31/07/2015

Diálogos ao sol # 5

Diálogos à sombra # 10

Amizade antiga, que se antecipou uns dias em relação a mim, manda-me por mail uma panorâmica da praia que me aguarda.


Inicia-se, assim, uma cadeia de mails, que poderia ter tudo de belo e infinito, não fora a desgraça do esbarranço na porcaria do português, como sói dizer-se.

Ora reparai:

(Há 2 horas) para Amizade Antiga 
​Eh, tanta gorda! 

(Há 1 hora) para Linda Blue
Hoje vai estar uma Lua Cheia mais gorda do que habitualmente o que vai proporcionar um luar incrível na praia dos Olhos d’Água. Vai daí, estou a preparar-me para sair para jantar um peixinho no Pássaro Azul. Depois mando-te fotografia. 

(Há 1 hora) para Amizade Antiga 
Fá-lo.
Manda-me um grande plano, mas só do peixe.

21:35 (Há 52 minutos) para Linda Blue
Cinco quilos e quatrocentas gramas. Mandei confeccionar um pargo com cinco quilos e quatrocentas gramas.

21:41 (Há 47 minutos) para Amizade Antiga
Tu continuas a dizer os gramas no feminino?
Não consigo dialogar contigo.

Pronto. Já não recebi mais nenhum mail. Um descanso de serão.

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 20

Compro coisas.


*

Os outros, não sei, mas Titimimiro pôs-se a vender uma coisa, que tem como base uma ideia muito simples: manter as meias agarradas ao seu par. Tipo aqueles concursos de dança que se viam em filmes como Os cavalos também se abatem, em que as pessoas dançavam agarradas pelo máximo de tempo que conseguissem, para ganharem um prémio em dinheiro. É igual com as meias, só que sem prémio no final. Mas passam pelo processo todo de lavagem e secagem agarradas por um clip especial.  
Já tinha visto uma solução semelhante no Shark Tank norte-americano, mas eram meias de criança, que traziam uma peça semelhante à metade de uma mola, sendo que o par trazia a outra metade, as duas eram agarradas antes de serem lavadas e só se separavam quando eram calçadas.
Estas gabam-se de já terem aparecido na TV, e, de facto, parece que apareceram no Shark Tank português. Eu não vou fazer essa pesquisa, porque a minha vida não é só isto e tenho panelas ao lume e alguidares de roupa a corar debaixo deste sol murcho de dar desgosto.
Ando há um ano a enfiar clips nas meias, a metê-las na máquina, irmanadas, e a tirá-las de lá desirmanadas, ou com o clip todo torto, ou a correr o risco de encher o filtro — e, quem sabe, o motor — de clips. 


Agora, tudo mudou. Comprei estas lindas peças, de uma borracha que não me perguntem de que é que é feita, que tem um cheiro bastante peculiar (que pode ser que não se cole às meias), onde se enfiam as duas meias, vão assim à máquina, espeta-se a coisinha na corda, desespeta-se quando estão secas e zás, com elas na gaveta, cá agora mariquices de fazer a bolsinha (modéstia à parte, faço umas bolsinhas que são um miminho, havia de fazer um workshop subordinado ao tema Como guardar as meias em bolsinhas. Ou um tutorial). Cor-de-rosinha e tudo — pois, na minha casa, impera a democracia de forma totalitária, e quem manda nas porcariazinhas sou eu. No entanto, como todo o pequeno ditador, ocupo um lugar solitário (que não é esse que estais a pensar — eu sou uma senhora, não faço essas coisas), que é o do pequeno poder. Assim, naturalmente, nada do que faço é consensual — embora tudo seja sensual —, pelo que já recebi umas críticas à minha aquisição, designadamente de quem nunca abraçou a tarefa da irmandade das meias, como eu abraço há algumas décadas. Abraço, beijo, é uma lambuzice e um esfreganço que até dá gosto ver. 

Nunca mais vou andar à procura da irmã da meia azul escura, que depois é preta, que depois afinal é um tom de azul escuro abaixo daquele azul escuro, ou é azul-preto, ou preto-azul.  Digo eu, a esta distância.

* Ninguém me paga para isto. Não percebo.


As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 6

03.06.2009

A minha Zá

Entrámos para a sala de reuniões, pela enésima vez em quinze dias. Estamos a ficar fartos da cara uns dos outros. Hoje vamos desfazer o órgão para o qual fomos eleitos há seis meses. Era um órgão provisório, portanto, é natural que esteja no fim. Devíamos estar aliviados por isso, mas não há tempo para sentimentos. A seguir, vamos constituir o órgão definitivo, e esse tem um mandato de quatro anos para cumprir.

Despedimo-nos de forma mais ou menos formal, desejamos bons trabalhos a quem fica e agradecemos a quem não, e fazemos um intervalo para ponderar quem vamos escolher para presidente do órgão definitivo. Saímos da sala, ficamos a conversar cá fora, e nota-se uma certa tensão no ar, que eu não sei de onde vem — se do fim do trabalho de um lado, do começo do trabalho do outro, do momento de ponderação a que nos comprometemos, ou só porque nos vamos separar. As separações custam sempre. Mesmo esta.

A professora Zá é das pessoas mais extraordinárias que eu conheço, sem reservas. É viúva de um patife que deu um tiro na cabeça diante dela e do filho de ambos. Venceu um cancro da mama que mais tarde ou mais cedo a vence a ela. De vez em quando, aparece com o braço metido na manga elástica. Nunca lhe ouvi um ai, um lamento, uma recusa a um esforço, mesmo físico, que sabe que não pode suportar. Trabalhamos juntas há anos, mas ela trabalha desalmadamente. Ela como directora da escola, depois vice-presidente do conselho executivo, agora nada. Eu só ando ali a passeio, estou de passagem. 

Falamos com os olhos, como as amigas a sério. Ela insiste em tratar-me pelo título académico. Eu trato-a por Zá, mas refiro-me sempre a ela por professora Zá. E dá-me os abraços mais gordos e mais saborosos, por serem gordos. Ela é gorda, e eu adoro-a por isso. Estou-lhe sempre a dizer que não está nada gorda. Mas está cada vez mais gorda.

Acabei de saber que a directora do agrupamento, recém-eleita, amiga de longa data, companheira de conselho executivo, não a escolheu para vice-directora. Perguntei a uma, primeiro, e ela deu-me uma resposta institucional. Depois perguntei à minha Zá. E ela deu-me a mesma resposta, automaticamente, muito explicada, os olhos a entrarem dentro dos meus, os meus a escancarar sem acreditar.

A minha querida está a olhar para mim com esses olhos tão grandes assim...

É que estou a olhar para os seus e aquilo que me diz não é o que lhes leio 

E os dela cheios de água,

Já nos conhecemos há muitos anos

As minhas mãos na cara gordinha dela.

Já passámos tanto juntas. O ano passado andámos a arrastar um monstro de 900 quilos, com mais duas almas penadas, no recinto do recreio, porque nos convencemos que estava uma criança lá debaixo. Aquilo moveu-se uns três milímetros — ou nenhum. Depois de verificarmos que não estava, sucumbimos aos nervos, sentámo-nos num banco, lado a lado, como duas crianças assustadas, e chorámos juntas.

As amigas são assim. Falam com os olhos. Choram juntas. Se não fazem estas duas coisas, pelo menos uma vez na vida, não são amigas.



30/07/2015

Falsas declarações

Esta história dos cookies lembrou-me outra, ocorrida há muitos anos, que, embora não tenha nada a ver com aquela, tocam-se num denominador comum, que é o da prática do crime de falsas declarações que, com maior ou menor consciência, mais ou menos frequência, vamos cometendo ao longo da vida. 

Era eu ainda uma mera estagiária — e o mera vem porque, naquele tempo, ser estagiário era assim qualquer coisa um nadinha mais do que estafeta, mas com o pormenor de não se auferir um salário —, e, por conseguinte, era pau para toda a obra, designadamente por ser mesmo um pauzinho de virar tripas e por só não ter sido, no decorrer daqueles dois anos que durou o estágio, chamada para desentupir um cano porque, vá-se lá perceber como e porquê, não entupiu nenhum naqueles entretantos. Mas ser estagiário era, talvez mais do que hoje, toda uma ciência de vida. Encontravamo-nos num estado de alma e corpo de uma singularidade que não voltaríamos a experimentar, nem sequer no início do primeiro emprego. Era um limbo perfeito, de quem julga estar investido de uma sabedoria máxima e se apercebe, dia após dia, hora após hora, de que, afinal, atingiu o ground zero do conhecimento, pois a torre que levou alguns anos a construir se desmoronou como uma bolacha seca e deu lugar a um enorme buraco, que de zero só tem o nome, já que se encontra vários níveis abaixo do solo. No entanto, queríamos agradar. Se alguma sumidade das que nos acompanhavam o estágio dissesse algo semelhante a "Isso é atirar o barro à parede", era quase certo que o estagiário se atirava de mãos ao chão, pregando os pés à parede, pois teria entendido "Faz aí o pino contra a parede". Coisa que, convenhamos, nem sempre é a melhor opção, pois havia quem fizesse um estágio inteiro de saia travada e saltos altos. 
Ham.

