaginei tê-los, parece que ainda estou doente, principalmente quando estou com pessoas, tenho a sensação de que mudei de planeta, todas esquisitas a falarem, eu esquisita a não ouvir, a esquecer o que disseram, a não entender, e lá andas tu de vez em quando zim, zim, já abri as janelas todas e vou comprar um jornal, caso se dê o caso de não encontrares a saída a bem.