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09/08/2021

Um membro da família

A primeira vez que a vi, apercebi-me de que algo se passava — ou não — com as patas de trás, misturadas numa confusão inerte com a cauda. Depois confirmei, quando a vi deslocar-se com a força das patas dianteiras, arrastando as traseiras e a cauda como se de um trio de serpentes mortas se tratasse. 

De resto, tudo normal: rosnando quando se sente ameaçada — vão lá entender-se os critérios dos gatos —, miando quando a intenção é comunicar com humanos. 

Conheci-lhe a dona uma destas manhãs, que se acercou, atenta à minha atenção, e me contou a história do pouco que sabe que aconteceu, num Português fluente cheio de sotaque do Leste da nossa Europa: foi à terra dela para ser sujeita a uma cirurgia, a gata desapareceu durante uns dias e o marido foi encontrá-la quase morta, provavelmente atropelada. O veterinário queria eutanasiar, ela não permitiu. Revelou-me, olhos e boca de cantos a resvalarem para mais uma de outras lágrimas que já terá deixado cair, a opção, que percebi muito criticada: "Fica sendo o meu bebezinho de colo". E, afinal, nem tem sido bem assim, o animal desloca-se à mesma velocidade a que o faria se tivesse as quatro patas vivas. A convivência com os outros dois gatos da casa — uma criança vivaça e viçosa e um macho sobranceiro e soberano — é pacífica, não tem consciência da sua diferença, eventualmente não guarda memória do acidente, anulou a limitação por instinto e necessidade. Com toda a certeza, não vive de um passado que já não volta, nem se angustia com um futuro menos promissor. (A racionalidade pode ser o maior entrave para a felicidade.) É amada, está cuidada, o pelo brilha de saúde e até de alegria. Disse-lhe, "Ela é tão bonita", e agradeceu como se lhe tivesse elogiado uma filha. "É um membro da família". (Se é, só quem nunca amou um animal é que não entende o que disse esta mulher.)

É verdade que, quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de animais. Não fui eu que inventei esta frase. Desta vez, também é verdade que, quanto mais conheço os animais, mais gosto das pessoas.




09/07/2020

Milu

Milu chegou às nossas vidas há quatro dias, e já no-las revolucionou de alto a baixo e de ponta a ponta. Na verdade, chegou no dia em que nasceu, pois da casa onde se deu o grande evento que foi a pequena coisa ver a luz, recebemos notícias e reportagem fotográfica com a frequência provável com que se processam todas as adopções felizes. Assim, veio da Figueira da Foz, sob um calor abrasador, e recebi-a com os meus enormes braços, que creio ainda terem crescido em comprimento naquele momento, tamanha é a pequenez da figurinha. Tem basicamente o comprimento de uma embalagem de champô. O nome já lhe foi posto algumas horas depois de se ter tornado residente cá do lar, mas até calhou bem começar por M, como são os de todas as fêmeas desta barraca, felídeas incluídas. (Lembro que, e por ordem cronológica, Mia - minha saudade querida -, Mel - ainda hoje dói de tanto que falta -, Molly, meu terror, minha boneca.) Ainda alvitrei Chica (Maria Francisca nas horas de mau comportamento), Benta (porque tem uma risca ao meio à Paulo Bento), Belém (por ter um olho à Belenenses), mas isto parece que é uma democracia musculada em que eu basicamente não mando nada, e Milu venceu, o que dá um jeito atroz para quando tiver que lhe ralhar, faço um nico de catarse e tudo, vai de Maria de Lurdes, que era o nome da minha professora primária, da qual, ao contrário de todos os (ex) meninos que conheço, que adoraram de paixão a sua primeira professora, o que também acontecia com os outros meninos da turma, eu sinceramente desgostava da senhora, que Deus tenha lá em descanso por muitos anos e bons, sem mim e sem os meus. Mas olhem, eu devia ser torta, ainda passei o primeiro período quase todo com cinco anos, a megera era uma anciã com voz tabaqueira e sinais pretos na cara, deve ter-me dado o medo (por na época ainda acreditar em bruxas, sei lá), ainda hoje me arrepio de me lembrar, mesmo agora, ao escrever estas linhas, toda eu sou fremências e tremeliques, o que é certo é que quando pulei para o liceu ela nunca mais me viu nem os dentes nem sequer a cor dos olhos nem nada. Fui, Marilu. (Ela também não gostava de mim, demasiado pequena, demasiado tímida, demasiado etérea lá para os vagares das dinâmicas do movimento da Escola Moderna.)
Mas pronto, venho hoje aqui apresentar Dona Milu, Maria de Lurdes nas horas de tropelia. 