Um belo dia, fui chamada ao gabinete da chefona máxima, e mandou-me ela deslocar ao consulado britânico, com vista a certificar uma tradução. 
Diz Murphy, esse sábio dos anais, que quando alguma coisa te corre mal, pode sempre piorar.
A tradução tinha sido feita por outra estagiária, que poderia ser tão voluntariosa quanto eu e ir certificar a autenticidade do seu trabalho, poupando uma inocente à prática inadvertida de um crime tão vil. Porém, era detentora de um rabo levemente mais largo e tinha necessidades francamente superiores de praticar stretch da cintura para cima. Por outro lado, conhecia melhor a língua inglesa do que eu, que papagueava em francês quase como em português (mas sem palavrões quase nenhuns), mas meu inglês era de nível Zezé, puta cream number five, e já gozavam. Escalaram-me a mim, que é o que interessa. 
Perto do Jardim da Estrela, que casa tão bonita, palacete, ai que bom que deve ser morar num sítio destes, enfim, até à chegada do funcionário consular, nada de estranho. 
Vá, digam-me que não era o cônsul. É que eu ainda hoje não sei.
Vem a alta figura, altíssimo, louro, olhos e fato azuis, com um livro na mão e estende-mo. 
Dizia lá na capa HOLY BIBLE.
Ó pá, o meu inglês era mau, mas ainda pensei Holy shit, estou fornicada
Ninguém me tinha avisado daqueles bateres de continência e de calcanhares. Por isso, perguntei, toda branca:
- O que é isso?
Diz-me o britânico, cheio de sotaques e tiques:
- É a bíblia. Ponha-lhe a mão em cima para prestar juramento — e pegou-me na mão esquerda.
Eu sei que tenho um par de tomates porque, nesta altura, senti claramente duas coisinhas pequeninas ao nível dos tornozelos. Mas ninguém diria que isso era apenas eu à procura do botão de pânico, da tampa do alçapão ou da porta do inferno. Retirei a mão da dele, endireitei a bíblia, e disse:
- Vou virar o texto para mim, que está de pernas para o ar. E a mão é a direita, que isto é uma bíblia. 
A boca do homem abria-se a desníveis, à medida que a minha desgraça singrava alegremente. 
Mas Murphy tem lá os seus motivos.
E o cônsul (digam-me que não era o cônsul! Eu preciso de uma velhice sossegada!) apresentou-me um papelinho pequenino para eu ler.
Era o juramento.
E o meu inglês era mau. Isso, acho que já ficou claro.
I swear to almighty God...
Parece que ainda me estou a ver. A mim, e à boca do cônsul (pode ser que não fosse o cônsul, vá lá...).
Ai suére.
A boca dele. Riquezas de sua avó.
Tu ólmigue.
Tão linda, a boquinha, bilu-bilu.
Tu ólmigue...
Mas Murphy ainda não estava satisfeito. Vá que não me deu para vomitar. Ou soprar um ar daqueles (já era uma senhorinha, essa é a única fatalidade que, de todo, não me pode acontecer. Só arrotos). 
E gargalhei, agora eu, de boca escancarada, para rematar esta pérola, sem baliza à vista:
- Hahaha, tu ólmigue! Vá, do princípio: I swear to almighty God — e, desta vez, li com o melhor inglês que o liceu não inglês me tinha ensinado, aquelas bem fadadas cinco linhas, que me souberam a cinco páginas, arrancadas não sei se com sangue, mas com suor com certeza, e lágrimas, muitas lágrimas, de riso descontrolado, do lado de fora do consulado, sentada no passeio, toda consolada de gozo e nervos e frescura, da brisa que corria e da juventude que me percorria.




Cookies


Isto é só comigo? Tenho a máquina embruxada? Mas que neurose, não se pode abrir uma página de um blog, lá vem o aviso. Entre Obter mais informações e Entendi, não há uma opção Não entendi, outra Não entendi, mas prefiro prosseguir, outra Não entendi, mas, mesmo que isto expluda, quero seguir em frente, outra Não entendi porque sou limitada para recados internauticos, outra Não entendi, embora cookies me pareça uma coisa muito boa, ou assim algo que não me obrigue a carregar no botão Entendi sem ter entendido patavina? 
É que me sinto mentirosa, aldrabona, enganadora, ciber-criminosa, tudo a um tempo, por dez, vinte, mil vezes por dia.

Já chamava o Monstro das Bolachas. De caminho, ajudava-o a papar algumas.

hungry animated GIF

29/07/2015

Quando eu ganhar o Euromilhões # 9


Farta da lide, e porque não sou nenhum toureiro, menos ainda um forcado, meti-me nas tamanquinhas e fui-me lá para os lados da Sportzone, a ver da bicicleta. Não fui para o Decathlon, porque a minha finalidade era encontrar a Beach Cruiser azul, e tinha sido lá que a tinha visto, pela última vez, ao vivo, há coisa de dois anos. Pus cara de gente, ajeitei os caracóis, alonguei as pestanas a níveis cósmicos (está um s depois do ó), vesti o meu vestido que não admite argumentos, agarrei na mala que só não é uma arma de autodefesa porque não a consigo lançar à boca de um gatuno (hoje pesei-a: com a minha super-garrafinha de água lá dentro — que parece pesar o mesmo que uma kalashnikov —, são 3,200 Kg, exactamente o peso com que nasci, ah, grande Dr. Formosinho!), e vai de invadir, neste belo preparo, a loja do Colombo, que eu não faço por menos. Ia em missão, e as missões, ou se cumprem a preceito e são levadas a peito, ou estão condenadas, à partida (de mau gosto). Portanto, e recapitulando: pestana power, on; timbre, o tal das jantes de liga leve; a mão esquerda a dar uns jeitos ao cabelo, em sinal de ai-que-calor.
No entanto, não consegui nada. Estou a perder qualidades. Ou então, pedi o impossível ao rapaz que me atendeu.
Vi-o ficar pesaroso — mortificado, mesmo — por não poder encomendar a bicicleta dos meus anseios. Mas, como de santo não tinha nada, ficou logo claro que milagres não fazia. 

No entanto, apresentou-me esta alternativa, da qual não desgosto completamente:


O maior defeito que tem, em relação à outra, é que não se chama Beach. E os para-lamas não são azuis. Mas é toda azul na mesma.
Eu percebo montanhas de bicicletas, não sei se já deu para perceber. E vales. 
Vi lá duas de que gostei tanto, que, quando ganhar o Euromilhões, compro uma delas, só para mim:



Pode ser que seja possível comprar as duas, para alternar os dias. Torno-me uma alternadeira da ciclovia. 

Eu quero ser excêntrica. Preciso.



Overbooked

Estou cheia de tarefas pequeninas que, todas somadas, me enchem o dia de cansaço e frete.

[As férias da minha empregada são a minha tormenta. Volta, Sandra, não estás perdoada, mas volta na mesma.]

[Pronto. Agora tenho-os a pensar "Coitadinha, tão titi, até precisa de empregada". Môres, eu explico: a vocês, aparece-vos tudo feito, mas ó: a varinha de condão não existe. Aquilo de a casa-de-banho aparecer sem os vossos pêlos, as vossas camisas passadas a ferro e as refeições prontas, não foi a fada madrinha que fez. E tenho-as a pensar "Olha-me a gaja, tem empregada e ainda se geme, a dondoca". Môres, é simples: experimentai só uma semana de uma casa com seis marmanjos, todos — eu incluída — com a PDM do desporto e a PDM de vestir roupa lavada todos os dias, o que equivale a duas mudas de roupa por dia, e depois, só quanto a isso, falamos. Uma máquina (mínimo) com um tambor de sete quilos, 21 metros de corda todos os dias, hã? É para valentes, eu sei. Coisa boa: o ferro não queima calorias nenhumas. Só a pele, se não tivermos cuidado. Explicação simples: os braços estão baixados. Queimam-se mais calorias a secar o cabelo dez minutos do que em duas horas ao ferro. O Murphy, ou outro gajo qualquer que pensou isto assim, é um cabronete dos bons.]

