09/12/2019

Titi Blue também esteve na Black

Parecendo que não, também fui ver a Black Friday. Bem sei que já foi há assaz, mas só agora se me aprouveu denunciar aqui.
No fundo, foi um acidente, como praticamente tudo o que me sucede no tempo e no espaço. 
Dá-se que quase todas as sextas-feiras, para mim, são 13. Constatei isto há talvez décadas, designadamente quando tive uma chefe que era detentora do grande dom de criar trabalhos inadiáveis aí pelas cinco da tarde do último dia da semana, trabalhos esses que eu mesma concluía, cerca de duas horas depois, que podiam esperar pela segunda-feira seguinte, ou até por qualquer de todas segundas-feiras seguintes, quando constatava que ela própria já se eclipsara da fábrica de miolos fritos onde laborava à época. Ainda bem que me despediu um dia, poupando-me o trabalho e a vergonha de o fazer sem a sua preciosa ajuda.
Amorosa, e porque a minha empregada aniversariava no dia seguinte, e eu havia encomendado uma coisa numa loja e já recebera o aviso de chegada dela à dita, atirei-me para dentro do Colombo. Logo o caminho da ida foi sinuoso, houve que contornar uma bichona de carros a perder de vista, uma coisa nunca vista. Assim, ultrapassei talvez três ou quatro papalvos, embora ainda tenha tido que me colocar em fila indiana atrás de mais uns quantos. Chegada ao parque, verifiquei que já só havia lugar no -3, que é aquele basfond onde a Via Verde jamais funciona. Retirei o bilhete, dei meia volta com Rosinha, minha canoa, e de repente arranjei um lugar óptimo, mesmo em frente do ascensor, que era para não errar nas portas, outro dos meus vários super-poderes. Apanhar um que me carregasse não foi particularmente difícil, eu já a achar que a Preta Sexta era um mito rural, mas eis senão quanto aporto no primeiro andar e sou confrontada com uma multidão compacta, qual domingo, qual véspera de Natal, qual exposição do carro do Michael Night (a sério, isto existiu, e foi ali), qual inauguração da Forever 21 (coisa a não ser frequentada por quem tenha 20 anos ou menos), aquele flop de trapos cuja ascensão e queda foram igualmente rápidas. Posso dizer com alguma segurança que tive que travar luta física para alcançar a loja, que fui encontrar em estado de sítio, três gajas por metro quadrado, um sonho de pinga-amor tornado realidade, brancas, pretas, qualquer cor, você quer tudo o que vê, elas até estavam organizadas em caracol (ou melhor, vistas de cima pareciam aquele jogo da cobra que nunca acaba de crescer), ao longo de todo o espaço disponível, para chegarem à caixa de pagamento e não perderem a oportunidade de, após espera de — quê? —, meia-hora, pagarem 8 euros por aquela blusa que custa 10, vão usar hoje à noite e amanhã entregam para troca na loja, cheia de desodorizante, suor e maquilhagem. Ia-me dando o Credo!, aí sim, caí naquela realidade alternativa, onde — mamã! — não queria estar. Então roguei, não uma praga, por não estar em condições psiquiátricas, mas à caridade humana de uma funcionária que ia ali a passar, "Por favor, para levantar uma encomenda, tenho que me meter nesta bicha?", ela que não, que podia dirigir-me aos provadores. Só que um relance me revelou que a bicha dos provadores também era das grandes, só que em linha recta, e já começava a faltar-me o ar para a sobrevivência mais imediata. Então abordei outra funcionária igualmente angélica, "Por favor, para levantar uma encomenda, tenho que me meter naquela bicha?", ela que não, que era só ir buscar o iPad e já me trazia a coisa, eu ai, olha queres ver que hoje é o meu dia de vaca, ou vou acordar daqui a nada e estou metida numa bicha interminável?
Saí da loja com a prenda da minha empregada no sovaco, ainda consegui flutuar quase em ombros derivados à multidão, até ao rés-do-chão, com vista a adquirir uma quiche de vegetais lá na padaria daquilo, depois fui de passadeiras rolantes até ao -3, subestimando a possibilidade de apanhar outro elevador sem espinhas (ou seja, sem cinco carrinhos de bebé, um par de muletas, três cadeiras de rodas e dez recém-nascidos no marsúpio) como o que me içara até ao primeiro piso, meti-me em Rosinha e aqui deixo o comprovativo, que é para não pensardes que omito a verdade. Das 11:29 às 11:54 vão quê? Pois.



