23/03/2017

Se o estupor não quer desmoralizar-me mais, então não sei o que quererá em alternativa...


Portanto, para Mr. Blogger é possível que haja quatro comentários em dois posts meus de hoje, e zero visualizações em cada um deles. 
Portanto, para Mr. Blogger é possível quatro pessoas — se não contar com as minhas respostas — comentarem sem terem sequer aberto os posts. 
Está certo.
Cão. Vá-se catar.

Please don't go

A sério que se me foi outro seguidor? Quer dizer, uma pessoa anda nisto vai para quatro anos (só neste blog, pois que já não era virgem quando o iniciei), vem aqui diariamente espremer-se toda, vê-se aflita para arranjar fregueses, mais um ou menos um fazem-lhe toda a diferença, e ainda há quem se vá embora?
Granda lata.
Adeus. Só faz falta quem cá está.

Vou adoptar a verve das empregadas domésticas: 
Vou-me embora, minha senhora, não aguento mais.
Ninguém me paga para isto. (Ah, a tal sigla NMPPI!)
Estou cansada de ser injustiçada.
Eu também tenho os meus direitos.
Vou para onde me tratem bem.
Vou-me queixar ao sindicato.
Também serve a dos amantes enxofrados, que é praticamente igual:
Vou-me embora, não aguento mais.
O problema és tu, não sou eu.
Nem sequer foi bom enquanto durou.
Vou ser feliz para outro lado.
Vou partir para outra.
Tu não me mereces.

Ando mesmo a ponderar fazer um manifesto, ameaçar acabar com isto tudo, armar a puta como uma drama-queen, bater a porta com a máxima violência de que seja capaz, partir a loiça toda e também partir, literalmente, para nunca mais voltar, que isto assim também já chateia. 

Eu interajo com os peões

Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. Está também a alcançar a dita uma adolescente cabisbaixa, atitude corporal safoda-caguei, headphones na tola, claramente sem pretender ligar ao sinal vermelho diante de si. Naquela de sou-o-peão-que-se-impõe-e-se-agiganta-tu-paras-para-eu-passar-eu-sou-forte-e-eterna, bem se vê que não viu imagens de Tiananmen. Nem apito, nem nada, impeço-a só de avançar no momento exacto, faço-lhe um gesto "Acorda", e a bruta faz-me um pirete, atravessando mesmo no vermelho, depois de Rosinha passar. 
(Eu não abri o vidro; eu não apitei; eu não devolvi a fineza.)

~
Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões daquelas em que o verde é simultâneo para o trânsito e para as pessoas, com aviso luminoso amarelo de passagem de peões. Estou, obviamente, parada, pois encontra-se um grupo de três ou quatro pessoas no passeio com manifesta intenção de atravessar. Passa um rapazola, diz para a petiza que o acompanha "Está verde", diz-me "Está verde...", com um encolher de ombros irónico, eu sorrio e respondo, com um encolher de ombros conformado, "Pois, já vi". E ele devolve-me o sorriso. 
(Simples, assim.)

~
Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. No passeio, com intenção de atravessar, um casalinho de crianças enamoradas entre si. Ela põe os dois pezinhos na estrada, ele chama-lhe a atenção, eu abrando e digo "Oi?". Ela sorri, envergonhada pela leve irreverência, e recua. 
(Se eu podia tê-los deixado passar? Podia, mas a minha função neste Mundo é a de educar as gentes. E as mães dos dois haviam de me agradecer ter-lhes dado o pequeno ensinamento que é: respeita os outros, se quiseres ser respeitado.)


22/03/2017

eu acho que estive lá

estava uma mulher ao meu lado, segura pelo que foi a cintura — não presa nem amarrada — ao cadeirão onde estava sentada, para que não se levantasse dali e saísse a correr, como se isso fosse possível, dada a fragilidade das pernas e de toda ela. Repuxava as calças de malha para cima, expunha as meias de lã grossa e a magreza da velhice, e murmurava, os olhos pregados nos meus, 
ai meu pai, ai meu pai
e isto foi no dia a seguir ao Dia do Pai, ainda eu não tinha recuperado da falta do meu nesse e nos outros dias todos. 
Antónia, Antónia
e depois dirigiu ainda mais o olhar perdido para o meu, acertando-me em cheio,
ó Ana,
e eu, que sou parva, cantei-lhe baixinho
ó Ana, ó Ana, senhora minha mãe vou já.
no outro extremo um homem lia um livro sobre OVNIs, já há semanas que o vejo agarrado àquilo, suspeito que não passa da mesma página, que pode ser a única que está impressa em todo o livro, o homem estuda com afinco enquanto me faz sentir a mim um extraterrestre.
continuo a arranjar as mãos tão amadas, que me ficam lindas nas minhas, intuo que no tempo que dura aquele bocado a minha mãe é a pessoa mais lúcida daquele espaço todo, embora me repita
és tão linda,
e, quando esse tempo acaba, verifico que as minhas mãos envelheceram enquanto ele durou, mas deixei-lhe as dela pequenas e frescas como as de uma criança. Primaveris.