- Ferro — já dei para esse peditório por hoje. Calhou-me, no meio do rol, uma porra de um lençol de cama de casal com elásticos. Tive vontade de armar a tenda, ou uma boa barraca, meter-me lá dentro e fechar para obras. Ou balanço. E gritar ao mundo — o meu mundo — que não sou de ferro. Não sei se perceberam a piada. Eu sei que sim, mas eu é que levo algum tempo a perceber as minhas próprias piadas, e depois acho que toda a gente tem que ser como eu. Assim leve.

- Costura — no plural. Estava languidamente a passar a ferro, quando descubro que a renda de um jogo inteiro de lençóis está a precisar que eu lhe deite a unha e a linha e a agulha. De caminho, coso a bainha a uns calções e refaço a parte de baixo de um biquíni, que tem umas cuecas que nem a minha avó, nascida no século XIX, era capaz de usar. 

- A p. da máquina da roupa está a lavá-la — já vou ter que a estender. E, mais tarde, recolher. Mais tarde ainda, passá-la. Tudo isto, são planos a muito curto prazo, que o calor e o vento, quando juntos, formam um verdadeiro conluio contra mim. No fundo, a minha vida actual resume-se ao ferro. Que ferro, melhor não diria o Ega.

- Casas-de-banho — são duas. O pessoal lava-se, defeca e escova dentes num sistema de roulement que é uma aflição. Têm que ser limpas diariamente. O ideal seria o bidiário, mas olha. Ou então, que se limpassem sozinhas. Era fechar a porta e carregar num botão. Shark Tank, alô? Ou pedir ao povo que fosse defecar ali ao café. E lavar-se na rega automática destes relvados frondosos. 

- Lavar a gaiola — tenho que pôr comida nova e água limpa ao Bernardo e à Bianca. E lavar-lhes a casa, que eles não são capazes sozinhos. Eu sou a Sandra deles. Mas não meto férias, porque não há cá democracias nem leis laborais entre nós três.

- Responder a mil mails — e nenhum é profissional, ao menos isso. Há, pelo menos um, que posso adiar por mais um ano, visto que já leva um atraso de meses. Mas há outro, que é urgente. Uma das minhas duas melhores amigas escreve-me assim, no meio de um arrazoado [desculpa, comadre, se me estás a ler. Eu sei que não]:

Fui criada na serra, só comia alimentos do mais saudável que há, fruta só da época, caía e levantava-me, o meu pai nunca conseguiu tirar-me as rodinhas pequenas da bicicleta, nunca caí num poço, apanhava cerejas e punha nas orelhas a fazer de brincos, percorria a quinta em cima do burro do Zé (nosso empregado) e contava-lhe o ultimo episódio, radiofónico, do “simplesmente Maria” e as notícias da crónica feminina. Só felicidade.
Tudo apontava a que viesse a ser uma guerreira. Afinal, aos [diz a idade] estou neste estado, com uma caixa de remédios que, dum lado tem a Lua e, do outro, o sol não vá baralhar os 7 comprimidos e falecer da cura. É triste porque (dentro do género) já fui gira.

Ora, isto é preocupante. Tenho como missão, desde ontem, devolver-lhe a auto-estima, porque da dela depende a minha: fomos praticamente criadas (não a dias) juntas, temos a mesma idade e, se ela se sente feia, eu sinto a obrigação de me sentir feia. E não consigo. Tenho que lhe escrever e, para isso, preciso de recolhimento espiritual, que não sei onde vou desencantar.

- Também gostava que me sobrasse algum minuto para procurar uma bicicleta que eu cá sei, para oferecer a uma querida das minhas, para lanchar o meu iogurte da avenida de Roma, para ir à praia e não apanhar a ventania que apanhei ontem, em que ia ficando soterrada, eu e a minha toalhinha. 

Já só falta uma semana para ir de férias.
Ainda falta uma semana para ir de férias.
Genitais.

28/07/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 6


Consigo ver maldade nas coisas simples da vida.

Das lágrimas da cebola também escorre amor

Estamos a preparar, juntas, uma refeição: salada de bacalhau desfiado com grão. É preciso picar cebola. Ela não sabe, nem quer. Porque lhe choram os olhos. Mesmo sendo eu a picar, choram, só do ar. Lava os coentros enquanto eu pico a cebola, e leva as costas da mão aos olhos. Tem umas mãos pequeninas, porque é toda pequenina. Quando não lhe chamo o diminutivo — Mimi —, chamo-lhe a alcunha que lhe pus: Formiga.

- Só de estares aqui a picar a cebola ao meu lado, já me está a fazer chorar.
- Dizem que, se picares a cebola debaixo de água, não pica.

Paramos tudo o que estamos a fazer, porque nos atravessou a mesma imagem mental.

- Não tens que te meter debaixo de água, sabes?

Então, rimo-nos, até que as lágrimas se confundam com as da cebola, das várias hipóteses de picar cebola debaixo de água — de todas, menos da certa, que é a que tem menos graça (meter a cebola debaixo da torneira, com a água a correr, e picá-la para um passador de rede). Só nos passam hipóteses parvas pela cabeça, e, de cada uma, rimos como perdidas.

Mergulhar numa piscina agarrada à cebola e à faca e picar a cebola debaixo de água — e rimo-nos, inteiras.
Encher a banheira de água, meter óculos e tubo de mergulhador, e picar a cebola debaixo de água — choramos de riso, de tão non sense que é a ideia.
Encher o lava-louças de água e picar a cebola debaixo de água, apesar de os cubinhos ficarem espalhados pela água — estamos naquele ponto em que as imagens que criamos já não têm graça, mas em que perdemos o controle sobre o diafragma, e agora é até morrer de gozo bom.

Choramos juntas, cheias de cebola, até nos doer a barriga.

27/07/2015

Sou só eu?

Para onde quer que vire o rádio, sai-me música angolana ao caminho.
O povo descobriu o filão Anselmo Ralph e agora vai de o esgotar até à náusea.
C4 Pedro, Vamos ficar por aqui — Vamos. A sério.
Badoxa, Me toca — Não. A sério.
Yuri da Cunha, Recebe o meu perdão — Não. A sério.

(Não sei porquê, mas isto lembra-me um Verão, aqui há uns anos, em que, na praia, colmo sim, colmo não, estava alguém a ler O Código Da Vinci. E depois passou um avião, daqueles que transportam um flyer, a dizer Leia o Código Da Vinci. E, então, eu nunca o li.)

Mais depressa me apanham a ouvir Pablo. Que, ainda por cima, é bem apessoado.

Videoclip filmado em Lisboa. Vale a pena.

Preta

Não me assumo como pet lover — pelo menos, naquele sentido mais enfático do termo, em que os animais vêm acima de todas as coisas na hierarquia sentimental, sobrepondo-se, mesmo, às outras pessoas. Também eu acho que existem pessoas que merecem menos viver do que a maior parte dos animais (tendo em conta que todo o mal que eles possam fazer tem como premissa e justificação a sua irracionalidade), mas também não considero que a vida de um animal se deva poupar a qualquer custo, nomeadamente se isso implicar perigo para as pessoas, ou para os outros animais.
(Além disso, quem me tira a bela chuleta do boi, tira-me tudo.)

Estou sempre a dizer isto, mas gosto tanto das minhas gatas, tenho tanto medo que elas me morram um dia, que, se calhar, até sou pet lover, do género não assumida — que são as piores, em qualquer tendência, vocação, missão e, pronto, fundamentalismo.

Tenho uma gata desconfiada, nervosa e, em última análise, agressiva. A outra é mansa como um anjo (se for possível imaginar um anjo-gato, é aquilo), mas transfigura-se em gato-diabo quando se apanha no veterinário.

Quando a Mel, meu anjo, foi esterilizada, e por ter sido necessário ir mudar o penso da cirurgia umas quantas vezes, aconteceu, de uma delas, eu estar na sala de espera com ela e terem entrado duas senhoras com uma gateira. Lá dentro, traziam um gatinho pequeno e preto, que tinham encontrado na rua, a tentar meter-se no motor do carro de uma delas. Calculei-lhe a idade para sete semanas, mas a vet disse quatro. As senhoras só queriam arranjar-lhe dono e ir-se embora. Nenhuma das duas podia ficar com ele, uma por ter um cão mata-gatos, a outra por já ter um gato e viajar com uma frequência tal que um gato já era igual a problema, quanto mais dois. Eu também não posso. As minhas gatas não se dão uma com a outra e isso cria dificuldades na partilha dos espaços. Mais um gato em casa, mais uma despesa, mais uma logística impossível. Assunto fora de questão.

