16/08/2018

Eu tenho problemas com tudo # 34

Logo eu, que sou este poço de abnegação e dádiva celestial, hoje venho para dizer mal de uma cena consensual. Ou, melhor dizendo, venho desabafar. Também não me sinto lá muito bem na minha pele - literalmente, já vamos ver porquê - em fazer isto, porque, enquanto a coisa correu bem, nunca teci grandes elogios ao produto, e agora que começou a resvalar para o divórcio, eis-me aqui pronta para a guerra de nervos. Mesmo à gaja. Mas acontece que eu sou uma blogger de renome, uma genuína influencer (influenzer, de criar autênticas febres, quase uma pirómana!), e era dizer coisas bonitas de um artigo qualquer e tínhamos a burra nas couves, o povo em revolta, as baionetas reviradas para a pessoa humana, tudo a achar que me vendera por dois tostões a uma marca, e é que não. 
Então, a Rituals do meu coração: há para aí uma década que me besunto diariamente com os cremes da Rituals, primeiro o da embalagem verde (não me peçam nomes, que para isso estou como para os das pessoas: sei o meu, e às vezes nem esse), depois o da cor-de-laranja, qualquer coisa do Buda, o que talvez explique esta pele de pêssego, ou melhor, de nectarina (dado que mandei incinerar os pêlos lá naquela clínica muito conhecida, que recomendo viva e entusiasticamente, mas também NMPPI). 
Demo-nos bem, o Buda e eu, juntos e felizes, até há coisa de dois ou três meses, quando a fábrica que mistura a mistela resolveu, sem me perguntar nada, mudar a fórmula da banha com que me barrava eu, tão alegre e fielmente, a cada vinte e quatro horas, a uma média de trezentas e sessenta e cinco vezes por ano (ou mais uma, nos bissextos), talvez uns quê? Trinta boiões por ano, ora fazei lá as contas, que eu não quero. Aconteceu que não só alteraram o cheiro (ainda mais alaranjado), como também a textura: era a pessoa a espalhar a pasta e a parecer que se ensaboava. Isso mesmo, a ficar branca. E, à medida que insistia no espalhanço, assim mais branca - ensaboada! - ficava. (Hão-de ter acrescentado pó-de-talco à coisa, desconsiderando que, se eu quisesse espalhar pó-de-talco por mim afora, comprava um frasquinho dele e zás.) (E também hão-de ter espremido para lá mais umas quantas laranjas, que, em querendo igualmente, era só ir à mercearia e zás.) 
Fui-me então à loja mais próxima, expus o meu problema com todos os pormenores sórdidos que ele envolve, e fui aconselhada pela funcionária a experimentar o óleo pós duche, "um óleo seco, com uma textura muito agradável, que não deixa a pele secar, mas também não fica engordurada, e mantém o cheirinho todo o dia".


E foi assim que passei a olear-me pós banho, com um óleo oleoso, dificílimo de bombar para a pele - a tampa de spray fica logo escorregadia, e depois quem é que consegue dar a segunda esguichadela? Anda para me cair o frasco aos pés, um frasco... de vidro! -, complicadíssimo de espalhar (faz ilhas!), com a agravante que é amarelado, portanto, fica a ver-se toda a zona que não levou óleo, e a que levou fica... amarela!
Eu tenho ou não tenho razão para dramatizar? Hã? 
Chiu.

15/08/2018

And that awkward moment # 50

em que envias um SMS à tua ex-senhoria — a proprietária da casa que ocupaste enquanto a tua sofreu (amargamente) obras —, pedindo-lhe que procure uma fronha das tuas, por lá esquecida (e que não é uma fronha qualquer, uma vez que tem dimensões especiais de almofadão), e, já agora, porque é tua, e porque a queres de volta, e ela te responde,

É uma fronha de casal ou de solteiro?

...
...
É então que se te abrem várias hipóteses, as quais nunca antes ponderaste:
Hipótese A: Ela não sabe o que é uma fronha;
Hipótese B: És tu que não sabes que existem almofadas de casal e de solteiro (e as de casal dão para duas cabeças?);
Hipótese C: Existe toda uma panóplia de tipos/tamanhos de almofadas, de entre as quais a de unidos de facto, assim como uma sub-panóplia, que compreende a de solteiro-empedernido e a de solteiro-galdério, que tu desconheces;
Hipótese D: O que significam as fronhas iguais, naqueles "jogos" de lençóis de casal?
Hipótese E: Ela leu mal a pergunta;
Hipótese F: Tu leste mal a resposta dela;
Hipótese G: Tudo o que é esquisito vem ter contigo e tu atrais aquilo que és (daí os malucos, daí os bêbados, daí os cães, daí os chatos);
Hipótese H: O melhor é comprares uma fronha nova e esqueceres que o Mundo é assim mesmo, cheio de cenas que não são a tua cena;
Hipótese I: A tua vida é pautada por coisas e dava um (mau) filme de David Lynch.

14/08/2018

sangue do meu sangue, que não é sangue de traça


Estava a minha Mimi a entrar para uma aula de grupo no ginásio, quando avistou uma borboleta no chão,
Mas não era uma borboleta daquelas, era uma traça.
(Sim, uma borboleta, filha. Eu sei que sabes que, assim como há pessoas bonitas e pessoas feias, assim é também com os animais, e não é por isso que...)
Disse ao professor que estava ali uma borboleta e que era preciso abrir a porta que dá para o jardim, que é a porta de saída de emergência, para a pôr lá fora.
(Boa.) 
(Muito boa.)
Ele disse que não podia abrir a porta, porque estava trancada e que os alarmes se accionavam todos caso a abrisse.
[Todos os meus alarmes accionados por saber que a referida sala, numa cave, tem a porta de saída de emergência trancada. Quero lá saber das sirenes, quero é a porra da porta destrancada. Lá vou ter que me chatear com mais um assuntinho-assuntão.]
E tu?
Eu peguei na borboleta, subi as escadas e fui até à porta do ginásio. Deixei-a no jardim.
[Alguns dos meus alarmes a sossegar. Tenho feito um bom trabalho, e honni soit qui mal y pense.]
(Não sabes quantas vidas salvaste com esse gesto...)


12/08/2018

Dancei, mãe

Hoje acordei infeliz e dancei, mãe. Não dançava há dois meses. Não era capaz de me mexer ao som da música, as pernas tristes, a anca infeliz, já para não falar dos braços, um desalento de dar dó. Estava à espera do dia em que acordasse contente e tivesse vontade de dançar, mas o dia não veio e hoje fui assim mesmo. 
(Não para me alegrar, não para espantar a tristeza - como se ela permitisse uma coisa dessas -, mas para lhe dar largas e deixá-la voar comigo.)
(Ela é volátil.)
Tenho sonhado consigo, mãe. A mana sonhou todas as noites desde que nos vimos pela última vez
(que saibamos)
agora sou eu que sonho. Revezamo-nos a cuidar de si, outra e mais outra vez. 
Quando tomei duche, havia manchas de sabonete em forma de coração aos meus pés. 
(Muitas gotas de água, também. Nem todas saíam do chuveiro, pelo que me pareceu.)
Não sei interpretar estes sinais que a vida me dá 
(são sinais ou eu estou maluca?)
mas acho que era outra vez Alguém a dizer-me que estivesse descansada, que sossegasse o coração
(esta pedra)
que a mãe está bem.
E que eu pare de sonhar, também.