21/09/2017

The girl next door # 12

Desta vez, o mesmo tabuleiro que já visitou a minha casa uma vez, veio cheio de uvas pretas. Existe uma possibilidade de serem a minha fruta favorita [e, como sou uma líder nata e inata, uma opinion maker, uma it (old) girl, é capaz de me aparecer já aqui uma multidão a dizer que "também a minha", mas é que não: ninguém gosta de uvas pretas como eu, eu quero ser única, irrepetível e ímpar nas minhas coisinhas]. Vá-se lá perceber como é que a vizinha adivinhou, ou então ele há mesmo coincidências, e, com a firme intenção de agradecer, eis que — apesar de querer ser aquelas coisas todas que disse agora, sou também altamente previsível — o devolvo com as mesmas bolachas da outra vez, só que com outro formato. 


Lembrei-me que a vizinha tem cães, e achei a ideia gira. Não sei se são dois cães ou duas cadelas, ou uma cadela e um cão, ou tudo junto, ou nada disso, mas considerei que aquela cena do azul e rosa também se podia aplicar aos animais, e só não quero é ferir susceptibilidades. 
(Se não gostar, pode sempre atirar-lhes os ossos. Literalmente.)

20/09/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 8

que, quando vou a algum lado em que pressuponho que vou demorar, mas não posso, mas não quero, mas não devo, mas não nada, antes de sair, não faço chichi, bebo uma boa garrafada de água para encher ainda mais a bexiga e calço uns sapatos apertados?
Errr...
É para ir e vir mais depressa.

(Se virem uma senhora de idade aos pulinhos e a fazer uma estranha dança na rua, já sabem.)

Está bem, já percebi que, desta vez, sou mesmo só eu. 
Passo.

19/09/2017

Momentinho louro # 4

Telefona-me o responsável por uma das empresas que contactei, com vista à remodelação de uma casa-de-banho e do soalho todo cá do lar. 
(Por acaso, está a ser uma experiência irrepetível: das quatro que abordei, só para começar, duas já me mandaram mail a declinar, que é aquela manifestação de vontade operada pelas pessoas singulares e colectivas quando não lhes apetece. Uma, porque a minha obra não se enquadra nos parâmetros de grandes remodelações gerais lá deles — tipo Querido, encolhi o orçamento familiar? —, a outra foi um simplesmente não, não aceitamos a tua obra.) (Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.)
Digo-lhe o que pretendo, em traços muito gerais, que os concretos pretendo traçar ao vivo, assim que ele me visite. Falamos mais especificamente da casa-de-banho, e, lá para o final da conversa, ele pergunta-me: Onde é que ela fica?
[Vamos fazer uma pausa.]
Preciso de explicar que não percebo nada de obras. 
...
Sei lá, podia ser importante a localização da casa-de-banho, imaginem que era ao lado da cozinha e isso interferia positivamente com o trânsito dos baldes de cimento.
...
E cenas de obras. Pás, e assim. 
...
E que, entre uma pergunta e uma resposta, via telemóvel, entre dois estranhos, decorre o quê? Um nico de segundo. 
Também não percebo nada de cérebro humano.
...
Não sei em quanto tempo se processa um raciocínio qualquer, quanto mais um raciocínio lógico. Sei que respondi assim
...
Olhe, o senhor entra, segue em frente, percorre um pequeno corredor com cerca de três metros, e encontra uma porta à sua direita, perpendicular a outras duas portas, onde ficam os quartos. É essa porta à direita...
[suspiro.]
Chiu.
Posso ter tido medo que o homem se perdesse e não conseguisse atinar com a porta da casa-de-banho a intervencionar, como eles dizem


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.




17/09/2017

Cheguei | Cheguei chegando, bagunçando a zorra toda | E que se dane, eu quero mais é que se exploda | Porque ninguém vai estragar meu dia

Começar o dia a ouvir isto. E a dançar isto.
Bom domingo, que eu também vou lutar por isso. Porque ninguém vai estragar meu dia. 🎶

 

Ai, é tão blogger da minha parte! Não é?
Parece assim o meu, um daqueles blogs da boa onda e motivação e auto-ajuda e coaching e cenas. Eu acho, pelo menos.

