02/04/2020

E para as da retaguarda, não há palmas?

A nós, mães, que estamos num confinamento desigual, arriscando a vida todos os dias, indo ao epicentro do risco comprar alguma coisa que faz falta e não pode esperar um mês (porque as compras online deixaram de fazer face às necessidades de casas cheias de pessoas que comem todos os dias, quatro vezes por dia) (e não, nem todas as casas têm um frigorífico industrial e uma despensa de restaurante) (e sim, a fruta e os legumes querem-se frescos, impossível comprar para um mês, ou dois, ou três, e não, também não haveria espaço para tanto) (e não, ninguém aguenta enlatados e enfrascados todo um santo período de semanas que sabe-se lá quantas mais), enfrentando pequenas (vá lá...) multidões munidas de sua máscara, de tal modo protegidas se sentem que não se coíbem de se aproximar bem menos do que um metro, munidas que estão da sua infalível armadura, subestimando que nós, desmascarados (não uso, ainda não usei, Deus me livre de mais essa. Não encontro à venda, as que me arranjariam por especial favor são a preços pornográficos e duram o tempo de um fósforo, prefiro acreditar na DGS, que são propícias a uma falsa sensação de protecção), não temos outro escudo que não seja o divino e ou a nossa capacidade de permanecer em apneia e ou escapar ao bafo/perdigotos, já para não falar do tossicar tão português, da catarreira cigarreira ou do espirro para a dobra do braço. 
E quando, bravas, regressamos da batalha, sorridentes e vitoriosas porque ainda ignorantes do desfecho da guerra que vamos travando, ao que ainda poderá ser o nosso porto de abrigo, àquela que era a designada com algum desprezo pelos aventureiros desta Terra, a zona de conforto, o perímetro de segurança, processamos tudo - refeições, um bolo de iogurte, uma mousse de chocolate, sumos de laranja com laranjas a sério -, arrumamos, limpamos, lavamos, mimando, fazendo crer a normalidade, para que uns possam trabalhar, outros ter aulas, falar com os amigos no computador ou então jogar, para que não tenham necessidade nem vontade de sair de casa, e ainda arranjamos um bocadinho para dançar ou fazer uma ginástica patética, cujo objectivo é apenas nenhum (não engordar por abandono do ginásio? Estar em forma no próximo Verão? Ocupar a mente?), ou então só não enlouquecer.
A nós, quem é que nos bate palmas? 
Talvez ninguém, talvez porque não precisemos. De qualquer maneira, estamos invisíveis, na tal linha de retaguarda, demasiado ocupadas a salvar vidas, arriscando a nossa própria.

27/03/2020

Das idiossincrasias - das dos outros e das minhas

Nesta fase coronoviral, queria escrever um post por dia, mas o desalento e a ocupação constante com mil coisinhas mo impedem.
Realmente é bem verdade que a roupa não se passa sozinha, ao contrário desta aqui que vos tecla. Estou a brincar, raramente me passo, por isso é que ando sempre com os olhos raiados de sangue.
Agora a sério, não me tirem o ferro de engomar. Há muitos anos que é o meu escape, o meu momento zen, cada um tem o seu. Antes isso do que enveredar pelas drogas adentro. 
Tenho conseguido continuar a maquilhar-me religiosamente (não num sentido literal), vestir-me como em dias de normalidade, apenas desci do salto e ando rasa ao chão, ora de ténis, ora de sabrinas. Em compensação, há dias vi a minha vizinha da frente de pijama, em plena rua, como se estivesse em casa. Uma completa inversão de valores.
Tenho ido correr dia sim, dia não, o que, não sendo famoso, também não é mau. Faço corridas curtas (3,5 km), que me sabem pela vida. É esquisito correr por ruas vazias em pleno dia, cruzar-me com a senhora da farmácia, com o carteiro, com a vizinha que vai às compras, e agora ser tudo diferente, acenamos à distância, apreensivos, nervosos, acho que até tristes.
Quando se anda na rua de dia, parece que se entrou na quinta dimensão: tudo fechado, poucas pessoas a circular. Assim que cai a noite, é tal e qual como quando se sai de casa às quatro da manhã. O silêncio e a inércia pairam no ar, mesmo que sejam sete e meia da tarde. 
Noto que os automobilistas estão ainda mais agressivos, sobretudo com os peões na passadeira. Desconheço se é porque têm uma ilusão de impunidade, se lhes cresce a raiva do "go home" (como se eles estivessem em casa), ou se é algum jogo novo, tipo electrónico, mas com pessoas a sério, "corre ou morres".
Por falar nisso, preciso de estudar afincadamente o fenómeno dos automobilistas com máscara. Por vezes, vai mesmo o casal completo, dentro do carro, os dois de máscara. Não estão no seu habitáculo "esterilizado"? Não vivem juntos? Não comem da mesma malga? Tende mas é juízo e deixai as máscaras para quem efectivamente delas precisa.
Já agora, se a DGS recomenda o uso de máscaras apenas a quem está infectado, e ainda que quem está infectado deverá obrigatoriamente permanecer em casa catorze dias, quem são afinal aqueles cinquenta por cento de transeuntes que andam mascarados pelas ruas? 
(Muita gente que não lava os dentes e nos poupa, assim, ao seu fétido. Bem hajam.)
Vi uma senhora de idade na televisão, os cabelinhos muito brancos, afirmando que não senhora, não está em risco. "Para além de ser diabética, não tenho mais nada, graças a Deus".
Queria ir dar sangue, porque recebi uma mensagem do IPS, mas a minha tensão arterial diz-me que nem pense, e isso tem sido mais um motivo de frustração, a acrescentar aos restantes. Numa ida à farmácia, li na porta que os hipertensos também são um grupo de risco e apeteceu-me ter um ataque de nervos. Depois li "Soraia, está a ser filmado", e lá me acalmei, apesar de não me chamar Soraia. Só após um curto raciocínio percebi que se tratava do verbo sorrir e até sorri. Ou já estou chanfrada da marmita, ou a precisar de uns óculos de sombra. 
Uma pessoa que, diante da fila (exterior) da farmácia queria que existissem senhas de vez, com o argumento que "de manhã havia, por isso achei que agora também devia haver". E então, encostou-se a um muro a desabafar o quão incrível considerava que houvesse gente que vai à farmácia por tudo e por nada.
Por falar nisso, pessoas que vão à farmácia acampar desabafar: para quando uma multa? Uma pena de prisão não remível?
Tenho fé nos portugueses, mas só de segunda a sexta. Ao fim-de-semana julgam que estão de férias e são multidões junto aos rios e oceano. Vão claramente contribuir para medidas de restrição ainda mais apertadas, talvez assim nem vejamos o mar, todos nós, este ano.
Tenho a capoeira a metade, dois dos meus pintainhos estão fora. Embora saiba que estão bem, e que, em ambos os casos, foi a melhor solução, isso é assunto para me doer em, pelo menos, metade do coração.

