26/09/2015

Mas ninguém cala este homem? # 7

Senhor director, desculpe, posso entrar?
Ai, desculpe interromper a sua higiene nasal, mas é que isto é importante.
Não, não me quero sentar. Ainda estou um bocadinho abananada — parece mesmo que levei com um cacho de bananas na testa, sabe? — e prefiro ficar em pé, que é como diz que as árvores morrem. Olhe, eu estou morta de susto.
Ia ali a passar na redacção e esbarrei-me de frente com o draft, sabe? Foi sem querer, mas não pude deixar de ler a sua crónica. E até ia embalada naquela história do rei Salomão, quando fui acometida do tal assombro. 
A minha mãe já me tinha contado da lenda, olhe que coisa. Parece mentira, agora admitir rachar uma criança em duas. Só uma maluca é que havia de se lembrar de permitir tal solução. Está bem de ver que não era a mãe a sério, a do parir é dor. O que vale é que uma delas era mesmo a mãe, senão ainda eram capazes de discutir se faziam as metades do miúdo no sentido longitudinal ou latitudinal. 
E foi giro, vê-lo tentar um paralelo entre essa lenda e a política de Passos. Eu gosto de metáforas, de alguns eufemismos e de quase todas as alegorias. Nem sempre as entendo, mas isso já são outros quinhentos, e eu ainda nem aos cem cheguei.
Mas não é isso que me traz aqui. Ou melhor, é e não é. Então não é que me deparei com um lapso seu? Uma gralha, certamente. Terá que dar na cabeça do adjunto. Só pode ter sido ele que deixou passar, ou mesmo que fez de propósito para lhe inquinar o texto aos olhos das chatas das gralhas como eu. Ó ié, sei que falo muito. 
Se calhar, agora dizia ao que venho e ia-me já embora, antes que o senhor me acuse de perseguição pessoal, tentativa de impedimento da liberdade de expressão de outrem, ignorância quanto ao uso de recursos estilísticos, ou outro palavrão maior, que eu não sou dessas e deslargo já o seu hebdomadário, antes que me venham cá com rótulos.
Ó senhor director, era aquilo de uma mãe dizer ao rei que desse o menino vivo a ela. 
Veja lá isso. Não queria antes dizer dai-lhe o menino vivo e não o mateis? Ou dai-lhe a ela o menino vivo e...?
Dar a ela, senhor director?
Puxa... 

Jornal Sol, 25.09.2015

2 comentários:

  1. Os pronomes pessoais são mal tratados. Mereciam mais respeito. :))

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    1. Quando o JAS não maltrata as pessoas, nos textos, maltrata a língua. É um biolento :)

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