23/07/2015

Título para isto? Errr... pipis.

Ou então, A tua nudez é a minha nudez

Já a tinha visto passar toda nua, loirita, aí uns sete anos de idade. Mas foi quando saí do mar que a vi de frente, de cócoras, suponho que a fazer chichi, ali mesmo à beira-mar. Não pude confirmar isso, porque a minha cabeça sofreu um bloqueio com a imagem das escancaras da miúda e o meu involuntário confronto com toda a sua anatomia genital. 

Esqueçamos o facto de eu ser de outros tempos, embora já houvesse crianças nuas na praia (parecia até quase obrigatório, nunca me lembro de ter visto tanta pila por metro quadrado como nessa época, parecia Sodoma e Gomorra, elevado ao cubo, mas em ponto muito pequenino); esqueçamos o facto de a minha mãe jamais nos ter deixado andar nuas na praia (eu andei uma vez, mas foi uma vezinha só — já sabia nadar, fui lá para o fundo, despi o maillot e toca a nadar nuíca em pêlo, para experimentar. Depois lá me deve ter dado o gelo nas partes pudendas, vesti-me e saí, mas já não morro parva); esqueçamos o facto de a palavra pedofilia nunca ser pronunciada, mas até já se falar de tráfico de brancas, expressão que me parece agora, a esta distância, algo descolorida, uma vez que o tráfico devia afectar todas as cores do globo, e houvesse meninas azuis, e até essas seriam alvo; esqueçamos o facto de eu ser mulher e estar zero interessada na anatomia genital de outra mulher, independentemente de ela ter seis meses de idade ou noventa primaveras em cima; esqueçamos o facto de eu até poder ter filhas e nunca me ter ocorrido expô-las aos olhos de um tio, quanto mais do mundo balnear. 

Ora bem: eu sou radicalmente contra o deixar as crianças andarem nuas na praia. Tem a ver com questões de higiene — não deve haver nada mais sujo do que a areia de uma praia, sujidade para a qual, aliás, a própria miúda contribuía —, como também por questões de outra higiene, nomeadamente mental.
E porque a pedofilia existe. Pergunto-me se estes pais são os mesmos que se recusam a expor os seus filhos nas redes sociais, todos vestidos e com a vela da comunhão nas mãos. Por causa de outras redes, de malha apertada, onde lhes parece que os filhos podem ficar presos, contra esta malha larga dos facebooks e a total ausência dela e de qualquer filtro na praia, local tão pouco público. Eu, se fosse pedófilo, metia-me numa praia portuguesa, nem precisaria de uma lente de longo alcance e era um fartar vilanagem, Portugal-muito-bom-muuuuuito-booooom. Boom!

Sei também que a lei me acoberta, mas a sociedade me condena. Eu podia dirigir-me ao responsável pela concessão, através do nadador-salvador, e apresentar uma queixa por atentado ao pudor. Mas já me imagino, sem grande esforço mental, vítima das minhas próprias circunstâncias. Recordo-me daquela vez em que perdi um dos meus Eças na praia e obriguei o rapaz banheiro a correr os sectores todos, em busca do meu livro. Era a minha aflição a contrastar com a incredulidade dele. Há-de ter julgado que eu era doida, de pedra ou varrida, tanto faz. Há um psiquiatra, habilitado a diagnósticos precoces, em cada alma lusitana. Mas pode haver também uma gigantesca barreira linguística entre habitantes do mesmo espaço. Tomasse eu a iniciativa de protestar contra o pipi à vela daquela criança e nem quero imaginar que tipo de construções na areia se fariam em meu redor.

No limite, a existir algum problema, não é o meu, que esse é como os amores de Verão: fica enterrado na areia. Já o da miúda...


17 comentários:

  1. Também não entendo. Julgarão essas mães e pais que a pedofilia só existe nos bairros sociais ou nas casas dos aristocratas?

    Beijo

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    1. Ou então, não são os mesmos do pudor nas redes. E chamam a isto 'um paraíso à beira-mar plantado'...

      Beijos

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  2. Querida Linda Blue,
    Será caso para dizer "vergonha alheia".
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      É, sim.
      Estamos tão sós, em demasiadas ocasiões.
      Um dia feliz,
      Linda Blue.

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  3. Lido e partilhado no G+

    Eu não vou à praia, portanto não tenho a mais pequena ideia de como as coisas andam nesse mundo estranho e extra-terrestre, mas pelos vistos continua cheio de extra-terrestres...
    ...e, ainda por cima, extra-terrestres parvos!