20/03/2020

Hoje está a chover

O dia de ontem foi tão extenuante que nem pau para escrever tive. Esta noite dormi nove horas de seguida, coisa que não me sucedia desde que nasceu o meu mais novo, vai para décadas, assim no plural, não tarda. Tinha-me levantado, altas horas da madrugada, e feito uma aula de zumba, isto ainda antes de me lavar. Depois pareceu-me pouco e fui para a varanda dar no ferro, que é como quem diz, abdominais, braços, glúteos e alongamentos. Devo ter exagerado em alguma das coisas, que hoje sinto a excruciante. Deus me livre de tossir. Mais logo retomo a actividade física. Agora preciso de tratar do intelecto. Aguarda-me na box uma sessão de telelixo.
Entretanto, pintei o meu cabelo, era o que faltava deixá-lo encher-se daquelas nuances descoradas, mas agora sou a Elsa do Frozen, ou quê? 
À tarde fui à farmácia, mas tive o cuidado de escolher a mais longínqua do bairro relativamente ao lar, para poder desfrutar não sei de quê. Constato que os donos dos cães, que agora surgem do chão como cogumelos, são mais do que os próprios (donde se conclui que o mesmo cão é diariamente passeado, pelo menos, uma vez por cada elemento de uma casa), e também deixaram, definitivamente, de apanhar as poias dos seus animais, agora que "ninguém vê". Portanto, a mentalidade não mudou nada.
Em contrapartida, a rua cheira a rua. Cheira a árvores, a flores, a vento, a pedras agora molhadas, no lugar do aroma a combustível queimado, alcatrão e pneus. Ainda assim, não sei o que prefiro. Sou demasiado urbano-dependente para apreciar ambientes bucólicos por mais de três dias, ainda para mais a este preço.
Ao fim da tarde baldei-me a outra aula de dança* e fui caminhar (a minha companheira de corridas está desancada de um mau-jeito que deu no ballet) uns quilómetros largos, a aproveitar enquanto não me ferram em casa como se eu fosse uma criminosa. Apesar de tudo, isso ainda é menos deprimente do que sair e só ver gente mascarada e diabólica, e a fugir de se cruzar connosco como se fôssemos todos leprosos carregássemos a cruz que efectivamente carregamos. 

*@dianaxana7, não sei colocar links do Instagram, é procurarem. Esta menina merece o Mundo, está fechada em casa, a dar 4 aulas por dia em directo da sua varanda.


18/03/2020

Street

No Verão passado apareceram na minha rua dois pequenos gatos, talvez com quatro meses de vida. Nessa altura, ainda tinha a minha Mia viva, ou seja, tinha duas gatas em casa, pelo que não me passou nem de longe pela cabeça adoptar mais um, quanto mais, mais dois. De qualquer modo, achámos - porque nem sequer foi iniciativa minha - por bem deixar um pouco de alimento e água aos gatinhos, que, como todos os animais de rua, pareciam precisar. Os dias foram passando, depois as semanas, os meses, e nós sempre a deixar um bocadinho de ração, latinhas, pescada de sobras nossas (o que eles se pelam por peixe cozinhado!). Um dos gatos é preto com malhas brancas, desconheço se é um macho, mas recebeu o nome de Street, que dá para todos os sexos, enquanto o outro, tigrado com mais de duas cores, certamente uma fêmea, foi "baptizado" de Juliana (don't ask). De resto, Juliana tem vindo a engordar de tal forma que, ou muito me engano, ou qualquer dia dá frutos (Coisinha, Clavícula, Meu Óculos e Gil Prada, tudo nomes possíveis para a ninhada que se anuncia). 
É ao cair da noite, pelas 19:30, que desço à rua e vou deixar a refeição dos "meus" gatinhos. Esta era, até há pouco, uma hora sossegada, com menos gente e movimento de carros. Agora todas as horas são de um sossego inquieto, mas Street - que é muito mais fiel à refeição do que Juliana - não sabe nem sonha o que se passa no mundo, e é a essa hora que me espera, os olhos como duas lanternas acesas, metido debaixo de um carro, ali perto da caldeira da árvore onde costumo deixar-lhe o sustento. 
Espero que, sendo decretado o estado de emergência, abram excepções como em França: alguns trabalhos, compras básicas, assistência a idosos, passeio de animais e prática de desporto, desde que não em grupo. Porque eu, garantidamente, e pontualmente às 19:30, vou descer até à rua para alimentar meu Street, e, quem sabe, a sua companheira Juliana. Nem que tenha que vestir o traje desportivo, nem que tenha que alugar um cão.