16/09/2017

Vinte e três, meu amor

E eu aqui sem palavras para o dia que é nosso, que me ofereceste tu naquele dia tão bonito.
Chegaste-me mansinha e pequenina, sequer me trouxeste um enjoo, uma náusea, um desejo, uma gula para contar. Transbordaste-me de alegria e bem-aventurança, mostrando-me o significado do amor eterno, da felicidade plena, da angústia da perda — que achava eu já conhecer, até esse dia em que soube que tu eras tu, e que vinhas para me ensinar tudo o que eu ainda não sabia da vida, que era exactamente tudo. Inauguraste-me o corpo, com essa tua maneira de estar nesta vida, tão delicada e sábia, alojada junto ao meu coração descompassado de ânsias de te saber bem, de te proteger, de te abraçar, como ainda hoje. Ensinaste-me a ser mãe (nem eu imaginava que era isto tudo), mostraste-me como cuidar de ti, consolaste-me todos os enganos e premiaste-me todas as conquistas, com o teu sorriso cândido e gargalhadinhas vindas de dentro, cheia de vida para me dares, muita mais do que eu te dei a ti. Ensinaste-me a ensinar-te a falar, a andar, a comer sozinha, depois a ler. Fizeste de mim uma mulher maior, e muito mais pequena por perceber a minha minúscula dimensão, perto do ser maravilhoso que, ainda hoje não sei como, fui eu que fiz.
Adoro-te, bichinha.


15/09/2017

LB também vê debates políticos na televisão

Eram três pares de olhos azuis. (Quatro, se contarmos com os do sapo.) Era um sapo. Era o terminal 3 do aeroporto numa testa. Era uma zebra. Era uma boneca insuflável a perder o ar, toda ela apitos e esganiços. Era um fóssil. Eram dois queixos numa cabeça. Era uma perua, com a hipófise hiperbólica e tudo. 
Não sei o que disseram, mas sei o que não disseram.
Avenida da República, blablabla. 
zzzzzzz...




14/09/2017

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 4

A pessoa humana predispôs-se a deslocar-se do ponto A ao ponto B, que era a Rua do Salitre. 
Tinha uma ideia vá que vaga de onde é que a dita ficava, mas, para ter a certeza e acertar nela à primeira aquando da abordagem, fui estudar. Mr. Google Maps confirmou que era para o Rato, e, sem roer a corda nem as unhas, foi assim que para lá me dirigi. Estava muito bem parada no semáforo, já no acima referido Largo, quando me assaltou à mão armada uma daquelas dúvidas típicas de quem está a fazer tudo bem mas não está habituado a isso: o Rato é uma rotunda, uma praça em rotunda, um intrincado cruzamento (a sério, senhores autarcas, quanto tabaco faltou meterem nisso antes de esboçarem os desenhos?), uma anedota arquitectónica ou um pedaço de mau caminho que nada tem do bom que a expressão encerra?
Sabia que tinha que fazer um ângulo de cento e oitenta graus (com o carro), mas avistava vários sentidos obrigatórios, e nenhum me parecia indicar aquele que eu queria tomar. Com cerca de escassos décimos de segundo para decidir o que fazer, pedi ajuda à GP-essa. No vosso caso, não sei, mas, no meu, trata-se de uma senhora de voz grave, com uma estranha dicção — estala-lhe saliva seca na garganta nas consoantes, coitada —, que chama "áquinta" à A5, e outros miminhos semelhantes. De dentro da caixa onde está amarrada, mandou-me virar à esquerda, e eu virei pela Av. Álvares Cabral acima. Ralhou-me então, "Recalcular a rota", assim, no infinito verbal, como que imperativo categórico, até parece que me toca a mim recalculá-la (então não devia dizer antes "Recalculando a rota"?), disse-me que invertesse lá para os lados do Jardim da Estrela, e eu obedeci. Alguns semáforos depois, mandou-me virar à direita e digamos que pensei que tinha chegado ao meu destino, e só faltava procurar lugar para Rosinha naquela rua em que aposto o meu braço direito em como não passa um carro de bombeiros. Afinal, não: por não ter digitado o número da porta pela qual pretendia entrar, dei comigo não sei quantos quarteirões abaixo, que a rua é estreita, mas é comprida, como eu já fui um dia. 
Fui até à Baixa, no fundo. Dei uma volta, passando pela Av. Liberdade, o que não foi nada libertador, pela Praça da Alegria, hahaha, digitei lá à senhora da dicção esquisita o número da porta que queria alcançar, fui ao Príncipe Real, isto realmente, desci por ali, virei acolari, andei por onde não faço ideia, sempre a obedecer à voz dos estalinhos, e cheguei. 
Pus Rosinha num lugar que não era bem um lugar, mas paguei o papelinho do coiso. 
Lá fui à minha vida, depois levei uma seca de um senhor que não se calava, que veio acompanhar-me à porta e me fez pensar que iria atrás de mim para casa, caso eu fosse a pé, disse-lhe que estava com pressa porque tinha o carro mal estacionado, e ele sugeriu-me ir buscá-lo para o estacionar logo ali onde estava a arengar-me o juízo, provavelmente para continuar a serrar presunto (dele, que eu cá não tenho disso), até eu apodrecer, pura e dura.
[Cada carraça.]
Hahaha para ele também, e para a minha vida, que é isto.