    Nos dias de antigamente ainda compreendo. Havia um grande desconhecimento e ingenuidade em relação a este tipo de casos!
    Hoje em dia, com coisas espalhadas pela comunicação social, como o caso Rui Pedro, ou o caso Maddie, e relatos vindos de tantos lados...

    Já não é desconhecimento e ingenuidade, é estupidez!

    Podes eliminar o desconhecimento dando a conhecer...
    Podes eliminar a ingenuidade mostrando como as coisas são...

    Não podes eliminar a estupidez!

    :)

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    1. Tudo isso.
      Quem garante à mãe da miúda, que estava logo ali ao lado dela, que eu não sou uma chefe de rede pedófila, não saco do telemóvel e meto a filha dela a circular, em coisa de vá, um clique leva quanto tempo a fazer?

      A estupidez não se elimina, até é hereditária. Pobre criança.

      :)

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  4. Tenho pudor zero em relação a nudez mas também não deixo as minhas crianças nuas na praia. Isso coloca-me numa guerra constante com macaquito, que não suporta roupa molhada, inerência da sua doença. Lá vou eu para a praia com vários (4/5) calções no saco porque ele cada vez que vai ao banho, sai da água e despe-se, assim, sem pudor nenhum. Roupa molhada é que não! Quando estamos na piscina em casa e somos só nós deixo-o andar só de pilinha, depois é o ver se te avias para contornar essa situação quando estamos em locais públicos.
    Os estrangeiros, por noma, convivem naturalmente bem com essa nudez infantil, portanto, lá nos países deles não deve haver isso da pedofilia ou aquela outra coisa a que chamaste... higiene!!

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    1. Também eu tenho pudor zero em relação a nudez. Mas, neste caso, trata-se de uma nudez muito mais profunda do que só a do corpo, muito mais exposta e com consequências (as possíveis e as reais) muito mais demolidoras.
      O assunto do teu macaquito estás tu a resolver da melhor maneira. Nem me parece que tenhas dois pesos e duas medidas com uma piscina privada e a praia, porque a verdade é que, também tu, tens que descansar um pouco desse despe e veste constante. E ele vai acabar percebendo que há locais em que é sim, e outros em que é não, independentemente de ambos terem água a rodos :)
      Quanto à higiene, nem percebo que os próprios miúdos permitam areia nas miudezas. No tempo da fralda, os meus ficavam todos assados, só da pouca areia que entrava pela zona das virilhas.

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  5. Este post é muito bom e já me inspirou.

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    1. Obrigada.
      É justo, Uvita. Tu também já me inspiraste algumas vezes.

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  6. Nunca deixei os meus filhos andarem como vieram ao mundo na praia. Acredito que há um lugar certo para tudo. E não me apetece imaginar que possam ser alvo de olhares menos próprios.
    Beijos Linda Blue (gostei da mudança)

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    1. Em duas frases, dizes tudo.
      Eu também não percebo que a miúda, que já não é propriamente um bebé, não se sinta desconfortável naquela situação.
      Há coisas que, por mais que marre, não consigo perceber.
      Beijos, Impy (obrigada)

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  7. Opa, escrevi um comentário enorme e acho q está bosta n guardou :(

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  8. Bem dizia q concordo em absoluto. Pipis com areia da praia...hum infecções urinarias, já ouviram falar? Gajas ainda por cima. O meu pilas n anda q eu n gosto cá de possíveis olhares estranhos.
    Isto é só gente doida. Como dizes esses deixam a filha passear o pipi ao leú na praia mas se calhar n metem a foto da primeira comunhão no FB (nada contra) outra metem as crias em trajes menores nas redes sociais e blogues mas depois aí jesus q há gente a olhar estranho na praia e telemóveis e coiso e tal ( é errado, claro q sim) mas é o contradição desta merda q me perturba...

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    1. Infecções urinárias, candidíases, assaduras, é um programa completo.
      E noutras idades, idem. A quantidade de mamãs que vão para as reuniões de pais chagarem os nervos às educadoras e às professoras, que elas têm que lhes fornecer o papel da autorização para tirarem fotografias de grupo, com toda a turma, e não supõem (será que não mesmo?) o tamanho dos decotes com que as filhinhas se selfam no face, como elas dizem...
      Idissoncrasias, contradições, dois pesos, duas medidas, hipocrisias.

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    2. Acredita. E olha q essas selfies, do q tenho visto, começam cada vez mais novas...

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    3. O filme Trust devia ser de visionamento obrigatório, em escolas de pais, obrigatórias também...

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