19/07/2015

Caganças

Atenção, almas sensíveis: isto vai ser porco.
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Quando eu era pequenina, e o meu avô morava na avenida João XXI, passava a vida em casa dele, designadamente porque com ele morava a minha titi, irmã mais velha da minha mãe, que cuidava de nós nas ausências e impedimentos dela, numa espécie de delegação de poderes afectivos tácita, mas efectiva. Ora, para quem não sabe, a avenida João XXI é perpendicular à avenida de Roma, que, na época, era das avenidas mais caras da cidade de Lisboa, tanto pelas lojas que lá havia, como pelos preços das habitações. Na avenida de Roma, moravam muitas pessoas bem afortunadas, não sei se felizes e contentes, mas, pelo menos, no aspecto financeiro. E, conforme acontece quando sobra dinheiro nos orçamentos das famílias, havia muitos cães na avenida de Roma. Nessa altura, as pessoas da avenida de Roma que tinham cães, iam passeá-los para as avenidas paralelas e perpendiculares. Por isso, a avenida de Paris, a praça de Londres, a praça Pasteur, a avenida Óscar Monteiro Torres e a avenida João XXI, tinham imenso cocó de cão no passeio. As pessoas dos cães tinham o cuidado de se deslocarem com eles para uma rua afastada da sua, para não a conspurcarem. Sabia-se qual era a avenida da cidade que tinha mais cães, pela distribuição geográfica dos cagalhões: passeio limpo, era sinal de maior densidade populacional canina. Passeio sujo, era sinal de que os bobis moravam na perpendicular. Isto foi ilação que tirei eu, muito pequena ainda, à medida que saltitava de intervalo de poia em intervalo de poia, pela avenida João XXI acima e abaixo, num jogo de macaca improvisado, lembrando, soubesse eu que eles existiam, um campo minado de Angola, embora eu fizesse valentemente a travessia dele sem recurso a qualquer máscara de protecção.

Agora já não é assim. As cagadelas dos cães evoluíram bastante, se não em quantidade, pelo menos em arrumação. Os donos, eventualmente porque também os horários laborais se tornaram mais exigentes e, consequentemente, por chegarem mais cansados dos seus trabalhos forçados, não calcorreiam passeios infindos até encontrarem um que não lhes venha a incomodar o roteiro pedonal, nem leve os vizinhos a acusá-los de se estarem a cagar — quase literalmente — para a higiene da rua toda. Os próprios animais, habituados a percursos cada vez mais pequenos até ao alívio da tripa, fazem-no quase à porta do prédio onde, desgraçados, habitam. 

Tudo isto para, no fundo, demonstrar o ponto a que os meus vizinhos conseguiram levar o pequeno jardim de relvado que fica exactamente ao lado do meu prédio. Já não são só os dos prédios contíguos — mas também são — os maiores cagadores de um espaço que não é só deles. Não sei como é que ainda ali nascem flores. Existem flores de merda?

Estou a pensar tomar uma atitude. Não queiram saber, porque não é bonita. E vai cheirar muito mal nas caixas de correio deles. 





Desculpem o esplendor, mas quatro imagens valem mais do que quatro mil palavras.

10 comentários:

  1. Querida Linda Blue,
    O header está atual e agradável. Mas, é a mudança do nome que relevo. Linda em todas as cores. Em blue então...
    Beijos,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Tinha que ser. A minha Porca já me arranjava confusões a mais. No entanto, continuo a falar de porcarias.
      Ou seja, não mudo muito. Não mudei de cara, pelo menos. Mas também relevo que passei de 'cara' a 'querida'.
      :)
      Beijos,
      Linda Blue.

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    2. Eu gostava do Linda Porca, mas sempre te ouvi falar sobre o mar com o maior amor que pode existir, por isso, Blue favorece-te. Faz-te (ainda mais) linda e faz-te tu. :)

      (E quanto ao post... No correio é coisa que também já me lembrei de fazer, aqui para os meus lados, irra! Gente badalhoca, credo.)

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    3. Eu também. Isto é uma anormalidade, mas chego a sentir saudades da minha Porca. Mas tinha que ser... :)

      (E não falei eu do cheiro. Em dias de calor, ou que o vento esteja de feição, é de vómitos deixar o carro perto daquele passeio.)

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  2. Gosto tanto de Linda Blue. Que pena estrear-me nessa visão no dia das queixas sobre pessoas pouco asseadas. Mas fico só mais um bocadinho para apreciar o "Linda Blue", pois embora, eu possa vê-lo sempre que aqui vier, hoje, é mais agradável olhar para o azul expresso (acabei de batizar o teu azul) que a realidade "cocózeira" que todos conhecemos espalhada pelas nossas cidades. Somos muito evoluídos, nós.
    Beijinhos.
    Mia

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    1. Sim, mudei há tão pouco e já falo de porcarias, que não combinam nada com a ambiência do header...
      "Azul expresso" é tão bom. Vou guardar, num dos mil tons de que tanto gosto. Este é da Baía de Cascais, tirado por um telemóvel, no passado dia 8 de Março. Não tem um único filtro, nem retoques de luz, nadinha. Só estiquei a imagem, para dar para aqui.
      Obrigada, Mia.
      Beijinhos.

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  3. Caríssima Linda Blue. Tenho um amigo de há alguns anos que fez o que agora refere. Foi remédio santo. Não mais voltou a ter as filhas a brincar na rua onde vive correndo o risco de pisar um dos presentes que o canito do destinatário do correio costumava largar.

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    1. Eu ando desde ontem a remoer isto. O cheiro então, é incrível. Já nem falo na quantidade de bicharada que isto atrai.
      Agora vai mails para a Junta, para a Câmara, para o condomínio, e depois, caso veja que a minha voz de burro não chega ao céu, lá terei que me munir de uns quantos sacos de plástico, e depositá-los...

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  4. Cara Linda permitia contornar o segundo nome. Sempre foi uma cara querida e nunca achei que lesse porcaria por aqui. A verdade é que gosto da sua escrita, do ritmo que imprime às palavras.
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Penso que sempre entendi isso dessa forma que relata agora, Outro Ente. De toda a maneira, é de uma grande simpatia, tudo o que me diz. Obrigada.
      Como sabe, esse gosto é absolutamente recíproco.
      Uma noite feliz,
      Linda Blue.

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