13/09/2017

Aquele discurso feminista por que todos — eu incluída — esperávamos

Tudo é suportável num homem. Enfim, há uma coisa (incorpórea) que não se aguenta.
É suportável que ele seja teimoso como uma mula, porque diz que um teimoso nunca teima sozinho. Isto inclui a fraca memória para ditos e feitos de que circunstancialmente se desmemoria, contra a memória de paquiderme que qualquer mulher tem para datas, locais, pessoas, indumentárias, até mesmo expressões faciais e entoações de voz. Não sei mesmo como é que a prova testemunhal não está confinada apenas às mulheres.
É suportável que ele conjugue os verbos partir e estragar sempre com o pronome oblíquo -seIsto partiu-se — e nunca Eu parti isto.
É suportável que ele conheça mil caminhos alternativos à óbvia linha recta que lhe apontamos para chegar do ponto A ao ponto B, se perca num deles e jamais pergunte a um estranho indicações para voltar ao eixo.
É suportável que ele fique à morte cada vez que espirra (e vê mosquitos brilhantes no ar, e estoiram-lhe os tímpanos, e a cabeça explode, e sente palpitações pré-enfarte, e as pernas falham-lhe, e sua).
É suportável que ele seja previsível, e que, se conjugarmos o estímulo A com o estímulo B, consigamos o resultado X, como aquilo de juntar dois fios eléctricos e ah, fazer-se luz.
É suportável que ele se ache graça, já tenha percebido que as mulheres preferem os que as fazem rir, e esteja algures numa destas categorias: i. O que tem graça e não sabe; ii. O que tem graça e sabe; iii. O que não tem graça e não sabe e insiste; iv. O que não tem graça e sabe e insiste (porque ainda não percebeu toda a dimensão do conceito de palhaço); v. O que não tem graça e sabe e não insiste (abençoado).
É (até) suportável que ele seja um mentiroso descarado, sobretudo quando se enaltece. Que mal vem daí ao mundo?
É suportável que ele tenha a melhor mãe do mundo.
É suportável que a ex seja a tal (e que nunca cheguemos a perceber como é que ela lhe escapou. Ingrata.) (Nem como é que ela engordou e descaiu daquela maneira, mas ele continua a suspirar por ela com dezoito anos, fresca e seca.)
É suportável que aquele lugar de estacionamento que nós indicamos, à sombra e sem espinhas, não seja o melhor para o seu amado espadalhão de 1999, e aquele outro, em cima da lama, à tangente de uma árvore e com um pombal de pigeons com desinteria mesmo por cima seja, esse sim, o lugar perfeito.
É suportável a neura pelas derrotas do clube, pelo patrão que é um cão, até mesmo pelo cão que não toma banho, pelo banho que não querem tomar. 
É suportável até a vaidade física, o espelho, a barba lisinha, a depilação, as sobrancelhas acertadas, a tatuagem, a roupa desnecessariamente reveladora, o andar gingão, o cabelo ridículo. 
Mas a vaidade intelectual, senhores, essa é que já é insuportável e imperdoável. 
Pior que um intelectual vaidoso, é um vaidoso intelectual, cheio de proa e pose, debitando sabedoria e cultura a cada frase.
Nós, mulheres, precisamos de um niquinho de futilidade, que nos deixem ser mulheres em paz.
Falo por todas.
Ó pá, deixem-nos (se não puderem amar-nos cá com os nossos defeitos todos), lindas e maravilhosas.