29/04/2019

Só hoje, já fui

A personificação da preguiça — aquele animal que sabe viver, designadamente porque o faz de cabeça para baixo, o que me parece lógico e acertado —, ao acordar, isto é, ao aperceber-me que, desta vez, que era para aí a enésima da noite, era para me levantar da cama;
Mãe: fui mãe, hoje. Mas mãe a sério, quando a ouvi chamar-me, aflita, Mãe... É que me trata pelo meu nome. Não que ache desrespeitoso, eu também não chamava mãe à minha mãe. Era mamã, ou então um petit nom cá nosso. Não que me faça diferença, mas é que me soube bem ouvir assim Mãe..., apesar de saber que foi na aflição, e, por isso, aquilo me ter disparado o coração como um tiro. E então fui mãe, num pé me pus ao pé dela. Sou tão egoísta ou tão desvalida, que hoje tenho andado todo o dia a ouvir aquela música Mãe...
Transportadora e entregadora de bens alimentares: estou farta de ir ao supermercado. Por maior que seja a encomenda do mês, passadas duas semanas já não-há-nada-para-comer;
Cozinheira: das minhas mãos têm que sair coisas que se possam comer;
Costureira: continuo a fazer coisas com as mãos e a máquina de costura;
Senhoria: e chata, também. Um aborrecimento, rendas atrasadas;
Prima: consolei a prima pela morte da cadela dela. Percebo-lhe a dor, a minha Mel faria hoje oito anos e já não faz. Nem fez cinco, nem seis, nem sete, assim como não fará nove nem dez. E continua a doer;
Profissional na minha área: apercebi-me de que fiz merda e até lágrimas me chegaram aos olhos. Nem o cansaço, nem o "só não acontece a quem não faz" — tangas de justificação para a incompetência — explicam um errozinho que é como um grão de areia numa engrenagem. 

Até ao final do dia, ainda serei mais não sei quantas pessoas, resta saber em quantas delas eu serei eu.


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.




19/02/2017

Queria falar-te da minha tristeza pequenina sem te carregar com ela

Não quero que penses que sou uma pessoa triste, logo eu, que sou a pessoa mais alegre que conheço (e, se calhar por isso, a mais triste também. Preciso de equilibrar tanta euforia pela vida, tenho que justificar ao Mundo que gosto de aqui estar — quando gosto, porque gosto, e por que gosto, e que é muito —, que tenho tido uma sorte mal ou bendita, que parece nunca me querer largar, lagarto, lagarto), porque não sou. Mas tenho umas tristezas pequeninas, que são as que me dão mais alegrias, pois sem elas nem saberia ser feliz, assim desta forma, tão vasta e tão parva, tão plena e tão funda. Sei, por exemplo, neste momento, que se aloja uma tristeza minha num canto de uma sala, nem sei como, se aquele é o ponto mais bonito e mais iluminado de todo aquele espaço, mas é precisamente ali que ela me toma, e por isso já não vou para lá, cobarde ou desistente de lutas sem tréguas em que saio sempre vencida. Fosse eu a triste pessoa que não sou e quisesse ter uma inspiração bonita para escrever bonito, e era ali que iria recolher-me em criação literária. Também sei, por outro exemplo, que senti uma tristeza pequenina, fina e afiada, no momento em que ela me relatou uma história que envolvia um boneco bebé-chorão, mimado até ao desinteresse nos braços que me haviam de carregar a mim no colo, grande demais para eles que sou agora, mas que, por mais uma vez, esteve indisponível para me acolher, umas vezes demasiado pequeno, outras efectivamente distante. É por estas coisinhas assim, sem importância nenhuma, que às vezes choro da mágoa que foi a grande injustiça de ter perdido a minha gata. São tão pouco importantes as minhas tristezas pequeninas que qualquer dia não me lembro de nenhuma delas — ou terei outras, assim exactamente do mesmo tamanho, para me compensar da falta destas —, só que, se as somar todas juntinhas, parecem mesmo a soma das partes e dão um todo, que é uma tristeza que parece mesmo enorme. Mas não é.

24/01/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 13

Gravura da criação (inspiração) de uma das minhas crias,
em parceria com outra menina igualmente habilidosa (elaboração), e Gráfica

Deitada junto ao retrato das três gatas da casa, tapando com o corpo a imagem das outras duas. 