Pelo telefone, tentei, por um lado, e elas, por outro, arranjar um dono ao gato. As duas respostas positivas que nos deram, uma a mim e outra a elas, ambas queriam gato, macho. A veterinária tirou-o da gateira, pô-lo no chão e imediatamente ficou claro para todas que havia qualquer coisa que não batia certo com o andar dele. Pegou-lhe, observou-o, e declarou, impávida, aquele que era o primeiro entrave a uma esperança de vida: É uma menina. Partiu-se-me o coração. Uma menina. E uma menina doente. Um atropelamento ou uma queda de muito alto provocaram-lhe danos na coluna vertebral permanentes. Uma pata de trás morta. Coxa para sempre e, eventualmente, esse sempre ser muito breve.

Se não se arranjar dono, vamos ter que a pôr "a dormir".

Esta é a rotina num veterinário. Não é preciso vir a Câmara e levar os animais que ninguém quer para o canil/gatil. Depois de abandonados, há quem decida o seu destino assim, assepticamente.

Sentia-me entre a espada e a parede. Não posso ver crias de coisa nenhuma, que me derreto e perco a capacidade de fazer raciocínios lógicos. Naquele momento, já deveria estar a adoptá-la no coração, porque lhe pus um nome, mentalmente: Preta. Se ficares comigo, ficas Preta. Este foi também o momento em que tive que decidir, em poucos minutos, o futuro daquela gatinha. Tinha a minha metida na gateira há tempo a mais, depois de se ter portado como uma selvagem na retirada do penso. Tinha o não redondo de quem tinha dito sim a um gato-gato. Tinha a certeza de que, tal como dizia a veterinária, nós não podemos salvar o mundo (até podemos, mas não havia tempo a perder com essa explicação). E a minha certeza de que podemos sempre começar por algum lado.

Ainda lhe arranjei mais um lugar onde ficar, mas a veterinária estava inamovível: aquele animal teria que ser adoptado por alguém que se comprometesse a dar-lhe cuidados e assistência sem esperar grande coisa dali. Sem saber, sequer, se iria ter a gata consigo por muito tempo. E essa pessoa, eu não tinha, naquele momento, na minha agenda emocional.

Insuportável. Peguei na gateira, dirigi-me para a porta, e cruzei-me com uma senhora que vinha a entrar: uma velhota, de bata, que não levava mala ao ombro nem animal nas mãos. Não havia, aparentemente, qualquer motivo para que uma pessoa assim fosse ao veterinário. Mas é que as aparências iludem, e há anjos (que eu já vi). E disse o anjo dos animais:

- Tão bonita, assim amarelinha... numa fêmea, é tão raro! — cintilavam-lhe uns olhos azuis muito pequeninos, muito infantis — Bom, bonitos são eles todos...

Vá ver, meu anjo, vá ver à sala de observações, o bonita que é uma Preta que lá está, à sua espera.

26/07/2015

Pensamentos que me germinam na caixa, porém nunca me chegam à boca # 9

Tenho uma montanha de roupa para passar e a máquina a trabalhar com outra montanha. 
Isso faz de mim a Heidi?

E sim, é uma das minhas bonecas. Chiu.


25/07/2015

Fui à Bunda

Isto vai soar mal, mas é a pura e dura realidade: meti os cornos a André Pilateiro e fui à Bunda do Wellington. Até aqui, tudo well. Mas dava-me mais jeito que o homem se chamasse Washington. Preciso de me lavar. Já tomei banho e escorro de todos os poros. Não fosse isso, e agora chorava um bocadinho. Mas temo desidratar e saltarem-me os olhos das órbitas. 
Isto vai continuar a soar mal, mas Pilates não me preenche. É tudo muito sacro, e nada santo. É tudo muito pélvico, para o meu soalho pélvico, assente em soalho duro como os cornos que meti hoje a Pilateiro. Já disse, não já?
Acontece que andava há semanas a ser aliciada por Well para me meter na Bunda dele. E eu sou uma influenciável se me acenam com a promessa de ficar mais gira. Como se isso fosse possível. 

O homem deve ser garoto para a minha idade, mas treina todos os dias muitas horas, não tem mamas e não carrega o peso do globo, dos outros planetas todos e da blogobola sobre os ombros. Por isso, salta como uma pulga, exactamente porque as pulgas também não nada daquilo que eu disse para trás.
Eu morri. Foi a meia-hora mais dramática da minha vida, se não contarmos com as aulas de body pump que já me empandeiraram naquele local. A sala é a mesma e tudo. Deve ser a sala da tortura para os mais resistentes. Ao fim de dez minutos, o meu cabelo estava num charco lamacento, e eu não sei onde estava. Acho que num planeta anão qualquer desses, que agora para aí há. Eu própria encolhi a níveis exponenciais, designadamente ao nível do amor próprio e da dignidade.
O objectivo da aula é, conforme o nome indica, ficar com um rabo jeitoso.
Eu não quero ter um rabo jeitoso. Se algum dia quis, deixei de querer. Hoje.
De resto, eu gosto do meu rabo. Só tenho pena de não o conseguir beijar, de tanto que o amo. Mas posso começar a treinar um contorcionismo que me permita realizar esta vontade. Agora, melhorar-lhe o aspecto, esqueçam. Eu hoje ia-me matando, se é que não morri mesmo. E, em morrendo, morria de rabo giro, só que ficava morta. Que ironia tão estúpida. 

Saí de lá corada como uma virgem. E, na verdade, tratou-se da minha primeira vez. Primeira, e última. Vou-me meter no convento da Bunda. Prefiro que me metam de joelhos todos os dias — a rezar, não é? —, a ter que repetir aquela violência. Não sinto os quartos traseiros, isso esclarece alguma coisa?
Como tenho uma inabalável mania que sou boa, no final fui-me meter na sala de treino, para alongar esta merda toda. Well tinha gritado que amanhã teríamos que berrar um palavrão ao acordar, tamanhas seriam as dores que teríamos. E eu, com tantos condicionais, resolvi ir esticar até ao nalguedo, porque preciso dele, quanto mais não seja para ir à sanita como um ser humano e não como uma elefanta parideira. Mas a Bunda desflexibilizou-me: mal consegui chegar com as mãos aos pés, quanto mais fazer a espargata.

Só queria perceber, contas feitas a final, quem é que foi à Bunda de quem. A minha, dói, escruciantemente. E ainda pago para isso.

24/07/2015

Dúvidas que me assaltam à mão armada com alguma frequência # 3

O facto de ter sido citada em três blogues diferentes hoje, faz de mim o quê, amanhã? Uma excitada?

(Ó pá, pelo-me por piadas fáceis, sou uma fácil. Olha outra.)

Conta três — Na Uva e no Desblogue, o texto é o mesmo, mas conta na mesma. Chiu. E a dona de meu rato querido também me citou.

Três, tá?


O mail que me mandaste | abri-o com todo o jeito | trazia meu coração | caiu-me dentro do peito

Tenho uma fotografia em que o meu pai está quase de costas, mas em que se vêem os olhos de amor dele, do lado de lá.
~
Pedi-lhe que me digitalizasse umas fotografias, dos álbuns da infância comum, para não ficar só com as minhas, e de infância incompleta.

Mandou-me as que lhe pedi, e mais uma, em que estou com o meu pai — nosso.
Estamos numa piscina, no Funchal, e tínhamos ali aterrado há dias, naquela que foi a minha primeira viagem de avião, continuo eu a acreditar que no Caravelle. O aeroporto ainda tinha uma pista diminuta e ainda não tinha ocorrido o maior acidente aéreo da História da aviação civil portuguesa. Toda a gente achava que a pista era pequena e que os aviões eram grandes, mas os pilotos continuavam a acertar com a lança em África. 
Ela gritou a viagem toda, que o avião não batia as asas, e chorava, chorava. Depois via os flaps a mexerem, e gritava que o avião estava a mexer as asas, e chorava, chorava. Eu tinha uns cadernos e uns lápis de cor que a TAP fornecia, e passei a viagem a pintar bonecos. Ainda fomos juntas à casa-de-banho, roubámos tudo o que apanhámos à solta — sabonetes, toalhas de papel, sacos para enjoo — e fomos imediatamente entregar-nos à hospedeira, que entendemos ser a autoridade máxima ali dentro, e, por conseguinte, com poderes de polícia. Ela achou uma graça, riu-se, não julgou e sentenciou vão-em-paz, com tantas atenuantes que ainda nos forneceu mais material para que pudéssemos aumentar o valor ao objecto do furto.
Eu estou a beber um copo de água, mesmo ao lado da piscina — as crianças são tão esquisitas — e o meu pai está quase de costas, a olhar para mim. Julgo que foi a minha mãe que tirou a fotografia, porque não há nenhuma fotografia mal enquadrada nos nossos álbuns que não tenha sido tirada pela minha mãe. No entanto, é uma fotografia cheia de luz e também de cuidado, atenção e dedicação. E muito bem-querer.
Não estou, sequer, a fazer uma momice, ou qualquer coisa de mais extraordinário que não seja aquilo mesmo: beber um copo de água. Não estou a sorrir-lhe, ou, sequer, a olhar para ele.
E, no entanto, mesmo quase de costas, tenho os olhos do amor dele, do lado de lá, a olharem para mim.
Quase consigo ouvi-lo cantar Ciao ciao bambina.
Sou tão esquisita.