11/09/2017

Fui comer e trataram-me como uma menina

Outro dia fui jantar.
Calhou-me na rifa e pelo caminho a Hamburgueria Barrosã, que tem só os melhores hambúrgueres desta cidade e um serviço de excelência. 
(E não, ninguém me paga para isto.)
Os senhores que servem à mesa sabem servir à mesa, o que já não acontece — e repito antes de dizer — em lado nenhum. Desde indicarem a mesa, apontando discretamente para a cadeira onde eu me "deveria" sentar (em primeiro lugar, visto que era a única senhora), que é, como sabem, a cadeira que fica virada de frente para a porta, até terem o meu guardanapo em forma de flor (e o dele de barco), passando por me perguntarem o pedido em primeiro, até me servirem também primeiro, acabando no facto de a chávena do meu café ser cor-de-rosa, olhem, senti-me uma princesa, uma rainha, uma menina, uma mulher, uma senhora, enfim. 


E a carne é absolutamente deliciosa, confeccionada com primor, acabada com preocupação pelo cliente. A pergunta "Bem, médio ou mal passado?", com resposta "Pode vir quase cru", foi respeitada ao rigor, e lá dei uma de primitiva, que, vá-se lá perceber porquê, se a carne vier em sangue até me sabe melhor. Se dependesse de mim, nunca teríamos chegado sequer ao Paleolítico. E também admito não ser grande coisa como crítica gastronómica, pois basta estar com fome para que qualquer sola de sapato barrada a Tulicreme me pareça uma iguaria. Àquela pergunta "Se só pudesses comer uma coisa para o resto da tua vida, o que é que escolhias?", fico sempre a titubear hesitações, "caju", "amendoins", "leitão da Mealhada", "uvas pretas", "dióspiros", e não saímos disto. 
Mas esta carne, apesar de eu adorar vegetariano e peixe, e tudo — na verdade, não há nada de que não goste, excepção feita a fígados, sobretudo maus fígados, mas lá está, até isso, barrado a Tulicreme... —, é a carninha da minha infância, aquela a que minhas papilas se acostumaram, e não há como os sabores da dita. (Eu sou daquela geração do bife de vaca com batatas fritas e ovo a cavalo, e há coisas que nunca mudam.) Deliciosa (já disse?). 
(Ai, já ia outra vez.)

Não é suposto serem fotografias de alta qualidade. Eu não sou fotógrafa. Deixem-me.