05/01/2017

Coisas tão óbvias...


A ver se consigo situar-me.
Recebi este sms na passada segunda-feira, dia 2 de Janeiro.
(Já não tinha percebido o teor do de 7 de Junho, mas admiti-o como genérico.)
A Mel nasceu no dia 29 de Abril de 2011.
Morreu no dia 5 de Dezembro de 2015.
Nunca foi ao veterinário no Vasco da Gama, a não ser naquele dia, sábado, em que apareceu morta, pelas 8:30 da manhã. Quando saímos de casa ainda não eram 9 horas, e o veterinário dela só abria às 10. Procurámos por um que estivesse aberto àquela hora de um sábado e que pudesse recebê-la. É aqui que aparece o Vasco da Gama. Foi onde fomos confirmar o óbito (dúvidas houvesse...) e depositá-la para necrópsia. (Outra gata em casa, umas flores de proveniência desconhecida, a idade dela, demasiado jovem, vários foram os motivos para querermos o exame.) Não esteve lá mais do que dois dias, pois foi recolhida pela Faculdade de Veterinária na segunda-feira seguinte.
Obviamente, tratou-se de um engano. Apareceu no computador um(a) Mel, que também pode ser um cão ou um papagaio, e vai de mandar para o telemóvel que estava mais próximo.
Obviamente, há pessoas pouco cuidadosas.
Obviamente, é parvo mandar um sms de parabéns a um gato/cão/papagaio/ouriço-cacheiro.
Obviamente, é parvo saber estas datas todas tão bem.
Obviamente, é parvo escrever este post.
Obviamente, isto foi tudo uma tristeza.



05/12/2016

ainda

Foi um grito que me atravessou o peito pelo inesperado e incompreensível e inaceitável. A tentativa desesperada de a fazer voltar à vida, o choro de uma menina agarrada a ela, ainda crente que só ela a faria acordar daquele sono de pedra fria. 
Ainda hoje, um ano volvido, espero vê-la entrar de mansinho, mansinha, e vir aninhar-se ao pé de mim enquanto trabalho. Ainda a sinto na barriga, quentinha, quando deitada. Ainda a espero à minha espera, quando entro em casa. 
Não tenho um anjo nela, porque creio cada vez menos naquele céu onde não entram os animais. Tenho dela a companhia das saudades que me deixou e a memória de uma criatura boa, encarnada numa gata.
E a falta que ainda me faz.

~



08/10/2016

Síndrome de abstinência

do café de todos os dias; do sol que se vai embora sem dizer adeus; dos cigarros que não fumo; do meu pai; de mãe; dos meus ausentes, que tardam em voltar desde o primeiro dia em que foram; dos meus presentes, no medo que se ausentem; da minha titi, que está em tudo o que me sai das mãos, quando sai bem feito; dos cheiros da minha infância; da minha Mel, que nem quando estou totalmente só se vem aninhar a mim; de mim mesma, quando não tinha o vício instalado, a corroer-me as entranhas de falta e falha e saudades.
[Devia ter a abstinência estampada no rosto, como qualquer dependente.]

03/10/2016

unhas

Pudesse eu resumir os dias numa só palavra, e a de hoje seria unhas.
Unhas curtas, como as minhas, que quero ver sempre tratadas — não porque mereça, mas porque preciso: de me agarrar, lá está, com unhas (e também dentes, dizem), a uma futilidade que me proteja do encargo que não sei cumprir, de ser sempre inteligente, racional, organizada e previsível. Tomem-me como frívola, por favor, pois é essa a mensagem que querem passar estes dez fósforos incendiários que transporto nas pontas dos meus dedos.
Unhas que arranham, que magoam, deixando marcas, sangrando feridas, purgando raivas sem porquê.
Unhas que não consegui deixar bonitas, baixando os braços — as minhas unhas bonitas, cheias de vida —, minto: cheias de viço —, num desalento só, num cansaço de velhice precoce, baixando também as desarmas.
Unhas de um animal, que ataca sem porquê, rasgando à toa, castigando sem culpa, nem dó, nem piedade de nós.
Unhas de saudade, da mansidão de um animal meigo, que não está em lado nenhum quando me faz mais falta: sempre.


