17/08/2017

Agora sim, o Mundo está dividido em duas metades

A dos que — como, obviamente, eu — sentiram o abalo, e a dos que não. 
Sugiro que nos tatuemos, ou — para aqueles que temem a dor, o sangue, a agulha, o definitivo —, mandemos imprimir t-shirts com a frase que nos distingue de todo o resto.


16/08/2017

And that awkward moment # 38

em que te cai o queixo aos pés e já não o consegues içar por forma a que se reúna com o maxilar superior?

Sais do mar ao teu melhor estilo, cabelos escorrendo sal e água gelada purificadora, um céu azul de doer, a praia com areal a perder de vista, ainda por cima pouco populosa para o dia que era, um feriado a meio de Agosto, numa qualquer praia dos arrabaldes desta capital europeia, calor do bom que não queima mas dá cor (assim uma entaladelazinha em termos culinários, vá), e te aparece no campo de visão a visão de uma mulher que conheces, mas não localizas logo. Ela vem de mamaçal à vela, aquilo do topless, e está com um dos braços a rodear o ombro de outra mulher, ambas íntimas assim uma da outra. 
E então, faz-se-te luz e não só reconheces a das mamas de fora, como também a localizas no espaço e no tempo.


E elas abraçam-se e beijam-se mutuamente os respectivos pescoços.


Então, tu passas a uma distância razoável, a suficiente para não interromperes o enlevo sexo-amoroso que as enrola, mas bastante para que consigas confirmar que ela é ela.

E é então quando reconheces a outra. 


[E, antes que me caiam aqui os homofriends todos (vinde, vinde, que tem até chicotinho), faço já o disclaimer que acredito no amor, que considero que cada um leva onde mais lhe dá gozo, que todos temos direito a ser felizes, que ninguém tem nada a ver com isso, and beca.]

Chocada? Não.
Não com isso que estais a pensar.
Mas minha incredulidade, se é que me é permitido explaná-la, advém de alguns factos a latere.
1. O facto de uma ser patroa da outra, logo a outra ser empregada de uma;
2. O facto de uma alardear a sua heterossexualidade como quem hasteia uma bandeira;
3. Uma ser a pessoa mais alpinista social, mais aspirante a thia, mais preocupada com a aparência, mais focada no bom gosto, na distinção, num certo apuramento artístico (apesar de le resvalar o pronome lhe constantemente e de errar intermitentemente na terminação de alguns verbos), e a outra ser a antítese física de tudo o que uma pessoa assim quer num homem, quanto mais noutra mulher. (E — oh, desculpem! — eu sou uma anormal animal, que entende que as relações amorosas passam por qualquer coisa de muito físico: no pica, no affair.);
4. As carradas de celulite, como bem observou minha sis;
5. Tudo nelas, aquilo da bota com a perdigota.

Vim-me embora no momento em que a uma tirou o top do biquíni dela e desatou a correr pela praia atrás do homem das bolas, um tal de Zuca, que apregoa as suas bolas em rima. Mulher bonita não vai pagar, mas também não vai levar. 

Se a minha vida não dava um filme de David Lynch, então também não sei para o que é que dava.


15/08/2017

Beijinho bom

para a pessoa que me desejou bom feriado às 10 da noite.
[Mete mais tabaco nisso.]

14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]