23/01/2022

Braços de anjo

Já durmo, por isso devo estar a sonhar, quando à noite vem um anjo arrumar o que deixei à solta da minha vida terrestre: tira-me os óculos, põe no lugar os comandos da televisão que não vi, e então dá-me um abraço inteiro, em que me toma nos braços que tomei eu desde o primeiro dia para o alimentar de mim, segurando-me a cabeça com uma das mãos, pouco lhe importando a falta do cabelo, que eu lhe escondo numa touca, por vergonha e amor, e que ele ignora, por sabedoria e amor.


19/01/2022

Um dia virá a aceitação

Pode ser raiva, sim. Contra coisa nenhuma, muito menos contra alguém, não tenho o desejo de trocar com outra pessoa que eu considere mais “merecedora”, tudo aquilo por que estou a passar, já nem é um “por que não eu?”, nunca foi um “porquê eu?”, é todo um “porquê nós?” em tantos momentos como aquele.

Éramos só três a fazer tratamento naquele dia, todas mulheres, duas senhoras de idade e eu. Fui relativamente espampanante, vestido bonito, botas com salto, já bem nos bastam as tristezas. As duas que ali coincidiram comigo, calças neutras, confortáveis e macias, sapatos ortopédicos, blusinhas sem viço nem vida. 

A auxiliar perguntou a cada uma o que queria para o lanche, à senhora que estava ao meu lado ouvi dizer “Uma bolachinha”, a rapariga respondeu que trazia um pacotinho de bolachas, “Mas eu só quero uma bolachinha”, só que os pacotes trazem quatro ou cinco, “Eu trago à senhora o pacotinho e a senhora come só o que tiver vontade”. Eu pedi um croissant com queijo e manteiga e um galão com descafeinado, mania que nasceu para princesa.

O lanche demorou tanto para lá do normal, que o meu tratamento acabou e ainda esperei uns minutos, primeiro inquirindo, depois protestando, finalmente levantando-me, malinha ao ombro, vestido e minha Natércia esvoaçantes pela sala, “Hoje não lancho aqui. Imaginem o que seria, quando os meus filhos eram pequenos, na época em que tinha dois no jardim de infância e duas na primária, se eu levasse este tempo todo a preparar quatro lanches. As crianças lanchavam à hora de jantar. Repare que somos só três e a senhora que está ao meu lado pediu uma bolachinha. Quanto tempo leva a preparar uma bolachinha?”. As duas serenas, desistidas, nem um ai, a bruta a fazer um pandemónio por um croissant, a raiva a subir, tanta injustiça, senhores, eram duas velhinhas, que só por esse motivo arrastavam os pés a andar, por que é que o dedo aleatório pousou nelas, se já não lhes chegava o resto?

Porquê nós? Não é “por que não outros?”, é “porquê nós?”. Porquê elas? Ou só: porquê?


16/01/2022

Não sei se é raiva

Diz que passamos por algumas fases nos acontecimentos dramáticos da vida, que primeiro vem a negação, depois de umas quantas a raiva, olhem, modestamente acrescento a surpresa como podendo ser a primeira, mas saltei todas como num jogo da macaca e fui directa à da aceitação. Havia um instinto que me dizia “Vai ver”, e não era um caroço, não era uma mancha, nada, a não ser “Vai”, um covid demasiado prolongado, excessivas “interdecorrências” em duas semanas de hospital, “Vai ver, começa por algum lado, vê as mamas”, bingo. Não entrei em negação, sou demasiado mole e conformada para considerar a clássica “Porquê eu?”, quando “Por que não eu?” me responde muito mais vezes à pergunta “Que mal fiz eu a alguém/ Deus?”, sei lá, fiz mal, com certeza, ou então isto é tudo uma lotaria ao contrário, saiu-me a sorte pequena, ou pode ser a paga por tantas vezes ter dado à luz o número premiado. São matemáticas e tentativas de lógicas que não vou fazer, servem apenas para encher verbo aqui e na minha cabeça praticamente oca, que, no momento, apenas quer ocupar-se com Natércia, a cabeleira, nanoblanding de sobrancelhas, vernizes compatíveis com tratamentos de quimioterapia. E ainda temos por resolver o problema das pestanas, que passará certamente por muita cola, muitos nervos, muitas lágrimas, mas todas de frustração e intolerância dérmica.