19/09/2016

Desnidificação

Fomos deixá-la na nova casa, longe demais para chegarmos lá num salto, perto o bastante para estarmos perto. A certeza da saída deu-se há dias, quando o computador mostrou os resultados, e deu «colocada». Saímos de armas e bagagens, que é como quem diz, pois que desarmados até aos dentes, que também é uma força de expressão. 
Loiça arrumada, cama feita, malas vazias, veio o momento do abraço, aquele que diz fim e princípio. Vá-se lá perceber como é que a minha mais pequenina é a maior, foi como agarrar no meu próprio corpo, beijos nas bochechas de bebé e porta-te bem. 
Vim sem uma lágrima, sem um suspiro, sem um ai Jesus.
Estou cada vez mais dura e mais seca.
Chegou a hora de jantar, instalou-se, e, com ela, uma sensação de desarrumação e vazio. 
As gatas, como boas gatas, soberanamente indiferentes: uma, prepara-se para entrar na terceira idade — não me chateiem —, a outra, não sai da primeira infância — cambada de chatos
Falta-me a Mel. Também. 
Lavei a gaiola dos passarinhos com o afinco e a dedicação de sempre. 
Devia soltá-los.

22/08/2016

A doce liberdade

De abrir a porta de casa e não sair uma gata disparada escada abaixo, escada acima.
De poder ter janelas abertas sem medo de que uma das bichas saia em voo picado.
De poder andar às arrecuas sem olhar, com a certeza de que não se vai pisar uma cauda e, como brinde, quem sabe, receber uma dentada. (Sim, também utilizo a marcha-atrás sem retrovisor.)
De deixar o fio do carregador ligado à ficha, sem ter a preocupação de que uma felina vai roer a ponta onde passa, precisamente, a corrente. (Sim, sou tão incivilizada quanto isto, e sim, pago balúrdios de luz.)
De deixar a casa às escuras quando se sai à noite, sem achar que as coitadinhas vão andar a marrar com as paredes.
De não ser relevante se faz sol ou se vai chover, porque não vai uma chanfrada desatar a subir às paredes.
De poder usar o secador do cabelo sem que surja um animal assustado com o barulho, porém doido para lutar contra o fio.
De deixar o ferro a arrefecer no chão, sem receio de que haja um focinho/bigodes queimados no minuto seguinte.
De meter a roupa na máquina e poder ir buscar uma peça esquecida, deixando a porta da máquina aberta.
De abrir armários e gavetas à vontade e mantê-los abertos pelo tempo que for preciso, sabendo que não vai aparecer do nada um bicho que se instala num canto e já não sai de lá até acabar a sesta, umas dez horas depois. 
De deixar a sanita com o tampo aberto, sem pensar que, três segundos depois, uma gata se enfia inteira lá dentro. (Sim, a minha casa possui sanita.)

O amargo que foi a primeira viagem sem a Mel, que viajava fora da gateira, à janela, a ver a paisagem, ou a dormir num colo. 
O amargo que ainda é ter toda esta doce liberdade.

19/07/2016

Quando está muito calor,

lembro-me da Mel, quando se deitava no chão da sala, entre portas, ou perto da entrada de casa, a aproveitar a fresquinha.
Às vezes, ainda me parece vê-la.
Faz-me falta todos os dias. Todos, sem falta.





05/06/2016

Ainda tenho arranhões

Veio outra gata cá para casa há quatro meses, mas os meus arranhões já contam seis. Neste momento, tenho um, extenso e profundo, no braço direito, e outro nas costas da mão direita. Parecem ferimentos de autodefesa, aqueles com que fica quem é atacado à faca, e pode ser que sejam. Ela não suporta ver-me fazer a cama, ou arrumar roupa. Detesta unhas encarnadas, e ataca-me as mãos e os braços. Cada arranhão que me desfere, crava-me a sangue na memória a falta da Mel, faz-me uma risca vermelha, a eito, em cujo rasgão se lê a palavra saudade. De alguma maneira, este animal adivinha-me a incapacidade para esquecer e arrumar o assunto do outro, vingando-se, com raiva e incompreensão, pelo afecto ainda incumprido, ainda inconstruído. 
Passaram seis meses, metade de um ano, e eu ainda tenho o coração todo arranhado.

