25/05/2018

L'enfer, c'est les autres

Estou sentada com um monitor à frente, num quadrado pequeno a televisão, a emitir notícias, o espaço restante ocupado pelas letras e números das senhas de vez, que a voz do altifalante grita a cada três segundos. Estou ali há tempo suficiente para já ter contabilizado e também para ter habituado o ouvido e, sobretudo, a cabeça.
Um homem novo trá-la pelo braço e senta-a ao meu lado, "Aqui, ao pé desta senhora", apesar das inúmeras cadeiras vagas à minha volta. Isolei-me numa ilha — isola, em Italiano — exactamente para poder enlouquecer sozinha, sem que os outros malucos me aborreçam ou interrompam. Ela é muito idosa e conheço-lhe os sinais da demência nos traços. Traz um chapéu impermeável enterrado na cabeça, apesar do sol que brilha logo ali ao lado. Toda miudinha, pergunta-me, de chofre: "Olha lá, o que é que já roestes?". Respondo o que me vem à cabeça atormentada: "Olha, estou aqui em jejum". E, logo a seguir, "Eu não sou eu". Ela dá uma pequena gargalhada e diz: "Ah, pois não. Estou a confundir-te com a outra. Então não és tu?". "Não.", mas não me apetece rir nem sorrir, e então ficamos assim mesmo. Daí a pouco levanta-se e vai amparar uma mulher, que lhe cai nos braços como uma criança, tonta e perdida, demasiado grande para fazer dela suporte. 
Talvez aquela fosse eu, talvez a outra fosse a minha mãe. 


20/05/2018

The girl next door # 16

Íamos pela rua que é nossa, de mãos dadas como amigas que somos tão, amizade esta nascida há pouco, mas já de cimento e pedra e cal. 
Agora ela vai-se embora, num regresso sem vontade mas necessário, ficará um oceano a separar-nos (como se existissem oceanos capazes de um impossível desses). Deve ser por isso que nos abraçamos à chegada e à despedida, mesmo que vamos só ali ao café, para ela chorar das dores que o amor lhe trouxe — e a que eu chamo Teoria do Sapato Apertado, uma das muitas que inventei nesta vida —, mas também, convenhamos, é para isso que as amigas vizinhas servem. Digo eu.
Cruzamo-nos então com outra vizinha, que me olha, me estranha, e, quando a cumprimento de "Olá, estás boa?", confessa que, à distância, não estava a conhecer-me. Expliquei que esta era eu ao natural, sem maquilhagem, uma osga verde de cabelo espetado, por contraponto com aquela Bratz girl a que todos estão mal habituados, porque tinha vindo da praia há pouco e ainda só houvera tempo para o banho e-e. Pergunta-me, a propósito de praia: "Estavas chateada?", e era eu agora a surpreendida, "Não, porquê?". Explicou então que, um dia, lhe dei o melhor conselho que já recebeu na vida: "Estás chateada? Vai para a praia. Chateaste-te com o teu marido? Vai para a praia. Os miúdos estão insuportáveis? Vai para a praia. Tens a cozinha desarrumada? Vai para a praia." 
De facto, devo ser uma pessoa bastante previsível. E translúcida. Mas, convenhamos, sou também um poço de sabedoria da treta, que, no fundo (desse poço), é a que mais falta faz às pessoas humanas. Sou uma opinion maker, uma verdadeira influencer. Estou no trilho certo para me transmutar na genuína blogger. Mas sei que ainda sou apenas uma crisálida.
(Tenho que começar a dar consultas, para começar.) (E a cobrá-las à bruta.)

18/05/2018

Voar

Por esta razão que me assiste, e que já aqui explanei bastamente, tem-me vindo à memória a minha primeira viagem de avião, mais conhecida por baptismo de voo: foi de Lisboa ao Funchal, tinha eu quatro anos de idade, e foi na TAP, que ainda não era Air Portugal, era mesmo "só" Transportes Aéreos Portugueses, sem mais mimimis em estrangeiro. 
Naquele tempo, a pista do Funchal tinha pouco mais de um quilómetro e meio de extensão, parecia a pista de um porta-aviões. Não sei como é que nunca se lembraram de incorporar uma catapulta naquilo. Mas isto sou eu a falar agora, que já lá vão muitos anos, e, na altura, nada me fazia impressão, nem sequer as alturas. 
O meu baptismo aconteceu no avião mais mítico de toda a História da aviação comercial (quanto mais não seja porque foi o meu primeiro): o Caravelle. 

Imagem palmada da nettinha

O Caravelle era, precisamente, o avião da capa da Anita (aquela a quem agora chamam Martine, mas que será para mim, para sempre, simplesmente Anita), o que ainda o elevou [hah!] mais aos meus olhos, quando, mais tarde, tivemos esse livro em casa (e do qual ainda hoje conservo um exemplar). 

Imagem palmada da nettinha
Lembro-me de ter feito uma viagem absolutamente tranquila, lembro-me de a minha irmã chorar porque as asas não batiam como as de um pássaro, lembro-me de a nossa mãe lhe mostrar os flaps a mexerem, e de ela chorar ainda mais porque, afinal, as asas batiam, mas lembro-me sobretudo de recebermos ambas livros para colorir e lápis de cor, e de termos ido à casa-de-banho e termos trazido de lá tudo o que apanhámos à mão, de sabonetes pequeninos a toalhetes perfumados, e depois nos termos ido confessar à hospedeira, que, para além de nos ter absolvido com uma boa gargalhada, ainda nos ofereceu estiletes limpa-cachimbos, para fazermos pulseiras. E o que me lembro de as hospedeiras terem uma farda belíssima, desenhada por Louis Féraud — eu tinha um caso de amor com aquele pompom do chapéu de coco, e com os apliques dos sapatos! —, que me fazia jurar um dia vestir uma assim e sair a voar como elas. A vida dá tantas voltas. E loopings.

Tudo meu, exposição no MUDE, 2015

Mas lembro-me, acima de tudo, que nunca mais voei tão bem.

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)