Eu tenho uma espécie de terror da máscara

É porque sou preguiçosa que não vou à netinha procurar informação para linkar aqui, daquela que vocês nunca clicam em cima, e fazem muito bem. Eu, no vosso lugar, faria o mesmo, porque é o que faço. Já bem basta perderem aqui trinta segundos a ler as minhas coisinhas e opiniões, para ainda irem viajar à netty por vossa conta e meu risco. 

Existe o terror da máscara, mais conhecido por medo de palhaços, aquela afecção comportamental, mais ou menos conhecida, associada a uma fobia a palhaços e tudo o que seja mascarado, designadamente se tiver a cara — muito em particular, os olhos — tapada. Há pessoas que não toleram caras tapadas, seja com mascarilha, caraça, lenço, meia de nylon, ou maquilhagem opaca. Nem quero imaginar o que sentem diante de qualquer um dos sete véus islâmicos, porque sei o que sinto eu, e era meterem-me um pela cabeça abaixo e tinham-me a dançar a dança dos sete véus, mesmo que só com um, fosse ele burqa, niqab, hijab ou outra porra dessas. 

Uma vez, num jardim de infância que eu frequentava na óptica parental, assisti a um fenómeno muito interessante, que me permitiu fazer logo ali uma estatística: numa festa de Natal, uma mãe voluntariosa ofereceu-se para se vestir de Pai Natal e entrar, assim vestida, em todas as salas de actividades. Não eram menos do que metade, os miúdos que saíam a correr porta fora, em pânico por verem o Pai Natal surgir assim, com uma almofada no lugar da barriga, algo histérico e com uma voz de falsete que até a mim me deu vontade de fugir. Ou seja, até ao final da infância, pelo menos metade da população sofre do terror da máscara. Depois disso, parece que se cura para alguns, e se mantém para outros.

Eu, pessoalmente (apetecia-me utilizar esta expressão redundante, porque hoje, para não variar, estou sem arestas), nunca tive medo de mascarados nenhuns. A minha primeira caraça foi de vaca e via-me ao espelho com aquilo, cheia de agrado e calor na cara. Mas não ruborescia.

Agora, que já sou crescida, tenho medos associados às caras das pessoas, mas não sei se se podem enquadrar como subcategorias do terror da máscara: tenho medo de pessoas com duas caras, e tenho medo de pessoas sem cara nenhuma, que são os avatares, fobia esta que desenvolvi um niquinho na blogosfera, e não tanto ao espelho, com o meu próprio avatar, porque aquela azul sou eu, que, apesar de parecer congelada, não estou, e conheço de ginjeira.

As pessoas com duas caras deixam-me um coisinho apreensiva e nervosa, porque gosto sempre mais de uma cara do que da outra, e sinto isso como uma traição que faço à pessoa com ela mesma. Prefiro a cara alegre e bem disposta, amiga e sensível, à cara sacana e zangada, mentirosa e mal intencionada. É certo e sabido que, um dia, os frágeis elásticos que as prendem se soltam, e uma das duas cai. Mas a estatística diz que, normalmente, cai a cara bonita e boa e só fica a outra, e isso constitui motivo de alguma ansiedade para pessoas como eu, que preferem sempre tudo muito literal e muito ao pé da letra e muito transparente, por termos dificuldades em distinguir o verdadeiro da contrafacção, nesta coisa das relações humanas.

Quanto aos avatares, tem sido uma complicação, desde que tenho este blog, lidar tão de perto e tanto tempo com pessoas cuja cara não conheço, nunca vi, e, eventualmente, nunca verei. Porque me ligo, porque me sensibilizo, porque me afecto, afectuosamente — chego mesmo a afligir-me, imaginem,  e a prejudicar o meu sono — com a pessoa que se encontra atrás das letras que leio. É que nunca me passou pela cabeça que os textos que me entram pelo coração adentro possam ter sido escritos por um robô. Daí também algum respeito que me mereçam os anónimos: aquilo são pessoas que nem uma porcaria de um nick e uma trampa de um avatar são capazes de vestir, nem que seja de fantasma da ópera, só para nos atormentarem. Haverá desgraça maior do que, para além de não se ter uma cara, se apresente despido aos olhos do mundo, mesmo que virtual? Ai, eu morria — se não de vergonha, pelo menos de morte virtual, e nunca mais ninguém me punha a vista em cima da (as)sombra(ção).

Esse verdadeiro handicap de que sofro, que é o de criar ligações afectivas com pessoas que não conheço, e que acredito que seja quase exclusivo meu, faz com que possa afirmar que padeço, se não uma figura afim do terror da máscara, pelo menos um estranho afecto por algumas máscaras — uma atracção pela máscara, mas sem o factor magnético.


23/07/2015

Suspeito que tenho um admirador secreto. Ou muuuuuitos!

Num passeio, não tão longe de mim quanto isso.

É um amor cheio de sombras, mas é um amor na mesma.
Tá?

Título para isto? Errr... pipis.

Ou então, A tua nudez é a minha nudez

Já a tinha visto passar toda nua, loirita, aí uns sete anos de idade. Mas foi quando saí do mar que a vi de frente, de cócoras, suponho que a fazer chichi, ali mesmo à beira-mar. Não pude confirmar isso, porque a minha cabeça sofreu um bloqueio com a imagem das escancaras da miúda e o meu involuntário confronto com toda a sua anatomia genital. 

Esqueçamos o facto de eu ser de outros tempos, embora já houvesse crianças nuas na praia (parecia até quase obrigatório, nunca me lembro de ter visto tanta pila por metro quadrado como nessa época, parecia Sodoma e Gomorra, elevado ao cubo, mas em ponto muito pequenino); esqueçamos o facto de a minha mãe jamais nos ter deixado andar nuas na praia (eu andei uma vez, mas foi uma vezinha só — já sabia nadar, fui lá para o fundo, despi o maillot e toca a nadar nuíca em pêlo, para experimentar. Depois lá me deve ter dado o gelo nas partes pudendas, vesti-me e saí, mas já não morro parva); esqueçamos o facto de a palavra pedofilia nunca ser pronunciada, mas até já se falar de tráfico de brancas, expressão que me parece agora, a esta distância, algo descolorida, uma vez que o tráfico devia afectar todas as cores do globo, e houvesse meninas azuis, e até essas seriam alvo; esqueçamos o facto de eu ser mulher e estar zero interessada na anatomia genital de outra mulher, independentemente de ela ter seis meses de idade ou noventa primaveras em cima; esqueçamos o facto de eu até poder ter filhas e nunca me ter ocorrido expô-las aos olhos de um tio, quanto mais do mundo balnear. 

Ora bem: eu sou radicalmente contra o deixar as crianças andarem nuas na praia. Tem a ver com questões de higiene — não deve haver nada mais sujo do que a areia de uma praia, sujidade para a qual, aliás, a própria miúda contribuía —, como também por questões de outra higiene, nomeadamente mental.
E porque a pedofilia existe. Pergunto-me se estes pais são os mesmos que se recusam a expor os seus filhos nas redes sociais, todos vestidos e com a vela da comunhão nas mãos. Por causa de outras redes, de malha apertada, onde lhes parece que os filhos podem ficar presos, contra esta malha larga dos facebooks e a total ausência dela e de qualquer filtro na praia, local tão pouco público. Eu, se fosse pedófilo, metia-me numa praia portuguesa, nem precisaria de uma lente de longo alcance e era um fartar vilanagem, Portugal-muito-bom-muuuuuito-booooom. Boom!