03/04/2016

Podia levá-la para o concurso, mas não podia


Não fui eu que tirei esta fotografia, e isso impede-me: não iria concorrer com algo que não me pertence.
O concurso já está cheio de gatos, e isso impede-me também: não se trata de mais um, trata-se dela. 
Tenho mais duas gatas em casa, que bem podia fotografar, por serem ambas lindíssimas, mas isso também me impede: uma delas, só veio por já não a ter a ela. 
Todos os animais do concurso estão vivos, e isso também me impede: sem outra explicação — que ainda não ma consigo dar —, é o factor mais doloroso de todos os impedimentos que me surgem, logo à cabeça.
Mas a falta que ela me faz, o desgosto que me aperta há quatro meses, essa sim, é a maior razão que me impede de a levar para outro lado que não seja o do meu coração. 

[a propósito disto. Desculpa, Fli. Desta vez, salto.]

23/03/2016

Enquanto o mundo deambula como um louco, eu falo com os animais

E o meu coração dispara por nada. Não sei como é possível continuar vivo, se recebe os disparos que dispara, em ricochete, mesmo em cheio. Este constante sobressalto não pode fazer-lhe nada bem.
Cheguei a casa e não vi ninguém. Procurei pelas gatas.
(Também vou, muitas vezes, verificar se os passarinhos estão vivos. Obrigo-os a sair do fundo da gaiola, para os ver no poleiro, só para me certificar. Até parece que não sei que, se um deles resolver morrer, até o bebedouro lhe serve de último poiso. Mas fico mais descansada quando, assustados com o meu Ei, passarinhos!, em voz de comando militar — ou de mãe em pânico, que é quase igual —, aparecem, em alvoroço.)
A gata pequena, dormia. A grande, estava deitada em cima da manta dela, mesmo ao lado do aquecimento. Quieta, e de olhos abertos, parados. Fiquei, também eu, diante dela, quieta, e de olhos abertos, perscrutantes.
Olá, Mia.
E ela, nada. Os olhos, sobretudo os olhos, abertos, sem movimento.
(A Mel estava assim, quando a encontrámos, naquela manhã de sábado — deitada, parecia dormir, os olhos abertos, parados, a íris que fora dourada, transfeita negra.)
Estás bem, Mia?
(Será que eu espero que os animais me respondam? Estou bem, deixa-me em paz, ansiosa.)
(É proibido falar com os animais *)
Mia, estás bem?
E a bicha quieta. E muda. E surda.
Mia...
Perdida toda a coragem para verificar se o corpo estava arrefecido — aquela temperatura da Mel... — corri a casa e encontrei o rapaz.
- A Mia...
- O que é que tem?
- Está deitada e muito quieta. E tem os olhos abertos. E eu falei com ela, e ela não me respondeu. E...
O espelho diante de mim mostrava-me toda medo, os lábios descorados.
A gata envelhece todos os dias, assim como eu. Os períodos de descanso dela, a pouco e pouco, prolongam-se e acentuam-se, ao contrário dos meus.

~


* É proibido falar com os animais
(Conto de José Eduardo Agualusa)