Diz-me uma companheira de danças que passa pelo mesmo processo, embora mais adiantada nos tratamentos,  que só devo fazer aquilo que o corpo me pede. O corpo, do qual me parece que a cabeça faz parte, pede-me que vá correr. (Por favor, por-fa-vor, ninguém mais me sugira caminhadas. Por piedade.) Ou que vá dançar. Porém, no momento em que até, o mesmo corpo pede-me encosto e molenguice. E faço a vontade ao caprichoso.

Estou só a começar a intolerar os que alardeiam que têm saúde para dar e vender. Não querendo ser, mas já sendo um velho do Restelo, tenho a declarar ao Mundo que as minhas análises clínicas, um mês antes do diagnóstico, eram as de um atleta (com mais de cinquenta anos, mas, ainda assim). “Marcadores tumorais: negativo”. E que corri dez quilómetros três dias antes de sair o resultado da biópsia. Pelos cálculos de quem sabe dessas coisas, já eu passeava — e corria e dançava com — um cancro junto ao coração há seis meses. Também tinha saúde para dar e vender. Como não me lembro de a ter vendido a alguém (a conta bancária não mente como as análises), devo tê-la dado, sei lá se a quem nem sequer a merecia, e agora se arroga dela.




11/01/2022

A nossa Natércia

Tenho uma comadre que só não é minha irmã porque não nasceu de obra de nenhum dos meus pais. Todos os dias, sem excepção, liga ou manda mensagens, a saber de mim. (Em contrapartida, tenho uma outra que me manda mensagem à segunda-feira a desejar boa semana.)

A minha comadre Madalena — que não podia ter um nome e um coração mais bonitos — baptizou a minha cabeleira (cansei de chamar peruca ao meu novo cabelo) de Natércia. Disse-me: “Arranjámos uma amiga para a vida: a nossa peruca!”. Assim, tal e qual. Eu uso, mas ela é nossa, faz parte deste caminho de pedras pontiagudas que percorremos descalças, de mãos dadas. Não vamos sozinhas, pois está connosco uma pequena multidão disposta a trilhar o túnel comigo, sem permitir que eu caia de todas as vezes que tropeçarei.

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Nossa Natércia é da melhor qualidade: bati o pé por uma de cabelo natural, pois o nome diz tudo. Faz-me confusão ver as pessoas com cabelo de boneca e temi que me voltasse em forças a vocação para cabeleireira que tive entre os quatro e os sete anos, em que não houve boneca nenhuma — e tive dezenas, filhas de médico são cruel e profusamente brindadas no Natal e em datas aleatórias — que não ficasse escalpada até à “raiz”/implante, julgo que por estar convencida de que aquilo crescia. Mais tarde, apurei a técnica (ou talvez tenha levado três anos a perceber que “aquilo não crescia”), passei a usar rolos ou escova de enrolar e secador, e passei também a queimar/ encolher/ trilhar o cabelo às bonecas. Em suma, a técnica estava toda lá, o material é que era fraco. Por estas e outras razões, decidi deixar um rim na loja das cabeleiras, mas trouxe o cabelo da outra, que agora é meu. “Ah, é porque podes”, dirão as inflamadas da vida. Biafine.

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Natércia passou a prova de fogo — longe vá o agoiro — numa ida ao hospital. Perguntei ao segurança da oncologia onde é que podia fazer análises clínicas e ele indicou-me um laboratório a cinquenta metros dali, também pertencente ao hospital, porém para outras especialidades. Assim fiz, e só quando a enfermeira me perguntou por que é que estava a fazer análises ali e não no laboratório próprio para oncologia, é que percebi que, para variar, havia batido pela enésima, porém não última vez nesta vida, à porta errada. Já que tinha que voltar ao edifício para ter consulta com o giro, perguntei ao segurança por que é que me tinha mandado para o outro laboratório, sendo que havia um ali mesmo ao lado. Olhos escancarados, “Oncologia?”, “Sim.”, mãos unidas em oração, “Ai, ó minha senhora, desculpe, mas é que não se percebe nada, ninguém diz!”. E eu, tão feliz, peguei numa mechinha de nossa Natércia e disse: “Isto não é meu.”, fazendo aquele gesto de vitória com o punho fechado, baixando o cotovelo, e, melhor que tudo, fazendo com que ele se risse do meu riso.

Gosto sempre mais de me ver despenteada, nem Natércia escapa