09/09/2017

A bomba


Está a ser uma experiência como outra qualquer ter a máquina da louça avariada.
Sou uma cobaia. 
Por acaso, a máquina lembrou-se de lhe dar a travadinha cheia de louça lavada. Isto não é assim tão linear nem irrelevante, tendo em conta que as máquinas da roupa, quando lha dá, é cheias: cheias de roupa, cheias de espuma, cheias de água, que uma pessoa vê-se e deseja-se ardentemente para separar as águas (literalmente), e retirar a roupa — quando ela não encrava o botão da porta —, evitando inundar o chão, evitando fazer uma festa-surpresa da espuma em pleno lar (o que se revela desde logo impossível, e vai de montar na esfregona, qual bruxa das águas, e deixar alagar até ao infinito e mais além).
Agarrada ao manual de instruções, fui por ele esclarecida que aquele sinal vermelho e luminoso com o desenho de uma torneira significa que a bomba está entupida. Vai de procurar a entrada da bomba e — oh, surpresa! — o desenho não correspondia mas é que em nada a todas as tampas do interior da máquina, excluídas que estavam as do exterior. (As do exterior foram excluídas antes de meter todo o torso dentro dela, uma vez que nem sequer existiam.) (Excluí também a da entrada do sal, que essa conheço eu de ginjeira, de tanto salgá-la quando ela se põe insossa, a sonsa.) Retirei a tampa do filtro de rede, metendo as mãos profundamente enluvadas na água que provinha do esgoto (hum, que smell...), e não era essa. Depois pareceu-me que podia ser uma outra, redonda, que ali estava com ar de quem não tem nada para fazer, mas sequer consegui retirá-la, porque devia estar num dia não. (Ela, não eu.)
Bom, desisti. Chamei o técnico.
A entrada da bomba era debaixo da máquina. Teria que ter feito a bicha capotar, e não é que nem me ocorreu? Mas diz que o problema não é da bomba, ao contrário do que diz o manual, a internet, o meu instinto, e só falta mesmo estar lá escrito, em vez da torneira luminosa, tens a bomba entupida
O diabo que a carregue homem vem cá buscá-la para a semana. Depois estamos mais uns dias sem ela. 
Heh, que importa? Lavamos louça à mão. Cada um lava o seu prato e pronto.
Errr... 
E pronto. Vamos acreditar que vai ser assim. 
Por acaso, já pensei em meter a louça toda na máquina da roupa e ligá-la a 800 rotações por minuto, a ver se sai já seca e tudo. 
Não foi nada que não tivesse pensado ao contrário, quando aqui há meses avariou a máquina da louça: estendia as roupas muito esticadinhas nos tabuleiros, as meias e as cuecas no coiso dos talheres, e zás.
Chiu.



08/09/2017

Agora parece que sinto um certo apego pelas questões fracturantes

Aqui do local onde me encontro, com o mar aos pés e o sol na cabeça, eis que me meditabundo por sobre temas que, de outra forma, não fora o contexto estival, não meditabundaria. São os fenómenos que surgem anualmente, que pegam moda e ninguém (me) sabe explicar porquê. São eles três:
1. As mega-bóias em forma de flamingo. Hoje vi uma à venda por € 73,50. Não sei se me expliquei bem, se calhar ponho o extenso: setenta e três euros e cinquenta cêntimos. Pondero encomendar meia dúzia e avisar em casa que para o ano não vamos de férias porque não há dinheiro. Assim, a nu e cru e seco;
2. Os vendedores de bolas de Berlim, que vendem agora "bola com Nutella". Porquê? Quem é que lhes paga para isto? Por que é que a bola não está recheada, simplesmente, com chocolate? Isto atormenta-me, porque não sei se, para o ano, não passam a chamar "bola com banha de porco e ovo liofilizado" às bolas com creme. Deviam ser proibidos os eufemismos neste sector. Aliás, por mim, os vendedores deveriam apregoar o número exacto de calorias que uma bola tem, e avisar aos gritos que engordam. Honestidade acima de tudo;
3. As partes de baixo dos biquínis desta saison: quem diabos se lembrou de descer às profundezas da quinta subcave e ir buscar as cuecas da avó e as trouxe para a praia? Que fenómeno foi o deste ano, que a garotada entendeu tapar a barriga (que não tem), o umbigo, toda a pele até às costelas, repuxando aquilo até prender nas miudezas e exibindo o nalguedo todo? E ganharem juízo, destapando para cima o que falta tapar em baixo?

Por acaso, ainda me tira o sono mais um assunto, mas não sei se o exponho hoje.
...
...
[tamborilando]
...
Está bem, já que insistem: o que é aquilo de haver nadadores na praia e todos, sem excepção, se chamarem Salvador? Eu acho spé chique e spé crido, mas não há Bernardos, Fredericos, Tomááás?

07/09/2017

Hoje lembrei-me de ti, Pirata!