Sei também que a lei me acoberta, mas a sociedade me condena. Eu podia dirigir-me ao responsável pela concessão, através do nadador-salvador, e apresentar uma queixa por atentado ao pudor. Mas já me imagino, sem grande esforço mental, vítima das minhas próprias circunstâncias. Recordo-me daquela vez em que perdi um dos meus Eças na praia e obriguei o rapaz banheiro a correr os sectores todos, em busca do meu livro. Era a minha aflição a contrastar com a incredulidade dele. Há-de ter julgado que eu era doida, de pedra ou varrida, tanto faz. Há um psiquiatra, habilitado a diagnósticos precoces, em cada alma lusitana. Mas pode haver também uma gigantesca barreira linguística entre habitantes do mesmo espaço. Tomasse eu a iniciativa de protestar contra o pipi à vela daquela criança e nem quero imaginar que tipo de construções na areia se fariam em meu redor.

No limite, a existir algum problema, não é o meu, que esse é como os amores de Verão: fica enterrado na areia. Já o da miúda...


22/07/2015

Não MUDEi nada

Meti-me no MUDE, porque está calor e vento, e pareceu-me que a praia era aquela opção para quem não se rala de fazer de Mary Poppins de cuecas e sutiã, e ou fazer aquela esfoliação dentária, e ou a arriscar cegar-se de todas as vistas à custa do chapelão esvoaçante que os outros teimam em não atarraxar ao chão da praia e nos pode vir espetar-se right between the eyes, ou até mesmo neles todos, tudo dependendo do decúbito, se ventral se dorsal, ou da sorte maldita que cada um tenha. Nem me falem do Euromilhões, que era ganhá-lo e nunca mais me apanhavam na praia de chapéu de sol, à coitadinha, era mas era uma tenda sultânica que até parece que ouço aquilo outra vez, 

Ela nasceu em Bagdad 
e era a favorita do sultão
Porém, o rajá
em nome de Alá
resolveu conquistar seu coração
Ela sorrindo respondeu
'O meu coração já era teu'
Todo o grande amor tem a vida de uma flor
e quando o sultão descobriu a traição
mandou prender o rajá
jurou também por Alá
que não havia ninguém que lhe roubasse
a favorita do seu harém.

Mas então: eu queria ver as exposições do Christian Lacroix e a das fardas da TAP ao longo dos tempos. A do Lacroix, meh. Pouca coisa, metida nos cofres do edifício, que ficam nas catacumbas do - 1, tudo às escuras, proibido fotografar, proibido beber água — não vá uma pessoa tropeçar com a garrafinha aberta na mão, e manchar as coisinhas de monsieur Acruz. Vê-se em dez minutos e andou para cima, antes que adormeçamos com tanta penumbra a desoras. 

A exposição das fardas da TAP levou-me a jacto para outros tempos meus. Ia para rever as fardas míticas das hospedeiras dos anos 70 e o mítico Caravelle, e não me desiludi. Quer dizer, sei lá se foram míticos, mas a minha memória diz que sim. Desenhadas pelo estilista Louis Féraud, lembro-me de as ver em vermelho, azul e amarelo, conforme fossem hospedeiras de bordo, de terra, ou não sei de quê. Eu nem sabia o que era aerodromofobia, e já queria ser hospedeira, só para ter aquele pompom do chapéu delas. 




Também não sei porquê, fiquei com a convicção de que a minha primeira viagem de avião foi feita no Caravelle, e passei a endeusá-lo, mas isso pode dever-se ao facto de que percebo tanto de aviação civil como de astrofísica. Portanto, o bicho até podia ser uma charanga marreca que mal voava, tipo galinha, que eu ia sempre considerá-lo o passarão da minha vida. E a vê-lo em todos os lugares de interesse, inclusivamente na minha literatura da época, ainda a miúda tinha um nome espanhol e não franciú, mas ninguém se questionava acerca disso, nem de nada.



Penso que fui também na doce ilusão de reencontrar o cheiro do aeroporto da Portela daqueles tempos. Há cheiros que associamos indelevelmente à infância, como o da papa Cerelac*. Eu, foi o do chão da sala de embarque e do chão da sala das chegadas. Aquilo estava sempre demasiado limpo, os meus sapatos tinham solas demasiado lisas (será que me calçavam uns patins?), ou eu era demasiado qualquer coisa, que me lembro demasiado bem do cheiro do chão do aeroporto. Isso e a rijeza da pedra, contra a minha cabeça. Até ficava ali uns segundos a pensar se era caso para me levantar ou se podia continuar deitada ao comprido, a ver passar pés ao nível do meu nariz, enquanto — juro que isto é verdade — ouvia passarinhos a pipilar à volta da minha cabeça, que era um inferno para me livrar da passarada, sobretudo porque ainda não era tão amiguinha dos animais como sou hoje e doía-me sobremaneira o galo acabadinho de conquistar em plena testa.

No final da visita não guiada (portanto, em piloto automático), veio a menina lá deles avisar-me que eu não podia tirar fotografias ali dentro. De facto, chico-smart estava com um violento ataque de soluços e fazia aquele ruído do flash, a cada disparo dos meus, qual Bonnie (aquela do Clyde). Tive que lhe fazer a expressão mais paparazzi que encontrei no meu cardápio, respondendo que não tirava nem mais uma, mas que não apagava nem uma. Acho que a baralhei com esta lógica matemática, mas vá que a poupei a mais uma variável e evitei dizer-lhe que já levava no papo do chico umas boas três dezenas de retratos. Um dia vou presa, por praticar ilegalidades. Espero que me levem cigarrinhos à prisão, que eu volto a fumar no dia em que me enjaulem.

* não me pagam, mas, se quiserem, esta até em géneros aceito.

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 5

Vejo-me em coisas.

Av. Ceuta, Alcântara, Lisboa

Coração, esse órgão externo

Põe o chapéu. Não tires o chapéu. Não caias. Vai pela sombra. Não fales com estranhos. Não aceites nada de estranhos. Se te disserem A tua mãe está ali, vou-te levar até ela, não vás. Se te perderes, vai ter com o polícia. Se te perderes, vai ter com o nadador-salvador. Deixa-me pôr-te protector. Não saias de ao pé de mim. Não mergulhes na rebentação. Não corras na piscina. Tem cuidado a atravessar. Liga-me quando chegares. Podes mandar só mensagem. Manda só um toque, então. Põe protector. Tem cuidado com as boleias. Quando entrares num táxi, manda-me a matrícula. Evita as multidões. Evita confusões. Se te assaltarem, não resistas. Evita ficares sozinha com um estranho. Não percas a tua bebida de vista. Não bebas demais. Aprende a dizer não. Quando chegares, deixa os teus sapatinhos ao lado da minha cama. Diverte-te. Quero que sejas feliz. Nunca me deixes.


21/07/2015

Lisboa também é água boa



Vende a EPAL, que, como se sabe, é uma empresa que só existe em Lisboa — caso contrário, seria EPAP, EPAF, ou EPAS —, estas garrafinhas bonitíssimas, para que possamos, nós, habitantes da capital, guardar a água quase benta que ingerimos diariamente, e também usamos para nos lavarmos e às coisas, o que inclui as leguminosas. A mim ninguém ma deu, tive que a ir comprar ao Museu da Água, que foi um transtorno: aquilo fica lá ao alto de uma escadaria com cerca de dez degraus, uma coisa a pique, que só me deu para oferecer em sacrifício pela saúde dos meus. Lá chegada ao cume, diz-me o funcionário que não têm multibanco, ia-me acontecendo um coiso, porque ando sempre sem dinheiro por ser pelintra, mas fiz o ar mais perturbado mentalmente que encontrei e chorei-me que, por questões de segurança, só trago comigo os meus cartões de crédito (que, na verdade, são de débito), enquanto procurava moedas no fundo da mala (caríssima), e só me saíam pacotes de açúcar rebentados e programas rançosos de espectáculos que eu acho que nunca vi. Bem me gemi que me faltavam dez cêntimos para perfazer a p. da quantia astronómica que custa a p. da garrafa belíssima (uns doidos 150 cêntimos), mas o homem era de pedra, deve ter sido requisitado da Catedral de Notre Dame, onde fazia escala de gárgula, e nada de se comover. Nem me apeteceu bater pestanas àquele e colocar a voz no timbre jantes-de-liga-leve, que ele havia de me perdoar a m. dos dez cêntimos e ainda me pagava a p. da garrafa, porque estava tão suada que qualquer tentativa de sedução com vista ao perdão de uns míseros dez cêntimos seria, no mínimo, um espectáculo burlesco de bas fond, com a angustiante possibilidade de se me derreter a maquilhagem das pestanas cara abaixo, a que resolvi poupá-lo. Vai daí pergunto por um multibanco, e diz-me ele É já ali em baixo, no Pingo Doce. Em baixo, ele queria dizer descer as escadas da pirâmide do México (quais Egipto, quais carapuça, zanguei-me com o Egipto desde que o Acordo Ortográfico entrou em vigor) onde aquilo fica, mais uns degraus até à rua, tudo somado ia bem aos vinte degraus, ai a minha vida, diz que para baixo todos os santos ajudam, é mas é o genital, isso disse alguém que nunca se meteu nuns saltos altos. Mas tá-bem, aqui vai disto. Corri risco de vida — isto anda a acontecer-me amiúde, nas últimas horas —, mas lá me pus no PD (hahaha, pédé), levantei uma miséria, e upa-upa, sempre a subir as escadarias até à masmorra do sovina dos dez cêntimos, parece mentira, fazer uma senhora desta idade, em pleno processo de auto-destilação, andar de Romas para Catalomas por causa de um décimo de euro, parecia uma tragédia grega, de tão trágico que foi, e passo o pleonasmo, de passada que já ia, nomeadamente da validade. 
Tenho um amigo que é da Covilhã e diz que nós, cá em Lisboa, bebemos o mijo dele (palavras dele, eu não uso mijo), porque a barragem de Castelo do Bode é abastecida pelo rio Zêzere, e então, num intrincado de ideias inquinadas de amoníaco da urina, afirma aquilo assim. Com amigos destes, lá está, bem posso pôr as barbas de molho.

