24/02/2018

Rapidinhas

1. Sabes que vais a conduzir totalmente bêbada 
de sono 
(hah, que susto, hã?)
quando, ao circulares em direcção à segunda circular, ainda nem 8 da madrugada o são —
que céu, Lisboa assim;
que céu, o de Lisboa;
se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa
—, vês um outdoor propagandeando o filme que pretendes visionar em breve, brevemente, I, TONYA, mas a tua mente demente lê, exactamente, Ai-TONTA
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2. Parecendo que não, o Verão está aí não tarda, que já tarda. E eu encontro-me, desde anteontem, perdidamente apaixonada por um conjunto que vi numa montra, ao passar por ela de carro, portanto, todo este mix de emoções a dar-se num relance. Lembro-me de ter passado e pensado: "Vais ser meu", ou, em estrangeiro americano, "You will be mine, you will be mine, all mine". 




Nos próximos episódios, veremos como e se se concretiza o casamento. Neste momento, já não concebo a minha vida sem ele. 
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3. Ainda a propósito da aproximação do Verão: ontem ouvi uma melodia na minha Radar, que nunca me desaponta, e que dá pelo sugestivo nome de Celulitite (que há-de ser a mania da celulite, bem esgalhado). É para verem que isto aqui não é só um poço de requinte e bom gosto. De vez em quando, lá me foge o pezinho para o chinelo (Prada, é certo, porém, chinelo). 

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4. Estou no defeso para uma maratona de dança, a ter lugar em breve. Já estou equipada, já pus a jeito a ligadura para o meu tornozelo de Aquiles Linda, quase não vou almoçar, que é para não me dar a travadinha a meio do esquema (apenas magnésio e potássio e gulodice, sob a forma de uma banana e muitos amendoins), já bebi água para duas semanas de vida, só me falta cortar as unhas dos pés. Estou a gozar, não falta nada. 
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5. Fiz um bolo de chocolate que ficou uma maravilha, mas a m. da receita dizia para desenformar ainda quente, e eu acreditei, mesmo sabendo que não é assim, assim fiz e ele desmanchou-se todo como uma Desdémona. Está tão saboroso, que marcha assim mesmo na mesma. Diz que a beleza não é tudo na vida, e eu, embora céptica, começo a acreditar também na riqueza do conteúdo, ou lá o que é.


23/02/2018

Mondo cane

Estava eu muito descansada da minha vida na farmácia, dando graças aos céus que não estava de serviço o senhor dos bigodes que me diz que fique mais um pouco cada vez que lá vou — e eu tenho medo; continuo a achar que as pessoas crescidas são demasiado esquisitas, brlá-brlá-brlá —, mas lamentando não estar igualmente aquela senhora simpática que me conhece pelo nome, que me avia num instantinho enquanto me pergunta tudo e mais alguma coisa sobre a minha vida, e o desafio é pagar antes que ela chegue à quinta pergunta, ou ganhe intimidades maiores do que as de me vender cenas para a tensão arterial — hey, dude, I didn't ask for a psychiatrist! — e entra um cão. O cão era loiro, pêlo médio, porte médio. E depois entrou uma mulher que, coincidentemente (?), era loira, cabelo curto, à cão, porte médio. Eu até achei giro o facto de parecerem parentes, o que não constitui novidade nenhuma, bastando, para se confirmar esta teoria, consultar a nettinha. Desconheço se se trata de uma causa — uns já escolhem os outros por semelhança — ou consequência — a convivência no mesmo espaço, ao fim de uns tempos, parece que provoca isso. (Deve ser por esse motivo que cá no lar somos todos iguais. Só que não.)
Ora, o cão vinha sem trela. Percorreu todas as estantes e todos os recantos da farmácia, mas nem piou (o que seria verdadeiramente extraordinário), nem bufou (que eu desse pelo facto). 
Quando ambos saíram (porque também existe uma lei de Murphy qualquer que diz que eu até posso ter chegado primeiro, mas que me vai calhar na sorte magana a funcionária mais lesa), entendi questionar assim:
- Os cães já podem entrar nas farmácias? — Isto, porque tenho fases do dia em que gosto de fazer perguntas retóricas/ básicas/ ignorantes, e aquela era uma delas. 
- ... [Hesitação]
- É que nunca vi...
- Na nossa farmácia, podem. Nós somos amigos dos animais. 
[Pôxa, também eu. E das plantas. E das pedras. Mas não é por isso que entro com um menir às costas farmácia adentro.]
- Ah, está bem. A ASAE aqui não passa.
E vai de girar os saltos porta fora, que o ambiente já estava a ficar um nico sobrecarregado com tanta idiossincrasia. E saí um bocado meditabunda, até me lembrei do pensativo cigarro do Zé Maria E. Q., ora Eça.
Acho que já se disse tudo sobre a coexistência de cães, gatos, lacraus e baratas (por que não, essa agora? Se a minha baratinha quiser ir comigo ao restaurante visitar as amigas, quero ver quem tem peitos para nos contrariar o intento!), por isso não me apetece dizer mais nada, que este coiso também já vai longo e eu tenho que ir almoçar, que já se fazem horas. Levo a minha Cuca comigo, com as suas sete saias de veludo. Fica mesmo bonita. 
E ai de quem. 