É uma chatice morar num bairro associal

Basta andar umas centenas de metros e, logo ao lado do meu bairro, existe um outro bairro — social — em que as passadeiras, especialmente junto das escolas, são elevadas. Isto serve para evitar que as pessoas sejam atropeladas. Ah.
Há também bairros, mais ou menos periféricos, onde as passadeiras são quase tão elevadas quanto os passeios, as ciclovias estão correctamente cuidadas, há aparelhos de ginástica e espaços verdes a perder de vista. São ainda sobredotados de pavilhões gimnodesportivos, que servem a comunidade escolar, campos de futebol imaculadamente relvados, passeios sem falhas no empedrado, nem cocó de cão paralelo-sim-paralelo-não,
[não têm cães? Apanham os cocós? Mas todos? Há alguma coisa que me escape em relação à cultura de apanhar merdum do chão?]
dizia eu, estradas devidamente alcatroadas, isto é, não abrem valas até ao centro da Terra quando chove, não "sofrem" com o desgaste dos pesados, as rachaduras do calor, a elevação das raízes das árvores, e por tudo e mais alguma coisa (tudo, menos a péssima construção ou o uso de materiais de má qualidade). E os espaços verdes lembram a Casa na Pradaria. [Não sei quanto ao cocó, Laura Ingalls jamais se pronunciou.]
Os munícipes que lá moram pagam mais impostos do que eu? Os fregueses daquelas Juntas pagam mais taxas do que eu? É que eu também queria passadeiras-muro à frente das escolas do meu bairro, passeios bonitos, uma ciclovia bem tratada e separada da estrada, um multidesportivo, jardins cuidados. E não parecer a Lady Di nos campos minados de Angola, de cada vez que ponho o pé (os dois, na verdade) no passeio. 
Em resumo: posso ainda não saber em quem vou votar, mas já sei em quem, com certeza, não vou votar. É um direito que me assiste.

06/09/2017

Aquela cadeirinha rosa e azul

Na última década do século passado, isto já noutro milénio também, pus no Mundo quatro pessoas. 
Sentava-os numa cadeirinha (auto; de transporte; espreguiçadeira) cuja forra — rosa, de riscas brancas — ficou encardida e depois surrada de tanto ser lavada pelo uso das duas primeiras. Quando chegou a terceira, forrei a forra com um forro cor-de-rosa escuro.


No ano seguinte, veio ele. Aquele forro da forra só tinha um ano e meio. Mas eu, teimosa e sexista, forrei-a de novo. De azul. 


Quando ele começou a deslocar-se — rebolando, arrastando-se, gatinhando, andando (por esta ordem) — existia em casa um quarto de brinquedos, em que mais de três quartos deles eram Barbies, casinhas e também mobiliário em miniatura, ou "à escala" (não só uma tábua de passar a ferro, mas também um pequeno escorrega onde dormi belas sestas enquanto grávida. Don't ask). Havia uma única bola, de pano, e alguns brinquedos de encaixe. Apesar daquela oferta toda, jamais o vi dirigir-se a uma das bonecas. Um desinteresse e um desprezo totais e genuínos, uma vez que, se o "problema" fosse aprendizagem e fenómenos de imitação, mais depressa compactuaria com as brincadeiras das irmãs do que brincaria sozinho.
[Então e se havia Barbies bonitas na minha casa, desde a Barbie do Escalpe (quase todas) à Barbie Decapitada (praticamente todas), à Barbie nua (rigorosamente todas), à Barbie Despenteada (basicamente, todas), com aqueles cabelos de ninho, que nem um rato com dois dedos de testa ali faria o seu.]
Só mais tarde é que começaram a aparecer os martelos e outro tipo de brinquedos "destinados a rapazes". Um dia, demos-lhe um tractor de plástico, que ele pedalou furiosamente por cima de toda a folha e soalho, até ao dia em que lhe desmontou o pedal, e nunca mais a geringonça andou para a frente nem para trás. Mas também nunca chorou uma lágrima por esse motivo, contra o vale que acontecia cada vez, de todas as vezes, que um pescoço das bonecas da Mattel se quebrava em dois.

[A sério, Mattel, vejam lá isso dos pescoços das loiras, que aquilo mais parece um truque para venderem mais bonecas.]


05/09/2017

É tão blogger da minha parte # 13

Taquei o olho gordo em cima desta imagem e quis tudo, que eu sou dessas que não podem ver nada.