João Abel dormia num banco do jardim. Acordava de manhã, muito cedo, e percorria a cidade inteira à procura de emprego. Regressava à noite, cansado, deitava-se no banco e adormecia. No meio do jardim havia uma jaula com macacos e rolinhas. Todas as manhãs João Abel parava em frente à jaula e via a placa. Estava presa em cima da porta e dizia: “É proibido conversar com os animais”.
O rapaz achava aquilo muito estranho. Os animais falam? Não, não falam. Os cães ladram, as vacas mugem, os gatos miam, os passarinhos trinam, gorjeiam, piam ou cantam; as abelhas zumbem, os grilos trilam, os lobos uivam, as rãs coaxam, os porcos grunhem, os cavalos relincham, as hienas gargalham, os leões rugem, os burros zurram, as baleias bufam, as cabras balem e os elefantes (aposto que não sabem) os elefantes bramam. Já os macacos, assobiam. E as rolas? As rolas arrulham. Falar, articular palavras, ordenar as palavras numa frase que tenha sentido, isso nem os papagaios conseguem fazer. Só os Homens.
“É proibido conversar com os animais”. João Abel achava aquilo tão estúpido quanto colocar um aviso no meio do jardim: “É proibido conversar com as magnólias”. Ou com as pedras, as nuvens, as paredes.
Por outro lado, supondo que os bichos na jaula realmente falassem, por que diabo não podiam as pessoas conversar com eles?
Se aquela placa não estivesse ali nunca lhe ocorreria a possibilidade de conversar com os animais. Assim, de todas as vezes que lia a estranha advertência João Abel ficava com vontade de se dirigir às rolas e aos macaquinhos. Porém tinha medo que alguém o visse. Além disso não sabia muito bem o que dizer. Não se lembrava de nenhum assunto que pudesse interessar ao mesmo tempo a rapazes, rolas e macacos.
Uma manhã acordou decidido a esclarecer aquele assunto. A única forma de saber se os animais falavam era falando com eles. Um belo sol de verão levantava-se sobre o jardim. O rapaz encheu-se de coragem:
- Vocês falam? – Perguntou. – Vocês podem falar?!
As rolas ignoraram a pergunta. Continuaram aos pulinhos, de poleiro em poleiro, ou esvoaçando através da jaula. João Abel teve a impressão de que uma delas dissera qualquer coisa – “estou rouca, estou rouca” -, mas não parecia ser com ele. Os macacos, esses, permaneceram estendidos ao sol, preguiçosamente, fazendo cafuné na cabeça uns dos outros.
João Abel repetiu a pergunta, mais alto, e nesse momento sentiu que alguém lhe agarrava os ombros.
- Não sabe ler?
O rapaz voltou-se, assustado, e viu à sua frente um velho de longos cabelos brancos. Antes que tivesse tempo para dizer alguma coisa o velho continuou:
- Eu escrevi esse letreiro.
Não estava zangado. Pelo contrário, parecia feliz.
- A maior parte das pessoas aceita qualquer coisa sem fazer perguntas – explicou o velho.
– Eu queria encontrar alguém que não tivesse medo de contrariar regras estúpidas. Alguém inteligente e curioso, porque a curiosidade é que faz mover o mundo.
O velho não tinha filhos. Era muito rico e não sabia a quem deixar a sua fortuna.
- Não quer trabalhar comigo?
Tudo o que João Abel queria era trabalhar. Aquele encontro mudou a sua vida. Aos domingos, porém, costuma ainda passear pelo jardim. A placa continua presa à gaiola. As pessoas lêem o aviso, encolhem os ombros, algumas riem-se, mas poucas se atrevem a contrariar a proibição. Mesmo que as rolas falem elas nunca irão saber.

06/03/2016

Diário de um domingo que podia ser de sol

Aquilo do Não há sábado sem sol nem domingo sem futebol
O jogo já foi — golo comemorado com emoção estupidamente contida por me encontrar em público —, e o sol anda a jogar às escondidas. Ou à cabra cega. Ainda cai por um precipício, como se dizia quando eu era miúda (e nós acreditávamos que Lisboa tinha precipícios em cada curva).
Com quatro fêmeas de cabelo comprido e duas de pêlo que lhes cobre o corpo todo, sendo que a que vagamente aspira (mais a ser princesa do que com o aspirador propriamente dito) a faltar há uma semana, encontro nos precipícios da minha casa, digo, a cada curva, um novelinho de cabelos com pêlo de gato. Este é um fenómeno que acontece mais quando o tempo está seco e frio, e agora parece que se juntaram os oito factores: se fizer uma bola com todos os molhinhos que já apanhei do chão, consigo extrair de lá uma peruca de cabelo natural, em três tons de castanho e um vermelho, ou então o equivalente a um gato novo, mesclado de preto, branco e bege. 
A gata mais nova tem uma hora da cabra, que vai das 7 às 10 da manhã, rigorosamente. Ataca-me os braços com tal fúria, que hoje até lhe ouvi os dentes a rasgarem-me a pele. Parecia um x-acto a rasgar um naco de carneiro, para fazer umas botas carneiras. O que lhe vale a ela é que tem os olhos azuis, senão já a tinha metido à estrada e fosse lá morder a pata que a pôs. 
(E depois teria que ir atrás dos olhos azuis dela até ao inferno, é melhor estar quieta, sofrer e abster-me, sustine et abstine, lá diziam os outros.)
De qualquer maneira, ela irrita-se mais comigo nos dias em que a Mel me faz mais falta. E eu com ela.
Vou para o ginásio, onde não há gatos, e onde o mundo seria absolutamente perfeito, se não fosse a existência do senhor da mercearia, que ainda ontem esteve para levar com uma toalha não encharcada em suor na testa, tamanho foi o descaramento com que parou de fingir que treinava, para ficar numa contemplação, no mínimo confrangedora, enquanto eu dava forte e feio na abdutora. 


05/03/2016

Não consigo acabar este dia

sem me lembrar, mais uma vez, pela enésima, que hoje também faz três meses que morreu a minha gata.
E hoje ela fez-me, mais uma vez, pela enésima, uma falta imensa, irremediável.