22/02/2018

The girl next door # 14

Enquanto, por um lado, tenho vizinhos passados da marmita (não quero sequer imaginar o que acontece dentro do móvel da cozinha onde as guardam), e que desde o dia das bruxas — seja lá o que isso for — até ao dia dos namorados — seja lá o que isso for —, passando em brancas nuvens o Carnaval — idem —, comemoram tudo, em tudo me fazendo lembrar aquele anúncio do aniversário do coelho da Joana,


por outro lado, tenho vizinhos que me odeiam. Mas, quando digo odeiam, é mesmo o verbo levado ao pé da letra, é aquele sentimento tão próximo do amor quanto pode sê-lo, ao ponto de haver a preocupação de manifestá-lo, de fazer tudo para que o outro (eu) dê por isso, de se fazer notar. (Só falta fazer flick-flack encarpado à retaguarda com triplo mortal quando me vê.) Penso mesmo que o homem — trata-se de um homem (do mais feio e desinteressante e mal cheiroso que existe — o que já deu para sentir no confinadinho espaço do elevador, das poucas vezes que lá coincidimos —, mas diz que o coração lá tem razões que a razão desconhece), tudo faz para que eu perceba o quanto me detesta. Mas isto há anos. Há muitos anos. Mais de vinte, são muitíssimos. Não sei lá que soberana ofensa fiz a sua majestade, que desde ter feito marcha-atrás a uma velocidade de corrida mais louca do mundo quando viu que eu ia a atravessar na.passadeira | com.uma.criança | ao.colo, até se dar ao trabalho de mandar os dois elevadores para o mais longe possível do rés-do-chão quando vê que eu vou a entrar no prédio (só possível se passar os dias à janela, a ver se me vê surgir. Cão), até bater com a porta quando coincidimos na entrada do prédio, ele há de tudo um pouco naquela rica panóplia de merdinhas ofensivas. A mim o assunto também já me anda a começar a moer, maneiras que tenho vindo a desistir de todo o refinamento e sofisticação que me são característicos. A última vez que nos encontrámos à saída do edifício, lá ia o sarnento à minha frente, olhou para trás quando ouviu (a senhora d) os meus passos, confirmou que era eu, saiu e largou a porta, porque lá na favela onde foi educado nem portas haveria, quanto mais a cortesia de segurá-las, e há que garantir que os parentes lhe continuem a chafurdar na lama, com consequentes quedas constantes. Dessa vez, fartinha destes números de circo, precipitei-me para a porta, qual super-heroína, e dei-lhe aquele encontrão estrondoso, antes que ela se fechasse delicadamente sozinha. Cansei de ser sexy boa.

Mas também tenho vizinhas assim,

É facto: trata-se de uma embalagem aberta. Não
fui a tempo de fotografá-la fechada antes de ser
acometida pelo irreprimível desejo de a esvaziar

que sabem que eu gosto de amendoins como o macaco gosta de banana, e cujo marido vai ao Brasil e lhe pedem que esconda na mala mais um pacote deles, cá para a primata. E, não contente, envergonhada por dar "só assim um pacote de amendoins", ainda me fazem uma bolsinha, com as próprias mãos, para os "transportar". 


E não sabe ela que eu tenho um blog. 
Em suma: 
1. Para quê parcerias, se tenho brindes desta qualidade emocional, nos quais acredito piamente, e até consumo?
2. A genuína blogger esconde-se onde e quando menos se espera;
3. Com amigas assim, não preciso de inimigos. 

21/02/2018

A temática da pipoca

ou

De como ser civilizadamente incivilizado

Em relação à pipoca, mesmo ninguém tendo perguntado qual é a minha sensibilidade, acordei hoje com uma imperiosa e irreprimível ânsia de explicá-la, para que não restem dúvidas. 
A pessoa é, como todo o Humano, condicionável, embora não chegue aos pés às patitas do canito de Pavlov. Derivados que vai ao cinema, ainda está metida na bichona para comprar bilhetes, e já as glândulas lhe gritam "Ó pchhht, ó! Não te esqueças da pipocada!". Tanto que, portanto, quando alcança a caixa de pagamento, já nem se lembra de qual o filme que pretende visionar, nem tão pouco o horário dele, mas sabe que quer um pacotinho, um pacote ou um pacotão das doces ou das salgadas.
(Não existe frase nenhuma na língua portuguesa que fique chique com a palavra "pacote" à mistura, daí que ainda meti ali à pressão o diminutivo e o aumentativo, a ver se disfarçava, mas nem sei se não piorei. Siga.)