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 19

Felizmente, este jovem manteve consigo todos os membros do seu corpo.

cmtv, ontem à noite, a propósito do acidente com um tubarão, do qual saiu ileso o surfista Mick Flanning. 

[1. Uma pessoa nunca vê televisão; 2. Uma pessoa nunca tem os comandos daquelas caixas na mão; 3. Uma pessoa vive sempre no mundo da lua, nem sabe ao certo o que é uma televisão; 4. No único momento em que se abrem excepções aos 3 itens anteriores, eis que sucede aquela frase, ribombando contra os incautos ouvidos de uma pessoa.]

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 2

A minha Mia bebe chá, como nem eu.

video

Próximo episódio: Mia, o gato que come alface.

O meu cabelo da minha Mimi

Tão bonito, o teu cabelo, Mimi. Já está tão comprido...
Ainda está curto, mãe. É todo para dar. O mínimo são 25 centímetros.

Anda a deixar crescer o cabelo lindo, escuro, cheio das ondinhas que foram os caracóis de bebé. Quer doar cabelo ao IPO, meteu esta na cabeça, e, da cabeça, passou-lhe a ideia para o cabelo, disparada do coração. Parte-se-me o meu, de antever as lágrimas, que serão minhas também, pelo cabelo curto, mas a ideia tem-lhe amadurecido milímetro a milímetro, por antever ela outras lágrimas, que acredita que secarão noutra cabeça, por levar o cabelo lindo que é o dela. Vejo-a usar protector e amaciador, protegendo, amaciando, cuidando para que o cabelo que já não sente seu seja entregue bonito e saudável, sem um fio reprovado. Diz-me que não quer imaginar se não lhe aceitarem o cabelo, por falta de qualidade, no dia em que o for doar. Como se fosse possível a um coração daquele tamanho corresponder um cabelo sem qualidade. Vejo-a afastar-se, de costas vejo-lhe melhor ainda o cabelo enorme e lindo, o coração gigante a transbordar do cabelo, e o cabelo dela, que já não é meu, brilhando ao sol de tanto desvelo e entrega, diz-me, fio a fio, que valerá a pena ver-lho curto um destes dias, mesmo que lhe escorram lágrimas por ele — porque algures por aí estão uns olhos que brilham um pouco mais, no reflexo do brilho do cabelo lindo da minha Mimi. Afortunada a desafortunada pessoa, que terá na cabeça o cabelo que veio daquela cabeça linda, de pontas enroladas que encostaram naquele coração maravilhoso. 



20/07/2015

Sabes que frequentas locais quase tão esquisitos como tu # 2

quando vês passar um bando de papagaios no céu do bairro onde moras. Uma semana depois de teres visto passar, no mesmo céu, mas uns largos metros acima, um falcão. 
Há alguns anos que voam papagaios no céu do meu bairro.
[Vou guardar esta para título do livro que nunca escreverei. Mas fica sempre bem meter passarada num título de obra.]

Durante alguns anos, o bando era constituído por três papagaios. Lá andavam, os três, que é como quem diz, lá voavam, eu Ai Jesus, mas serão três, duas elas e um ele?, dois eles e uma ela?, três elas?, três eles?, e o mistério adensava-se, mas os anos passaram, uns dois ou três, como eles, que haviam de ser dois, que três é demais, mas não era, eram felizes assim, em triângulo amoroso ou fraterno. A verdade é que a coisa funcionava lá entre eles. Via-os naquele micro bando triangular, um piar diferente, que não era o arrulhar dos pombos — até porque, felizmente, temos cá poucos pombos neste nosso ecossistema —, nem era o piar do periquito do vizinho de baixo — que, entretanto, morreu (o periquito, não o vizinho de baixo, que Deus o conserve, pois me sabe muito bem o champanhe pelo Ano Novo), ou deu-lhe ares de Vila Diogo e foi ter com a manada —, nem era cantar dos melros, que também cá temos tantos. Isso e insectos, e também morcegos. Há baratas que atravessam as estradas, veem-se manchinhas encarnadas no asfalto quando cai a noite, e há quem diga que já viu ratos a pular de árvore em árvore, quando o sol dorme, mas eu isso nunca vi, cruzes, credo, lagarto, lagarto, ai, é verdade: as osgas e as lagartixas são em bandos, só nos falta cá um crocodilo para a família estar completa.

Não sei lá como é que se arranjaram os três papagaios, mas o que é certo é que o bando vai em sete, contei eu por alto, quando os vi, lá ao alto, todos iguais, todos irmãos, com certeza, e em número ímpar na mesma...
[Tem piada, estou a ouvi-los cantar, enquanto escrevo isto. Eu moro na mais adorável aldeia de Lisboa. Um dia visto a bata e ando a bater às portas das vizinhas, a quadrilhar.]
... o que fica sem par, por ser ímpar, imparelhável, solteiro, solto, incasalável, pode ser, afinal, o mais feliz, o mais realizado — temos que pôr a hipótese de os animais sentirem a realização, não pessoal, que não pode ser, mas, neste caso, passaral —, e também o mais livre. 
Saído do bando por breves segundos, pousou num cabo eléctrico, e ali ficou, a desfrutar da sua singularidade, da sua exclusão voluntária, da sua excepcionalidade. Igual ao bando, visto por fora, diferenciado em tudo o resto — talvez o último romântico da comunidade —, o sétimo papagaio: único.


Foi tão blogger da minha parte # 3

Por acaso, tenho uma cestada de ferro para passar, que dá gosto só de olhar para ela, fora a que está na corda a rir-se para mim e que eu quero acreditar que ainda não está seca o suficiente para ter que me atirar a ela já-já, embora saiba que está tal e qual um carapau. Até deve estar tesa (chiu).
Mas é que comprei uns calções, e isso jamais pode passar despercebido à blogobola, nomeadamente porque até risco de vida já me fizeram correr hoje.

Eu sei, eu sei, o que estais a pensar. Também eu penso assim. Oh, minha senhora, tenha juízo, manque-se, vá fazer netinhos.
Olhem, mas está calor. A pessoa subestima o impacto que pode provocar nos corações alheios, ao verificarem e certificarem-se de todos os nossos defeitos até ao mais infinitésimo, que nem lupa, nem microscópio eram capazes de captar, mas os olhos da triagem social sim, que nos encontram o pelo esquecido, o pelo encravado, a borbulha do pelo desencravado, o derrame que parece um pelo, etecetera, fora o grão de celulite que não houve choque eléctrico, massagem, ginástica, ou reza forte que conseguisse arrancar. Então, imbuída de cagari e do espírito se-a-outra-pode-eu-também-posso — que é, precisamente, o ponto alto, onde se inicia o declínio da autoimagem e da percepção do que é que ainda podemos vestir e do que já é melhor não arriscar —, comprei-os.

