21/06/2018

Notícias da obra esperta

Vai de vento em popa, ou em proa, pois que ainda não está terminada.
Fizemos tudo como manda o figurino. Já não é a primeira vez que fazemos obras em casa, pelo que, desta vez, tivemos o cuidado de agendar, planear, escolher, encomendar, envolver arquitecto e projecto, contratar mestre de obras e equipa recomendadíssimos. 
O projecto, quanto à casa-de-banho, incluía a construção de um nicho, rente à banheira, para arrumos, de toalhas ou cosmética. Assumo aqui sem pudor - designadamente por se tratar da privada - que nunca fui muito amiga de nichos. Pode ser algum trauma de outra encarnação, mas é que é um vão em vão, um buraco, uma cena à parte do resto de uma divisão, sem porta e, quantas vezes, sem janela, que me causa uma claustro que anda rés vés com a fobia, para além da absurda inutilidade que constitui a coisa. Para que genitais serve um nicho, a não ser para meter umas plantas, eternamente infelizes, praticamente entaipadas? Eu sei que sou esquisita, mas é assim que vejo a cena.
Ainda assim, e pelo facto de ter trezentas mil merdas para decidir no espaço de um mês (fora todos os meses anteriores aos do início da obra, e as semanas que se seguirão no após), deixei que o nicho fosse adiante. Confesso que nem pensei muito sobre o assunto, como faço com quase tudo. Não. Há. Tempo.
Então, ontem à noite fomos de visita à obra, o ser humano entra na casa-de-banho (ou na ruína da que foi) (ou no que será a), e só não tem um stroke porque ó-pá-não-era-a-minha-hora: o nicho era um par de grossas paredes paralelas, com uma distância livre entre si de não mais de vinte e cinco centímetros (na qual eu guardaria, talvez, toalhas de bidé, objecto de culto traseiro que deixei de ter), e que, ainda por cima, furtava espaço ao cagadócio, que é, como se sabe, senão o, pelo menos um dos motivos principais pelo qual as pessoas têm casa-de-banho, pese embora o nome.
Olhem, mandei destruir o nicho.


19/06/2018

Onde é que está o gato?

Conformada com o facto de termos (todos, a união diz que faz a força) deixado de ter Primavera, num muito pouco alegre goes-around-comes-around, Inverno-Outono-Verão-Inverno-Outono-Verão, e assim sucessivamente, que não, a ordem dos factores não é arbitrária, e após ter amargado com a canícula do dia de ontem, suando as estopinhas e todos os outros tecidos que me envolviam (designadamente o de um muito famoso vestido de flores, que se mantém impecável ao nível dos vincos e rugas — ao contrário da pessoa humana — pelo facto de ter um nico de fibra na sua composição, e, por esse motivo, ainda me fazer suá-las mais), e ainda aliviada por dar a entender que isto hoje estão menos dez graus do que ontem, deu-se que tomei a se não dramática, pelo menos drástica resolução de envergar um vestido branco, a ver se afastava os raios, complementado, não encimado, pela bela sandália que imita a pele da cobra, e que também já aqui publicito desde os anais (desta coisa), eu feliz a fazer contas de cabeça — aquele conceito que sofre várias variáveis em se tratando de mim —, tentando chegar à conclusão de quantos anos é que as cobrinhas já levam, acho que vão para o quinto Verão, congeminando que — genitais! — cinco anos numas sandálias já faz delas uma peça do Museu de Arte Antiga, mas também um objecto de culto e comprovada amortização, quando ouço miar. Era um miar sob mim, um miar de gatinho bebé, um miarinho. À medida que continuava a andar, miau-miau debaixo dos meus pés. Antes mesmo de ter a veleidade de imaginar que havia gatinhos sob a calçada portuguesa, apercebi-me que uma das sandaletes agora mia. Não sei se a outra se vai solidarizar, e passarei a andar com dois gatinhos no lugar das cobras, se isto passa, se me habituo e deixo de ouvir, se virá uma mãe gata tirar satisfações com o meu pé um destes dias, ou se, de facto, e efectivamente, tenho um gato dentro, sob, sobre ou através da sandália. Mas está a ser animado, ter um animal de companhia constante, na rua inclusive.
Pronto, desculpem. No fundo, não tinha mais nada para dizer ao mundo, hoje. Nem nunca, na verdade.

16/06/2018

Ainda não foi hoje que enlouqueci

Enquanto sentir vidros debaixo dos pés

Na verdade, não sabia que título pôr a isto. E também não tenho nada para dizer, vim cá só varrer os cantos, arejar a casa, ver se está tudo bem.
Mas é verdade que ainda não foi hoje que enlouqueci.
Casa em obras; a viver noutra casa; sem máquina da loiça; um estendal que não comporta uma máquina; empregada de férias [pronto, lá vou perder uma seguidora. Fazei como entenderdes, eu não posso fazer nada contra o facto de ter empregada e de ela, apesar de falar pelos cotovelos, pelos tornozelos e, em geral, por todas as articulações, me dar muito jeito], uma prova para fazer daqui a horas [umas 36, vá, com sono, refeições e trabalho de permeio], acompanhada da sensação certeza de que fui brindada à nascença pela ignorância, e que devia reprovar [aka, repetir a prova], se justiça existisse neste Mundo; trabalho com prazo a correr contra mim, qual locomotiva; depois da chuva em Junho, agora o vento; ontem, numa breve pausa que me impus, comi areia esfoleei os dentes.
Não sei mais de que me queixar para pintar este quadro de ainda mais negro. 
Enquanto sentir vidros debaixo dos pés, foi uma frase por mim proferida, a propósito de uma garrafa de vidro que se estatelou no chão desta minha agora cozinha [uma ou várias desgraças nunca vem/vêm só(s)], e passei a sentir a vidraria moída sob meus chanatos, daí a frase, que tanto gostei de ouvir a mim mesma, que equacionei até a possibilidade de escrever um livro com este título. Só não sei sobre o quê.

15/06/2018

Casa de azul

Era toda azul, a nossa casa. Não, faltavam - falhavam - o nosso quarto e o quarto das meninas, brancos. Toda em remodelação, toda em vias de ser pintada de novo, então de que cor?, mantemos tudo como estava?, mandamos pintar toda de branco? Que não, que queria o nosso quarto em azul, também. Não percebo uma casa azul, minha, um quarto branco, meu. 
Fui às tintas, vi cinza mesmo quase branco, vi bege mesmo quase branco, vi azuis. Então, casa toda branca e o nosso quarto azul? Ou toda branca? Ou toda azul, e os quartos brancos? 
O "meu" azul não existia na loja das tintas. 
Era branco-azul, lembra-se?
Não está no catálogo, não está no sistema, só faltou perguntarem-me se sonhei com aquele azul.
Vou trazer uma amostra, e os senhores fazem a cor, fazem?
Que sim, traga lá uma tampa da electricidade, qualquer coisa onde esse azul esteja (exista, sem ser na sua cabeça).
Eu queria tanto o quarto de azul. Não o quarto azul, não o quarto em azul. O quarto de azul.
Não percebo essa mania do azul.
Eu também não, mas gostava...
Seja, fica azul.
Vou ter a casa toda de azul, daquele mesmo azul com que sonhei e que, afinal, existe na loja, bastou levar uma coisa onde esse azul esteja
(Só o quarto das meninas se mantém em branco-branco. Mas isso não significa que toda a casa não fique de azul.)