O verdadeiro e real problema da coexistência pipocas/ sala de cinema começa desde logo: o próprio pacote (mau) está preparado para fazer de nós equilibristas, cujo desafio é flutuar sobre o soalho, entrar na estreita porta, subir a escadaria do anfiteatro, na penumbra (ou já às escuras, para os mais destemidos), acertar com uma fila de cadeiras cuja letra está (temporariamente?) invisível, passar por dois ou três cidadãos que já se encontravam sentados sem tropeçar em nenhum deles, e sentar-se no lugar certo, que tem o número — onde? onde? — nas costas das cadeiras da fila em frente (!), tudo isto sem deixar cair uma única pipoca. Para os mais arrojados, o nível acima é passar toda esta agrura sem-comer-nenhuma-pipoca-pelo-caminho. Isto, sob pena de, ao deixar cair uma delas, sermos sujeitos ao olhar da total rejeição do povo em geral. E nada de tentar apanhar essa que caiu, pois potenciareis a cascata de metade do pacote (errr) em direcção ao solo, que é o que acontece desde que aquele senhor descobriu que os corpos têm atracção para lá.

Caso estejamos num cinema NOS, e a seguir àquele spot que nos ordena que deixemos a sala limpa — numa altura em que o nosso calçado já contactou com uma cama de milho estalado, profundamente soldado às nossas solas, e que fará as delícias dos insectos quando dali sairmos —, prossegue então a saga da pessoa que se quer civilizada, porém gulosa (e, como já vimos, condicionada), que é a de morfar uma embalagem (agora fui linda) de pipocas inteira sem um único com o mínimo ruído possível. Então, truques: 
1. Esperar pelos momentos em que o som está mais elevado, designadamente o do tal anúncio da NOS, emitido, conforme sabeis, em níveis decibélicos para lá de bélicos. Esse é o momento perfeito para, exactamente, meter pazadas de pipocas boca adentro, todas em simultâneo, prevenindo, assim, todos os momentos posteriores, em que é menos provável que consigamos fazê-lo (assumindo desde já que não estou sozinha neste flagelo);
2. Aproveitar os momentos musicais, de estrondos, de exterior (motas, carros, aviões, comboios, vale tudo, mesmo até tirar olhos) e gritos, para roer ruidosamente mais umas quantas. Atenção aos momentos de choradeira na tela, que ficam muito mal se acompanhados do rrr-rrr-rrr típico do processo ruminante. Já se a choradeira se der na plateia, é fartar, vilanagem, até mesmo porque os homens fazem sempre o favor de se assoarem (ruidozíssimamente) nessas alturas;
3. Tirar proveito dos breves instantes em que o povo tosse, o povo se engasga, o povo gargalha, o povo faz ruídos indistintos. Tudo se aproveita para mais uma pipoquinha na goela;
4. Chupar as pipocas como se fossem rebuçadinhos duros, duros. Não dá jeito? É verdade, mas tem a vantagem de o processo de ingestão de cada uma delas se tornar tão moroso que: a) É uma poupança; b) É uma dieta;
5. Assumir o intervalo como o momento áureo para tirar a barriga de misérias.
Se todos os anteriores falharem, e a fome enegrecer a níveis catastróficos, é sermos criativos, e provocarmos, nós próprios, o momento musical, o estrondo, o grito, o ataque de tosse, a sufocação, a choradeira, o assoar estrepitoso. Nos entrementes, é ruminar mais umas quantas das ditas.

Julgo ser meu dever ainda chamar aqui a atenção para o flagelo que é o som do esgatanhar das unhas no fundo do pacote (ai), que chega a ser mais enfartante do miocárdio do que o mastigar do milhinho em pufes. Digo isto porque ainda me ando a tratar de uma vez em que coincidi ao lado de uma mulher que passou exactamente toda a sessão — eu repito, TODA a sessão — a raspar nos fundilhos lá do pacote (hohoho) dela, coisa para fazer inveja a qualquer gato enfiado na sua própria caixa de areia. Desconheço se a escavação lhe trouxe a descoberta de algum tesouro, mas a mim deixou-me a comprimidos para os meus nervos até hoje. O que fazer, na circunstância de o nosso pacote (tão doce) chegar ao fim e ainda lá termos umas quantas pipocas? Olhem, esperem por chegar a casa, a ver se poupam o resto dos mortais a essa condição, evitando, assim, que faleçam. Geralmente, o que fica para o fim são bolas de milho não estalado, que vos partem os dentes, e é muito bem feita se isso acontecer, caso persistam em esgaravatar nas profundezas da embalagem (☺).

Mais um pormenor, de somais importância: os pacotes (é a última, juro) de pipocas têm uma espécie de fundo falso, que se desmancha se tentardes fazer do paralelepípedo um cilindro. (Sei isto, porque já tentei, e correu extremamente mal.) Não dá para brincar às formas geométricas com aquilo enquanto cheio, sob pena de despejardes todo o conteúdo rumo aos vossos próprios pés. Solução? Andar sempre com uma pá e uma vassoura na mala. Eu, pessoalmente, não ando, mas o pincel do blush também dá.
Estou farta de escrever, desculpem lá a extensão desta prelecção.