Ia eu a passeio na segunda circular, que aquilo é de uma riqueza paisagística ímpar, quando, numa zona que está em obras há cerca de 365 mil dias, ora para colocação de uma ponte pedonal, ora para meter canos sei lá de quê, e porque os carros se veem obrigados a abrandar aí, cria-se-me a vicissitude de ficar lado a lado com um furgão. E, desde ali do ponto onde nos encontrávamos (Carnide) até ao final da subida (Benfica), vi-me na contingência de mudar de faixa várias vezes, sempre com ele na cola da minha traseira (chiu), com o intuito de se colocar ao meu lado, que eu já só pensava Raispartam os calçonetes, que ainda se me transformam na indumentária do sepulcro, à custa do entusiasmo provocado neste grande labrego.

Foi quando fui acometida do seguinte pensamento: No limite — que era onde eu estava — e por absurdo — que era o comportamento do senhor Furgão —, o que é que ocorre a uma pessoa que faz o que ele me fez, obrigando-me a acelerar e a mudar de faixa, para me livrar dele, tantas vezes em tão pouco espaço? 

Agora a sério: será que está habituado a que uma pessoa trave o carro, saia de lá de dentro, se dispa toda e se atire para cima dele? Para salvar a minha pele, ossos e tudo o que lhes está acoplado, ou, quem sabe, a minha vida, seria curial, numa estrada com três faixas, com o movimento que estava àquela hora, em plena subida em curva, parar o carro e fazê-lo fazer de mim uma mulher absolutamente (in)feliz? Ou isto são só manifestações do macho latino, que, se confrontados com alguma que lhes dê o merecido (?) troco, fogem que nem ratinhos assustados?

Eu quero perceber estes raciocínios, muito mais retorcidos do que os meus. Mais por uma questão de sobrevivência do que de interesse genuíno, que o que me interessa, verdadeiramente, saber, é se posso continuar a usar os meus calçõezinhos sem arriscar nem pele nem pelo. 



Chico-smart não me tem em grande conta # 5

Tenho uma marcação para as 10:30. Mando sms à pessoa que me vai receber, porque me atrasei a pintar o cabelo. E ele dá-me estas possibilidades todas:


(OK, OK, desta vez, eu já tinha escrito aquele palavrão noutro sms que tinha mandado. Mas porque estava contextualizado e era absolutamente necessário.)


Logo a seguir, e porque a cafeína me falta pela manhã, envio outro sms *, a outra pessoa, a adiar o café por meia-hora. E ele entende que eu posso ser uma serial killer. Ou uma ripper.



* um destes dias explico por que é que digo o sms, no masculino. Pode estar incorrecto, mas é assim.

19/07/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 4

Av. Brasil, Lisboa

Quero acreditar que o dono do estabelecimento comercial tem como apelido Velhinho.
Só me lembro das águas Penacova*, e do mau gosto que é levar uma garrafinha dessas para um velório.
(E não, a piada não é minha, mas assenta aqui que nem uma luva.)

* pois, não me pagam, levam comigo na contra-publicidade...

Só por hoje

Ó pá, não me chateiem.
Também estou farta de ser perfeita. De me meter no ginásio para ficar bonita e o tempo correr contra mim na mesma. De me doerem os abdominais e a minha barriga não mudar de tamanho. De me matar a elevar e baixar pesos de 41 quilos — 41, ouviste? Não são 40, são 41 quilos! — e os meus braços continuarem a ser os braços mais gordos de todos os planetas deste universo, e indignos do Guiness. Por falar nisso, tenho que mandar uma carta registada com aviso de recepção para a comissão do Guiness, a ver se eles têm vagar de cá vir ver este fenómeno, ou se me pagam uma viagem até lá onde eles têm a fita métrica para mos medirem. A ver se não me esqueço de levar a máquina fotográfica, para tirar um retrato à cara de estanhados que eles hão-de fazer quando encararem com os meus braços. Vai-se a ver e ainda ficam eles no livro dos recordes, como os detentores das bocas mais abertas diante de uns braços gordos de mulher enervada. É um sector muito específico do livro lá deles, ocupa só um cantinho.
Dói-me aqui.
E a mim dói-me aqui.
Olhem, a mim, eu vou-vos mostrar, graficamente falando, onde é que me dói: abro as duas mãos, os dez dedos bem afastados uns dos outros, e passo-as dos pés à cabeça, como aqueles sensores de metais. Para onde as pontas dos dedos apontarem, é onde me dói. Dói-me tudo. Assumam e aguentem que me dói tudo, por hoje. Se amanhã já passou? Sei lá se passou, pode ser que não. Ninguém me garante que tomorrow is another day. Posso estar pior, o vento pode não me levar tudo, como à outra, e doerem-me mais coisas de mim.
Quero lá agora colo. Ou ombros para chorar. Quero é que não me chateiem. Quero um par de orelhas. Quero que me ouçam, sem me interromperem todas as frases, nem me interrogarem todas as hesitações. (Eu hesito porque me perco, porque tenho diante de mim uma enorme recta, e depois surgem-me atalhos em todo o percurso). Podem até ser orelhas sem ouvidos, desde que me pareça que me escutam. Têm mesmo é que ser duas, que eu me estou a tornar exigente, e já não quero fazer por menos. 
Ou então, vou para o mar. Ouço-lhe os ruídos num búzio, posso perfeitamente responder-lhe por lá também. Faz de conta que é um telefone sem fios. O mar ouve-me as súplicas, que eu já tirei isso a limpo. Posso ter sido pescador ou mulher de um, noutra encarnação. Devo ter chorado muito mar nalguma praia, molhado muita areia com os olhos. 
Ando farta de desertos. 
Estás chateada?
O que é que te disseram?
Mas o que é que tu tens?
Não tenho nada. É capaz de ser esse o problema. Não tenho nada. 
Então adeus. Até amanhã.




Caganças

Atenção, almas sensíveis: isto vai ser porco.
~

Quando eu era pequenina, e o meu avô morava na avenida João XXI, passava a vida em casa dele, designadamente porque com ele morava a minha titi, irmã mais velha da minha mãe, que cuidava de nós nas ausências e impedimentos dela, numa espécie de delegação de poderes afectivos tácita, mas efectiva. Ora, para quem não sabe, a avenida João XXI é perpendicular à avenida de Roma, que, na época, era das avenidas mais caras da cidade de Lisboa, tanto pelas lojas que lá havia, como pelos preços das habitações. Na avenida de Roma, moravam muitas pessoas bem afortunadas, não sei se felizes e contentes, mas, pelo menos, no aspecto financeiro. E, conforme acontece quando sobra dinheiro nos orçamentos das famílias, havia muitos cães na avenida de Roma. Nessa altura, as pessoas da avenida de Roma que tinham cães, iam passeá-los para as avenidas paralelas e perpendiculares. Por isso, a avenida de Paris, a praça de Londres, a praça Pasteur, a avenida Óscar Monteiro Torres e a avenida João XXI, tinham imenso cocó de cão no passeio. As pessoas dos cães tinham o cuidado de se deslocarem com eles para uma rua afastada da sua, para não a conspurcarem. Sabia-se qual era a avenida da cidade que tinha mais cães, pela distribuição geográfica dos cagalhões: passeio limpo, era sinal de maior densidade populacional canina. Passeio sujo, era sinal de que os bobis moravam na perpendicular. Isto foi ilação que tirei eu, muito pequena ainda, à medida que saltitava de intervalo de poia em intervalo de poia, pela avenida João XXI acima e abaixo, num jogo de macaca improvisado, lembrando, soubesse eu que eles existiam, um campo minado de Angola, embora eu fizesse valentemente a travessia dele sem recurso a qualquer máscara de protecção.

Agora já não é assim. As cagadelas dos cães evoluíram bastante, se não em quantidade, pelo menos em arrumação. Os donos, eventualmente porque também os horários laborais se tornaram mais exigentes e, consequentemente, por chegarem mais cansados dos seus trabalhos forçados, não calcorreiam passeios infindos até encontrarem um que não lhes venha a incomodar o roteiro pedonal, nem leve os vizinhos a acusá-los de se estarem a cagar — quase literalmente — para a higiene da rua toda. Os próprios animais, habituados a percursos cada vez mais pequenos até ao alívio da tripa, fazem-no quase à porta do prédio onde, desgraçados, habitam. 

Tudo isto para, no fundo, demonstrar o ponto a que os meus vizinhos conseguiram levar o pequeno jardim de relvado que fica exactamente ao lado do meu prédio. Já não são só os dos prédios contíguos — mas também são — os maiores cagadores de um espaço que não é só deles. Não sei como é que ainda ali nascem flores. Existem flores de merda?

Estou a pensar tomar uma atitude. Não queiram saber, porque não é bonita. E vai cheirar muito mal nas caixas de correio deles. 





Desculpem o esplendor, mas quatro imagens valem mais do que quatro mil palavras.