14/11/2019

lágrimas de suor

Começou a corrida e eu levava os olhos cheios de água, vinda não sei de que esforço, ou seria da alma que se arrasta por estes dias, que até nem chovia.
Carcinoma das maminhas, tinha dito a veterinária há um ano. E ela bem, recuperada das duas cirurgias quase seguidas, magra, silenciosa como só um gato sabe ser. De um dia para o outro, ainda mais magra, ainda mais silenciosa, o ser gato levado a um extremo insuportável. 
Está maior, o tumor dela. Por isso, também por ela, fomos correr no domingo. Quando a Ciência avançar para umas, terá igualmente um braço que alcance as outras. Fiz o melhor tempo de sempre, não parei para andar, para descansar, para pensar - mais ainda -, sequer para chorar. A alegria de ter concluído a corrida sem percalços nem dores no corpo esteve sempre atravessada por aquela farpa que transporto no coração, eu no meu e os outros cinco nos deles. Ainda assim, não adianta camuflar com demais explicações: estou velha, estou extremamente velha, sou aquela ridícula que adoece cada vez que lhe morre ou adoece um animal de estimação. Diz agora a veterinária que devemos - como se se tratasse de um dever tout court, e não de algo que, implícita e naturalmente, sairia de nós - dar-lhe todo o mimo, todas as guloseimas que ela aceite. E também que devemos - esse, sim, um dever a cumprir ninguém sabe muito bem como - preparar-nos para a deixar partir
Não sei fazer essas preparações, e recuso-me a tentar, sequer. Não considero nem quero fazer mais nenhum luto, seja ele antecipado ou em tempo real. Ao invés, encho-lhe a boca com a cortisona receitada, o corpinho com festas, a cabecinha com beijos. E, contra tudo o que é normal - ou não fosse eu - rejubilo com todos os pequenos progressos, quando come bem, quando dorme tranquila, quando esgatanha alguma coisa, desconsiderando a evidente reacção à medicação, subestimando que o tempo corre implacável, numa corrida cuja meta será toda ela de lágrimas, enchendo-me de uma coisa qualquer a que nem admito chamar esperança.

26/10/2019

A herdade

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 13)

Após insistências várias, algumas com cariz ameaçador, cá venho então falar do filme "A herdade", antes que me esqueça de tudo.
Pode parecer que não, mas gostei bastante, pelo menos das partes que vi, por estar acordada. Vá que pestanei um nico ali aos minutos 122 e 157. Ninguém manda aos realizadores portugueses fazerem filmes de duas horas e três quartos, quando a história até se contava em menos de metade e ficávamos todos felizes na mesma, designadamente pessoas como eu, que sofro daquele síndrome das pernas inquietas, razão pela qual, se estou parada num sítio muito tempo, sou acometida de um ataque de pernas, dá-me o ó-ó e depois só mesmo xonando-as é que me sossegam os membros inferiores. 
Por outro lado, ainda não percebi a cena dos grandes planos do pessoal de costas, é uma grande falta de educação para com o público, mas estamos na missa ou quê? Começo a pensar que os planos de costas estão para o cinema português como o nu frontal está para o cinema francês: é um estilo. Mas achei escusado e um crasso erro histórico a cena em que o Joaquim, capataz, encarregado num monte alentejano - o que nunca é dito, mas a paisagem não engana, embora tentem enganar-nos com a léria dos arrozais - aparece de mãos nos bolsos, de costas, claro, a menear a peida como uma flausina. Isto é impossível alguma vez ter acontecido no Alentejo de 1973. Assim como é impossível que o carro do dono do monte seja um Mercedes dos anos sessenta do século passado, mesmo que ele fosse um coleccionador, apreciador de clássicos: naqueles terrenos, ninguém se deslocava de clássico. Isto, é claro, se não considerarmos que a marca deu uma achega para esticar o filme até às quase três horas. 
Enfim, fora estes pequenos lapsos que só as atentinhas ao que não interessa como eu é que reparam, o filme tem uma história bem conseguida, cheia de verdades, lembranças e algumas subtilezas (a paternidade daquelas crianças, toda trocada), tem uma fotografia muito razoável, e interpretações francamente boas. Albano Jerónimo, que não tem culpa de ter um nome de merda, mas que se revela gigante (em sentido estricto, o homem tem quase dois metros). Interpreta um proprietário de bem com Deus e o diabo, mas de mal com a vida, de um blasé mais actual do que pertencente à época, mas que faz valer a pena o filme, especialmente na cena em que dança com a cunhada. 
Não sei se já disse que gostei, mas também não me apetece ler aquilo tudo lá para cima. Ide ver (o filme), se fazeis o favor.