22/02/2019

o amor também pode ser de barro

Recebi da delicadeza das suas mãos, pelo Natal, a melhor de todas as prendas, a mais preciosa de toda uma já longa vida, vindo mesmo suplantar todas as bonecas, todos os jogos, todas as roupas mais ansiadas: o presépio da casa dos meus pais, que tanto e sempre amei. Um presépio em três peças, um São José e uma Nossa Senhora ajoelhados, ele num transe amoroso, com uma das mãos levantada quase ao nível da cara, ela em contemplação materna de um Menino Jesus gordinho e cabeludo, adormecido numas confortáveis palhas de granito. Por imperdoável ignorância minha, por serem as três peças tão pesadas, por estarem pintadas pelo artista que as assinou com uma tinta granitada, assumi sem pensar que o agora meu presépio era feito de granito, e não de barro, como efectivamente é. 
Porque as saudades matam, porque todos os dias nos morrem os pais, foi por necessidade, egoísmo ou pura vaidade, que mantive o presépio em cima de um móvel desde o Natal, com a intenção de assim ficar todo o ano. Mas a gata mais jovem, mais pesada, mais irrequieta, fez resvalar a Nossa Senhora pelo móvel até ao chão, onde o manto se fez em três bocados e mil cacos. 
De nada adiantaram as minhas lágrimas, choradas julguei eu que às escondidas — porque o pudor, o orgulho, a vergonha e, principalmente, a necessidade de encasulamento me tomam inteira nestas horas —, sufocada por dúvidas, se era melhor colar, se era melhor arranjar um bom restaurador, e ausências várias, se me saberia bem um abraço, mesmo que só um braço por cima do ombro, umas cócegas para me fazer rasgar um sorriso imperfeito, uns beijos nos olhos, cheios de borrões negros. Foi quando ele surgiu com aqueles olhos grandes de amor, retirou a peça da caixa onde eu a deixara e se sumiu assim, qual anjo, voltando pouco depois, com ela colada, as fissuras à mostra, os recantos um pouco desencontrados. E isso, mesmo sem abraço,  sem cócegas, sem beijos nos olhos, fez-me rasgar o tal sorriso imperfeito, e perceber que, se o amor não puder ser de granito, pode muito bem ser de barro, que é tão igualmente indestrutível. 

21/02/2019

Lá porque estou em dieta, não quer dizer que não possa ver o menu

Sinto-me só. Esmagada e mesmo ultrajada por uma solidão que me corrói as vísceras e zonas adjacentes. Ou então, sou uma pioneira.
Ainda não vi por aí em lado nenhum escrito ou dito ou cantado ou suspirado o quão giro é o novo treinador do Benfica. Ai, já não é novo? Então, reformulando: o jovem treinador do Benfica. Ai, também já não é jovem? Sei lá, esse.


Aquilo anda ali entre o George Clooney e outro qualquer, que não identifico, porque sou péssima para nomes e vou sendo cada vez pior para caras. (Parece que os humanos se estão a parecer cada vez mais uns com os outros, de modo que ou acho que conheço toda a gente, ou todas as caras me são estranhas. Alegrias do avançar do tempo, chiu.) Assim preocupado, meio chateado, um nico bruto. Tudo em bom. Sabem aquela noção do pãozinho sem sal? É isso, mas ao contrário: um pão cheio de sal. Com chouriço. Ei, antes que comecem as piadas fáceis, então um pão com bacon. 
Olha, querido, se na remota, porém nunca impossível, leres isto, aqui fica a minha salva de palmadas: és lindo. Só não me casava contigo porque também não é preciso ir lá tão longe. Cá beijinho e xi apertado. PS - Mesmo sem penta, coach.







LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam21

16/02/2019

Ainda à propos do Dia dos Namorados

ou talvez não, mas deu-se a coincidência. Quer dizer, não fui no dia 14, mas fui na mesma, o que é que isso interessa? Ando com pouco tempo para escrever, por isso limito-me a vir aqui colocar umas pics da última exposição onde marquei a minha notável presença, que foi Quel Amour!?, no Museu Berardo, verdadeiramente L'Éxposition. No entanto, houve vários momentos em que não percebi muito bem o que é que tinha a ver a bota com a perdigota, que é como quem diz, o que é que tinha o amor a ver com aquilo, mas eu não sou artista, e dei esse factor como explicação a mim mesma. 










Já cá faltava a exibiçãozinha pessoal



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam22

13/02/2019

gente extraordinária/gente comum

Andavam por ali uns rapazes em cima das trotinetes eléctricas, apitando em alarme denunciador de que estavam "fora da aplicação", mesmo em frente da Câmara, são rapazes pensei eu, são rapazes, comentámos nós, só se é rapaz uma vez na vida, digo eu. Antes que desse multa, estacionaram as trotinetes em cima do passeio, uma encostada ao pilar do grande edifício, a outra rigorosamente a meio do passeio, paralela, dividindo-o em dois. As gentes indiferentes, passando por um dos lados, passando pelo outro. E surgiu ela, tão jovem, tão só, acompanhada da sua bengala branca, em cuja extremidade talvez se lhe encontrem os olhos, que os dela não vêem. Fizemos a óbvia previsão de que ela encontraria na trotinete mal estacionada mais um obstáculo, quem sabe se a bengala lho avisaria a tempo de não cair. O meu primeiro pensamento foi o de me dirigir à rapariga, avisá-la e acompanhá-la, talvez dar-lhe o meu braço, não tive muito tempo para pensar em todas as possibilidades, já a minha amiga se afastara numa corrida na direcção da trotinete, a arrastara apesar do peso e dos alarmes para "local seguro" e livrara o passeio daquele entrave. Ficámos ambas a ver a rapariga passar, a bengala dando indicações de caminho livre. E eu fiquei a pensar que a grande diferença entre pessoas excepcionais e pessoas comuns se revela nas mais pequenas coisas, e mais ainda nas maiores. Eu teria ido dar o braço à rapariga, com a discrição possível, é certo, numa atitude de comiseração um nadinha espectacular, para afago do meu ego, escutando-lhe os agradecimentos, comovida, e aproveitando para dar uma pequena lição de vida ao meu público. Ela, simplesmente, resolveu o assunto, indiferente à salva de palmas que nalgum lado fora "daqui" lhe terá sido dada. 
Numa situação limite, as pessoas extraordinárias salvam vidas. As comuns ficam a consolar os aflitos.



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
Assunto demasiado sério para que o considere um "chouriço".
mas #jasofaltam23namesma