Saber Viver, Setembro 2017
Enfim, não tudo-tudi-tudo. Quando li na legenda que o colete cinzento é um vestido, desisti da ideia. Tenho má experiência com vestidos de malha canelada: muito pesados, muito quentes, muito deformantes da silhueta. Enfim, posso sempre procurar... um colete cinzento. Também dispenso a menina.
Mas o camiseiro, mas os brincos, foi uma questão de desejo carnal, ou canibal, ou animal, ainda não decidi.
Se, quanto aos brincos, foi fácil, e já cá cantam dependurados pelas orelhas, quanto ao camiseiro tem sido uma saga para o possuir.
A revista só indicava a existência de uma Uterqüe*: a das Amoreiras. Lá o ser humano se despencou para as ditas, porém nas próprias só existiam os tamanhos S e L, e, adivinhem, a pessoa veste o M, como tooooooda a gente. Ainda experimentei o L, mas toda eu era tenda de campismo ou, se preferirem, pára-quedas com cabeça e braços, pelo que pedi um M para uma loja mais próxima de mim, já que acabara de tomar conhecimento que elas existem um pouco por todo o lado. Passados dias — coisa de quê? Quatro —, e como não me telefonassem e a capacidade para não ter o camiseiro comigo diminuísse hora a hora, desloquei-me. Ai, que não, que ainda não tinha chegado porque vinha do Porto, e parece que o entregador vem a pé. Que está bem, que espero mais uns dias, mas, à cautela, experimentei o S, e toda eu era um colete de forças com cabeça e braços à mostra. Capaz de asfixiar com aquilo, bom para autoflagelação, ou assim. Passou-se isto meia hora, venho na volta e toca o coiso. Atendo e diz-me uma voz assim para mim: "Senhora dona [Linda Blue], fala da Uterqüe*, é só para avisar a senhora que a sua saia de riscas já chegou".
Portanto, continuo à espera, pois já passaram vários dias — cerca de outros quatro, quem sabe — sobre este episódio traumático e ainda não me telefonaram a avisar que as minhas calças de bolas já lá estão, palhaços.

*Ninguém me paga para me calar.

03/09/2017

super mercado

Passaram por mim invisíveis, e ainda agora não sei como é que os vi, se mais ninguém, mas sei que os vi. Davam um ao outro o braço, o mesmo cuja mão arrastava um cesto de rodinhas, ainda vazio, e, com a outra, empurravam um carrinho de bebé, numa cadência de comboio cuja locomotiva, perdida e sem carvão, se encontra algures ali pelo meio, mas não certamente à frente. Semi-deitado, um rapazinho de cerca de dois anos dormia. Só os vi por estarmos num supermercado, eles serem tão idosos e a criança dormir tão profundamente — apesar da luz, apesar do som, apesar das hesitações no percurso, apesar de já não ter idade para dormir assim em condições assim. Depois reencontrei-os na caixa, o meu carro cheio de primeiras necessidades para um batalhão que as consumirá em poucos dias, o cesto deles leve, apesar do peso. E foi quando reparei que a ela lhe saía a aba de uma fralda pelo cós das calças legging pretas, tão velhas quanto ela, poídas e furadas numa das pernas. Ele tinha vestida uma camisa de xadrez sobre as calças de ganga, cuja fralda podia bem esconder igualmente essa outra fralda. A criança continuava a dormir daquela maneira desinocente que nunca deveria ser a do sono de um anjo. Não olhei para o conteúdo do cesto deles por pudor e cobardia, mas, essencialmente, porque tinha o coração despedaçado naquele momento.

#aindavoupararaostesourinhosdasautarquicas # 2

Decidam vocês.
Está foleiro?
Pois está, mas eu também nunca disse que era para ficar xik, phyno ou ileganth.



01/09/2017

#aindavoupararaostesourinhosdasautarquicas

Primeiro draft do meu header novo.
Sei que pronto, é só o primeiro.


Todas as imagens abafadas da nettinha, excepção feita ao fundo (pic do fundo actual, metida num daqueles filtros tipo centrifugadora) e àquela actriz de Hollywood a sair da linha do horizonte (que fotografei ao vivo, visto que mora na minha rua).